Coração de Porcelana

47 Capítulo 46 - Isolamento


Notas iniciais
Depois disso, só mais dois capítulos + epílogo!

Capítulo 46 — Isolamento

Vincent sentiu a vontade incontrolável de vomitar e chorar ao mesmo tempo. Só teve tempo de se afastar o suficiente do corpo e cair de joelhos e por tudo para fora.

Ele tinha matado alguém. Ele tinha matado alguém. Ele tinha matado alguém.

Sua reação não deveria nem fazer lógica, considerando como quase havia sido morto pelo mesmo, mas era sua consciência atacando. Nunca havia matado antes, e agora tinha. Esfaqueara aquele homem até a morte, mesmo que pudesse ser algo considerado piedoso em seu estado.

Mas... Urgh.

Escutou os grifos gritando. Inúmeros gritos pavorosos de mais absoluta dor. Sentiu o alívio de Freyr quando eles debandaram de vez.

Precisou respirar fundo. Precisava se recuperar, mas sua cabeça doía tanto... Na verdade, tudo doía. Os cortes, os ferimentos, contusões, até mesmo respirar.

— Vincent! – Escutou Jim gritando de algum ponto a sua direita. – A sua espada, você está...

Ele travou no meio da frase. Não conseguiu nem erguer a cabeça para olha-lo.

— Eu não estou bem. – conseguiu dizer fracamente.

Sentiu Jim pondo sua espada na bainha, antes de ajuda-lo a levantar. Vincent estava tão trôpego que andava como um bêbado, mas de qualquer maneira, Jim o levou para longe do corpo de Erastus, arrastando-o de volta para o templo principal.

Os dragões pousaram quando eles chegaram lá, e quase nem conseguiu ficar feliz ao ver o seu dragão inteiro. Jim o arrastou para o interior do templo, cuja porta jazia aberta, e o pôs sentado.

— Meu Deus, você está bem?! – Victoria perguntou.

Aquela pergunta era um tanto óbvia. Jim acabou indo atrás do chifre que dias antes havia usado para curar Freyr e o entregou.

Aquilo parecia ser leite, mas não era. Na verdade, tinha gosto de mel. Sentiu-se melhor quando parou de sentir tanta dor, e sentiu o sangue parando de escorrer.

Quando a sua mente começou a querer fazê-lo voltar ao assunto anterior, decidiu tacar o foda-se e tentar ignorar o assunto por hora.

Estavam no recinto semicircular, e estavam todos envolta de uma garota que também estava sentada no chão. Ela usava apenas um short e uma blusa relativamente fina, e ela estava suja, com vários arranhões, o cabelo preto descabelado, e tremia de frio. Pelo modo que suas roupas caiam em seu corpo, conseguia dizer que ela perdera peso muito rapidamente. Ameen estava tirando a capa que usara quando desceram da montanha quando conseguiu levantar e se aproximar.

— Quem são vocês? – ela perguntou no momento em que ele e Jim chegaram.

— Stephania, hã... – Anastasiya começou. – Esses são Alastair e Raphael. Eles são dois dos três príncipes Rockstones desaparecidos.

Ela voltou imediatamente para eles. Seus olhos violetas estavam exaustos e com olheiras profundas, tendo se enrolado na capa de Ameen como se fosse um imenso cobertor.

— Vocês são parecidos com aquele garoto... Então ele é...

— Christian. – Jim disse rapidamente. – Você chegou aqui com eles?

— Sim, mas... Ele, a Akinyi e o Anyu me arrastaram aqui. – ela estremeceu. – Eles estão com os olhos dourados e parecem uns zumbis. Eles não param.

— Lhe arrastaram aqui? – René questionou. – Para quê?

— O garoto apareceu com um dragão uma hora e nós viemos para cá. Quando chegamos aqui, aquele homem que ficava lá atrás, ele... Ele levantou, parecia que ia começar uma briga, mas eles simplesmente me jogaram encima dele e seguiram em frente.

— Eles... Lhe ofereceram? – Vincent conseguiu perguntar. – Para o homem?

— Pelo visto foi para isso que eles me trouxeram. Pra minha sorte, eu acho, ele só me trancou aqui dentro.

Aquilo soava sério demais. Vincent notou então que a parede do fundo era grudada com uma pedra, e uma imensa abertura semelhante a uma caverna jazia ali. Era bem óbvio para onde haviam ido.

— Você tentou segui-los?

— Eu não. – ela sacudiu a cabeça veementemente. – O irmão de vocês, ele... Congela as coisas. Tipo, pedras de gelo, água congelando, gente congelando, sabe? E claro que tem que fazer frio.

Congelando as coisas? Vincent sabia que os bruxos que se utilizavam de magia de água eram capazes de mudar o seu estado físico, mas ela falava como se Michael o fizesse sem precisar do líquido.

Estavam perdendo tempo.

— Alguém pode ficar com ela? Precisamos ir atrás dos outros. – Jim perguntou.

— Eu fico. – Anastasiya disse. – Acho melhorem ir logo, está um silêncio pavoroso.

E era verdade. Sem os monstros de ossos e toda a bagunça que estava ocorrendo até então, só havia o som deles falando, a respiração dos dragões que ainda se recuperavam e nada mais.

Foram então entrar na caverna. Para melhorar o humor de Vincent, ela era alta e escura, e ele sinceramente queria não ter medo do escuro, e lhe ajudava um pouco o fato que Freyr não o julgava por aquilo. Na verdade, ficara surpreso que antes Jim não fizera nenhum comentário engraçadinho também.

Não demorou muito para começar a perceber uma claridade surgindo de algum lugar, e não sabia definir a cor daquilo. Parecia azul claro, branco, violeta, vermelho, a cada segundo parecia mudar de cor, mas ao mesmo tempo parecia sempre se manter no mesmo tom. Era estranho e desconcertante.

Ouviram o som de garras raspando na pedra, e aquilo foi um segundo antes de verem o dragão.

E era verdade. Ele era maior que Freyr e Morrígan. Era um dragão serpente.

Ele tinha pelos brancos ao invés de escamas ou penas, que caíam do pescoço comprido como uma crina. Sua cabeça era triangular e fina, com chifres curvos voltados para frente e um crista de ossos pontudos por sua coluna. Seu corpo era sinuoso, musculoso e magro, as patas eram relativamente curtas considerando o comprimento do corpo.

Ele chiou para eles quando os viu. E então abriu todas as quatro asas que Vincent ainda não havia percebido. Mas ele não parecia prestes a atacar, e sim parecia estar tentando acuá-los.

A dragoa de Jim não pareceu levar aquilo na brincadeira.

— Morrí... – Ele começou, mas foi logo antes dela soltar um de seus rugidos. Reverberou por todo o lugar, e Vincent sentiu como se sua cabeça vibrasse.

— Para os cantos!

Freyr saltou para trás e o grupo se prensou contra as paredes de pedra no momento exato em que o dragão começou a andar para frente. Ele ignorou todos eles e foi direto para cima da dragoa.

O seu dragão, no caso, só estava com um grande “nop” na cabeça, e estava resignado a deixar os dois se matarem. Ele era mais parecido com Vincent do que ele pensava.

Com os dragões brigando atrás de si, continuaram correndo pelo único caminho disponível.

Quase tropeçou em seus próprios pés quando foram dar no que parecia a fachada de um imenso palácio de pedra entalhado na parede do fundo.

O lugar parecia quase tão amplo quanto a montanha da visão de Harok. E aquela fachada não se parecia com nenhum tipo de construção que já houvesse visto em sua vida, seus pilares altos entalhados com símbolos estranhos, quase como hieróglifos, e dividido em vários andares.

Na parte de baixo, viu uma enorme porta de pedra, com suas trancas abertas, duas esferas de luz que Vincent sabia que fora aquilo que as abrira. Ela também era toda entalhada com desenhos que não fazia a mínima ideia do que eram, mas sabia que eram muito antigos.

Em frente à porta, tinha duas pessoas caídas no chão.

— Akinyi? Anyu? – Victoria chamou quando chegaram perto. Os dois estavam inconscientes.

A garota era alta, sua pele da cor de um grão de café, e usava um vestido em tons de amarelo e laranja, com estampas de padrões africanos. Seu cabelo era de um castanho meio acobreado, em parte presos em tranças que chegavam depois de seus quadris. Parte dele havia se soltado, e estava crespo e desgrenhado, como o de Stephania.

O outro era um garoto que era melhor do que a menina, o cabelo curto e preto, rosto meio redondo, de olhos puxados, pele ligeiramente avermelhada. Ele estava com uma calça simples e uma camisa branca.

Normalmente acharia rude ser aquele tipo de pessoa, mas a primeira coisa que perguntou foi:

— Cadê o Michael?

Seus olhos foram para a porta aberta.

Nem pensou direito no que ia fazer, só foi seu corpo respondendo sozinho. Acabou correndo pelo caminho disposto, e nem percebeu que Jim fizera o mesmo.

Não tinha muita coisa no interior, apenas paredes e tetos repletos de símbolos desconhecidos. A claridade aumentava cada vez mais, fazendo seus olhos doerem, e tinha a sensação de vozes sendo sussurradas nas profundezas de sua mente.

Como se não bastasse a voz da mulher que falava na sua cabeça de vez em quando, e que agora ele tinha certeza que ela estava furiosa consigo.

O ar começou a ficar frio, e quase escorregou numa crosta de gelo. Por um segundo quase viu a imagem mental de si mesmo caindo de cara no chão e seu nariz indo parar em seu cérebro. Só depois reparou que tudo estava congelado, e a sua frente conseguia ver um portal, sem qualquer porta.

Dava para ver Michael.

E assim como a fonte da luz.

Doía ver ela. Era alguma coisa disforme, flutuando espaço vazio, com dezenas de metros de altura e extensão.

— Michael! – Jim chamou, mas ele os ignorou. Continuava andando com passos lentos e arrastados, sem se importar com o gelo.

Mais cuidadosamente, mesmo odiando a velocidade em que andavam, foram seguindo em frente, por sorte, conseguiram chegar a Michael. Ele não andava tão rápido, afinal.

Vincent rangeu os dentes. Ele estava com a calça moletom cinza e a camisa roxa que ele quase sempre usava em casa, mas dava para ver que ele tinha perdido muito peso. Há quanto tempo ele não deveria comer? E aparentemente, eles andaram sem parar até arranjar o dragão. O seu cabelo estava do azul mais claro que já vira, quase branco, e as marcas brilhavam em seus braços.

Tinha um animal o seguindo. Parecia uma névoa branca com pernas, mas sinceramente, a claridade era tanta que ele simplesmente se misturava a luz.

Tanto ele quanto Jim agarraram o garoto de treze anos pelos braços, virando-o para eles.

O que Stephania dissera era verdade. Não havia distinção de íris e esclera em seus olhos, era apenas uma superfície dourada como se fosse uma bola de ouro. Ele estava sem qualquer emoção aparente em seu rosto.

— Michael? Mike?

Ele tentou se empurrar deles na direção do globo de luz. Puxaram-no para trás, mas ele continuou se forçando para a direção oposta. E ele tinha uma força considerável, era difícil segura-lo, ainda mais levando em conta o chão escorregadio.

Começou a sentir suas mãos esfriando.

Estava se perguntando se tinha como retira-lo daquele transe quando a luz pulsou. Vincent piscou devido aos pontos de luz que marcaram sua visão. A luz pulsou mais uma vez, e sentiu como se sua mente estivesse se esticando na direção de Michael. Conhecia aquela sensação, sempre ocorria quando entrava na mente de alguém, mas a diferença era que, toda vez que o fazia, ele o escolhia fazer.

Daquela vez, a sua mente estava sendo puxada.

Foi num redemoinho em que não conseguiu se segurar e acabou entrando com tudo na cabeça do irmão caçula. Mas foi diferente de tudo o que experimentara até então.

Sentia quase como se estivesse fisicamente lá dentro. Com braços e pernas, tudo no lugar. Inclusive, caiu se batendo todo em Jim, mas a dor foi reverberar em sua cabeça.

Levou um tempo para perceber melhor sua locação.

Era um quarto, estava escuro, mas iluminado por um abajur em forma de tartaruga, a luz emitida de seu casco sendo azul.

Aquele era um dos quartos de Michael em uma das seis cidades em que eles viveram, Sherborne, se estivesse correto. Era bem simples, com sua decoração infantil, e dava para ver o mais novo deitado de lado na cama, de costas para eles. Pelo seu tamanho, ele deveria ter uns quatro anos, e ele estava brincando com um bonequinho de pelúcia que ele andava para cima e para baixo quando eram menores, uma lhama pavorosa que ele ficava sentido se Jim ou Vincent dissessem que era feia.

— Mike...? – Jim chamou, a sua voz quase não saindo.

Foi como se fosse nada, realmente. O mais novo nem fez menção de ter ouvido alguma coisa. Estava um silêncio profundo, então deu para ouvir os passos de alguém correndo pelo piso de madeira e a porta do quarto ao lado se abrindo. Não demorou muito para ouvir os outros dois discutindo – Deus, a voz infantil de Vincent era insuportável -, e alguma coisa caindo, com Jim reclamando.

Aquilo era bem condizente com a realidade. Ele e Jim sempre dividiam seus quartos, e Michael ganhava um só para ele. Quando não havia aquela disponibilidade, ele dormia no quarto de Melissa.

— Hã... Nós estamos... Nos ouvindo? – Jim questionou, incerto.

— Parece que... Aquela coisa nos fez entrar na cabeça de Mike. Parece que essas são as memórias dele.

O irmão do meio olhou em volta. Sabia que ele estava se perguntando por que os dois haviam ido parar dentro de uma memória de infância.

Os olhos verdes foram para a porta. Memórias não eram lineares. Eram dispostas em importância, e os quão recentes e marcantes elas eram. Era possível que se eles abrissem a porta, passassem para a outra.

Talvez tivessem que chegar até as mais recentes para conseguir chegar à consciência de Michael e tira-lo daquele transe? Parecia... Invasivo, fazer isso com seu irmão menor.

Mas se já estavam ali, acabou indo até a porta. Quando abriu a porta, a chuva bateu em seu rosto.

— Sedbhergh. – reconheceu. Estavam numa rua estreita, com lojas em ambos os lados. Tinha várias casas em estilo escandinavo. A garoa fina estava caindo, mas não os molhava.

Viu então Melissa puxando Michael pela mão, saindo de uma das lojas de livros. Ela estava com um guarda chuva florido, enquanto ele usava uma capa de chuva amarela e galochas, aparentando já estar com uns seis anos.

— Cadê o Jim e o Vince?

— Eu os matriculei no taekwondo, eles foram para a aula.

Deu para um brilho se acendendo nos olhos dourados. Fora até fofo.

— Eu posso ir também?

Vincent ficou surpreso ao ouvir aquilo. Michael fora o único que nunca fizera nenhum esporte no geral. Ele sempre ficava em aulas de música, desenho ou teatro, portanto, nem passara pela sua cabeça que ele poderia estar remotamente interessado em alguma coisa.

— Não! Você é muito novo, quem sabe depois? Eu consegui matricula-lo no coral da igreja! Não é legal?

Michael deu um sorriso. Ele era um bom ator, mas deu para perceber que ele estava forçando.

— É. É sim.

—... Isso doeu. – Jim comentou ao seu lado. Teve que concordar.

A loja de livros que eles saíram... A dona do lugar era vizinha deles, uma senhorinha de uns sessenta anos, típica vovozinha, e depois da escola, eles aproveitavam o lugar para ir e fazer o dever de casa ali. Ela sempre dava um jeito de ter biscoitos.

— A livraria da senhora Clementine... Nós entramos nela? – Jim perguntou.

— Provavelmente.

O mais novo foi na frente, abrindo a porta da loja. Saíram numa sala de aula.

A professora explicava alguma coisa em frente à turma, e pelo banner disposto sobre o quadro, era sobre a Revolução Gloriosa. Logo ao final, ela começou a dar instruções de um trabalho em grupos de até cinco pessoas, e depois disse que eles já poderiam se reunir. Rapidamente a sala se encheu com o som de mesas sendo arrastadas, os grupinhos se formando e os alunos começando a conversar.

Foi difícil não perceber Michael – entre seus dez, onze anos — ficando sozinho no meio da sala. Ele olhou ao redor, meio tímido, como se esperasse que alguém o chamasse para entrar no trabalho.

Não aconteceu.

Ele acabou levantando e puxando sua mesa para mais perto da parede, atrás de um grupo de meninos. Quando ele a ajeitou, um dos garotos olhou para trás, claramente incomodado, e afastou sua cadeira dele.

Sentiu uma vontade quase incontrolável de socar a cara do moleque. Mesmo ele tendo uns onze anos.

A professora não falou nada sobre Michael ficar sozinho no trabalho em grupo, pelo contrário, sentou em sua mesa e ficou lendo um livro. Percebeu que alguns alunos claramente notaram Mike sozinho, mas nem ligaram.

— Meu pai disse que ele com certeza é viado.

— O meu disse pra nem chegar perto, vai que ele faz alguma coisa.

Risadinhas depois dos comentários abafados. Bando de mimados desgraçados.

Infelizmente, esse era um problema recorrente em cidades pequenas. Como eram comunidades menores – e por muitas vezes, mais isoladas -, sempre havia uma dose a mais de preconceito, em uma ou mais coisas. Só que ver crianças os reproduzindo tão facilmente era... Urgh. Principalmente sendo o seu irmão mais novo em questão. Sinceramente, com tudo o que ocorrera, Michael ser gay era o menor dos problemas, seus e de qualquer pessoa. Era uma questão dele e só dele, não deveria ter gente se intrometendo por causa disso.

Quantas vezes ele havia passado por aquilo? Ele nunca falara nada, mas era bem visível que havia o marcado.

— Sério isso? Sério? – Jim murmurou. – Acho que tem coisa melhor para fazer na vida além de julgar se alguém gosta de homens ou mulheres. Ou os dois ou nenhum.

Vincent passou pela bagunça de alunos e abriu a porta da sala.

Sentiu o nó se formando em sua garganta.

Um quarto pequeno de apartamento. O apartamento em que eles ficaram quando fugiram de Framlingham e as coisas desabaram.

Michael estava mais uma vez deitado de lado, voltado para a parede, e mais uma vez dava para ouvir Vincent e Jim discutindo. Mas não aquelas briguinhas de criança que cinco minutos depois já estão abraçados, mas sim uma briga que dava para ouvir que os dois pareciam estar numa disputa de quem gritava mais alto.

Ele estava arranhando o próprio pescoço enquanto ouvia. Com força. Uma porta foi batida com força, e então o menino puxou o lençol sobre sua cabeça, virando uma bola sobre a cama.

Deu para ouvir alguma coisa caindo no chão do lado de fora, mas fora isso, o apartamento fora tomado por um silêncio sepulcral.

O mais velho quase nem ficava lá, e admitia isso. Ele estava correndo de um lado para o outro – arrastando James consigo -, ligando para Lilith e Markus e arranjando a saída deles o mais rápido possível da Inglaterra, além de ficar sempre alerta quanto a alguém procurando por eles. E a cidade estava minada de agentes de Amabosar. Não exatamente atrás deles, mas pessoas que haviam se juntado a causa, e era desesperador, pois a sensação era de que estava se escondendo exatamente na toca do leão para se esconder do dito predador.

E o clima do lugar com Jim havia ficado sufocante. Eles não conseguiam manter uma conversa civilizada, eles gritavam, brigavam, e depois um desistia, dando o braço a torcer, e ia se isolar em algum canto.

Estava com a cabeça tão cheia com tudo, com Melissa, os homens que invadiram a casa, o que poderia ter feito para que fossem encontrados e toda a situação que fora bem fácil de esquecer como Michael poderia estar.

— Está tudo bem... – escutou a voz baixinha vinda do amontoado de cobertores. – Vai ficar tudo bem...

Começou a se sentir um lixo bem mais do que normalmente se sentia com aquilo.

Jim já abria a porta do quarto. Ele parecia estar fugindo de um fantasma.

Quando percebeu, estavam em seu apartamento de Atlanta. Jim estava sentado no chão, fazendo aquelas coisas de caligrafia que ele vivia fazendo, e Vincent estava na cozinha. O clima estava com aquele ar tenso que adquiria quando os dois acabavam ficando no mesmo recinto.

Mike estava sentado no sofá, abraçando seus joelhos com a expressão de quem só queria poder gritar.

— Eu... – ele começou na hora em que Vincent estava entrando em seu quarto. Só então foi perceber que o caçula estava tentando falar com ele. Michael pressionou os lábios, como se estivesse se obrigando a engolir um sapo. Ele acabou virando para Jim, que estava de cara fechada. – Eu vou ir jogar videogame.

— Tá.

Pela expressão que ele fez, ele parecia estar esperando que o do meio respondesse com um “eu também vou” ou algo do tipo.

— Dark Souls.

— Ok. – o outro respondeu no tom de quem terminava uma conversa.

Jim riscava o caderno com força. Mike estava com a expressão de um cachorro chutado. No fim, ele se levantou e arrastando os pés, foi para o seu quarto.

— Eu estou oficialmente me sentindo um lixo.

— Não é só você.

— Então... Nós passamos a nossa vida... Isolando Michael sem saber?

Essa era a questão. No início, ele e Jim eram uma dupla, e depois eles ficaram naquela guerra e deixaram-no no meio, sem saber o que fazer, muito provavelmente sem saber o que falar e sem saber o que pensar. Em praticamente tudo o que haviam visto até então, sempre que os dois estavam envolvidos, eles acabavam por deixar o menino de lado.

E Michael sempre fora tão... Animado. Ele era sempre a criança brilhante e extrovertida quando falavam com vizinhos ou professores, então também nunca pensara que ele poderia acabar sendo isolado numa turma por tomarem-no como sendo gay, nunca nem passara por sua cabeça o quão sozinho o mais novo dos três poderia se sentir.

Acabou indo pelo corredor do apartamento, que por vezes, parecia exaustivamente comprido. Parou na frente da porta do quarto do mais novo e a abriu.

Não acabou indo parar num lugar totalmente diferente. Era apenas o quarto de Michael.

Ele não era o tipo de pessoa que precisava milhares e milhares de dólares para fazer um quarto diferente. Muitas das coisas do seu quarto haviam sido feitas, pintadas ou modificadas pelo caçula, e ninguém poderia tirar seu crédito por aquilo.

As paredes eram brancas, mas elas tinham sido vastamente pintadas nos dois anos que moraram ali. Havia estrelas, monstrinhos criados pelo mais novo, árvores secas, cidades à distância, animais, coisas que normalmente seriam uma bagunça, mas que tinham sido dispostas de modo que você sabia que elas contavam alguma espécie de história pela forma que eram posicionadas. Embora ele nunca houvesse contado exatamente o que elas contavam. Muitos dos desenhos traziam detalhes em tinta neon, se iluminando quando a luz era desligada.

O resto do quarto era uma espécie de bagunça organizada. A cama estava arrumada com o edredom azul turquesa, mas estava cheia de papeis com um monte de coisas rabiscadas, alguns pareciam planos de como faria alguma coisa, outros eram esboços e ainda tinha alguns que pareciam listas de compras e/ou coisas a se fazer e seu computador escondido sob tudo aquilo. Sobre a cômoda dele estava uma bagunça entre a câmera Polaroid turquesa que ele havia enchido a cabeça de Vincent por duas semanas até ele comprar, fotografias, mais papel, além da sua coleção de fones de ouvido que eram bizarramente duráveis. De longe, conseguia enxergar um que cada lado era uma torrada e um grande que cada lado era a cabeça de um urso panda.

Seus livros estavam empilhados num canto e a grande maioria estava dentro de capas de tecido que ele mesmo havia feito e que também indicavam qual eram os seus favoritos e os que ele provavelmente nunca mais abriria. Sem contar os tecidos, EVAs, pedaços de borracha, palitos e todo o tipo de coisa que ele normalmente usava, numa bagunça do lado dos livros.

Michael estava sentado de costas para eles, sobre o tapete de pompons azul turquesa e branco que ele provavelmente também havia feito. Pareciam pequenos tufos de lã fofinhos e confortáveis.

Ele não fez nenhuma menção de olhar para os dois. Vincent deu alguns passos hesitantes para dentro do recinto, suas botas e o som metálico da armadura no geral soando absurdamente altos.

Não havia som nenhum do lado de fora. Nada de Vincent e Jim conversando ou brigando, nada caindo, simplesmente... Nada.

Como se respondendo a isso, Michael ligou música no seu celular. Só não ajudou muito o fato de ser Sia.

Ele estava fazendo um daqueles jarros decorados que provavelmente brilhariam no escuro. Vincent estendeu a mão e tocou seu ombro.

O mais novo pulou, pego de surpresa. Virou o rosto, dando de cara com os dois mais velhos, franzindo então o cenho.

— Vince e... Jim? – Questionou, estranhando que eles estivessem juntos. – Vocês... Por que vocês estão vestidos assim? Vão para algum efeito de cosplay ou coisa assim?

Quase deu um suspiro aliviado ao ouvir o tom ingênuo. Pelo menos ele não estava em uma caixa apertada sendo esmagado dentro da sua própria mente.

— Você está bem? – Jim perguntou logo.

Os olhos dourados foram do irmão do meio para o mais velho. Ele parecia estar questionando o que tinha de errado com os dois.

— Por que eu não estaria?

Ergueu o olhar. O local era tão convincente que era claro que ele não percebera nada de errado, mesmo que estivesse sumido há pouco mais de uma semana, que estivera andando por dias a fio, sem comer e sem parar, e que no momento estavam num local certamente proibido.

— Você... – Vincent engoliu o seco. Precisava falar a verdade para ele para que pudesse recuperar a consciência. – Isso aqui não é real.

Os olhos do menor questionaram a sua sanidade. Ele ainda segurava o seu jarro.

— Vince, você está bem? Da última vez você tinha sido atropelado...

— Nós estamos dentro da sua mente, Mike. – Jim acabou dizendo. – Nós não estamos em Atlanta. Você... Sumiu.

— Do que vocês dois estão falando?

— Escuta, Mike. – o mais velho pegou-o pelos dois ombros, girando-o de frente para si. Respirou fundo. Contar a verdade para Michael. Parecia difícil. Quando encontrara Jim, ele já sabia praticamente tudo que precisaria contar. A situação era a contrária ali. – Nós... Nossa família biológica não era normal, era uma família de bruxos.

— Hã... Acho que era melhor você ter vindo de Hagrid e dizer “Você é um bruxo, Harry!”.

— Michael, é sério. Nossa família se chama Rockstone. Ela é a família real bruxa. Quando você era um bebê, um grupo de pessoas tentou matar todos. Nossos pais eram o rei Angus Rockstone e a rainha Annelise Von Strahl. – engoliu o seco. – Nosso pai, nossas irmãs mais velhas, todos foram assassinados. Melissa era nossa babá na época, e ela conseguiu fugir conosco, e nos escondeu.

Michael o olhava com uma expressão que misturava a absolutamente séria com a descrente, o cenho franzido para ele.

— Por isso que nós vivíamos nos mudando. Não eram propostas de empregos novas para Melissa, ela mudava para que não ficássemos tempo demais em um lugar. O que aconteceu em Framlingham foi porque nos encontraram.

Jim não falou nada atrás dele, então ele não quis acrescentar nada.

— Eu sou o príncipe Alastair Rockstone, Jim é o príncipe Raphael Rockstone, e você é o príncipe Christian Rockstone. Quando eu viajei, alguma coisa entrou no nosso apartamento e arrastou você e Jim para nossa antiga mansão, e de lá, alguma coisa entrou na sua cabeça e passou a controla-lo.

O mais novo olhou para o outro irmão atrás de Vincent, como se esperando que ele o desmentisse, o que ele não fez.

— Isso já faz uns nove dias. Você veio para o Santuário de Alim, um refúgio para os bruxos e criaturas mágicas. Você domou um dragão e entrou no túmulo da nossa família, sendo controlado por essa coisa.

— Nós estamos no Túmulo agora. Numa área proibida dele, que você estava tentando acessar por algum motivo. Nós o paramos e... De algum jeito viemos parar dentro da sua cabeça.

— Eu... Vocês estão brincando comigo...

— Não estamos Michael. Você pode recuperar o controle da sua mente, mas você precisa acordar.

— Isso não pode não ser real, é o meu quarto, o Jim estava resmungando na sala agorinha...

— Quem está controlando a sua mente, Mike – o do meio interveio. -, criou toda uma ilusão para que você acredite que seja real e não recupere o controle. Você está dentro da sua própria cabeça. Nós precisamos sair daqui, antes que alguma coisa ruim aconteça. Você está mal, é para o seu próprio bem.

— Nós vamos sair daqui e voltar para casa, ok?

Michael olhou para os dois irmãos mais velhos. Ele não parecia muito convencido, mas ainda assim disse:

— Ok.

E com um puxão, voltaram para a realidade.