Coração de Porcelana

33 Capítulo 32 - Pacto de Sangue


Capítulo 32 – Pacto de Sangue

Vincent sentia como se quisesse matar alguém.

Jim estava dormindo agora, e nem parecia que até no máximo duas horas atrás ele estava quase morrendo. A única coisa que deixava o fato em vista era a região de sua têmpora esquerda, até quase o meio da cabeça, que havia sido cortada bem curta para que averiguassem o tamanho do estrago daquela pancada da cabeça.

Se fosse “antes”, talvez poderia fazer piada sobre Jim não gostar de sidecuts e ter ganhado uma de brinde, assim como tatuagens. Só faltava obrigarem-no a tomar refrigerante. Mas não estava com cabeça para aquilo no momento.

Duas caixas se materializaram na cama, pouco distante das pernas de Jim, fazendo-o erguer a cabeça. Eram pretas, e cada uma trazia um dragão entalhado em prata no tampo.

Aquilo era...

— Se está criando todo um discurso, saiba que aquela garota já está quase se sufocando com o próprio remorso. Deixe-a por si mesma.

Quase gritou quando ouviu aquela voz. Quando se virou para vê-lo, começou a tremer inconscientemente. Sentiu uma vontade quase incontrolável de vomitar, ou qualquer outra coisa.

— Ora, que cara é essa? – Seu pai murmurou. – Eu estou feliz em falar com você, só que... Antes que comece a gritar ou não sei o que essa expressão quer dizer, acho melhor sairmos daqui, não? Jim já teve um péssimo dia e acho melhor não acorda-lo.

Levou quase trinta segundos para conseguir ter algum controle sobre o próprio corpo. Seu irmão contara sobre o familiar, mas não parara para pensar qual seria sua reação se o visse a sua frente. Richard saiu pela porta, e com as pernas fracas, Vincent começou a segui-lo, tendo presença de espirito o suficiente para pegar sua capa e a espada, mesmo que não soubesse a usar direito. Qualquer coisa a usaria como um bastão de baseball afiado.

De alguma maneira conseguiram ir por um caminho que evitava todos os empregados e qualquer convidado que estivesse no castelo, e quando chegaram do lado de fora o frio quase lhe deu um soco na cara.

— Você sabe por que este lugar é chamado “Sombra da Asa”?

Piscou, se agasalhando melhor. Sua voz não queria sair, então maneou negativamente a cabeça.

— Antes do rei Alphonsus, havia três príncipes bruxos. Houve uma guerra contra eles, e neste local foi a primeira batalha em que ele desceu com seus dois dragões. É dito que eram gigantescos e que toda a cidade foi construída no ponto em que as sombras das asas deles primeiro bateram. O castelo foi construído onde eles pousaram quando terminaram a matança.

— Você já veio aqui.

— Você também. Sequer sabia andar na época. – respondeu finalmente se virando. – Mas esse não é o caso. Como você está?

Vincent se ouviu engolindo o seco. Estava se sentindo um lixo, como de costume, só que tinha certeza de que aquela não era uma resposta viável. Estava preocupado com Jim, com Michael, se perguntava como Claire estava se virando em sua própria busca. A espera no castelo o deixava exasperado. Sem contar que passara a vida fugindo do “fator linhagem” e do fato de ser um príncipe por um pouco de segurança, e agora tinha que andar por aí com o título e as pessoas o tratando como tal. Estava tão desconfortável e estressado que poderia morrer.

— Dá para ver pela sua expressão. Eu estive os seguindo durante anos, mas tenho certeza de que Jim já o contou sobre isso.

Ele com certeza deveria estar decepcionado. Vincent sabia que era covarde. E que o acontecimento de dois anos atrás aguçara o fato. No fundo sabia que era impossível, mas depois de todo o assassinato, quisera poder esquecer tudo o que acontecera, e crera quase piamente que, se o ignorasse o máximo possível, tudo poderia não se passar de um sonho ruim.

Seu pai suspirou. Além de – obviamente – parecer morto, ele parecia cansado.

— Eu não digo que aprovo tudo o que você fez nesses últimos treze anos, mas também não digo que não entendo seus motivos. Só que você tem que pensar que fará dezoito anos em agosto. Não dá para fugir de nada para sempre.

— Eu sei. Eu sei... – sua voz lutava para não sair e acabou passando a mão pelo rosto, envergonhado. – É que... É difícil... Quando saímos do esconderijo e vimos o senhor, a mamãe, e as meninas mortas...

Richard ergueu a mão, mas pareceu hesitar antes de dizer.

— Annelise está viva.

A cabeça de Vincent começou a doer mais ainda.

— Em grande parte, foi por isso que eu morri. As meninas estavam mortas, e ela estava agonizando. Amabosar queria matar os Rockstones, ela foi atacada por ser minha esposa e mãe dos nossos filhos. Dei minhas últimas energias para que ela ficasse viva, pois eu não tinha mais salvação. – explicou. – No caso, nos documentos saídos que informavam o meu assassinato e o de suas irmãs, além do desaparecimento de você e dos meninos... Ninguém reparava, por algum motivo, a ausência do nome da rainha.

— Mas... Mas onde ela esteve todos esses anos?

— Não sei. – admitiu. – Estive com vocês esse tempo todo. Mas tenho certeza que Seth, Elysandra e os Dalca sabem. Ela certamente se escondeu depois de tudo o que aconteceu, e não consigo imaginar como ela deve ter passado esse tempo todo.

Vincent conseguia em parte: O marido e filhas mortas, os filhos desaparecidos... Mais uma grande quantidade de culpa em sua cota já transbordante.

— Por que o senhor está aqui? – questionou por fim.

— Eu precisava falar com você.

Vincent sentia como se quisesse vomitar de novo. Uma vaporada de vapor saiu de sua boca.

— Passou sua vida toda negando seu sangue. Até Jim o aceitou mais rápido do você.

— É, eu percebi isso.

— Você não consegue perceber isso. Todos, seus irmãos ou as suas irmãs, sempre tenderam e vão tender a vergar para um lado: Dalca, Rockstone, Tenov ou até mesmo presentes de anjos. Você é o único que tem capacidade para tudo... E desperdiça.

— Eu...

— Você guarda medos demais do dia do assassinato, e novamente, não há como lhe repreender. Medo do escuro, por exemplo...

— É ridículo. – admitiu. Mas era verdade. Ficara trancado numa saleta escura durante horas enquanto literalmente ouvira sua família sendo assassinada do outro lado. Ouviu quando sua mãe e as meninas começaram a gritar por causa de seu pai, depois sua mãe gritando por causa de cada uma das garotas, e por fim... Os gritos pararam. Não dava para esquecer. Havia uma goteira, e cada gota soava absurdamente alta enquanto arranhava as paredes até arrancar as próprias unhas e mordia a própria língua com medo de gritar também. Porém mais do que medo do escuro, sentia medo do que a luz poderia demonstrar quando a escuridão fosse embora.

— Mas...

Um ruflar de asas e seu pai fez a expressão que fizera quando percebera algo errado no dia em que morrera, pouco antes de trancar Vincent. Aquela visão foi demais para si.

Um cheiro apodrecido tomou contar do ar.

—... Volte... – Richard começou, mas não teve tempo de terminar a frase.

Foi uma explosão de tanta coisa ao mesmo tempo que não conseguiu identificar muita coisa. Viu quando algumas coisas pularam em seu pai, mas logo elas saltaram em si antes de ter reação.

Aquele cheiro horroroso tomou conta de suas narinas, fazendo seu estômago começar a transbordar, e a escuridão tomou conta. Ouviu risadas debochadas como as de um corvo, mas era como se estivesse deitado como uma bola na água, sem qualquer menção a o que poderia estar o apoiando.

Então as risadas pararam e sentiu como ficasse sozinho no escuro.

“Pegue sua espada, pegue sua espada” uma parte de sua mente implorava, mas então o gotejar começou a soar.

Oh não.

Sua mão já estava na metade do caminho, mas travou de tal maneira que foi como se ele fosse o boneco, não Near. Sua respiração soava como se desse de frente a uma superfície de pedra.

Não, aquilo não era real, aquilo não era real.

— Parem, parem com isso!

— Papai!

“Pegue a espada, use magia, faça alguma coisa”.

Acabou vomitando sem conseguir se reprimir. Sentia seus membros tremendo violentamente e seus olhos queimavam, sua respiração saindo em ofegos dolorosos e sua cabeça se tornara um pedregulho.

Aquilo não era real.

— PAREM! ELAS SÃO CRIANÇAS! PAREM! – ouviu sob os gritos desesperados e chorosos de “Mãe! Mamãe!” que logo se transformaram em gritos de dor e agonia.

Mãe. Essa era a voz da sua mãe. “Não se concentre nela, concentre-se nela, não se concentre nela, concentre-se nela, não se concentre nela, concentre-se...”, sua mente se tornara um pêndulo. Mãe, mãe, era a voz da mãe dele.

Dalca.

Fora um reflexo, mas transformara todo seu corpo em um condutor elétrico.

As coisas gritaram e a escuridão deu uma brecha, assim como um pouco de ar fresco que tomou como se estivesse se afogando. Viu os olhos apodrecidos encarando-o furiosamente.

“Isso não é real” sua mente ressumou mais uma vez. De novo. Sentiu o formigamento por todo o corpo antes de soltar o que foi provavelmente o maior choque elétrico de sua vida.

Guinchos esquisitos soaram e asas meio podres, com partes dos ossos aparecendo, se abriram enquanto anjos meio defuntos, meio sapos, meio vermes, começaram a cair. Vários fumegavam, outros haviam se tornado literalmente pedaços de carvão.

E quando começou a cair, ousou olhar para baixo.

— Ah não. – gemeu.

As nuvens estavam a pelo menos centenas de metros abaixo dele. Sequer via o chão. Estava tão frio que sentia todo o suor que brotara em sua pele quando passara mal e ficara aterrorizado congelando sobre si dolorosamente.

Magia de vento, magia de vento...— tentou reunir forças para usa-la, mesmo que, de longe, era uma das casas mágicas que menos usara em toda a sua vida. Suas experiências se resumiram em fazer tampinhas voarem e a coleção de elefantes de Lilith, o que lhe rendera um salto alto cravado na costa, mas aquilo? Erguer o próprio peso com magia? James o fazia, mas vento era um dos seus principais elementos, não os de Vincent.

E para melhorar sua situação, depositara tanta energia naquele ataque que não estava em condições de nada.

— Legal, vou morrer. – gemeu. – Ah, eu vou...

Atingiu algo com tanta força que escutou – e sentiu – várias costelas quebrando e o impacto lhe trouxe sangue aos lábios. Sua perna bateu em algo mais fino, também não identificável, o que fez dobrar de maneira não natural. Seu braço que foi parar sob o seu peito teve a mesma sorte. A dor o acometeu de tal maneira que foi como se sua alma e sua consciência fossem arrancadas com garras de ferro fervente.

Voltou a si quando caiu no chão, o que lhe rendeu mais um longo momento fora do seu corpo junto a uma pancada na cabeça.

Até que viu o fogo.

Piscou, trêmulo de dor, medo e qualquer coisa mais que havia se embolorado em seu ninho de sentimentos confusos. Sentia como se quisesse deitar no chão e ficar lá até morrer, mas forçou-se a levantar a cabeça para ver o que estava acontecendo.

Mais uma vez teve certeza de que iria morrer.

—... Dragão.

O ser era... Gigantesco. Deveria dar no máximo um pouco acima de seu joelho, e a visão de Vincent estava tão embaçada que nem conseguia ver os detalhes da criatura direito. Via que suas partes superiores eram claras, e as inferiores escuras, e ele rugia furiosamente enquanto cuspia fogo em tudo ao redor deles. Por um milagre uma das patas imensas ainda não haviam o acertado.

Sentiu o ar se tornando carregado com a fumaça. Havia a dor aguda em seu abdômen, o que fazia com que sangue voltasse em direção à sua boca – por favor, por favor, que não houvesse rompido algum órgão – e havia toda a sua confusão de ossos quebrados mais o sequestro maluco por anjos que trouxeram à tona suas piores lembranças. O que poderia fazer?

Morrer era a opção mais próxima. E fácil.

Mas como Vincent era masoquista, ergueu um pouco o tronco, usando o braço esquerdo, o bom, como apoio. A dor aguda das costelas e abdômen combinados o fizeram soltar um grito e as lágrimas de dor começassem a escorrer como uma cachoeira, e também o fizeram ser notado pelo dragão.

— Merda. – grunhiu. Tentou usar a perna direita como impulso para alguma coisa. Um braço e uma perna boa, aquele era o seu dia de sorte. Não enxergava direito, deveria ter batido uma parte da cabeça que tinha a ver com sua visão, ou estava apenas zonzo mesmo.

Tentou se levantar mais uma vez, mas o regurgitou sangue, engasgando-se com o mesmo. É, estava muito morto mesmo.

O chão tremeu quando o dragão pisou, pondo uma pata de cada lado de seu corpo e lhe deu um rugido no rosto, tão próximo que sentiu seu bafo, e pareceu espocar algo dentro de sua cabeça de maneira extremamente dolorosa. Sentiu o sangue escorrendo por seus ouvidos. Bingo! Estava surdo também!

Fechou os olhos. Sem magia, sem membros úteis, sem uma boa visão e provavelmente sem a audição. Que ótimo jeito de morrer. Sentiu o calor se aproximando enquanto seus ouvidos zumbiam. Ou o dragão ia cuspir fogo em si ou iria comê-lo. Ótimo.

Então o chão vibrou, e o dragão saiu de cima de si. Sentia os tremores de terra enquanto ele se mexia sem nenhum sentido, mas sentiu mãos o tocando, uma, três, quatro, seis? Com um estalo doloroso, voltou a escutar o barulho do ambiente e sua visão clareou instantaneamente.

Aquilo com certeza era o que chamava de timing perfeito.

Os ossos voltaram para o lugar e a dor no abdômen parou, o que o fez respirar aliviado, erguendo a cabeça para ver o que havia o salvado afinal.

Primeiramente, a visão que lhe passaram era do que idealizaria de... Valquírias. Embora com certeza não fosse um guerreiro morto honradamente em campo de batalha que iria para Valhalla.

As que haviam lhe curado eram belas mulheres que estavam em armadura completa, cabelos trançados que escapavam de seus elmos e com suas armas no chão ao seu lado. Todas as três tinham asas, uma era roxa, outra era negra e outra azul escura.

Recordou-se de que Jim mencionara que Alphonsus comentara que Ailith tentaria mantê-los a salvo no santuário. Aquilo era uma senhora salvação.

Não...

Ailith não era uma anja guerreira. Porque seus anjos andariam por aí como seres da mitologia nórdica?

... Nórdica?

Alphonsus.— constatou. Bom, nunca falara com seu bisavô, mas a ajuda fora bem vinda de qualquer maneira. A anja do meio, com asas roxas pôs o indicador sobre os lábios, pedindo silêncio, e a de asas azuis lhe enfiou uma caixa entre as mãos. Ela deveria ter uns sessenta centímetros de comprimento, com entalhes como se fossem galhos de árvores e duas argolas, uma de cada lado, para que fosse carregada.

No segundo seguinte elas sumiram.

O dragão rugia. Parece que elas haviam o deixado sozinho para lidar com ele.

—... Não é porque o meu bisavô domou dois dragões, que eu vou saber como acalmar um! – sibilou, mas não tinha mais jeito. – Não tem como mandar um manual de instruções ou coisa do tipo?!

O dragão andava sem rumo, o ignorando. Aparentemente, ele gritava enlouquecido de dor, pois logo visualizou duas flechas, uma em cada olho, assim como lanças em seu pescoço e costas, e duas na pata traseira esquerda traseira, o que o fez se encolher, até com pena do animal. Sim, ele quase o matara, mas ainda assim... As anjas certamente não pegaram leve nele.

Como estava sendo ignorado – por hora – abriu a caixa, pois talvez houvesse algo que pudesse ajuda-lo a ao menos sair dali. Mas o que havia era um cesto, um chifre com diversos desenhos, uma pedra de amolar e uma adaga.

Vincent concedeu um minuto de silêncio às suas esperanças.

O chão tremeu quando, com um estrondo, o dragão caiu. Oh, ok, pelo menos não tinha que se preocupar com a possibilidade ser pisoteado agora.

Permitiu-se observar o ser, totalmente visível pelo fogo das árvores. Suas escamas eram em dégradé, as da altura de sua cabeça e costas eram dourado pálido e prateado, e iam do cinza ao preto na altura de suas patas, com escamas roxas e azul noite no ponto de encontro do pescoço dos ombros como se fosse um colar. A enorme língua azulada se dispunha para fora da mandíbula aberta, e de certa forma, a sua cabeça lhe recordava a de um leão. Havia dois chifres negros principais, mais compridos e direcionados para trás, e diversos menores sobre sua testa, quase como se fossem uma coroa, além de vários espinhos na parte inferior da mandíbula e na linha de seu tronco, diminuindo gradativamente.

Parando para pensar, fora provavelmente num desses espinhos que batera com a perna. Só tinha de entender como não caíra do dragão durante todo o percurso.

Olhou então para os itens da caixa. Um chifre, um cesto, uma pedra de amolar e uma adaga.

Sua cabeça estava funcionando de maneira estranha ultimamente, mas recordou-se da lenda da cornucópia, da multiplicação dos pães – apesar de não ser católico –. A cornucópia era um chifre que dispunha qualquer alimento, a multiplicação dos pães era óbvia, mas e o resto...?

Então se recordou dos Treze Tesouros da Ilha da Bretanha.

Havia os que se encaixavam ali, ao menos nos objetos: O cesto de Gwyddno Garanhir, que dizia multiplicar comida, o chifre de Brân Galed que vertia qualquer bebida desejada, a faca de Llawfrodedd, que servia comida a vinte quatro homens e a pedra de amolar de Tudwal Tudglyd, que dizia ser capaz de amolar as armas de um valente, mas nada fazia para um covarde.

Oh nossa…

Duvidava que fossem realmente os itens das lendas ali, mas eles certamente ofereceram alguma inspiração para algo dos Rockstones. O Manto da Glória só cabia nos dignos ao trono, como o manto de Padarn Beisrudd, que cabia nos corajosos.

Olhou novamente para os itens, e então para o dragão que havia perdido a consciência. Seu pensamento óbvio era de que teria que fugir, mas não fazia a mínima ideia de onde estava. E considerando que os anjos havia o posto naquela alucinação horrorosa, eles poderiam tê-lo posto em qualquer lugar, e ainda teve a carona do dragão. As anjas haviam lhe curado, mas não haviam lhe devolvido a magia para que pudesse retornar ao castelo por meio de uma viagem das sombras – mesmo que fosse aterrorizante para si, dado o seu medo do escuro.

Mas e... Se tivesse que ajudar o dragão para voltar?

Era loucura, mas era uma possibilidade. Não estava se equiparando a Alphonsus, mas seu bisavô tivera dois dragões e os montara. Ganhara respeito – e o trono – com isso, entretanto, mesmo que o símbolo dos Rockstones fossem aquelas criaturas, ele fora o único rei ou Rockstone a realizar o feito. O rei Augustus soltara os dragões no Santuário, pois não tinha como cria-los. Quando seu pai fora o rei, ele nunca havia visto um dragão.

Mas o que Alphonsus fizera? As pessoas só contavam sobre o fato de ele ter dois dragões e os domara já adultos, o que lhe custara um olho – na versão de Jim, ele parecia um Fantasma da Ópera sem máscara e menos feio -, mas nunca contavam como ele os fizera.

Atacar e fugir de dragões eram opções mais óbvias, mas... Ajudar?

Olhou para a própria capa. Estava suja de sangue. E neve. Além do cheiro podre dos anjos. Mas estava frio e não poderia descarta-la, então esperava que o senhor dragão não se incomodasse.

Pegou a adaga. Teria que retirar as flechas de alguma forma, mas aquilo iria doer. Tinha a sua espada, só que ela causaria mais estragos. Estremecia só de pensar. Pegou o chifre também, torcendo para que ele agisse magicamente, e não fosse apenas... Um chifre.

Aproximou-se cautelosamente do dragão, que nem se mexia. Sua mente funcionava mais como “fique longe da boca, ele te engole numa bocada”, e parou de frente para os olhos dele. Quer dizer, para alcança-los apropriadamente teve que subir em algumas escamas como numa parede de alpinismo. Três, mas ainda assim teve de subir.

Respirou fundo, olhando para o cabo da flecha que se dispunha para fora da órbita. E então o puxou.

Ficou feliz com o fato de que o dragão não acordou, mas ficou enjoado só de ouvir o som da haste passando pelo órgão. Subiu um pouco mais, sentando na ponte do nariz enquanto ainda se empurrava para cima com os pés, e usou a adaga não para perfurar – e ela não estava amolada, então não serviria para nada. -, mas para empurrar um pouco a... Pele? Para que a ponta saísse. O sangue do bicho era muito vermelho e fumegante.

Pegou o chifre, desejando qualquer coisa para que pudesse lavar a órbita, e agradeceu quando ele se encheu do que pareceu ser leite. Mesmo não o considerando muito prático, jogou-o no olho do dragão, que para a sua surpresa, fechou o ferimento.

Passou por cima do focinho e fez o mesmo do outro lado.

Os do pescoço foram uma viagem. Teve que subir na testa do dragão para alcançar um na nuca, e ficar sentado lá encima para tirar uma de cada lado. Era um trabalho metódico, só esperava que o dragão não se irritasse. Os da perna foram tranquilos, e logo havia acabado, mesmo que o ser continuasse inerte. Fora um trabalho metódico que o ajudou a se distrair do fato que havia revivido suas piores lembranças, além de que o fogo – a fumaça havia se extinguido, provavelmente pela presença das anjas – iluminava o local.

Olhou para cima. Deveria ser meia noite, dada a posição da lua. Será que já haviam dado a falta dele? E havia seu pai também. Aquelas coisas haviam pulado sobre ele. Mesmo que já estivesse morto, será que ele era imune aos efeitos de anjos? Esperava que sim.

Voltou para a caixa, pondo as coisas dentro dela, e então olhou o cesto. Sabia que tecnicamente era impossível gerar comida com magia, mas o chifre gerara líquido. Estava sem condições de comer qualquer coisa, mas talvez... Certo, o dragão era claramente um ser cujo tamanho dava para perceber que ele era capaz de engolir cavalos inteiros, mas... Um pouco de carne? Seria demais pedir para um boi aparecer ali.

E realmente aparecera um naco de carne. Que dava literalmente da altura de sua cabeça até seus joelhos, mas vendo o tamanho do dragão, aquilo era como oferecer uma uvinha para um doente. Agora entendia como Soluço se sentira quando fora atrás de Banguela apenas com um peixe.

Jogou a carne sangrenta no chão. Bom, querendo ou não, era um Rockstone, então sua força era superior a de um humano normal, o que deixava o peso não ser grande coisa para si, mas tinha certeza que, mesmo curando o dragão, e lhe dando um petisco, ainda poderia ser considerado o prato principal.

— O que eu faço...?

Olhou para a pedra de amolar. A adaga não estava amolada. E se... O cesto multiplicasse as coisas, como o de Gwyddno Garanhir? Vincent tinha certeza de que a carne estava além das habilidades, mas...

E se misturasse seu sangue à carne? Será que o dragão consideraria como se já houvesse o comido, considerando que o pedaço era quase do seu tamanho?

Parecia uma ideia horrível, mas era isso que sua mente conseguia formular.

Olhou para o dragão ainda inerte, para a carne, e então para cima.

— Um manual de instruções ia mesmo bem, sabe? – reclamou, mas obviamente não obteve resposta de seu antepassado.

Pegou a pedra de amolar, torcendo para que ela não fosse do tipo “só corajosos podem usar”, e então olhou para a adaga.

...Não parecia ser o certo...

Pegou sua espada. Bom, ela já estava amolada — dã -, mas...

Quando passou a pedra no fio, este começou a brilhar. Foram alguns minutos fazendo aquilo, e quando considerou que estava bom, ambos os lados da arma estavam iridescentes. Olhou-a.

Claro que não iria realizar um haraquiri, mas aquilo parecia uma ideia terrível. Mas ainda assim, apoiou a ponta dentro do cesto, certificando-se que o chifre estava por perto, antes de escorregar o pulso por ela.

Doeu como uma queimadura, e o seu pulso fumegou logo que terminou. Apenas algumas gotas caíram no fundo do cesto, mas quando olhou para o local que cortara, estava vermelho como se houvesse sido queimado. Ignorando a dor, fechou o cesto, esperando que desse certo. Esperou quase um minuto antes de abri-la de novo, e se deparou com um depósito de quase dois litros de sangue AB.

Pegou o cesto, que não vazou nada, e despejou o sangue na carne, tentando não pensar como aquilo era mórbido, e depois a carregou até próxima à língua estendida do dragão.

Esta se moveu como um ser independente até o alimento, e Vincent saiu do caminho antes de ser considerado alimento. Pegou rapidamente a caixa, que diminuiu tanto que pôde pô-la em seu bolso, indo então cautelosamente para um ponto em que o dragão não pudesse alcança-lo imediatamente.

Ele engoliu a carne numa bocada, e o fato não o impediu de virar sua cabeça para o rapaz, que xingou internamente. Seus olhos estavam cinzentos e leitosos, mas parecia que eles haviam apenas se descolorido, e ele ainda o enxergava.

Merda.”.

O dragão esticou pescoço até Vincent que procurou imediatamente por uma melhor rota de fuga, mas ele não fez nada. Quer dizer, lhe deu uma profunda cheirada que o fez desejar que: a) não fosse considerado um complemento da refeição; b) o cheiro dos anjos podres não incomodasse.

“Não me coma, não me coma, não me coma...” pensou, mas o dragão ao invés lhe deu uma lambida molhada dos pés a cabeça. Pedia aos céus que não fosse uma lambida experimental.

— E-eu não tenho mais comida, eu não tenho mais comida! – exclamou quando o começou a ser cutucado pelo focinho enorme. Acabou caindo sentado devido a força do ser, mas para a sua surpresa ele começou a... Ronronar?

Deveria estar ficando louco.

—... Quê? – o dragão se contorceu, levando a cauda até a boca, então a mordendo, o que fez chover sangue sobre Vincent. Fechou os olhos, e foi como se estivessem jogando água fervente sobre si, quase tudo parecendo ser vertido em sua boca. – Argh!

Querendo ou não, acabou engolindo o sangue, o que levou lágrimas aos seus olhos, fazendo-o recordar de quando estava afobado para jantar e acabava tomando a sopa de Melissa quando estava quente demais. Só que aquilo era sangue, e o sabor era demasiadamente férreo, fazendo parecer que engolia metal.

E depois... Foi como se algo estalasse em sua cabeça.

Era como se fosse um profundo e confuso redemoinho de sensações animalescas. Os olhos verdes piscaram. Sentia como se a dor estivesse se esvaindo e encontrava-se quase ansioso, além de... Orgulhoso? Honrado? Com algum sacrifício.

Hã...

Havia acabado de realizar um pacto de sangue com um dragão?

Notas finais
Como eu adoro lascar o Vincent... :D