Coração de Porcelana
7 Capítulo 6 - Respostas Enfim
Capítulo 6
Os olhos de Vincent passaram pelo boneco até Claire. Nunca gostara de mexer com coisas – ou pessoas – amaldiçoadas, pois isto significava mexer com o bruxo que lançara o feitiço, o que na grande maioria das vezes nunca era uma boa ideia.
E de problemas já estava entalado até o pescoço.
– Olá. – Marc disse no momento em que o boneco olhou aos dois com clara confusão, e então olhou para Claire como se pedisse respostas.
–... Olá. – respondeu por fim, erguendo-se e sentando-se ao lado da garota. Vincent pendeu ligeiramente a cabeça para o lado, analisando-o, tentando ignorar o incômodo e a irritação entalados na garganta. Conseguia ver e sentir a magia que emanava dele, porém era óbvio que aquela magia não era como a de um bruxo. Estava impregnada nele com o rancor e os motivos que levaram quem quer que fosse a lançar aquela maldição no boneco, embora ele lhe parecesse estúpido demais para haver qualquer motivo realmente profundo...
Ouviu Marc dizendo mais alguma coisa, o genérico “Sou Marc l’Argent, pesquisador, blá-blá-blá” porque não pular tudo isso e simplesmente dizer que era um bruxo? Se estava tentando não assustar o cara, por favor, alguém que vira um boneco deve estar bem ciente de que magia existe, certo?
– E este aqui é Vincent “sem sobrenome”. Conhecido, pelo menos. – fez um esforço inumano para se manter inexpressivo e não revirar os olhos. Ele realmente iria entrar naquele assunto?
Dessa vez não conseguiu impedir o muxoxo. Sua perna latejava. Todos seus ferimentos doíam. Doíam muito. Sinceramente só não ficara em casa – mesmo que Jim fizesse questão de não deixar aquele lugar muito acolhedor para si — porque ficara preocupado com Claire, e agora Marc estava o pondo numa situação em que realmente não gostaria de estar.
Viu o boneco o analisando com uma expressão que nem deu atenção, mas imediatamente pôs-se na defensiva e o encarou com a mesma expressão, que foi sustentada. Bem, parecia ter ganhado a antipatia dele.
Como se importasse.
A garota ao lado do boneco olhou do loiro para Vincent, percebendo o que estava ocorrendo.
– Bem, se sente-se incomodado, pode dizer agora mesmo. – Marc continuou, ignorando completamente a hostilidade imediata dos rapazes. Reprimiu um suspiro irritado. Realmente, aquele assunto de novo?!
– Nem brincando. – cortou.
– Complexado com o próprio sobrenome?
Fora apenas um murmúrio, claramente para si mesmo, mas Vincent escutou.
E sabia que era besteira, mas ficou mais irritado.
– E se for?! – Viu os olhos castanhos de Claire o encarando de modo surpreso. – Você sequer disse seu nome também, então devo assumir que é complexado com o seu?
– Claro que...
– Qual é o nome dele? – Questionou à garota, que parecia perdida. Ao contrário de Marc, ela estava bem ciente da situação.
– Estou bem na sua frente!
–... Near Toy. – ela respondeu.
– Não é todo dia que se encontra alguém que se transforma num brinquedo e se chama “Toy”. – seu tom de voz era calmo. Perigosamente calmo. Era claro que sabia o que estava fazendo. Para alguém desavisado não passaria de uma constatação, porém...
– Crianças, acalmem seus hormônios, foco, foco! – Marc os interrompeu no momento em que Near abriu a boca para responder, impedindo-os de se estender. – Prince, o que deu em você para arranjar briga?!
Mau humor, dor, ser metido em algo que não estava com o mínimo de vontade e ficar envolvendo pessoas que não tem nada a ver com o assunto – isto incluindo Claire neste meio. Obviamente – eram bons motivos? Continuou encarando o boneco de maneira desafiadora, que foi altivamente sustentado por ele.
– Não estou arrumando briga.
– Não, imagine. – O boneco disse num tom jocoso, entredentes.
Sentiu sua cabeça latejar e involuntariamente a energia ao redor de si moveu-se para a primeira coisa que encontrou. Algo soou estrondosamente próximo a eles e Claire deu um pulo, assustada, sendo acompanhada pelo som de algo trincando, e os olhos de Vincent procuraram o que quer que ele havia atacado. Percebeu que fora o globo que Marc trouxera anteriormente, embora o outro som não parecia ter nada a ver com o objeto. Bateu em sua própria testa e disse:
– Me desculpe.
– Mon Dieu. – Marc disse, olhando para Near, atraindo o olhar de Vincent.
– O desculpe foi apenas para ela, boneco.
Claire olhou e só então percebeu o que ocorria. Havia um pedaço do globo. Bem no meio de sua teste. E ele estava trincado.
O boneco o pegou, e com uma expressão dolorosa, a puxou, fazendo com que a trinca aumentasse, passando por seu nariz, e chegando até um pouco acima da boca. Ele o examinou e disse:
– Claire, respire. Eu estou bem.
– Que pena. – Vincent disse, sem conseguir se conter.
– Vincent. – Marc chamou-o num tom repreensivo, fazendo com que parasse, virando-se para Near. – Isso é... Inesperado. Está doendo?
– Está, obrigado. – O boneco respondeu, cutucando levemente o trinco e fuzilou o outro com os olhos, sendo completamente ignorado. Um filete de sangue começou a escorrer por sua testa.
Olhou mais uma vez para Claire, e a viu com os grandes olhos cor de chocolate pregados na trinca no rosto do boneco, e parecia que a cada momento sua pele ia perdendo a cor, fazendo com que se sentisse preocupado e quase se arrependesse do que havia feito.
– Você está pálida.
– É... É que eu nunca vi alguém que...
– Que trinca. – o loiro bufou.
Marc suspirou, claramente querendo dizer algo, mas a discursão dos rapazes, mais o... “Trincamento” de Near estavam o impedindo.
– Esperava que você fosse como um humano em tudo quando estivesse ativado. – observou. – Vejamos se este ferimento se fecha ou... Se precisará ser restaurado.
Foi a vez do boneco dar um muxoxo, permitindo Vincent sentir sua aura assassina direcionada contra si. Novamente, como se importasse.
– Pois bem Near. – Marc finalmente começou a falar. – Eu sou um bruxo, assim como Vincent, embora tenha certeza de que já tenha percebido. – Olhou de modo repreensivo mais uma vez a Vincent. Sério que só agora ele estava dizendo que era um bruxo?! Sério mesmo?! – Eu trabalhava com o pai de Claire antes dele falecer.
Near encarou-o e então seu olhar mais uma vez seguiu para Claire, que manteve-se de cabeça baixa. Era óbvio que ele não sabia.
– Bem... Não se é necessário ser nenhum gênio para perceber o que aconteceu com você. É alguém amaldiçoado – “Nossa, é sério mesmo, Marc?!” Vincent ironizou mentalmente.
– Hm...
– Bem, perdoe-me a pergunta, mas quantos anos você tem.
–... Até onde me lembro, dezoito. – disse num tom amargo. – Não parei ainda para fazer as contas para ver quantos eu realmente tenho.
Oh, coitadinho. Estava morrendo de pena.
– Certo. Você sabe em que ano estava antes de isso acontecer?
– Sim, 1952.
Nossa, ele era velho. Mas o que Vincent podia reclamar? Poderia ter apenas dezessete anos, mas sabia muito bem que seus pais eram da Era Vitoriana, assim como sua irmã muito mais velha Juno...
Mas bem, eles estavam mortos.
E Marc era um exemplar ainda mais velho.
– Hm... Faz mais tempo do que esperava... – disse num tom pensativo. – Não me recordo de pessoas amaldiçoadas desta época, então provavelmente você foi amaldiçoado em segredo.
Novamente: “Sério Marc?! Não sabia que precisávamos fazer um formulário completo e público para amaldiçoar alguém!”. Os olhos verde água passearam no recinto e acabou encontrando os de Claire o encarando. Quando ela percebeu que ele a notara, desviou o olhar enquanto o rosto assumia um adorável tom de rosa.
Sua perna latejou, forçando-o a reprimir um grunhido. Um analgésico cairia bem.
– Mas ok, o caso não é você. Ou melhor dizendo, também é. Sabe quem o amaldiçoou?
“Levando a sua lógica em conta, Marc, é quase como se eu estivesse andando na rua, e ‘Ah, não fui com a cara daquele cara bem ali, acho que vou amaldiçoa-lo!” pensou desgostoso.
– Sim, ela estudava comigo.
– Certo, então qual é seu nome?
– Haydée Nièvre.
Vincent sentiu como se estivesse tomando um banho de água fria. Piscou, tentando se manter fora do transe que sua mente queria pô-lo, e olhou para Marc que parecia estar tendo uma reação semelhante. Não havia ninguém pior para se mexer?! Que tal fazê-lo entregar ovos de páscoa a dragões?!
Viu novamente Claire, que encarava a ambos tentando entender o porquê de suas reações. Certo, além de estar sendo envolvido naquilo, alguém que não havia nada haver com tudo aquilo também estava sendo. Marc iria realmente continuar com tudo aquilo?!
– De tantas pessoas.... Tem algo que ache que tenha sido significante antes de se encontrar neste estado? Quero dizer, importante para você, não necessariamente pondo Haydée no meio.
–... Bem... A formatura dos terceiros anos estavam próximas... – O velho drama do adolescente/quase adulto que teve sua juventude interrompida. Isso estava ficando tão clichê. – Um aluno foi acusado de assassinar a própria família e estava desaparecido...
– Hm... O caso Silverman?
–... É.
– Me recordo de estar acompanhando na época, mas pois bem, prossiga.
Viu o boneco encarando-o dos pés à cabeça, claramente tentando entender o “estava acompanhando” de Marc. Será que as engrenagens de seu cérebro também eram de porcelana e haviam se quebrado deixando-o irreversivelmente idiota?
– Eu havia iniciado um namoro há três semanas... – Vincent nem escutou o resto da frase, deteve-se naquilo. Nièvre, amaldiçoar alguém, um relacionamento iniciado recentemente... Nièvre...
Pegou seu pingente discretamente.
Ah... Não diga...
– Espere. – Marc disse, fazendo-o parar. – Você havia iniciado um relacionamento?
– Ahn, sim? – a resposta saíra mais como uma pergunta.
Marc estalou os dedos e olhou para Vincent, que já havia entendido tudo.
– Achamos.
– O quê? – Os dois perguntaram quase que em uníssono.
– Nièvre, a família de Haydée, tem uma espécie de maldição familiar. – Marc explicou. – Uma coisa pode fazê-los adquirir um ódio mortal de uma certa pessoa, caso ela dê motivos.
– E... O que é? – Near perguntou, já com uma expressão cautelosa. E teve de admitir que no lugar dele, não estaria diferente.
– Consideremos que talvez eu possa estar errado... Mas a família Nièvre é conhecida por só poder ter a capacidade de se apaixonar uma vez na vida. Se não é retribuído pode tornar-se em ódio mortal. Isso explicaria sua maldição.
Os dois encararam Marc ainda absorvendo a informação. E novamente não pôde culpa-los. Parecia um motivo... Estúpido à primeira vista, mas após ter presenciado uma crise de ciúmes de Desiré Nièvre quando mais novo... Sinceramente era uma situação que não gostaria de passar de novo. Mexer com os Nièvre também era de longe uma das piores ideias que alguém poderia ter.
Apertou um pouco mais seu pingente ao pensar naquilo.
– Ok, então tudo isto está acontecendo por causa de ciúmes?! – Claire questionou num tom incrédulo.
– Eu não acredito... – Near murmurou, pressionando as próprias têmporas.
– Ninguém mandou dispensar a garota.
– Esse é o problema, você não conheceu Haydée! Ela nunca disse absolutamente nada! Como você esperava que eu soubesse de alguma coisa?!
– Só porque ela nunca disse nada não significava que ela não estivesse apaixonada. – Vincent de maneira breve.
Pressionou de leve seus pulsos. Se eles houvessem sido cortados apenas um pouco mais profundamente talvez houvesse ocorrido um acidente quase irreversível. Se bem que morrer não seria... Por que estava pensando naquilo aquele momento?! Olhou para Claire, que parecia encará-lo novamente. Ela olhou para seus pulsos e então para ele novamente.
– Pra ele ter dito isso, ele deve estar na mesma situação. – disse, sobressaltando a Vincent.
– O quê?! – exclamou, e não conseguiu conter o calor que pareceu invadir seu rosto.
– Hm... Você ficou vermelho, então deve ser verdade. – Marc riu.
– Não era você que estava falando de foco ainda há pouco?
– Não é você que está mudando de assunto agora mesmo?
– Bom, ele tem até razão. – o boneco disse, com clara má vontade, em defesa de Vincent.
– Oh sim, então, onde eu estava?
Claire parecia prestes a bater em sua própria testa.
– Na parte de uma bruxa que só pode se apaixonar uma vez na vida e ela se apaixonou por Near.
– Ah é! Pois então, ela pode não ter sido muito específica, mas... Bom, isso não muda o que ela sentia... E provavelmente ainda sente. Quando eu disse que ela poderia sentir um ódio mortal, eu estou falando sério. Considere que ela pegou leve com você.
– Pegou leve?!
– Houve uma membro da família Nièvre que a história é bastante conhecida. – Vincent interveio. – O amor dela recusou-a e então casou-se com outra. Ela então passou a infernizar a vida dele e da família dele, e depois passou a matá-los de maneira lenta e dolorosa... Ela começou com o filho caçula até ir ao mais velho, então matou os parentes como pais, irmãos, tios, matou a esposa dele e então, enfim ele.
– E depois se matou. – Marc continuou com um suspiro. – Esse caso destruiu a reputação da família Nièvre... Aconteceu no começo de 1952. Janeiro, se me lembro bem.
– E como assim, se você se lembra? – Claire questionou.
– Sou mais velho do que aparento, não se engane.
– Muito mais velho. – Vincent corrigiu.
– Manteremos isso em segredo, por favor, não quero a minha vizinha atrás de mim perguntando o que faço para parecer tão novo.
–... Tudo bem. – Near disse, o bem parecendo mais uma pergunta que uma afirmação.
– Bom, então, você pode se considerar até sortudo, pois transformando você em boneco, Haydée não teria de matá-lo. Ou melhor, não iria.
– E eu não quero ter que depender de a Claire ficar me dando corda o resto da minha vida.
– E se depender de mim, você não vai passar o resto da vida comigo. Eu provavelmente teria coisas melhores a fazer que ficar lhe ativando. – o loiro a encarou. – Estou sendo realista! Faculdade, trabalho, e ainda acredito que talvez até lá eu não esteja tão encalhada então talvez eu forme uma família.
Tanto Vincent quanto o boneco a encararam com uma sobrancelha erguida. Encalhada? Considerava-a bonita e atraente de sua maneira, bem distante dos estereótipos populares dos últimos tempos que parecia procurar desesperadamente objetivar a mulher de um modo atraente para o público masculino que não queriam bater cabeça com um ser pensante e ela parecer “legal” ao mesmo tempo...
– Normalmente desfazer uma maldição é simples. – Marc continuou — Você tem que ir atrás do bruxo ou bruxa que o amaldiçoou e então tentar convencê-lo a acabar com sua maldição.
– Essa é a parte fácil. – Vincent ironizou.
– A parte difícil é que Haydée fez uma coisa, na verdade seis coisas: Chaves. Vocês já tinham uma, agora, tem duas.
– Aliás, onde você encontrou essa?
– México. Machu Pichu.
– Sério?!
– Sim, mas esse é o problema. Primeiro, para se desfazer, precisa de todas as chaves e ir atrás de Haydée.
– Nossa, que fácil. Near, use seu charme. – Claire murmurou num tom irônico, fazendo com que o loiro a encarasse de sobrancelha erguida novamente.
– Engraçadinha.
Os dedos de Vincent tamborilavam nervosamente no braço do sofá. Marc deu uma breve risada antes de, mais uma vez, retomar o assunto.
– A notícia boa é que eu já encontrei a terceira chave. A má é de que ela está ligeiramente... Distante... Daqui.
– Se não for no Japão, pra mim tá bom.
– O que tem de errado com o Japão? – a garota questionou.
– É longe.
– Não comecem vocês dois. A outra boa notícia é que a chave está na América, e eu já sei também mais ou menos o estado em que está. A outra má notícia é que... Bom, eu não sei a localização exata.
– Ah... Que... Ótimo. E em que parte da América ela está?
Marc estalou os dedos e o globo quebrado consertou-se e começou a flutuar em pleno ar, e então acendeu-se por dentro com uma luz amarelada, e com um estalo, percebeu que era um globo terrestre pelos desenhos ligeiramente mais escuros. Sentiu-se repentinamente estúpido com aquilo.
– Que... Legal. – Near disse. – E onde estaria?
– Aqui. – Marc pôs o dedo sobre um país. – Brasil.
– Hm... Minha amiga está lá, mas algo me diz que a chave não está onde ela está.
– Deixa adivinhar: Rio de Janeiro. – Vincent disse.
– Sim, como você sabe?
– Ora, meio mundo quando vai para o Brasil vai para o Rio de Janeiro. – respondeu com simplicidade.
– Você está certa, o estado onde a chave está não é no sudeste, mas sim num local que é recriminado até pelos próprios brasileiros. Não todos, mas muitos – Marc disse, subindo o dedo até o um estado no extremo norte do Brasil. – Aqui. Muitos acham que é somente um local cheio de mato, bichos e índios. Mas não é exatamente assim.
– Que estado é esse? – Near perguntou.
– Amapá, eu já fui para lá, aliás, minha afilhada é de lá.
– Afilhada?! – Vincent exclamou.
– Sim, e ela também é uma bruxa. – observou. – Ela mora na capital, Macapá. É lá também onde fica o aeroporto nacional. Se quiserem chegar até lá, tem que aportar primeiro em São Paulo ou Rio de Janeiro, então seguir num voo até Belém do Pará e então ir para Macapá – ele escorregou seu dedo ligeiramente maior exatamente abaixo do Amapá. – ou pegar um voo direto para lá, mas é mais cansativo. Ou não.
– Como assim “quiserem”? A minha mãe não é lá muito presente ou liga pra mim, mas se eu disser pra ela que eu vou viajar sozinha para fora do país ou com você, ela vai surtar!
– Bom, eu posso dar um jeito nisso. – Marc disse com um sorrisinho enigmático. Ah... Seu lado ilegal novamente. – Mas acho melhor vocês irem, porque também eu não vou fazer tudo sozinho. De novo. Sinceramente, não quero quase morrer. De novo.
– Quase morrer?! – os três acabaram falando em uníssono. Ao menos se preocupavam com uma coisa em comum.
– Fiquem calmos, eu quase morri, mas foi por causa de uma rocha que quase caiu em cima de mim.
– Estou com a ligeira impressão de que ele está mentindo... – o boneco disse.
– Eu também... – Vincent observou.
– Ora vamos crianças, não é tão ruim assim!
–... Tudo bem, mas tem outro probleminha... Marc, eu simplesmente não sei falar português. E essa criatura aqui do meu lado também não, com certeza!
– Essa criatura aqui tem um nome e é da mesma raça que você!
– Calma, eu também posso resolver isso. – Marc disse. – Claire, você tem passaporte, porque você costumava a viajar com Abner de vez em quando, não é mesmo?
– Bom, tenho sim. E acho que eu ainda posso usá-lo. Mas outra coisa: Eu sou de menor, então eu preciso da autorização de um responsável para viajar, e, de novo meu único responsável vivo é a minha mãe.
– Se bem que existe algo chamado falsificação de assinatura. – Vincent sugeriu.
– Mas ela não teria que...
– Contemplem o lado negro dele que quase nunca aparece. – Marc disse, recebendo um olhar fulminante em resposta. – Mentira. É algo constante. – recebeu outro olhar. — Mas se bem que ele tem razão... Acho que eu tenho alguma coisa assinada por sua mãe em algum lugar...
– Meu Deus, estamos lidando com foras da lei. – o boneco ironizou.
– É bem verdade.
– Near não precisa disso, ele pode ir na sua bolsa, não é?
– Infelizmente, é o que parece.
– Chihuahua. – Vincent disse.
Todos olharam-no questionando sua sanidade.
–... Hã? – Marc perguntou após algum tempo.
– Não são lá as mulheres ricas que andam com chihuahuas nas bolsas?
Claire começou a rir, enquanto o boneco o encarava com um misto de estranheza e irritação.
– Andam? – Near perguntou.
– Andam. – a garota disse ainda rindo. – Mas você não é fofo que nem eles. Quer dizer, os de pelo longo, porque os de pelo curto parecem uns ratos.
– Bom, Claire, você tem alguma coisa que foi assinada por sua mãe aí?
– Tenho uma autorização dela... – murmurou, mexendo na bolsa, tirando um papel. – Era para um excursão da escola que foi cancelada.
– Pode me dá-la?
– Você vai falsificar a assinatura dela? – perguntei.
– Sim, é bastante fácil com magia. – respondeu. – Assim como falsificar documentos.
Ela o entregou e Marc olhou-a por um instante, antes de guardá-la em seu bolso.
– Bom, basicamente, vocês aceitam ir para lá? E Prince, você está sendo intimado.
A expressão que Vincent fez chegava dar pena. Como o olhar de um cachorrinho de rua machucado e perdido que dá vontade de abraçar, mas dá medo de machucar o bichinho mais ainda. Ele fazia aquilo sem querer. Olhou para Claire. Não queria se meter naquilo, e ela estava sendo metida naquilo também...
– Eu tenho irmãos que dependem de mim, sabe?
– Ora, Jim sabe se virar o suficiente para controlar Michael, que sabe se cuidar, vamos lá...
– Jim tem dezesseis anos.
– Você tem dezessete.
– Quase dezoito. – corrigiu. – E sou emancipado, mas isso não vem ao caso.
– Vem sim, você irá.
Bufou. Mesmo que não tivesse a melhor relação do mundo com Jim, tinha medo de deixar ele e Michael sozinhos e eles se meterem em alguma confusão/terem problemas.
Ainda mais pelo fato de que sequer eram bruxos...
– Bom... Acho que sim. – a garota disse, surpreendendo-o. Ela realmente estava aceitando aquela loucura?! Ela mal conhecia aquele boneco há um dia! Falando nele, ele também a encarava com incredulidade.
– Achar não é certeza. – implicou.
– Sim, eu vou, mas é você que vai arcar com a mamãe. E você vai ter que literalmente que fazer uma bruxaria para convencer ela.
– Não se preocupe, eu vou dar meu jeito. – Ele deu uma olhada no relógio. – E a essa altura ela já deve ter chegado, não é?
– Pra ela, o problema é se eu não voltar, não se preocupe.
– Mas deve ser melhor você voltar. – Vincent observou.
– Estão te expulsando, olha só.
– Boneco, cala a boca.
– Bom, vou dar um jeito de comprar passagens para você e para Prince, e, aliás, eu preciso do seu sobrenome pra isso. — Marc disse com um suspiro e levantou, interrompendo a discussão antes mesmo que ela se iniciasse.
– Não precisa, eu tenho documentos. – disse num tom evasivo que Marc não ignorou.
– Qual o problema com o seu sobrenome garoto? Não custa nada dizer ele, não vamos te morder nem nada parecido.
Vincent novamente olhou para Marc com uma expressão de “me obrigue”, mas ele só deu de ombros em resposta e abriu a porta do porão, subindo as escadas.
– Dê uma dica ao menos. – incitou. – Para eu ao menos ter uma ideia.
– Marc, pare de agir como uma criança, pelo amor de...
– Convenhamos Prince, por exemplo, vejamos... Eu sou francês com cara de francês com sobrenome francês, e você é inglês com cara de inglês e certamente tem sobrenome inglês. Claire é estadunidense com cara de estadunidense e sobrenome...
– Marc, tá bom. Você está sendo mais infantil que Michael.
– Ahhh.
Escutou mais uma vez Claire rindo da cena. Marc às vezes conseguia ser mais criança do que várias.
A sala de estar de Marc era do mesmo modo que a saleta do porão, tirando porém as estantes de livros, o teto de estrelas e as velas, colocando mais espaço e uma televisão de tela plana. Dava para ver vagamente mais para trás a mesa da sala de jantar e a cozinha. Ele abriu a porta da frente e disse:
– Acho melhor Prince ir com vocês dois para a casa da Claire. – Falou de repente.
– Por quê?! – os três exclamaram em uníssono novamente.
– Questão de lógica. Se aquele bruxo aparecer de novo, acho que ele vai se manter longe se Prince estiver com você. Tenho que fazer algumas ligações e também algumas coisas.
Vincent a olhou com uma expressão de “melhor nem perguntar”, então, aceitando a sugestão, os três foram para fora. Estava escuro, então o fato de o boneco estar com uma trinca na testa era bastante escondida, a não ser que ele ficasse parado sob um poste.
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