Coração de Porcelana

49 Capítulo 48 - Gaheris


Notas iniciais
Capítulo final! Porém, contudo, todavia, ainda tem o epílogo, que vou postar logo depois. Espero que gostem!

Capítulo 48 – Gaheris

Depois que seu pai falecera, demorara alguns minutos até que os nobres começassem a entrar no lugar. Ninguém realmente falara nada, apenas se ajoelharam em sua frente antes de sair dali.

Faltava meia hora para o amanhecer.

O palácio estava às escuras, anunciando a morte do príncipe Caius, e Haydée, junto a um homem de meia idade. Ela avisou que Near teria que ser realocado para o outro lado da cidade, para a Torre Púrpura. Nem fez questão perguntar os porquês de nada, simplesmente aceitou descer e ir mais uma vez para a carruagem, e todos pareciam lhe fazer reverências redobradas. Mas foi um caminho silencioso. Percebeu que ninguém falava absolutamente nada. Talvez fosse algo de praxe.

— O que é a Torre Púrpura e para quê estou indo para ela? – questionou quando a carruagem começou a se mover. Na realidade, não apresentava muita vontade de fazer qualquer coisa, sentia mais como se quisesse deitar e dormir por umas quarenta horas seguidas. Mas com certeza era melhor saber o que iam fazer com ele com antecedência.

— A Torre é um ponto estratégico da cidade. Não é caso, mas ela é um ponto tático para casos de rebeliões ou invasões, além de ser praticamente um forte dentro da cidade. É um costume que quando o antigo príncipe morre, o novo vá para lá imediatamente. Sua estadia será até o sepultamento do seu pai... E a sua coroação.

Coroação. A cabeça de Near não estava pronta para aquilo.

— E quanto tempo?

— Seu pai era a figura mais importante do Império, então seu velório durará treze dias para que o máximo de pessoas possíveis prestem suas últimas homenagens.

Treze dias.

— Eu preciso fazer alguma coisa durante esse tempo?

— Oficialmente, não. Principalmente porque você tem direito a um tempo de luto recluso.

— Eu vou ficar dentro de uma torre. Já me parece recluso o suficiente.

Ela suspirou.

— Ele dura uma semana. Mas vão começar a fazer roupas para a coroação e tudo mais, então irão tirar suas medidas e incomoda-lo de vez em quando. Depois disso, como você não foi criado aqui, os nobres provavelmente vão brigar para que alguém lhe ensine como agir e se comportar no dia da coroação.

— Eu acho que é melhor que eu aproveite esse tempo e saiba o básico do que precisarei para esses treze dias. – Esfregou os próprios olhos. – Pelo menos sobre a coroação e o Império. Sério.

— Eu vou arranjar isso.

— E o silêncio... É parte de um ritual pela morte?

— Sim. Dizem que quando as almas partem dos corpos, o som pode confundi-las e as fazerem pensar que estão vivas, ou não tomarem o caminho para o além corretamente. Se é verdade ou não... É um costume.

Assentiu e pousou suas costas no encosto do assento. Precisava ficar sozinho, e rápido.

Demoraram um pouco para chegarem à Torre, e ela não era roxa. Era fortificação pequena – “pequena” – comparada ao palácio, feita de pedra cinzenta, mas com certeza era segura. Foi recebido em silêncio por um grupo de soldados e empregados do local antes de lhe mostrarem onde ficaria.

Só soube que a notícia rodava rápido o suficiente para já ter roupas que lhe serviam ali. Não se incomodou. Apenas trocou de roupa, tirando as que usava como se queimassem, antes de se enterrar na cama e começar um longo período de hibernação.

Funcionou até certo ponto. Os cinco primeiros dias foram um inferno para Near, na realidade. Por vezes sentia simplesmente nada, depois era como se estivesse no meio de uma tempestade em um ataque de raiva, de nervos, de nervosismo, de tanta coisa ao mesmo que simplesmente não sabia mais o que fazer consigo mesmo. Tinha momentos que dormia por alguns minutos, outros que dormia catorze, vinte horas seguida.

Haydée cumprira sua promessa e lhe enviara livros, pergaminhos, e sinceramente, como Near estava sem nada para fazer, se desdobrou sobre eles. Eram sobre a linhagem em si, com a queda da capital Aurum durante o reinado do Príncipe Erastus – cujo corpo nunca havia sido encontrado. Tanto o antigo Império quanto o novo se utilizavam de grandes obeliscos que manipulavam o Véu que separava o mundo dos vivos e dos mortos, causando uma distorção nele e o fazendo passar sobre as cidades, escondendo-a do mundo normal. Era largamente teorizado que Alphonsus Rockstone havia dado um jeito de sabotar a principal fonte de energia dos antigos obeliscos, jogando grande parte do Império diretamente no mundo dos mortos. Depois disso, Aurum passara a ser chamada popularmente de Tenebris.

Não havia muita coisa falando sobre Cassius, o filho de Erastus com uma nobre da época, Enguerrand, que passou a ser vista como uma traidora, pois após a vitória dos Rockstones, ela virou a rainha de Alphonsus. O que tinha ali era que quando as casas necromantes se revoltaram no reinado do rei Augustus, ele não teve muito a fazer do que apoiar a rebelião quando houvera ataques em resposta ao assassinato de uma nobre bruxa elemental. Como a rebelião fora fracassada, e o próprio príncipe morrera durante o conflito, e como uma organização real ainda não fora feita, a família fugiu para a América.

O príncipe Icarus comandara a construção de Nidus, e tivera tanto sucesso na sua proposta que as casas, antes espalhadas e escondidas, se reuniram e mais cidades foram construídas, organizando o Império atual.

E o seu pai, príncipe Caius... Era bem visível que ele se tornara uma figura controversa, por ter perdido sua magia, pela casa inteira de sua esposa desaparecer – e ela o abandonar -, se ele realmente tinha herdeiros... Como se sabendo que seu tempo era reduzido, ele realizara uma série de políticas polêmicas que haviam lhe rendido muitos inimigos, então era surpreendente que ele tivera uma morte natural. Havia abolido a escravatura em 1954, e além disso, redigiu direitos para os recém libertos amaldiçoados. Instaurou os direitos trabalhistas para que os ex-escravos não recebessem trabalhos disfarçados de liberdade, além da construção de comunidades para ele e a criação de políticas para que eles fossem inseridos na sociedade. Os nobres mais conservadores não gostaram, mas estava feito.

... Seu pai abolira a escravatura há sessenta e dois anos? Havia escravidão ali há até pouco mais de meio século?

Aquilo só o fazia ver que provavelmente teria uma grande expectativa quanto à sua forma de governo. E havia outro ponto.

O rei Cassius nascera no início do século XII, morrera no século XVI. Icarus nascera em algum ponto do século XV e morrera no século XX. Até então, seu pai havia sido o menos longevo, vivendo exatamente um século.

Near não fora preparado para subir no trono. Tinha dezoito anos, e mesmo que considerassem sua idade real, oitenta e dois, o que ele era perto de pessoas que viviam quatrocentos, quinhentos anos? Uma criança. Só de ver aquilo, já sabia que tentariam manipula-lo. Aquilo era política, afinal.

O problema era esse. Near nunca quisera se envolver em política. Droga, seus planos de estudante do terceiro ano do ensino médio era virar veterinário, não governar uma cidade!

... No caso, nem era só uma cidade.

O Império constituído por Icarus havia se reduzido no reinado de Caius. Várias famílias renegaram um príncipe sem habilidades mágicas e separaram suas cidades. No momento, ele tinha quatro grandes capitais, além de outras cidades menores. Ainda assim, parecia demais para o rapaz.

Depois de praticamente dormir encima de um livro que tinha certeza que alguém o bateria se acontecesse algo a ele, foi ver o que teria que fazer ao final do velório de treze dias.

A cidade de Nidus era dividida em quatro setores, seguindo os pontos cardeais, formando quatro distritos: os dos lobisomens, dos vampiros, dos necromantes e dos amaldiçoados (antes, era o distrito escravo). Haveria uma procissão na qual passaria por cada um deles, sendo saudado por uma criança que representaria o lugar, passando por eles no sentido anti-horário a fim de seguir a posição contrária à procissão funerária de seu pai, antes de saírem da cidade e irem para o mausoléu construído na estrada, na necrópole dos Almishaks, como era o costume. Ali, algum membro da família discursaria uma elegia em honra ao falecido enquanto a pira funerária estivesse acesa. Depois disso, teria que voltar pela avenida principal da cidade para ir ao Templo do Silencio para ser coroado e receber um novo nome, dado pelas anciãs.

Aquilo era demais para a sua cabeça. Mas teria que se resignar.

Poderia, em tese, sair de seu quarto e visitar os jardins da Torre, assim como todos os outros recintos e aposentos, mas... Não tinha muita vontade. Não sabia se aquilo fazia mal para a sua imagem ou algo do tipo, mas sinceramente, não o tinha.

No sétimo dia, Haydée apareceu. Ele tinha dormido sobre um livro de novo e acordou com ela tirando o objeto debaixo de sua cabeça.

— Hm? – questionou sonolento. Nos últimos dias, literalmente, só era incomodado ou pelos empregados trazendo comida, ou pelos alfaiates que estavam encarregados de fazerem suas roupas, portanto estava surpreso de vê-la ali.

— Eu vim lhe dar uns avisos prévios antes do oitavo dia. É melhor ir se preparando para amanhã.

Ajeitou-se na cama, esquecendo-se completamente de sua cara completamente amassada e o ninho que o seu cabelo estava.

— Bom, lembra-se que os nobres decidiriam quem iria lhe ensinar as etiquetas da coroação? – assentiu. — Eles chegaram ao consenso de ser Gripus Eulogius. Ele é um dos membros mais velhos da casa Eulogius.

— Quantos anos?

— Ele está praticamente entrando em decomposição. Dizem que ele tem mais de mil anos. Ninguém sabe se é verdade. – Near ergueu as sobrancelhas para ela. – Normalmente, essas honras cairiam para a casa Tinea, mas como toda a família desapareceu e a viúva do antigo chefe da casa não é muito bem vista... A honra caiu para os Eulogius.

— Por que a viúva é bem vista?

— Ela é uma meio demônio. – precisou de um tempo para absorver aquelas palavras. – Eles são mal vistos, e muito marginalizados. Normalmente são prostitutas, contrabandistas, assassinos de aluguel e ladrões. Zarya Tinea é a única meio demônio a conseguir status, e depois do marido dela desaparecer... Fortuna. Mas claro que ela não é bem aceita. Mas este não é o caso. Há também o fato de que, no dia da coroação, há o costume de três jovens de cada uma das classes vir ajudar o novo príncipe a se vestir.

Pensou que não houvesse escutado direito. Depois percebeu que ela falava sério.

— O quê? Eu posso me vestir sozinho! – exclamou.

— Se acalme. Eu consegui convencer os nobres que você passou por muita coisa recentemente, e então... Eu quase iniciei uma guerra entre casas quando eles decidiram que apenas um virá.

Muito tranquilizante.

— E quem vai ser? – questionou de má vontade.

— Hadrian Locilus. Ele é um vampiro puro sangue, e... Bom, ele é filho do irmão de sua avó, Isabella. Segundo, ele é um vampiro, e um dos poucos capazes de usar necromancia, o que já apazigua os necromantes, além de ter habilidades marciais o suficiente para os lobisomens terem algum respeito por ele. Assim, agrada todos os lados.

— Alguma coisa que eu precise saber sobre ele, além de que somos primos de segundo grau?

— Sendo um vampiro, ele é um paradoxo para nós. – Olhou-a em dúvida. – Ele... É mais novo do que você, tendo quinze anos. Mas a idade de vampiros é contada de maneira diferente, assim, ele tem... Mais ou menos cento e cinquenta anos. Ele é ao mesmo tempo mais novo e mais velho do que você. Encontrei Hadrian poucas vezes, mas ele e sua irmã Tabitha são prodígios para os vampiros, então logo de primeira ele foi posto à frente para vir aqui. Ele sempre me pareceu ser um garoto muito bem educado.

Near começou a estalar os dedos.

— E você já viu o que vai acontecer, não viu?

— Sim. E o que você vai fazer no dia da coroação?

— Seguir a procissão. – ela suspirou. – Eu já vou indo. Os nobres já estão achando que estou jogando minha influencia sobre você ou qualquer coisa do tipo. Ah, e mais uma coisa. – Haydée se virou. – Os alfaiates estão ficando preocupados porque toda vez que você prova as suas roupas, eles tem que aperta-la mais um pouco. Então... Tente se alimentar direito para não perder peso tão rápido, ok?

— Ok...

A cidade funcionava em função da noite, assim, às vinte horas do dia seguinte, Gripus Eulogius apareceu.

E Haydée estava certa, aquele homem era tão velho que parecia praticamente entrando em decomposição. Parecia que ele andava permanentemente com o cenho franzido, suas bochechas caindo em pelancas por seu rosto, além de andar curvado, apoiado numa bengala cujo apoio da mão era uma caveira. Ele falava baixo, mas era bastante claro em suas instruções. E rígido também, mas não reclamou. Era melhor saber tudo do que passar vergonha. Ele também ficou fazendo comentários que ele queria ocupar o mesmo posto na coroação de seu pai, mas Fausto Tinea fora encarregado, mesmo que ele tivesse “apenas” cento e cinquenta anos na época.

Na noite anterior teve que dormir relativamente “cedo”, pois teria que estar de pé antes do meio dia, já que toda a procissão ocorreria durante o dia, e a sua coroação deveria ser no crepúsculo.

Claro que teve que ficar se revirando na cama por nervosismo somado ao fato de ter se acostumado a dormir mais ou menos seis ou sete da amanhã para acordar quatro ou cinco da tarde. Acabou dormindo pouco porque estava nervoso demais.

Era uma coroação. Sua coroação. Ele. Sendo coroado. Parecia que há alguns dias ele estava amarrando os dois cadarços do seu irmão mais novo para que ele caísse quando fosse andar.

Acabou acordando antes mesmo de entregarem as suas roupas, em torno das sete da manhã. E sinceramente, ainda estava tão nervoso que sentia como se houvesse levado uma surra.

Às nove horas as roupas foram entregues e às dez Hadrian chegara para lhe ajudar, por menos que Near gostasse da ideia.

Ele era bem jovem, era visível, mas ele já tinha a altura de Near. Sua pele era daquela palidez imutável de porcelana de todos os vampiros que vira até então, o rosto meio oval e comprido, com lábios finos, olhos como os de Near, de íris vermelha e esclera azul o cabelo prateado bem arrumado. Suas roupas eram azuis escuras e prateadas, uma mudança do preto constante que vira até então.

Que também dominavam as suas roupas também. Em forma, elas eram até simples. Era umas espécie de duas túnicas sobrepostas, a interior chegando até o meio de suas coxas e a exterior, que era aberta, pregada à menor, chegava-lhe até o início de suas canelas, as duas de tecido pesado e meio rígido, mas ainda assim confortáveis. A calça preta não era muito visível – argh, como era colada – e as botas dessa vez eram bem mais compridas, indo até seus joelhos. Elas eram todas decoradas com placas de prata, quase como uma peça de armadura.

Depois disso, veio a parte complicada e que agradeceu aos céus por não ter tornado a situação estranha. Tinham feito joias para ele usar, e era um pouco complicado para que sua mente pacata entendesse-as, indo das manoplas que complementavam o visual de armadura das botas, com as pontas dos dedos sendo garras – tinha que se lembrar de não coçar os olhos – além de uma espécie de caixa torácica de prata que era parte da roupa. Aquilo com certeza vencia o tipo de coisa que não se imaginava usando.

Quando se olhou no espelho, não se reconheceu. Aquela coisa pálida de olhos brilhantes, vestida com roupas caras para ocupar um posto não era ele. Teve que afastar o pensamento da mente, pois era chegada a hora e tinha que se preparar psicologicamente para o que viria.

Saíram de suas câmaras, e os empregados haviam se enfileirado pelo caminho até o lado de fora, todos se curvando quando passava, até chegar aos jardins onde estava posicionada uma imensa liteira que trazia uma cadeira, quase um trono, praticamente em seu centro. Sua base era de madeira escura, e ela possuía um dossel de tecido roxo, e o veículo seria puxado por dois cavalos como os que puxavam a carruagem que o levaram até a Torre.

Respirou fundo.

“Você pode fazer isso, vai ficar tudo bem...”.

Não ia ficar tudo bem, sabia disso. Sua vida estava tomando um rumo em que sabia que ela estava escapando entre seus dedos.

Ainda assim, foi até o local. Hadrian não o seguiu devido ao sol, e lá, havia dois necromantes segurando o manto para que pusesse antes de subir.

No final, aquilo pesava mais do que qualquer tapete que pudesse ter carregado na vida. Era de veludo forrado com uma pele prateada que nunca vira na vida, sua cor sendo purpura tíria. Trazia adornos de prata nos ombros, sendo preso por dois broches interligados por elaboradas correntes.

Ainda assim, subiu no veículo sem ajuda, sentando no trono que havia ali. Tão logo o fez, os cavalos foram guiados para começar a se mover.

“Mantenha a calma. E a postura.” Recordou-se, senão achava bem possível que Gripus aparecesse gritando para si no meio da multidão. A procissão em seria formada por funcionários do antigo Príncipe até Near escolher os seus próprios.

O resto do cortejo já estava pronto do lado de fora da fortificação. Na parte da frente iriam primeiro os mensageiros de câmara, o porteiro-sargento, responsável pela entrada nos portões das residências reais e o arauto, cujo dever era deixar a residência pronta. Em seguida, eram seus servos pessoais, cavalheiros e porteiros, seguidos pelos escudeiros e vereadores da Assembleia. Em seguida estavam os principais sacerdotes dos principais templos e funcionários do conselho privado. Depois, sargentos e juízes, caminhando de dois em dois. Em seguida os centuriões e seus pares, em sua devida ordem.

Seguindo a ordem, todo o corpo de oficiais da casa Real, seguidos dos oficiais de Estado, que em tese deveria ser liderados pelos outros Almishaks. Na falta, o posto seria ocupado pelo chefe da casa Locilus. Após estes, iriam seguir o oficial de armas e o porteiro da câmara privada. E por fim, viriam o tesoureiro e o controlador da casa.

Depois de tudo isso, viria Near, bem no meio do cortejo. Ele não precisaria fazer muita coisa, apenas ficar sentado e não parecer que estava tendo um ataque cardíaco, e sim parecer simpático – o que achava difícil. Ao lado viriam escudeiros e servos além de soldados, para qualquer coisa.

Atrás viriam os nobres das casas remanescentes e seus respectivos servos. Todos divididos em quem seguiria o cortejo funerário do antigo príncipe, e quem iria ao cortejo real do novo.

Quase não acreditara quando lera os detalhes de toda a cerimônia. Parecia-lhe tão exagerado. Mas o processo se mantivera praticamente inalterado pelos últimos mil anos, e parecia que era de maneira semelhante que o novo príncipe era saudado em Aurum também.

Quando a liteira chegou a frente ao local onde o tesoureiro e o controlador se encontravam, a parte dianteira do cortejo finalmente começou a se mover.

O distrito da cidade mais próximo era o dos amaldiçoados, os cidadãos comuns do império. Era visível que eles haviam feito um grande esforço para decorar as ruas por onde passariam águias e grifos de tecido, flores e mariposas. Não era exatamente caprichado, mas o que valia era a intenção, enquanto. O que lhe chamou mesmo a atenção foram as pessoas.

Nenhuma delas era “normal”, todas possuíam alguma coisa... Minimamente monstruosa. Havia pessoas com escamas, chifres grandes demais, membros assimétricos, a mais, ou faltando, deformações que mal as deixava parecendo humanas.

Talvez fosse coisa de sua cabeça, mas conseguia ver porque seu pai os libertara. Escravizar aquelas pessoas parecia mais como se estivessem tomando vantagem por eles serem diferentes, como foram dadas mil e uma desculpas para a escravização dos negros.

Eles estavam tão animados, gritando coisas, lhe saldando. Havia músicos ali, mas não conseguia escuta-los com todo aquele barulho. Dava para ver que eles esperavam que os ajudasse como o príncipe Caius havia feito, e aquilo era uma imensa responsabilidade.

Passaram na frente de um hospital, e parecia que a maioria dos funcionários e internos havia saído ou se agrupara nas janelas. As condições deles poderiam trazer problemas de saúde ou causar acidentes, era visível, e aquele tipo de coisa tendia a ficar marcada em sua mente, então tinha certeza que não esqueceria daquele lugar. Dava para ver uma garotinha – achava que era uma garotinha – com um apoio aparentemente pesado de ferro em seus ombros, que segurava ambos os chifres claramente pesados demais para seu pescoço, ao lado de um homem que vagamente parecia humano. Sua pele estava toda vermelha e inchada, e ele não tinha pernas. Na realidade, seu corpo recordava em forma muito mais uma lesma... Inclusive, havia uma secreção saindo de sua pele.

A liteira parou à frente de um palco improvisado, e sobre ela estava a primeira criança. Aliás, o garoto parecia pronto para ter um ataque de nervos ainda pior que o de Near.

A cabeça dele parecia um pouquinho grande demais para o seu corpo. Seus olhos castanhos também eram grandes demais, redondos e chegando ao início de suas bochechas, além de haverem dois menores em sua testa. Ele era gordinho e sua pele era coberta de pelos azuis, suas mãos chegavam-lhe aos joelhos das pernas muito curtas.

Ele segurava um papel, mas ele tremia ao ponto de ver o papel se amassando. Suas mãos tinham três dedos cada, e a ponta de cada um lembrava vagamente um casco.

Near levantou e desceu da liteira, fazendo com que a multidão gritasse mais alto, antes de subir os degraus do palco. Dois escudeiros saltaram à frente para pegar a capa roxa e impedi-la de se arrastar na rua.

Quando parou em frente à criança e ele começou a falar, o barulho estava tão alto que não conseguia escutar nada que o menino falava. Olhou envolta, então indicou os próprios ouvidos. As pessoas entenderam o recado e se calaram.

O menino o encarava com as pupilas tão dilatadas quanto as de um gato assustado. Ele deveria bater no quadril de Near. Conseguiu escutar Gripus gritando ao longe, mas mesmo sabendo que tecnicamente não deveria fazer aquilo, se abaixou em frente a ele. Ouviu as pessoas gritando animadas por um segundo antes de se calarem novamente.

O garotinho respirou fundo antes de falar, dando antes mais uma olhadinha nervosa em seu papel:

— Bem aventurado seja o Príncipe, aquele que guarda e protege a todos nós. Que os deus observem seu caminho, e que o guiem no caminho da... Virtude, da mesma forma que seus... Antecessores!

Ele pronunciara “virtude” e “antecessores” errado, mas como aquele menino aparentava ter entre uns seis ou sete anos, eram versos bem complicados para uma criança. Fora adorável, e terminou sorrindo sem se reprimir. O menino pareceu ao ponto desmaiar e a gritaria voltou. Certamente não fora a coisa mais formal a se fazer, mas aquilo pareceu tocar o resto dos espectadores, então não iria reclamar.

Acabou passando a mão sobre a cabeça da criança, tomando cuidado com as garras, antes de voltar para a liteira. Seu pelo era macio como o de um gatinho. Deu para ver muita gente pulando no garoto enquanto ele era carregado por um soldado até uma mulher peluda que parecia uma versão maior da criança, seus quatro olhos cheios de água.

Ninguém repreendeu Near pela informalidade e seguiram para o distrito dos lobisomens.

O lugar era muito mais aberto, e não tinha exatamente muitas construções. Eles se organizavam comunidades, matilhas, e com certeza tinha muitos lugares para correr e gastar energia. Eles estavam todos reunidos também, e como no distrito dos amaldiçoados, dava para ver que ocorrera um esforço não muito caprichoso de arrumar o lugar. De novo, tinha flores e faixas, além de umas tentativas de mariposas, mas sem contar os pobres insetos sem partes das asas e as flores despedaçadas... Estava tudo bonito.

O barulho era absurdo, ainda maior que os dos amaldiçoados. Percebeu que os lobisomens usavam roupas que presavam muito mais os movimentos, largas, soltas e flexíveis. Era visível que eles usavam as melhores que possuíam. O mar de olhos prateados o observava.

O palco deles era ainda mais simples que os dos amaldiçoados, sendo alguns tablados de madeira perigosamente postos sobre uma base que parecia meio bamba. Encima tinha uma garotinha praticamente saltitando no mesmo lugar. O cabelo castanho estava preso em duas tranças enormes, com diversas mechas escapando delas. O seu vestido branco era quase etéreo, assimétrico e branco, aparentemente bem fino. Ela não segurava nenhum papel.

As tábuas rangeram perigosamente quando pisou, e viu a expressão do soldado que estava ao lado do tablado ficando bem séria ao ouvir aquilo. Assim que parou em frente à menina, ela falou, muito rápido num fôlego só:

— Que a noite guie seu caminho, que a lua seja sua amiga. A euforia causada por ela anime o interior, guiando seus pensamentos até o povo, a quem fielmente lhe prestará apoio até nas horas mais escuras!

Acabou ficando sem ar pela menina, que terminou ofegante. Sabia que era melhor não toca-la como fizera com o garoto amaldiçoado, porque os lobisomens eram bem territorialistas com os cheiros deixados em suas crias. Assim agradeceu a sua mensagem antes dela pular alegremente de cima do tablado, assustando-o com a possibilidade dela se machucar. Deu para vê-la saindo correndo com a perna ralada.

Seguiram para o distrito dos vampiros. Dava para ver que a maioria esmagadora estava meio sonolenta, e as ruas haviam sido inteiramente cobertas de tecido de lona para protegê-los do sol, que era mortal para a espécie. Até o momento, era o lugar mais caprichosamente arrumado, com estandartes arrumados nos prédios principais e bandeiras bastante bordadas.

Mas o mar de olhos vermelhos o seguindo era um tanto desconcertante.

Até então, era o lugar mais silencioso. Não que não estivesse tendo gritaria, mas dava para ouvir os músicos, ao contrário dos outros dois distritos. O palco tinha bordas entalhadas, era pintado de preto e estava decorado com tecidos vermelhos, e a criança lá também era uma menina. Ela usava robes vermelhos e prateados, com mangas coladas e saia rodada, e o cabelo platinado muito bem preso. A sua palidez com os lábios avermelhados, sem contar os seus olhos, faziam-na parecer uma boneca deveras assustadora.

Ela era de longe também a mais calma das três crianças. Ela olhou Near calmamente com seus olhos vermelhos iridescentes antes de falar com eloquência assustadora:

— Que o destino lhe guie a um caminho pacífico, que o sangue lhe clareie suas escolhas, pois ele será o resultado, seja nas horas boas, seja nas horas ruins. O sangue dos inimigos aos seus pés, e o sangue dos Príncipes em suas veias, que guie o seu povo para o melhor caminho.

Fora... Assustador. Agradeceu à menina, que calmamente foi para a borda do palco, onde então o mesmo soldado que carregara o garoto amaldiçoado a carregara para a sua família.

E finalmente, seguiram para o distrito dos necromantes, o último antes de saírem da cidade. O lugar estava todo decorado com tecido negro, bem decorados com flores azuis que Near não conhecia, além das mariposas ainda vivas pousadas sobre elas. As mariposas tinham um significado à parte para os necromantes, já que era o símbolo de uma das casas mais importantes que já existira.

Foi difícil não perceber que os músicos do lugar eram esqueletos – o que também explicava a súbita falta do som de instrumentos de sopro.

Assim como os vampiros, a multidão de olhos brilhantes – dessa vez, as escleras azuis – eram assustadoras. Mas eles eram menos imóveis que os outros, ironicamente, mais vivos, assim, era um pouco mais reconfortante estar ali.

O palco parecia ter sua base feita de ossos, embora Near não quisesse ter certeza. O garoto sobre o lugar parecia estar com vontade de sair correndo, e ele usava versões em miniatura dos robes que vira até então. Não dava para ver muito devido ao seu capuz, mas ele tinha pele cor de oliva, e os olhos brilhavam entre as sombras. Ele acabou falando baixo demais, portanto, mesmo vendo os olhos de Gripus o encarando, teve que se abaixar para escutar o garoto:

— Nas horas mais escuras, quando as vozes sussurradas surgirem, escute seus conselhos. Quando a escuridão surgir, saiba que a morte é sua amiga. Que dela poderás retirar suas forças, e quando tudo se esvair, ela o abraçará, assim como abraça a todos.

Seus versos tinham um tom como se ele finalizasse o das outras crianças. Ele parecia no final prestes a hiperventilar, então Near logo lhe agradeceu para que fosse levado de volta para sua família.

E assim, saíram da cidade.

A necrópole não era muito afastada da cidade, e havia um grande número de pessoas rodeando o local. A entrada era uma fachada branca, de mármore, como um palácio de poucos andares, com imagens de deuses e deusas, triunfos em suas paredes. As pessoas abriram caminho para que a liteira parasse em frente à entrada, onde desceu. Havia uma enorme escadaria que levava para o subterrâneo. Near entrou primeiro, para ser seguido então pelos nobres que participariam do funeral.

O local era enorme por dentro. Suas paredes possuíam pelo menos dez metros de altura, sustentadas por pilares e arcos em seus tetos. Pouca luz entrava ali, deixando-o numa penumbra condizente com uma tumba. Havia enormes estátuas em frente a gigantescos pórticos de figuras sob véus, incrivelmente realistas, enquanto seguiam caminho por eles. Logo as estátuas dos antigos príncipes foram aparecendo, tendo sido feitas com a maior magnificência possível.

Em um dos pórticos era onde seria o funeral de seu pai.

O local era tão grande quanto um salão, e já havia um considerável número de pessoas ali. Preferiu não prestar muita atenção nelas, e sim para o leito onde o corpo se encontrava, já sobre a lenha que seria usada para cremá-lo.

Sabia que haviam rejuvenescido o corpo, afinal, os príncipes eram considerados eternos. As roupas de seu pai haviam sido ricamente decoradas com as insígnias da águia, e havia uma máscara funerária sobre seu rosto, de um rosto artificialmente jovem e saudável, e envolta dele, o leito era recoberto de crisântemos roxos.

Atrás dele, havia um grande número de pessoas, em três fileiras, todas usando máscaras de cerâmica para representar seus antepassados, simbolizando que o Príncipe Caius se juntaria a eles. Teve quase certeza de que viu uma máscara muito parecida com o rosto de sua mãe.

Havia um sacerdote, todo vestido de preto, espalhando incenso pelo lugar, mergulhando-os sob uma névoa entorpecente enquanto entoava cânticos para o descanso da alma do morto. Assim que ele terminou uma volta, ele pegou uma tocha de madeira escura, acendendo-a num braseiro que estava aceso no canto da tumba, que emitia uma bruxuleante chama azul.

E então, entregou-a para Near.

Olhou por um segundo o objeto, antes de pega-lo. Respirou fundo, sentindo todos os olhares sobre si quando se aproximou da pira. Deu uma última olhada na máscara antes de acendê-la.

O fogo se espalhou rápido como se houvessem jogado gasolina em toda sua extensão. Recuou enquanto o via sendo consumido, sua mente estranhamente vazia no momento, exatamente o contrário do que pensava que seria naquela situação.

Um vampiro que sabia também ser da casa Locilus, aparentemente um dos tios de seu pai, se curvou perante Near antes de subir ao lado da pira funerária e começar a dirigir a elegia em homenagem ao morto. Ele citou como Caius vencera todas as adversidades de seu reino, a perda de sua magia e todos os pontos de seu governo que Near já havia visto, além de passar por longas descrições sobre sua personalidade e modo de agir que, para si, que vivera sob o mesmo teto dele possuído por um espírito, não era muito condizente. Era claro que aquilo não fazia com que seu pai atacasse as outras pessoas, mas ainda assim...

Afastou aquilo da cabeça, se concentrando na pira. Não soube quanto tempo ela demorou para que se tornasse cinzas, mas fora relativamente rápido, e tinha certeza que em parte, se devia àquele fogo azul. Quando as chamas se extinguiram e já apenas as cinzas estavam ali, uma vampira se adiantou, carregando uma urna feita de pedra preta.

Ela recolheu as cinzas, pondo-as dentro do objeto, e o entregou ao sacerdote. Ele se curvou, como se pegando um objeto sagrado. As pessoas que usavam as máscaras abriram caminho, revelando uma espécie de altar, onde a urna foi posta.

Todos se curvaram uma última vez, em silêncio em memória ao príncipe falecido, antes de saírem da Necrópole.

Era estranho como o funeral fora rápido, parecia que mal havia entrado quando o sol bateu em seus olhos. Estava já era quase o fim da tarde, portanto, a hora estava chegando.

Mais uma vez, subiu na liteira, para então partirem num cortejo ainda maior em direção ao templo no centro da capital.

As pessoas haviam se agrupado uma de cada lado na avenida. Estava bem menos barulho também, como se em respeito ao funeral recém feito.

O templo do Silencio era uma imensa torre extremamente larga, de pedra, rodeada de jardins planos, simples e apenas grama sobre elas. Seus portais estavam abertos, e de cada lado havia mulheres vestidas com simples tecidos branco e os cabelos firmemente presos.

Havia centenas dessas mulheres, enfileiradas no mais completo silêncio. Os nobres se dividiram também, porque Near teria que entrar no templo sozinho.

Era difícil andar com o manto pesado, mas aquele era o menor dos seus problemas. As mulheres estavam, literalmente, enfileiradas pelo caminho que teria que seguir. Nenhuma parecia sequer respirar, no mais absoluto silêncio, o encarando com olhares que pareciam enxergar sua alma.

Assim, com essa guia indireta, chegou ao salão principal.

Não era muito amplo, era simples, e havia um grupo de aproximadamente sessenta idosas, todas de cabelos tão brancos quanto suas vestes. Elas estavam ajoelhadas no chão, em dois grupos de vinte, com quatro fileiras contendo cinco mulheres, e dois grupos de dez, que abriam um longo corredor para si, onde, ao fundo, havia sobre um altar, cinco mulheres.

O lugar tinha tanta energia que quase sentia a pressão o obrigando a se ajoelhar.

Estava tão nervoso que quase sentia vontade de chorar. Estava quase acabando, mas de repente era como se tudo estivesse passando ao mesmo tempo por sua cabeça. Os olhos vermelhos foram para as mulheres ao fundo. Ela o encarava, e era a única que usava algum tipo de adorno, que era um colar de pedra negra, e Near sabia que não era hora para ter um ataque de nervos.

Foi até ela, e conseguia escutar o som do tecido se arrastando ao chão. Quando chegou à base do altar, soube que precisava se ajoelhar, finalmente se rendendo à pressão absurda do lugar.

A primeira coisa que a mulher fez foi erguer um cálice de prata iridescente, e as outras quatro pegaram quatro pequenas garrafas de cristal, cada uma visivelmente cheia de sangue. Cada uma despejou o conteúdo dentro do cálice, e os olhos da principal sacerdotisa brilharam por um instante, antes de se virar para Near.

Quando ela falou, sua voz era uma das coisas mais assustadoras que o rapaz já ouvira. Era como ecos do além, repetidos mil vezes no fundo de seus ouvidos.

— Príncipe Almishak, aqui jaz o sangue dos povos que unidos, formam seu reino. Beba-os. Você se tornará o povo, e que isso marque o seu dever para com eles.

Ela lhe estendeu o objeto. Tentou não tremer quando o pegou, cheio até a boca de sangue. Antes que sua mente o obrigasse a não agir, levou seus lábios até a borda e bebeu.

O que foi estranho para si, foi que ao invés de se sentir nauseado como da primeira vez, bebeu quase que de maneira faminta. E parecia que a cada gole, alguma coisa passava por suas veias. Uma sensação gelada, que queimava-as e arranhava, mas ainda assim, aquela dor não era exatamente ruim. Era... Um aviso, embora ainda não pudesse saber exatamente do quê.

Bebeu até o fim, e a sacerdotisa pegou o cálice assim que terminou, entregando às outras quatro. Ela virou-se para Near, tocando então a sua cabeça, e começou a falar. As vozes que formavam a sua entoavam um canto numa língua estranha e gutural, que logo todas as outras sacerdotisas acompanhavam.

Sentia sua cabeça vibrando com aquilo, aquela sensação ainda vibrando em suas veias, fria e perigosa, um ínfimo aviso.

Duas mulheres abriram uma espécie de longo baú, e sentiu de longe o cheiro de incenso. De dentro, retiraram um cajado prateado, que brilhava iridescente. O objeto possuía uma longa lâmina em uma ponta, e na outra havia uma águia com as asas estendidas.

A sacerdotisa pegou-a com ambas as mãos, entregando-a a Near. Os cantos das outras sacerdotisas se intensificaram. O metal estava frio e úmido ao toque, o cheiro de sândalo se desprendendo dele. Os olhos da águia brilharam em roxo quando a pegou.

Outras duas trouxeram uma coroa e teve a vontade quase incontrolável de morder os lábios. Era do mesmo material do cajado, um diadema prateado com diversas imagens em sua extensão, que em sua base trazia quatro finas correntes. Assim como as outras duas, elas entregaram-no à sacerdotisa, que o ergueu por um momento, antes de pousá-lo na cabeça de Near, empurrando-o até sua testa.

Os cantos pararam, os ecos vibrando pelas paredes do templo. A sacerdotisa o ohou profundamente, antes de anunciar:

— Príncipe Gaheris Almishak.

Notas finais
O cortejo do Near foi inspirado no cortejo da rainha Elizabeth I.