Coração de Porcelana

12 Capítulo 11 - Realeza


Notas iniciais
Pessoas, desculpem a minha demora! Eu já tinha uma ideia fixa para esse capítulo, só que do nada vieram novas ideias, aí eu mudei tudo (esse capítulo, esse ponto de vista, esse tudo!), e tive de inventar nomes, classes e tudo o que eu já imaginava, mas não tinha nomeado nem organizado ainda de última hora. Bem, mas espero que gostem!

Capítulo 11 — Realeza

O som dos saltos baixos batendo contra o piso ecoou pelo saguão. O grupo de garotas seguiu em direção ao balcão da recepção, e Victoria sentia os olhares sobre elas. Sabia que eram um grupo que chamava a atenção, todas vestidas da mesma forma: saias de cintura alta e plissadas, com suspensórios sobre as camisas brancas de botões com fitilhos amarrados ao colarinho, além dos fascinators pontudos com véus presos em seus cabelos.

Com a mala de couro sofisticada em punho, Akinyi se destacou do grupo, andando até a recepcionista que as encarava com uma expressão de quase aterramento.

– Rudo Onwatuegwu deixou uma chave aqui.

– Hã...? Ah sim! – a mulher mexeu nervosamente nas coisas até encontrar as ditas chaves. – Aqui, para... Akinyi Onwa...

– Sim, sou eu. – ela tomou as chaves enquanto Victoria não deixava de sentir uma empatia pela mulher, já que também tivera dificuldades em conseguir pronunciar o sobrenome da outra corretamente.

Seguiram para o elevador e os momentos naquele cubículo foram tensos, graças à cara fechada de Akihime e sua aura pesada. Foram para o penúltimo andar, onde seguiram para o apartamento.

– Bom, agora cada uma pode pegar um quar... – Akinyi começou, mas o som de uma porta fechando e a falta da japonesa indicava que Akihime sequer esperara por qualquer instrução.

– Qual o problema dela? – Alasie questionou, já retirando o casquete da cabeça.

– Talvez ela esteja com raiva porque foi posta no mesmo grupo que nós, porque foi mandada para uma “periferia bruxa” ou porque esse apartamento não é uma cobertura.... – Stephania começou a listar num tom cínico.

–... Ou talvez porque ela seja nojenta assim mesmo. – Victoria observou, completando o pensamento da morena e fazendo as outras rirem em concordância. – Bom, podemos realmente pegar qualquer quarto?

– Sim, a menos que houvesse mais pessoas aqui. Esse apartamento tem seis suítes, sabe?

– Deve ser caro pra caramba também. – Stephania observou enquanto Anastasiya subia as escadas. Victoria pousou a mala no sofá apenas para retirar seu celular. Assim que o ligou, recebeu uma mensagem de Akihito, o irmão de Akihime: “A minha irmã está sendo sociável?”.

“Não.”.

“Era esperado. Estão em Atlanta?”.

“É. O teste, sabe?”.

“Também estamos indo. Na verdade, estamos aqui já, só não sabemos para onde devemos ir.”.

– Ei Nyi! – Victoria chamou a amiga que se direcionava para a cozinha. – O Akihito e o grupo dele também estão em Atlanta! E parece que eles não tem para onde ir!

– Quem está no grupo dele? – Stephanie questionou de algum lugar do andar superior. A mais nova do grupo fez a pergunta ao japonês pelo celular.

– Ele, o Anyu... – começou a dizer à medida que recebia as mensagens.

– O meu irmão? – Alasie questionou num tom incrédulo. – Pensei que ele não tinha passado no teste... Talvez eu tenha me deixado levar pelo fato de Kunik não ter passado.

– É, e... – Victoria piscou ao ler os outros nomes, descrente. – ...Ameen El-Amin e os gêmeos Guiscard...

– QUÊ?! – Ela só ouviu as exclamações que pareceram vir de todas as direções da casa antes de alguma coisa acertá-la, fazendo-a cair com um bufo no sofá. O celular pareceu voar de sua mão, sendo certeiramente agarrado pela mão certeira de Alasie.

– Ameen El-Amin e René e Éloi Guiscard?! Sério?! – Stephania exclamou. – Eles são as maiores delícias da Lord Alphonsus! Mande-os para cá!

– Tô mandando! – Alasie replicou no mesmo tom alto e histérico.

– Ai meu Deus! Phania e Asiya, temos que fazer cinco quartos agora! – Akinyi se encontrava igualmente surtada.

– Eu vou trocar de roupa... – Victoria gemeu, abraçando seu estômago e pegando sua mala, indo subir a escadaria. Escolheu um quarto aleatoriamente, e este era impressionantemente amplo, com uma janela panorâmica que dava total visão para a cidade. Via a entrada de um closet, além do frigobar, uma escrivaninha de aparência moderna e um sofá vermelho semelhante a um amontoado de puffs. – Acho que eu deveria ficar impressionada com isso... – Jogou a mala na cama. – Mas chegamos de jatinho, entramos num hotel caro...

Trocou de roupa, tirando os sapatos de fivela e a saia de um verde intenso e escuro e o fascinator da mesma cor, e trocou por uma calça legging preta com uma camisa da Princesa Caroço, para então ver o que poderia fazer com o seu cabelo. Era ruivo e muito volumoso, ligeiramente ondulado até a sua cintura e de vez em quando parecia ter vontade própria.

Enquanto o desembaraçava, deu uma olhada no espelho. Tinha olhos verdes e seu rosto era repleto de sardas. Não era nem muito alta nem muito baixa, e era magra, embora sempre tenha sido meio – muito – mole e sedentária.

– Pronto! – ouviu Akinyi exclamar audivelmente do lado de fora. Desistindo e resolvendo esperar a boa vontade de seu cabelo, saiu do quarto. – Vic! Se eles chegarem...

– Eu abro a porta, claro! Mas tem alguma coisa na geladeira?

– Provavelmente! – a negra já subia as escadas correndo. – Estou indo trocar de roupa!

Victoria seguiu para a cozinha. A geladeira estava abastecida, assim fez um imenso sanduíche em que acabou abusando – sem querer – do cream cheese. Sentou-se no sofá, equilibrando o prato no colo e com um copo de Coca-Cola em mãos. Nunca sentaria assim no Instituto.

Não demorou muito para que a campainha tocasse, mas àquela altura já havia chuva batendo contra o vidro. Limpou as mãos na lateral da calça, indo abrir a porta.

– Vocês chegaram rápido. – constatou ao ver Akihito espanando as gotículas de água de seu chapéu.

– Magia. – respondeu simplesmente, dando um abraço rápido na garota. – De quem é esse apartamento?

– Da família Onwatuegwu. – deu espaço para os rapazes entrarem. Assim como elas, eles vestiam-se de forma idêntica, como ditava o uniforme da Lord Alphonsus, com apenas algumas variações nas cores. Gravatas, camisas sociais, coletes e tudo o que havia direito. – Oi Anyu.

– E aí? – o rapaz tirou o chapéu da cabeça, cumprimentando-a em tom de brincadeira como se fosse um cowboy. Ele era o irmão mais velho de Alasie e ambos eram gritantemente parecidos com suas feições Inuits.

– Olá meu lindo irmão! – Alasie exclamou enquanto descia correndo.

– Eu não tenho direito. – foi a resposta imediata, fazendo os outros rirem.

– Olá! – Akinyi veio logo atrás. – Sejam bem vindos ao meu humilde lar!

– “Humilde”. – Anyu ironizou.

– Sim! – só então Victoria percebeu o imenso livro – ou o que aparentava ser, já que se encontrava dentro de um papel de presente – que trazia em mãos.

A ruiva voltou ao sofá afim de terminar seu lanche. Os rapazes também sentaram, tirando seus chapéus e blazers, desfrouxando as gravatas e desabotoando alguns botões da camisa e abrindo seus coletes.

Tirando por Akihime, as meninas restantes desceram as escadas, e depois de algumas conversas casuais e pedidos para Akihito convencer sua irmã a descer afim de que finalmente pudessem conversar com seriedade. Quando os dois finalmente voltaram, Akinyi começou a rasgar o papel de presente.

– Bom, nós – iniciou sua fala, e fez um movimento com o indicador abrangendo todas as garotas. – estamos aqui para fazer o Teste de Evolução, assim como vocês. Nós fomos designadas a encontrar dois artefatos mágicos.

– Nós também. – um dos gêmeos Guiscard disse. Victoria não sabia quem ele era, René ou Éloi, seus cabelos ondulados eram de um loiro sujo, escurecido, caindo por sua testa porém ligeiramente partidos na lateral esquerda, e seus olhos eram impressionantemente azuis. O que estava ao seu lado era completamente idêntico, tirando que seu cabelo era quase branco de tão loiro e partido no meio da testa, com olhos verdes. E aliás, ele parecia ter um olhar naturalmente petulante, mesmo sem dizer nada. – Quer dizer, nós só temos que procurar um....

– Nós temos que procurar dois artefatos Cloch Carraig. – Anastasiya pontuou, sua voz baixa e calma. Ela era alta – bem alta. – e magra, com cabelos negros caindo como uma cortina preta e lustrosa até a cintura, contrastando com a pele pálida e os olhos violetas.

–... O nosso também é Cloch Carraig. – o outro gêmeo constatou.

– O que é Cloch Carraig? – Akihime questionou com uma expressão entediada, sua voz era fina e antipática. Akihito a olhou de maneira repreensiva.

– Acho que você deveria saber, já que você estava conosco quando a diretora nos deu esse... – Stephania começou.

– Se eu perguntei é pra vocês me responderem, não pra vir com liçãozinha de moral.

– É a mesma coisa que Rockstone. – Anastasiya respondeu.

– Tá, e o que é Rockstone?

Dessa vez todos os olhares de descrença foram direcionados para ela. Akihito a olhava com um olhar que Victoria não soube dizer exatamente o que era. Vergonha, descrença?

– Isso é sério?

– Se não é do Japão, eu não me importo.

O irmão dela lhe parecia estar se segurando para não lhe dar um soco.

– Bom, só para lhe informar e te fazer sair do seu mundinho – Stephania começou, e o seu tom de voz fez com que Akihime se movesse rapidamente em sua poltrona, como se fosse fazer algo, talvez atacar a romena, mas seu irmão a pegou pelo ombro e a empurrou sem qualquer delicadeza de volta para o assento antes de qualquer reação. -, os Rockstones são basicamente a família real bruxa. Os únicos bruxos que podem controlar qualquer tipo de magia e tudo mais.

– Eles não estavam mortos? – Akihime continuou num tom desinteressado, olhando para as próprias unhas. – Pra quê procurar coisas deles? Não servem pra nada!

– Ignorem-na. – Akihito disse simplesmente. Quando sua irmã abriu a boca, ele só disse: — Cala a boca. E fique calada ao invés de ficar falando merda.

Victoria mordeu os lábios afim de evitar que a risada saísse ao ouvir o que ele dissera para sua irmã. Ela olhou para Akinyi, que revirou os olhos e continuou.

– Bom, nós fomos designadas a encontrar o Medalhão de Alphonsus e o Grimório de Enguerrand. Aí uma das minhas irmãs, Yewande, me deu esse livro quando ficou sabendo do teste como presente de aniversário adiantado. – Ela o ergueu. Era um livro de capa dura negra, cheio de detalhes e o principal símbolo eram os dois dragões formando uma flor-de-lis no centro, ambos envolta de uma pedra azul safira. O título era apenas “Rockstone, início ao fim”. – Ela disse que há tudo aqui, até as fotos dos artefatos antes de terem sumido.

– Os Rockstones são reis também em sumiço, não é? – o gêmeo mais loiro comentou. – O rei morreu, os príncipes desapareceram, artigos mágicos deles do início da era sumiram também....

– É.

– Bom, nós – Ameen finalmente falou. Ele era alto, de rosto bem desenhado e forte, de pele escura e cabelos negros como tinta e lisos, contrastando com os olhos azuis esverdeados. – temos que encontrar a Pena.

– Aqui. – Akinyi estava lendo o glossário e ao pressionar o dedo no capítulo que desejavam as páginas do livro viraram sozinhas até abrir na página desejada. A garota ainda virou as páginas por algum tempo antes de pousar o livro na mesinha de centro. – Aqui o Grimório. Dizem que era nele onde a primeira rainha inventava novos tipos de magia e poções. Outros dizem que era o diário dela. Não se sabe ao certo, nunca o abriram desde sua morte há... Quase um milênio?

– O que sabemos é que ele tem um valor inestimável. – Victoria disse.

– É. Tudo o que estamos procurando tem, na verdade.

– Por que puseram um bando de adolescentes para procurá-los? – Akihito questionou.

– Porque nós somos membros das dez famílias da alta realeza bruxa? – Novamente o gêmeo mais loiro disse num tom petulante. – Tipo, Guiscard, El-Amin, Deasún, Dalca, Tenov, Iñuksuk, Onwatuegwu e Hino? Só não temos nenhum Bessa e nenhum Niévre.

– O Bessa não é o cara que tem uns cem filhos? – Stephania questionou.

– É, mas no momento não sabemos de nenhum filho ou filha dele por aqui. Por enquanto. – Akinyi continuou. – Vendo que esse livro vai ser de grande ajuda, acho melhor então descansarmos da viagem e amanhã começarmos a conhecer a cidade, pois pelo visto vamos ter que andar muuuito nela.

– Mas sendo esses artefatos Rockstones, eles não deveriam tecnicamente exalar muita magia? – Anyu questionou?

– Se fosse assim, já teriam os encontrado há anos. – Alasie respondeu. — Junto com os príncipes.

– Isso se eles estiverem vivos, certos?

Victoria levantou, indo deixar o prato na lavadora de louça e subiu rapidamente até o seu quarto afim de buscar alguns livros que possuía que achara que poderiam ajudar... Claro que nenhum deveria ser tão completo quanto o de Akinyi, mas serviam do mesmo modo.

Travou ao entrar no quarto e ver um gato sobre sua cama.

Piscou, olhando então para a porta, tentando entender como ele entrara ali. Nenhuma delas levara algum animal, e aparentemente nenhum dos rapazes levara também. Voltou-se ao animal, observando-o com atenção. Ele era um animal elegante, de pelagem negra brilhante, limpa e penetrantes olhos dourados. Sua cauda movia-se de um lado para o outro enquanto encarava Victoria pacientemente, deitado como uma esfinge.

–... De onde você veio? – Questionou, e o gato apenas miou em resposta. – Talvez tenha entrado quando eu abri a porta?

Cuidadosamente se aproximou e pegou o animal, mesmo que ele não tenha apresentado qualquer sinal de resistência ou agressividade. Ele miou mais uma vez e a ruiva retornou à sala. Dos garotos, apenas Anyu restara lá.

– Alguém sabe de onde é esse gato?

– Hm? – Akinyi virou-se para vê-la sobre seu ombro. – Hã... Não.

– Não pode ter entrado quando você abriu a porta para os meninos? – Anastasiya questionou?

– Pode ser, mas ele apareceu encima da minha cama!

– Deve ser de um dos vizinhos. – Anyu constatou.

– Eu vou ter que ir batendo de porta em porta pra saber de quem ele é?

– Deixe-o no corredor que ele deve saber voltar sozinho para casa.

Suspirou, mas se dirigiu até a porta da frente, abrindo-a. Olhou o vasto corredor, não vendo ninguém, apenas a porta do outro apartamento e a escadaria de incêndio. Saiu, encostando a porta atrás de si, com o bichano ainda nos braços. Foi até a metade da extensão do corredor, mas não havia ninguém por ali.

– Eu não vou simplesmente te largar aqui...

– Hades? – uma voz alta ecoou, assustando a Victoria e fazendo-a dar um pulo. O gato miou audivelmente e percebeu o som de passos descendo da escadaria da cobertura.

Travou ao ver o dono da voz de antes – e provavelmente o dono do gato. -. Ele era pálido e alto, de ombros largos, embora não parecesse ter mais de dezesseis anos. Seu rosto era ligeiramente anguloso, de maxilar forte, nariz reto e olhos incrivelmente expressivos de um azul ainda mais claro que o de Guiscard, com o cabelo negro caindo-lhe desarrumado sobre a testa, até a nuca.

Sim, ele era absurdamente bonito, mas não foi isso que a fez travar. Os bruxos possuíam uma espécie de energia, uma aura mágica que flutuava ao seu redor visível apenas à seres mágicos. Aquele rapaz parecia ter tanta magia em seu corpo que ela fugia por seus poros, como manchas de tinta, uma poeira brilhante cobrindo-o como uma névoa que era uma mistura de várias cores até formar um violeta profundo que se esparramava pelo chão e subia em direção ao teto como uma nuvem de vapor.

Mas aquela era a questão. Só de olhá-lo, Victoria sabia que ele não era um bruxo. Pelo menos não ainda. A magia não fluía naturalmente de seu corpo, ela se empurrava para fora. Era alguém com um potencial absurdo para se tornar bruxo mas que por algum motivo ainda não se tornara.

– Ei, está me ouvindo? – Ele estalou os dedos na frente de seu rosto, fazendo-a acordar. Victoria imediatamente sentiu seu rosto esquentando. – Pode me devolver o meu gato?

– Aqui... Ele... Entrou no meu apartamento, então... – gaguejou, estendendo-lhe Hades.

– Ah, ele faz isso. – respondeu enquanto o bichano escalava para os seus ombros. Ele franziu o cenho para Victoria. – Você é nova aqui?

– Hã... Sim, cheguei hoje. – tomou cuidado para não atropelar as palavras. – Hã, bem... É, até mais, meu nome é Victoria Deasún.

Ele lhe ergueu uma sobrancelha, mas Victoria sabia que ele provavelmente deveria estar rindo de suas reações internamente. Seus olhos baixaram para a camisa do Iron Maiden que ele usava. Olhando bem, ele parecia ser alguém que gostava daquele tipo de coisa. Percebeu que ele olhava também para a sua camisa de Princesa Caroço.

– James Novak, mas pode me chamar de Jim... Princesa.

Notas finais
Jim provando que é irmão do Vincent ( ͡° ͜ʖ ͡°)