Coração de loba
19 A festa
Narrado por Renesmee
A primeira semana de aula passou num piscar de olhos. Ainda estava me acostumando com os corredores cheios, as aulas puxadas de cálculo e física, e a rotina acelerada de uma estudante de engenharia civil. Seattle era minha cidade natal, mas viver sozinha em meu próprio apartamento era uma experiência totalmente nova. Independência sempre foi um desejo meu… mas às vezes o silêncio da solidão pesava mais do que eu esperava.
Eu me olhei no espelho uma última vez antes de sair. Vestia um vestido preto curto, justo na medida, e botas de salto. Meu cabelo estava solto em ondas naturais. Peguei o celular da penteadeira e vi a mensagem de Riley:
“Já estou te esperando na frente do prédio. Riley."
Sorri sozinha e chamei Salem, que dormia enrolado no sofá. Me agachei para acariciar sua cabeça.
— Se comporte, viu. Prometo que não demoro — sussurrei, antes de sair.
Assim que pisei na calçada, vi o carro de Riley estacionado com o pisca ligado. Ele desceu, encostado na porta do motorista com aquele sorriso confiante que parecia fazer parte dele.
— Uau — ele disse, me olhando de cima a baixo. — Seattle nunca foi tão bem representada.
— Bobo — revirei os olhos, mas ri. — Você também não está nada mal.
Entramos no carro e seguimos em direção à boate onde aconteceria a festa dos calouros. A cidade ainda pulsava sob as luzes da sexta-feira, e eu tentava não demonstrar meu nervosismo. Não era de frequentar festas com estranhos, mas algo em Riley tornava tudo mais leve… familiar até.
Quando chegamos, o som já ecoava da entrada. Luzes dançavam pelas paredes e uma fila de estudantes se formava. Do lado de fora, vi Tony e Shawn rindo alto, segurando copos de plástico coloridos. Nayla estava com eles, mas, ao me ver, seu sorriso desapareceu por um instante.
— Achei que você tivesse esquecido da gente— disse ela a Riley, com a voz meio seca.
Ele apenas deu de ombros.
Tentei ignorar o mal humor dela— Oi Nayla .
— Oi Nessie — ela respondeu, forçando um sorriso.
Riley tocou suavemente minhas costas enquanto entrávamos na boate. O som da música aumentou, as luzes giravam e corpos se movimentavam por toda parte. Ele se inclinou e falou ao meu ouvido, por cima da batida:
— Vai ser divertido. Mas, se não gostar, a gente pode sair quando quiser.
Eu sorri, olhando ao redor.
— Acho que estou pronta pra viver tudo o que a faculdade tem a oferecer.
E com isso, mergulhamos na festa.
A batida da música pulsava dentro do meu peito enquanto as luzes da boate giravam em tons de roxo e azul. Riley se aproximou de mim na pista de dança com um sorriso que fazia parecer que o mundo lá fora havia sumido. Quando sua mão tocou minha cintura, senti um leve arrepio. Nós dançamos juntos por algumas músicas, cada vez mais próximos, sincronizados. O jeito como ele me olhava... era como se, naquele instante, só existisse eu.
— Você tá linda hoje — ele disse, encostando a boca perto do meu ouvido por conta do som alto.
— Obrigada — sorri, sentindo meu rosto esquentar.
Foi então que algo gelado atingiu meu ombro e escorreu pelas minhas costas. Dei um pequeno grito surpresa ao sentir a bebida encharcar meu vestido.
— Ai, meu Deus, desculpa! — disse Nayla, com a expressão mais falsa que eu já vi na vida, segurando um copo praticamente vazio. — Foi sem querer...
Riley imediatamente se virou para ela.
— Tá brincando comigo, Nayla? — sua voz saiu seca e irritada. — Você fez isso de propósito?
— Claro que não — ela retrucou, fingindo indignação.
Revirei os olhos, respirando fundo.
— Eu vou ao banheiro limpar isso — avisei, saindo da pista de dança tentando não me desequilibrar nos saltos.
Entrei no banheiro e fui direto pra frente do espelho. Peguei algumas toalhas de papel e comecei a secar o vestido, ainda tentando entender como aquilo tinha acontecido sem querer. O tecido ainda estava molhado quando a porta se abriu. Nayla entrou, parando atrás de mim.
— Você fez de propósito, não fez? — perguntei sem me virar.
Ela cruzou os braços, se apoiando na pia ao lado.
— Não sei por que tá tão ofendida. Eu só te dei um empurrãozinho pra enxergar a realidade.
Virei lentamente o rosto pra ela, confusa.
— Que realidade?
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Eu e o Riley temos uma coisa. Sempre tivemos. Ele só tá se divertindo com você. É assim que ele faz... Ele gosta de brincar com as novatas.
Engoli seco, tentando manter a calma.
— Bom saber que ele é tão previsível. Mas eu posso cuidar de mim.
— Pode? — ela sorriu com escárnio. — Vamos ver até quando. Aproveita a festa, princesa.
E saiu do banheiro como se nada tivesse acontecido. Fiquei ali por mais alguns segundos, respirando fundo, tentando ignorar o gosto amargo que crescia na minha garganta. Talvez Nayla estivesse blefando... ou talvez não.
Saí do banheiro decidida e ao passar pela porta vi Riley encostado próximo a entrada só banheiro feminino.
Passei por Riley determinada, o coração disparado, tentando me convencer de que era o certo a se fazer. Eu tinha prometido a mim mesma que nunca mais me colocaria em situações assim. Quando retornei a Seattle, deixei para trás tudo o que La Push havia me causado. Mas as feridas... bem, algumas ainda sangravam. Jacob ainda era uma sombra viva no meu peito.
A festa girava em torno de mim — luzes piscando, música alta, risos abafados pelo meu próprio silêncio interior. Caminhei entre os estudantes com os olhos fixos na porta, tentando ignorar o chamado insistente que ecoava em mim desde que Riley segurou minha mão naquela aula.
— Nessie, espera! — ouvi sua voz atrás de mim.
Parei. Não olhei de imediato. Respirei fundo, me preparando para ouvir algo que talvez me quebrasse de novo.
— Eu vi a Nayla sair do banheiro… o que ela te disse? — sua voz soava aflita.
Me virei devagar e encarei seus olhos castanhos que me observavam com uma mistura de preocupação e frustração.
— Não importa o que ela disse. — respondi. — O que importa é que eu não sou o tipo de garota pra você, Riley.
— Como assim? — ele perguntou, dando um passo à frente.
— Eu não sei jogar, não sei fingir que não sinto. E se isso for só uma brincadeira pra você… então eu prefiro sair agora, enquanto ainda consigo. — minha voz falhou por um instante, mas logo recuperei o controle. — Já me machuquei antes. Eu não quero repetir isso.
Me virei novamente e voltei a andar, ignorando a festa, os olhares, o som abafado da música eletrônica vibrando nas paredes.
Foi quando senti sua mão em meu braço. Gentil, firme.
— Me deixa ao menos te levar em casa. — ele pediu. — Não quero que você vá sozinha… não depois disso.
Hesitei. A dor antiga ainda pulsava dentro de mim, mas algo nos olhos dele… uma sinceridade calma, diferente do que eu esperava, me fez ceder.
Assenti em silêncio.
E caminhamos lado a lado para fora da festa, sob as luzes da noite de Seattle, onde fantasmas do passado e possibilidades do futuro pareciam se esbarrar em cada esquina.
O trajeto até meu apartamento foi envolto por um silêncio que parecia gritar dentro do carro. O rádio tocava baixinho alguma música instrumental e as luzes da cidade passavam pelo vidro como borrões de memórias que eu não queria reviver.
Riley não disse uma palavra. Nem eu. E isso, de certo modo, me confortava. Era como se ele soubesse que eu precisava de espaço, não de perguntas.
Quando o carro parou diante do meu prédio, ele desligou o motor e ficou quieto por alguns segundos, encarando o volante como se estivesse decidindo se deveria falar.
— Entre mim e a Nayla… — começou ele, ainda sem me olhar — …não existe e nunca existiu nada. Ela alimenta sentimentos, eu sei disso. Já tentei deixar claro de todas as formas possíveis que a vejo como uma irmã. Só isso.
Virei o rosto para ele, surpresa com o tom direto, quase vulnerável.
— Riley… eu não quero que a Nayla se machuque — confessei, minha voz baixa. — Ela gosta de você. E eu… eu não sei se consigo lidar com mais ninguém se decepcionando por minha causa.
Ele finalmente virou o rosto, me encarando com os olhos tão intensos que por um instante esqueci como se respira.
— Seja o que for que tenha acontecido com você, Nessie… — sua voz era suave, mas carregada de algo que eu não soube identificar de imediato — …você precisa entender que eu te vejo. Não como uma distração, não como uma dúvida. Desde o momento em que você esbarrou em mim naquele corredor… você não saiu da minha cabeça.
Engoli em seco. Meu coração martelava contra as costelas, e as palavras dele me atravessaram como uma brisa morna numa noite fria. Eu queria resistir. Queria lembrar de tudo o que já vivi. Mas naquele instante, a dor parecia distante. Tudo que havia era ele.
Riley se aproximou devagar. Uma mão tocou meu rosto com delicadeza, e quando seus lábios tocaram os meus, foi como se o mundo silenciasse ao redor.
Eu retribuí. Sem culpa. Sem medo.
Aquele beijo não era impulsivo. Era calmo, firme, cheio de sentimentos que ainda não tinham nome. Por um momento, deixei que o presente me envolvesse, mesmo que o passado ainda existisse dentro de mim.
Quando nos afastamos, ele manteve os olhos nos meus, como se estivesse esperando que eu fugisse.
Mas eu não fugi.
— Boa noite, Riley — sussurrei, abrindo a porta.
— Boa noite, Nessie — respondeu ele, com um meio sorriso que me aqueceu mais do que qualquer cobertor poderia.
Subi para o apartamento sentindo que, pela primeira vez em muito tempo, algo dentro de mim tinha se movido. Talvez fosse esperança. Talvez fosse perigo.
Ou talvez fosse só o coração tentando, de novo, encontrar um novo caminho.
Narrado por Jacob
O jantar estava animado. Risadas preenchiam o ar enquanto as taças tilintavam e os pratos se esvaziavam pouco a pouco. A ausência dos Clearwater foi notada, mas ninguém comentou sobre isso. Havia um clima de celebração no ar, e eu queria manter assim.
Bella estava linda. Havia algo nela que me deixava em paz… talvez porque, mesmo com o caos que sempre foi minha vida, ela tinha esse jeito calmo de me trazer pro chão.
Levantei-me e todos silenciaram. Peguei a caixinha do bolso do paletó e olhei direto pra ela. Bella me olhou de volta, os olhos brilhando. Ajoelhei.
— Bella… — respirei fundo — Todos sabem do que sinto por você e é por isso que hoje todos estão presentes para testemunhar o quw sentamos. Você casar comigo?
Ela sorriu emocionada, e assentiu rapidamente. Eu deslizei o anel no dedo dela e todos aplaudiram. Billy bateu na mesa, com aquele sorriso orgulhoso que fazia tempo que eu não via.
— Com dezenove anos e já vai ser marido e dono da própria empresa. — Ele ergueu o copo. — Esse é meu filho!
Charlie, como sempre, não deixou passar.
— Só espero que esse garoto aí esteja pensando no futuro. Ter uma empresa e uma esposa exige responsabilidade.
— Eu estou, Charlie. Em breve inauguro a Black Motors em Seattle. Vai ser o começo de algo grande.
Mais brindes. Mais abraços. Renée conversava animada com Bella, as duas rindo de algo que eu não consegui ouvir. Foi aí que percebi Sam se aproximando. Ele tocou meu ombro discretamente.
— A gente precisa conversar — disse ele num tom baixo.
Assenti. Saímos discretamente pela porta lateral da casa e seguimos até os fundos, onde a escuridão era cortada apenas pelas pequenas luzes do jardim. O som abafado das conversas e das risadas ainda podia ser ouvido à distância.
— Fala, Sam. O que aconteceu?
Ele olhou em volta antes de falar, como se temesse que alguém ouvisse.
— A sanguessuga ruiva voltou, Jake.
Franzi a testa.
— Quando?
— Alguns dos nossos viram sinais dela nos arredores da floresta, perto da divisa com os territórios.
Meu corpo enrijeceu na hora. Eu pensava que ela estivesse morta. Ou desaparecida pra sempre. Mas agora...
— Por que você tá me contando isso só agora?
— Porque eu só soube hoje de manhã. E achei melhor esperar o jantar, não queria estragar o clima... — Ele fez uma pausa, então murmurou — Mas se ela realmente voltou, Jake, tem coisa grande vindo por aí. Isso não é coincidência. Vampiros nunca retornam sem propósito.
— E os Cullen?
— Nenhum sinal deles.
Assenti, absorvendo a informação. Meu olhar se perdeu por um instante na escuridão entre as árvores. Foi quando ouvi um leve rangido atrás de nós.
Me virei devagar.
Bella.
Ela estava parada na porta de vidro, imóvel, a expressão entre surpresa e preocupação.
Ela ouviu tudo.
— Bella…
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