Coração de loba

44 Minha familia...



Assim que atravessei a porta, eu soube que não teria tempo para qualquer tipo de preparação.

Charlie estava na sala, andando de um lado para o outro, com o telefone ainda na mão, o semblante carregado de tensão. No instante em que me viu, ele parou abruptamente, como se o próprio corpo tivesse demorado a processar que eu estava realmente ali, inteira, sem um arranhão sequer.

Por um segundo, ninguém disse nada.

Então ele veio até mim.

— Onde você estava? — a voz dele saiu mais alta do que o normal, carregada de um descontrole que eu raramente via. — Você tem alguma noção do que eu passei nesses últimos dias?

Recuei meio passo, não por medo, mas pelo impacto daquela reação. Eu sabia que ele estaria preocupado, mas não tinha imaginado o tamanho daquilo. Os olhos dele estavam vermelhos, a expressão cansada, como se ele não tivesse dormido desde que eu desapareci.

— Eu estou bem — respondi, tentando manter a calma. — Era só isso que importava.

Ele soltou uma risada seca, sem humor algum, passando a mão pelo rosto de forma brusca.

— Não, não era só isso que importava. Você desaparece por três dias, sem dar notícia, e eu tenho metade da polícia procurando você, enquanto todos acreditam que você foi levada por… — ele parou, como se não quisesse terminar a frase, respirando fundo antes de continuar — e você aparece assim, dizendo que está bem?

Hesitei por um instante, mas sabia que esconder não faria sentido.

— Eu estava com Jacob.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

Charlie fechou os olhos por um segundo, como se estivesse tentando conter a própria reação. Quando voltou a me encarar, havia algo diferente ali. Não era apenas irritação… era um misto de resignação e tentativa de controle.

— Claro que estava — murmurou ele, mais baixo, balançando a cabeça. — Eu deveria ter imaginado.

Cruzei os braços, sustentando o olhar dele.

— Eu não sou mais uma criança, Charlie. Eu precisava de um tempo.

Ele me observou por alguns segundos, e eu percebi claramente o conflito interno dele. Parte dele queria continuar discutindo, impor limites, questionar cada escolha minha. Mas outra parte… parecia simplesmente cansada demais para aquilo.

— Eu não gosto disso — disse ele, por fim, em um tom mais contido. — Não gosto dessa relação com o Jacob, não gosto do jeito que tudo isso está acontecendo… mas neste momento, eu só quero saber que você está viva.

As palavras vieram mais suaves do que eu esperava, e, pela primeira vez desde que entrei ali, senti que ele não estava tentando me confrontar, mas apenas… encontrar um ponto de paz.

Assenti levemente.

— Eu estou.

Charlie respirou fundo, como se estivesse tomando uma decisão.

— Eu preciso avisar as viaturas — disse ele, já se virando para sair. — Tem gente procurando você em vários lugares. Isso precisa parar agora.

Antes de sair, ele ainda hesitou por um segundo, olhando para mim, como se quisesse dizer algo a mais, mas desistiu. Em seguida, atravessou a porta, me deixando ali, no silêncio que ficou para trás.

E não demorou para eu perceber que não estava sozinha.

Bella estava encostada próxima à janela, observando tudo em silêncio. O olhar dela era diferente, mais intenso, como se carregasse perguntas que ainda não tinham sido feitas.

— Então você está bem — disse ela, finalmente, cruzando os braços.

Revirei os olhos levemente, ainda tentando aliviar a tensão do momento anterior.

— Sim, estou. Você pode respirar agora.

Ela não sorriu.

Ao contrário, deu alguns passos na minha direção, o olhar firme.

— E se não estivesse? — perguntou, de forma direta. — Se você tivesse voltado e me encontrado morta por causa da Victoria? O que você faria, Renesmee?

Soltei um suspiro, sentindo uma leve irritação surgir.

— Bella, por favor… — balancei a cabeça — para de drama.

Ela franziu o cenho, claramente incomodada com minha resposta.

— Eu estou falando sério.

— E eu também — rebati, encarando-a. — Você está viva. Os Cullen sabem se proteger, você não está sozinha e, sinceramente, esse tipo de pergunta não muda nada agora.

O silêncio que se instalou entre nós foi carregado, mas eu não recuei. Já estava cansada de viver presa a possibilidades que ainda nem tinham acontecido.

Passei a mão pelos cabelos, soltando um suspiro mais longo.

— Eu preciso ir — disse, mudando o tom, mais prática. — Tenho algumas coisas para resolver antes de voltar para Seattle.

Bella me observou com mais atenção dessa vez, como se estivesse tentando entender algo além das palavras.

— E quando pretende voltar? — perguntou ela, com um leve estreitar de olhos.

Sustentei o olhar dela, sem hesitar.

— Se nós sobrevivermos… em alguns dias.

As palavras saíram mais diretas do que eu pretendia, mas eram a verdade.


O silêncio entre mim e Bella não se sustentou por muito tempo.

Ela continuava me observando com aquela expressão analítica, como se estivesse tentando montar um quebra-cabeça com peças que eu ainda não tinha entregue. Eu sabia exatamente o que viria a seguir, e, sinceramente, não estava com a menor paciência para rodeios naquele momento.

— E o Jacob? — ela perguntou, cruzando os braços com naturalidade. — Como fica essa relação de vocês agora?

Soltei um suspiro lento, inclinando levemente a cabeça.

— Você está interessada demais nisso — respondi, estreitando os olhos.

Bella não se abalou.

— Eu só estou tentando manter uma conversa — disse ela, com um tom quase neutro, o que, vindo dela, já era suspeito.

Balancei a cabeça, levando a mão aos cabelos enquanto tentava decidir se valia a pena evitar ou simplesmente falar de uma vez. No fim, eu já sabia que esconder não faria sentido, não naquele ponto.

— Eu e o Jacob vamos nos casar.

As palavras saíram diretas, sem espaço para interpretação.

E, no exato segundo seguinte, eu percebi o erro.

— Eu ouvi direito ou já posso chamar reforço psicológico? — a voz de Charlie surgiu atrás de mim.

Fechei os olhos por um instante antes de me virar lentamente.

Ele estava parado na porta, com o telefone ainda na mão, me encarando como se eu tivesse acabado de anunciar o fim do mundo. A expressão dele transitava entre choque, incredulidade e uma irritação crescente que eu reconhecia muito bem.

— Charlie… — comecei, tentando manter a calma — não é bem assim…

— Não é bem assim? — ele repetiu, dando dois passos à frente. — Você acabou de dizer que vai se casar com o garoto que abandonou a sua irmã no altar!

Bella levantou uma sobrancelha, claramente ofendida.

— Eu ainda estou aqui, sabia?

— Eu sei! — respondeu Charlie, apontando para ela. — E isso só piora a situação!

Respirei fundo, tentando não rir, porque, sinceramente, a forma como ele estava reagindo beirava o absurdo.

— Nós estamos juntos — expliquei, tentando trazer a conversa de volta ao eixo. — E foi uma decisão nossa.

Charlie passou a mão pelo rosto, como se estivesse tentando reiniciar o próprio cérebro.

— Você tem vinte e dois anos — murmurou ele, mais para si mesmo do que para mim. — Você tem vinte e dois anos… você faz faculdade… você tinha um plano de vida minimamente normal…

Ele parou, me encarou de novo e completou:

— E agora quer se casar com um cara que, repito, abandonou um casamento no meio da cerimônia!

Bella cruzou os braços.

— Não foi no meio. Ele pelo menos esperou eu chegar no altar.

— Isso não ajuda, Bella! — retrucou Charlie, visivelmente perdido.

Soltei um suspiro, tentando manter a paciência.

— Não foi uma decisão impulsiva — disse, com firmeza. — Nós sabemos o que estamos fazendo.

Charlie soltou uma risada seca, completamente desacreditado.

— Sabem? Vocês sabem? — ele levou a mão à testa. — Porque, sinceramente, isso aqui está parecendo um episódio muito ruim de algum programa de drama.

Ele começou a andar de um lado para o outro, claramente agitado.

— Primeiro você some por três dias. Três dias, Renesmee! Eu mobilizo a polícia inteira, quase peço helicóptero, tenho gente me ligando de todos os lados… aí você aparece dizendo que estava tranquila, na floresta, com o mesmo cara que já causou um desastre emocional nessa família!

Bella levantou a mão.

— Ei.

— Não estou mentindo! — rebateu Charlie.

Eu já estava abrindo a boca para responder quando ele parou de repente, me encarando de um jeito diferente.

Um silêncio estranho caiu.

E então ele falou:

— Você está grávida?

Pisquei, completamente pega de surpresa.

— O quê?

— Porque essa é a única explicação lógica! — continuou ele, agora gesticulando com as duas mãos. — Você some com ele, volta falando de casamento… eu já vi esse roteiro antes!

— Charlie! — exclamei, indignada. — Eu não estou grávida!

Ele me encarou por alguns segundos, analisando, como se estivesse avaliando se acreditava ou não.

— Tem certeza? — insistiu. — Absoluta? Porque se você estiver, eu preciso me sentar…

— Eu não estou grávida!

Ele soltou o ar de uma vez, levando a mão ao peito.

— Ótimo… ótimo… — murmurou, dando um passo para trás. — Menos pior… ainda é ruim, mas… menos pior…

De repente, ele parou, ficou imóvel por um segundo… e levou a mão à testa.

— Eu acho que minha pressão caiu.

— Charlie? — chamei, dando um passo à frente.

— Não, está tudo bem… — respondeu ele, mas já se apoiando na parede. — Só preciso… de um minuto… ou dois… ou talvez de uma vida inteira pra processar isso.

Bella suspirou, balançando a cabeça.

— Eu avisei que essa conversa ia terminar mal.

Observei os dois, tentando decidir se ficava preocupada ou se ria da situação. No fim, acabei fazendo as duas coisas ao mesmo tempo.

Porque, no meio de todo aquele caos…

Aquilo ainda era a minha família.