Coração de loba
8 Coisas que não se dizem
Narrado por Renesmee
O som das risadas e da música vinda do quintal era abafado, como se o vento tivesse piedade e não deixasse o barulho atravessar as paredes da casa. Todos pareciam animados — vestidos leves, pratos cheios, copos passando de mão em mão. Era um dia ensolarado, raro para La Push, e o motivo era uma "celebração do amor", como disseram.
O noivado de Emily e Sam.
As pessoas estavam sorrindo... mas alguém não estava.
E eu notei isso logo que entrei na cozinha em busca de água.
Leah.
Encostada no balcão, de braços cruzados, como se sua própria pele estivesse tentando conter o que ela sentia. O olhar fixo em algum ponto da parede, os lábios apertados. Ninguém parecia ver — ou talvez só preferissem não ver.
Me aproximei devagar, com passos leves, até parar ao lado dela.
— Tá quente lá fora — comentei, pegando um copo.
Ela não respondeu. Apenas assentiu, sem tirar os olhos de onde quer que estivessem presos.
Ficamos em silêncio por um tempo.
Não era incômodo. Era respeitoso. Como se eu estivesse esperando ela me deixar entrar.
E então, baixinho, eu disse:
— Você não precisa ir, sabe?
Lá fora. Fingir que tá tudo bem. Não por eles.
Leah me olhou, surpresa. Não exatamente brava — mais como se tivesse sido pega fazendo algo que jurava estar escondendo bem.
— Eu tô bem — disse, mas sua voz falhou na última palavra.
— Você não tá — respondi, com suavidade. — E tudo bem não estar.
Ela riu, amarga.
— É ridículo, né? Ele terminou comigo há mais de um ano. E agora vai se casar com a minha prima. E eu ainda fico... assim.
— Não é ridículo.
Você amava ele. Ainda ama, talvez.
— Respirei fundo. — E é impossível ver alguém que você amou… tratar outra pessoa como você sonhou ser tratada.
Leah mordeu o lábio. Os olhos encheram, mas ela piscou rápido.
— Ele dizia que me amava. Dizia que a gente ia construir algo junto.
E um dia, puff.
Foi embora e nunca mais olhou de volta.
Como se eu nunca tivesse existido pra ele.
Eu não sabia tudo. Mas sabia o bastante.
E mesmo não sendo da reserva, mesmo sendo só “a sobrinha nova do Harry”, eu entendia aquela dor.
— Você merece mais que isso, Leah.
Alguém que fique. Que olhe pra você como se fosse o único futuro possível.
Ela respirou fundo.
Pela primeira vez em dias, seus ombros relaxaram um pouco.
— Obrigada, Nessie. De verdade.
— Ela fez um pequeno sorriso. — Você é boa em ver além do que as pessoas mostram.
— Talvez porque eu também tente esconder muita coisa.
Ficamos ali por mais alguns segundos.
Duas garotas tentando se manter inteiras dentro de uma casa cheia de vozes alegres.
— Vamos sair pelos fundos? — sugeri. — Evitar o circo por enquanto.
Ela assentiu. E, naquele momento, eu soube:
tinha conquistado a confiança de Leah Clearwater.
E isso valia mais do que qualquer convite para um noivado.
Narrado por Jacob Black
Tentei me distrair com Quil e Embry, como sempre fazia.
Embry contava alguma história absurda sobre um desafio de comida que ele jurava ter vencido, e Quil, claro, exagerava ainda mais. As risadas vinham fáceis — até o momento em que meus olhos a encontraram no meio da multidão.
Renesmee.
Caminhando devagar entre os convidados, os cabelos soltos, uma saia leve que balançava com o vento da praia. Os olhos curiosos explorando rostos que ainda eram estranhos pra ela.
Até que encontraram os meus.
Por um segundo, tudo pareceu… baixar o volume.
As vozes, as risadas, a música.
Era só aquele olhar, firme e tímido ao mesmo tempo.
— A Terra chamou o Jacob — brincou Quil, estalando os dedos perto do meu rosto.
— Cala a boca — respondi, rindo de canto. Me levantei.
— Vai onde? — Embry perguntou.
— Dar uma volta. Esticar as pernas.
— E sem olhar pra trás, fui até ela.
Ela estava perto da mesa de bebidas, olhando um copo de suco como se fosse um mistério.
— Ei, Seattle Star — chamei.
Ela virou-se para mim, sorrindo.
— Jacob Black.
— Tá perdida no meio da tribo?
— Um pouco — admitiu. — Ainda não conheço muita gente. E parece que todo mundo aqui já tem uma história, uma conexão…
— É... isso aqui é um formigueiro de memórias.
— Olhei ao redor. — Quer sair um pouco? Dar uma volta?
Ela pensou por meio segundo antes de sorrir de novo.
— Claro. Seria bom ver algo além de sorrisos falsos e tortas suspeitas.
— Então vem. Conheço um lugar bom pra andar descalça.
Atravessamos o gramado pelos fundos da casa de Emily, e em poucos minutos descíamos pela trilha de terra até a praia. O vento já estava mais forte, e o céu começava a ganhar tons dourados.
Ela tirou as sandálias e enfiou os pés na areia fria, suspirando.
— Isso sim… é liberdade.
— É meu lugar favorito no mundo — confessei. — Aqui tudo parece fazer sentido.
Ou pelo menos, parar de doer por um tempo.
Ela me olhou de lado, curiosa.
— Algo dói em você?
Sorri, mas não respondi.
Porque... sim, algumas coisas doíam.
Mas ali, com ela, andando lado a lado com as ondas beijando nossos pés…
Doía menos.
— E você, Nessie?
— perguntei. — O que te traz paz?
Ela parou por um instante, olhando o mar.
— Acho que ainda tô tentando descobrir.
Mas agora… acho que tô mais perto.
E o jeito que ela disse isso — tão sincero, tão sem máscaras — me fez desejar, por um segundo, que o tempo parasse ali.
Só nós dois.
Sem passado. Sem promessas.
Só o agora.
Narrado por Renesmee
O céu parecia derreter em tons de laranja, dourado e rosa, como se alguém tivesse derramado um balde de aquarela sobre o oceano. A brisa vinha com cheiro de sal e liberdade, e eu sentia meus pulmões respirarem fundo como se fossem meus pela primeira vez em muito tempo.
Jacob me levou até uma pedra grande, coberta de musgo e história. Sentamos ali, lado a lado, sem pressa. Os joelhos quase se tocando. Os ombros trocando calor sem querer.
Por alguns minutos, ninguém disse nada.
E o silêncio… foi bom.
— Esse é o pôr do sol mais bonito que já vi — comentei, abraçando os joelhos.
— É o mesmo sol de Seattle, sabia?
— ele disse, com um sorriso discreto. — Mas aqui… ele se despede melhor.
Ri baixinho.
— Acho que nunca tive tempo pra reparar.
— E agora?
— Agora eu sinto que se eu piscar… posso perder.
Ele me olhou. Não com pressa, nem com intenção óbvia.
Apenas olhou.
Como se quisesse guardar aquele instante no fundo da memória.
— Você tá diferente — disse ele, depois de um tempo.
— Diferente como?
— Desde que chegou. Tá mais... leve. Menos perdida.
— Talvez seja culpa sua — provoquei. — Você tem esse jeito irritante de fazer as coisas parecerem menos ruins.
Ele riu.
— Não era a minha intenção. Só queria que você se sentisse menos sozinha.
— Funcionou.
Ficamos em silêncio de novo. As ondas quebravam lá embaixo, ritmadas, como batimentos de um coração que finalmente se acalma.
— Eu perdi a minha mãe — sussurrei. — Mas não só ela. Perdi a vida que eu conhecia. A casa, os cheiros, o barulho da chave dela abrindo a porta…
E eu achava que nunca mais ia me sentir segura.
Senti a mão dele encostar na minha.
Não foi invasivo. Foi quente. Real.
— E agora? — ele perguntou, baixo.
Virei o rosto para ele. Nossos olhos se encontraram.
E naquele segundo, não havia morte, nem passado, nem dor.
— Agora eu sinto que posso começar de novo — respondi.
A respiração dele era tranquila, mas os olhos… os olhos diziam tudo que ele ainda não sabia dizer.
E quando nossos rostos se aproximaram, não foi planejado.
Não foi calculado.
Foi só… inevitável.
Os lábios dele tocaram os meus com uma delicadeza que me desmontou inteira.
E eu correspondi.
Lento.
Suave.
Honesto.
Foi um beijo sem promessas, mas cheio de presença.
Como se dissesse: “eu tô aqui. Com você. Agora.”
E por um momento, o mundo se calou.
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