Notas iniciais
Olá, pessoas. Faz bastante tempo que não posto nada... Faculdade anda me roendo a alma. Enfim, trago este texto. Ele é parte de uma das coletâneas da Mayumi Sato e eu totalmente acho que você devia ir conferir os outros trabalhos. E participar, claro. Não deixem de conferir o tumblr que deixei nas notas da história. o/Boa leitura.

Olá, caros amigos e belas amigas; ou ao menos aqueles de vocês que sobreviveram às provas (ouvi dizer que o pessoal de Cálculo 2 quase não passou de ontem). Aproveitem para tomar banho, comer algo decente, avisar seus pais que estão bem, reencontrar os amigos! Tem festa da Engenharia hoje à noite e, já que eles não nos convidaram, nós nos convidamos! E pra acabar de vez com esse clima ruim, aí vai uma submissão anônima pro nosso jornal, uma que já estava guardada há algum tempo. Aparentemente, ela foi baseada em uma certa dupla de alunos da faculdade.

Divirtam-se, meus queridos.

“Tá, então eu não te amo.

Então eu não me apaixonei por você no momento em que te conheci. Assim como nós não fomos estúpidos em agir como não agimos, depois daquela estúpida festa que, é claro, não aconteceu. Nós não nos agarramos dentro daquele banheiro minúsculo no porão da sua casa. Nós não estávamos bêbados, também. É claro que não.

Vamos fingir que nada disso aconteceu, então.

Eu não passei uma semana tentando descobrir seu nome, e você não passou esse mesmo tempo fazendo o mesmo. Quando nós não nos encontramos, você não ficou completamente chocado ao descobrir que eu era mais velho. Já te disse que eu quase ri? Que eu quase te beijei ali mesmo? Ah, mas isso não aconteceu. É claro que não. Mas vamos lá.

Eu sei que eu não te amo, e sei que você sabe que eu não te amo. Finja que eu não estou corando, também. Eu sei que você não me ama, Alfred, e sei que você sabe que eu sei que você não me ama. Não finja que não.

Eu não sei como não aconteceu com você, mas pra mim foi quando eu vi seus olhos. Eu estava responsável por guiar os novatos, e você provavelmente nem se lembra disso. Até porque nem aconteceu mesmo. Não sei se já te disseram, mas eles são lindos; seus olhos, quero dizer. Não, na verdade eu sei, não posso fingir sobre isso. Odeio como as garotas sempre puderam falar isso abertamente enquanto eu estou aqui, confessando o quanto eu não te amo num jornal de quinta. É, eu definitivamente não sinto ciúmes.

Alfred, eu não sei se passei mais tempo não te amando, tentando não–não te amar, me odiando por não te amar ou te odiando por ter feito eu não me apaixonar por você. Não, na verdade eu sei sim.

Então vamos fingir que nada disso aconteceu. Vamos apenas fingir que eu não me chamasse Arthur. Só por um momento. Vamos apenas fingir que seu nome não é Alfred, também. Só por alguns segundos, eu juro.

Se meu nome não fosse Arthur, e se seu nome não fosse Alfred. Se não tivéssemos esses malditos nomes, se eu ou se você ou se nós dois fossemos diferentes. Você ainda teria me amado tanto quanto ama? Porque eu posso dizer, com toda a certeza do mundo, que mesmo se eu não me chamasse Arthur; mesmo se eu fosse Oliver, ou Alice, ou se você fosse Allan ou Amélia ou algo assim, eu ainda te amaria.

Eu coloquei todas essas malditas mentiras em itálico. Releia o prólogo. Eu cansei de fingir, Alfred. Cansei de fingir que não te conheço e cansei de te ignorar nos corredores. Meus amigos cansaram de te passar indiretas e os seus cansaram de tentar falar comigo. Não estamos mais no colegial, Alfred. Só porque você parou no tempo não significa que eu também parei.

E quer saber? Você nem vai ler isso, então eu digo.

Eu te amo.”

.

Arthur se encontrava sentado a uma das muitas mesas do refeitório, uma xícara de café esfumaçando em suas mãos. Ele encarava atentamente as letras que, unidas. formavam uma história a ele bastante familiar. Ele piscou algumas vezes e releu o texto estampado no jornal da faculdade, desacreditando no que seus olhos o mostravam. Não podia ser verdade. Que merda era aquela?

Arthur suspirou profundamente, apoiando a xícara na mesa e então a cabeça nas mãos.

– Alguém não parece muito bem esta manhã. Não me diga que já saiu alguma nota! Se o grande Arthur foi tão mal assim, nós, reles mortais com vidas sociais, estamos fritos! – O tom exagerado e provocativo lhe era familiar e, ao se virar, não se surpreendeu ao ver Francis Bonnefoy o encarando com olhos sorridentes, uma de suas mãos acenando mecanicamente.

– Sapo desgraçado...

Arthur o agarrou pela gola da blusa e puxou o garoto pouco mais alto que si para mais perto, deixando seus rostos a centímetros. E então se lembrou onde estavam, e de que certas coisas não deviam ser gritadas no meio do refeitório.

– Que merda você fez?! – murmurou, irado, praticamente cuspindo as palavras na face do francês.

– Espera, espera... – Francis solicitou, balançando as mãos de maneira inocente. – Não sei do que você está falando.

– Tenho certeza que sabe!

– Depende exatamente do que você está falando. Eu sei de muitas coisas. Sou um jornalista, tenho que estar sempre informado. Se puder ser mais específico… – Ele concluiu o seu discurso com um sorriso, que saiu mais torto que a encomenda.

Arthur, já impaciente com as desculpas do óbvio culpado, apanhou da mesa o jornal ao qual se dedicava até então. Trouxe-o para a cara do francês e apontou para o artigo e para o nome do garoto, logo abaixo do título.

– Oh – foi tudo que Francis disse.

Encurralado e sem boas explicações, não sobrou ao francês alternativa além de suspirar derrotado e pedir para que o inglês o seguisse, para que pudessem conversar a sós. Arthur concordou e o acompanhou até a sala do clube de jornalismo, que se encontrava vazia àquela hora do dia; era, afinal, plena hora de almoço. Foi só a porta ser trancada que Arthur partiu novamente para cima do outro, enterrando-o em acusações. Francis, por outro lado, nada disse; apenas esperou até que o colega de classe se acalmasse.

– Acalmou? Quer um copo de água?

– Eu só quero que me explique porque publicou aquilo. E como arranjou aquele texto. Você por acaso andou mexendo nas minhas coisas?

– Em minha legítima defesa, você mesmo que o deu para mim.

– O quê? – Arthur tinha as sobrancelhas contraídas.

Sem dizer qualquer outra palavra, Francis caminhou até um armário, um dos únicos móveis daquela sala, e remexeu em seu interior por alguns instantes. Pouco depois, direcionou-se à enorme mesa e largou sobre ela uma folha de fichário um tanto amassada. Arthur se aproximou, desconfiado, mas foi só ver a folha de papel que se apressou em apanhá-la e escaneá-la com os olhos. Aquela caligrafia um tanto garranchada, os borrões onde a borracha não trabalhara direito… Não tinha dúvidas, era realmente a sua folha, com o seu texto, que contava um de seus mais recentes sonhos envolvendo o seu melhor amigo. Meu Deus, o que Alfred pensaria quando visse aquilo?!

– Você realmente mexeu nas minhas coisas?! – Exclamou, por fim, já se levantando para acabar com a vida do francês, já que ele acabara com a sua.

– Eu já te disse que você que me entregou. – Francis se defendeu, jogando uma mão para cada lado e recuando alguns passos.

– Por que diabos eu faria isso?! – Arthur contestou, falando o óbvio.

– Quem mandou ser descuidado, e distraído.

Arthur se encontrava a pouco mais de meio metro de Francis, e nenhum dos dois ousava se mover sequer um milímetro. Seus olhares colidiam, ambos firmes. O inglês tinha uma sobrancelha erguida, numa interrogativa silenciosa. Vendo-se sem opções, o jovem jornalista cuspiu enfim as respostas.

– Na aula de Literatura – a sobrancelha de Arthur apenas ergueu-se mais – quando você veio me entregar o trabalho – os olhos do inglês se arregalaram; aparentemente, ele havia enfim começado a juntar todas as peças daquele quebra-cabeça – a folha meio que veio grudada. – Francis concluiu, jogando o olhar a um canto qualquer, desejando, mais que tudo, não ter que encarar o colega de classe naquele momento. Apesar de sua proclamada inocência, sabia que as coisas não eram bem assim.

– E você achou que não teria problema publicar aquela merda e acabar com a minha vida?!

– Ah, vamos, ninguém sabe quem são os dois alunos.

– Tá escrito na merda do texto! – Arthur deu dois passos para perto do francês, as mãos balançando descontroladas.

– Ah, vamos, você está sendo alarmista. Ninguém comentou nada.

– Até agora – complementou Arthur. – Mas vão. Sabe por quê? Porque é óbvio!

Francis suspirou, fechou os olhos e só então voltou a se pronunciar, suas expressões totalmente outras.

– Sim, é óbvio mesmo. É extremamente óbvio que você está caidinho pelo Jones! – Atacou o francês, que também deu dois passos adiante. Aparentemente, até ele já estava sem paciência. – Eu não precisaria ter feito isso se você já tivesse tomado alguma iniciativa!

– P-Pera. O quê?! – Arthur perguntou, franzindo o cenho. Francis fechou a cara em uma expressão frustrada.

– Você! Ele! Arghh! – Francis jogou as mãos para cima, deu meia volta e bateu a cabeça contra a parede.

Arthur apenas encarou a estranha cena, confuso com o comportamento do jornalista. Nada disse. Esperou até que ele se recompusesse e voltasse a se pronunciar, o que não demorou muito.

– Porra! Vocês se amam. Os dois. É recíproco! Por que diabos nenhum se confessou até agora?! – Arthur o observava, um tanto estupefato. – O jeito como vocês se olham, o comportamento, as risadinhas… Não precisa nem ser um gênio para perceber!

– Você por acaso andou nos observando? Isso é meio bizarro... E eu e o Alfred somos amigos desde o colegial, não tem nada de estranho na nossa relação. Você que está vendo o que quer, seu esquisito.

– Ha! Claro, porque amigos normalmente escrevem esse tipo de coisa um sobre o outro. Coisas como declarações de amor em histórias fictícias são a nova onda entre melhores amigos, principalmente entre os que se conheceram durante o colegial. – Francis rodou os olhos. – E vocês não são tão especiais assim. Como responsável pela maior coluna do jornal, faço dos meus olhos os da faculdade. Eu sei tudo que se passa dentre estas paredes. Sei que Ivan está se escondendo da irmã que o seguiu até a faculdade. Sei que Antonio terminou com Bella por se descobrir gay por causa de Lovino, o gêmeo italiano mais velho, do curso de fotografia. Sei também que Gilbert anda fodendo com o Roderich no piano da sala de música...

– Okay, eu não precisava saber disso…

– Não há nada que eu não saiba! Vocês não são especiais, nem exceção. – O francês deu de ombros.

Arthur apertou os lábios e cruzou os braços, sem saber o que dizer. Sabia que Francis estava certo. Sabia que estava deturpando a amizade dos dois com seus sentimentos egoístas. O que ele sentia não devia ser sentido, mas não conseguia evitar. Amava Alfred, isso praticamente desde que começaram a faculdade. Começou a vê-lo com outros olhos e não conseguia voltar atrás; o americano parecia sempre tão radiante…

Sem mais vontade de brigar com Francis, deu meia volta e direcionou-se à porta do clube. Antes de sair, porém, não deixou de esclarecer um mal-entendido.

– Talvez você tenha razão sobre grande parte do que disse, – murmura, sem olhar para trás, mas sabendo que era ouvido – mas os sentimentos não são recíprocos.

Dito isso, Arthur sai de cena, não se incomodando em ouvir a resposta de Francis.

.

No dia seguinte, apesar de toda a expectativa de Arthur, ninguém demonstrou qualquer reação ao dito texto. Diferente do que imaginava, não teve todos os olhares voltados para si, nem risadinhas ou comentários maldosos. Tudo corria estranhamente normal.

– Bem que suspeitei que ninguém além de mim lia aquele jornal – comentou para si mesmo enquanto arrumava suas coisas sobre a carteira, a sala vazia por ser, como sempre, o primeiro a chegar.

– Que coisa cruel de se dizer. A gente trabalha duro, sabia. E as pessoas estão sempre perguntando porque nosso jornal é semanal, não diário.

Sobressaltou-se ao se dar conta da repentina chegada do francês, que largara sua mochila na mesa detrás. Apesar de estranhar a súbita decisão do francês de se sentar perto de si, não contestou; ele era livre para sentar onde quisesse, afinal.

– Bom dia. – Francis sorriu em sua direção.

– Bom dia…

– Então, Arthur, alguém comentou alguma coisa?

Por algum motivo, aquela pergunta irritou Arthur, e o sorriso largo estampado na cara de Francis não colaborava para a sua irritação. Ele sentia como se um “eu te avisei” estivesse sendo esfregado na sua cara, e isso o fazia se sentir menosprezado.

– Ainda não – respondeu, simplesmente, virando-se para frente com a cara fechada.

– Você ainda acha que vão falar alguma coisa? – Francis suspirou. – Eu já disse: vocês não são especiais, nem exceção. Não é a primeira vez que faço esse tipo de coisa, e nunca deu problema. Sabe por quê? Porque ninguém leva a sério. Todo mundo vê os meus textos como a coluna ficcional do jornal, quando, na verdade, estou é jogando a verdade na cara de todo mundo.

Arthur nada disse, apenas encarou o francês pelo canto do olho, ainda desagradado.

– Então não é a primeira vez, hum. É tão legal assim se meter na vida amorosa alheia?

– Sim! – O jornalista sorriu ainda mais largo. – E é mais legal ainda ver que todos acabam ficando juntos no final!

O inglês corou levemente, sendo invadido por uma estranha esperança, resultante das palavras do jornalista. Francis limita-se a observar Arthur, bastante satisfeito.

– Se as coisas fossem assim tão fáceis como você faz parecer… – Arthur murmurou, virando-se novamente para frente, decidido a encerrar aquela conversa. Até porque a sala começava a encher e logo a aula começaria.

– O amor é sempre complicado, mas sinceridade é a chave, mon amour.

Arthur sentiu-se estremecer com as palavras de Francis, sussurradas ao pé de seu ouvido. Logo depois disso, a aula começou, não permitindo que Arthur se manifestasse. Tampouco ele conseguiu se concentrar na matéria de Literatura Nacional, que o professor explicava tão animadamente. Seus pensamentos estavam ocupados demais com o texto, com as palavras finais de Francis e, como não podia ser diferente, com Alfred.

Ao término da aula, o inglês não perdeu tempo em virar-se de costas para continuar seu assunto com Francis. Depois de toda a distração acarretada pelos comentários do francês, sentiu que ainda não havia brigado o suficiente com ele por ter publicado seu texto. Porém, encontrou nada além de uma carteira vazia.

– Droga – estalou a língua, apanhando seu material, já sabendo que teria que dar uma passada no clube de jornalismo antes de ir para casa.

Ergueu-se da carteira e atravessou toda a extensão até a porta. Quando saiu, porém, teve seus planos mudados ao ver Alfred o esperando. Este, quando o viu, sorriu de maneira nervosa e acenou. Surpreso com a súbita aparição do amigo, que era também a razão de seu próprio nervosismo, Arthur aproximou-se lentamente. Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.

– Boa tarde – Arthur disse, por fim.

– É… Oi. Faz tempo, né.

– É, a gente não se viu ontem.

– Sim, porque eu passei o dia no laboratório.

O silêncio novamente retornou, e era perceptível que ambos estavam desconfortáveis com aquela situação. As coisas definitivamente não estavam normais, e Arthur só conseguia pensar em um motivo para tudo aquilo: Alfred lera o seu texto no jornal da escola. O pensamento apenas deixou o inglês ainda mais inquieto. Mas antes que Arthur dissesse alguma besteira, o que era típico seu quando estava abalado, Alfred voltou a se pronunciar.

– Eu pensei que, já que a gente não se vê há alguns dias, nós podíamos ir para algum lugar depois da aula. Um café, ou alguma coisa assim. Você decide onde, já que da última vez você foi comigo no arcade.

– Ah. Parece uma boa ideia, mas... Mas eu hoje não vou poder… – Arthur coçou a cabeça, sem jeito. – Tenho cem páginas de um texto sobre Literatura esperando em casa, e tenho que fazer um resumo também. Tudo para amanhã. Desculpe.

Arthur queria bater a cabeça contra a parede, pois o que dizia eram apenas desculpas. Não sabia se conseguiria se comportar como normalmente na frente de Alfred até ter se acertado com… Bem, com tudo. Eram muitas coisas acontecendo. E também precisava pensar em como esconder o corpo de Francis depois que o matasse, e não queria que desconfiassem que o americano era seu cúmplice. Tinha também o medo que ele quisesse falar sobre o texto, e o repúdio que sentia em relação a ideia deles dois num… relacionamento.

Mas Alfred não podia ler mentes, e Arthur agradecia profundamente por isso. Assim, o americano respondeu seu discurso com:

– Nah. Tudo bem. Foi só uma ideia. – Alfred balançou a mão diante do rosto, abrindo um sorriso. – Vamos para casa, então.

– Certo.

Apesar de sentir que havia algo de errado, de diferente, Arthur não conseguiu evitar de sorrir para o americano, que abraçava um grosso livro de Astrologia. Ele estava, como sempre, radiante, e isso o confortava.

Durante todo o trajeto que fizeram juntos, que era até uma velha livraria duas quadras distantes da casa do inglês, Arthur não pode deixar que concluir que realmente havia algo de errado com Alfred. Ele estava estranho, e muito, mais que de costume. Eles andavam, lado a lado, num silêncio incomum aos dois. As olhadelas, os lábios se mexendo inquietos, a aparente vontade de dizer algo, mas preferir pelo silêncio… Tudo isso agitava Arthur.

Se inicialmente ele temia que Alfred estivesse incomodado com o texto e quisesse discutir o assunto, agora, a cada passo que davam, Arthur se via pensar que talvez não fosse bem isso. Apesar de toda a sua resistência, não pode evitar de se sentir esperançoso – apesar de saber que não devia, pois ser otimista machucava mais do que qualquer coisa.

– Você não quer que eu te acompanhe até em casa?

Foi então que veio essa inesperada pergunta, só antes ouvida por Arthur em duas situações: (a) quando estava doente e teve que ir embora mais cedo da escola; (b) em seus sonhos. Pego de surpresa, o inglês se viu sem saber exatamente o que dizer. Cuspiu o que achou, na hora, mais apropriado – pois demorar a responder também não era uma possibilidade.

– Ah. Não. Não tem porquê. Você também tem suas coisas para fazer, afinal. Não pode ficar perdendo tempo comigo.

– Não é como se eu fosse andar muito mais. E, na real, eu não tenho nada pra fazer. – Alfred insistiu. – Então deixa eu ficar um pouco mais como você, okay? – Concluiu com um sorriso infantil e olhos pedintes.

Àquela altura, o coração de Arthur já batia acelerado. Virando o rosto para o chão, não precisava nem de um espelho para saber que sua face estava extremamente corada. Seus lábios tremiam, as últimas palavras que ouvira da boca de Francis naquele dia ressoando em sua mente, influenciando-o a atitudes das quais ele certamente se arrependeria. Mas ele lutava para se manter consciente de que as coisas não eram simples, porque realmente não eram.

O silêncio reinou por alguns segundos. O ar que descia pela garganta de Arthur parecia mais sufocá-lo do que qualquer outra coisa. Quando decidiu erguer os olhos do chão, seus olhares se colidiram, mas nenhum dos dois fugiu daquele contato não-físíco; pois mesmo que Alfred estivesse a três passos de distância, Arthur jurava sentir os olhos do outro o tocarem.

Mas o inglês pouco aguentou e logo voltou sua atenção de volta ao chão, que lhe causava menor desconforto. Ainda assim, continuava com o coração a mil, e com a vontade de dizer o que não devia ser dito.

– Artie?

A voz foi proclamada próxima demais e, quando ergueu os olhos, encontrou o interlocutor com a cara quase grudada a sua. Por um momento, Arthur pensou que ele ia o beijar, mas logo viu que não era essa a intenção de Alfred, que se limitava a encará-lo com certa preocupação.

– Você está bem?

Os lábios de Arthur se moveram antes mesmo que ele se desse conta.

– Alfred, eu… – Arthur engoliu o seco, sentindo a saliva arranhar sua garganta durante o processo. Seus olhos voltaram a se fixar nos do garoto a sua frente, cujo olhar não abandonara o inglês um momento sequer até então. Com sua decisão feita, ele suspirou fundo e prosseguiu, seu olhar se tornando firme, ou o máximo que o foi possível. – Eu não posso continuar sendo o seu melhor amigo.

– Eh?! – Suas sobrancelhas saltaram, tamanha a sua surpresa.

Arthur, por um momento, sentiu-se culpado. Era evidente que ferira os sentimentos do colega com suas palavras que – ele não negaria – foram extremamente rudes, considerando há quanto tempo se conheciam. Todavia, as coisas não podiam continuar como estavam. Até porque, ele não aguentava mais aquela coisa de amar secretamente o seu melhor amigo. Era difícil, pois isso significava mentir para a pessoa que devia ser o seu confidente.

Apesar de odiar ter de concordar com Francis, ele estava precisando ser mais honesto. Mesmo que não desse em nada, precisava tirar aquele peso de si.

– Eu fiz alguma coisa?

– Não.

– Então por que de repente você me odeia?!

– Eu não te odeio.

– Ótimo. Eu também não. Então pare com isso e volte ao seu posto.

– Não posso fazer isso.

– Por que não?

– Eu preciso ir pra casa.

– Não antes de você se explicar.

Arthur suspirou fundo. Aquilo era mais difícil do que imaginava; não que imaginava uma reação daquelas. Ou melhor, imaginava uma reação daquele calibre, mas não que ele fosse exigir uma explicação. Não estava pronto.

– Estou indo.

Arthur fez menção de se afastar, mas, antes que pudesse realizar o fato, teve seu pulso agarrado com força, muita força. Seus ossos doíam devido à pressão.

– Eu já disse que não! – Alfred gritou, aumentando ainda mais o aperto, causando em Arthur uma careta de dor. Ele o solta logo a seguir, percebendo que havia se excedido. – Desculpa, eu não queria te machucar… Ou gritar... Eu só...

– Tudo bem – disse, esfregando o local que se encontrava vermelho.

– Mas, Arthur, me explica porque. Seja o que for, eu vou entender, e respeitar. Eu só preciso saber dos motivos.

Analisando a figura do americano, era fácil perceber que ele havia acabado a sua fase de explosão descontrolada e retornado ao seu estado triste melancólico. Arthur também se deu conta de que sua sinceridade precisava começar agora, nesse exato momento. Mas não estava pronto para se confessar, então contou apenas metade da história.

– Eu não posso continuar a nossa relação como ela é, pois não me sinto mais da mesma forma.

Os olhos de Alfred se arregalaram e encaravam Arthur com muita, extrema atenção. Ele se sentia em um exame de raio X, totalmente transparente aos olhos azuis. Seu coração batia acelerado, mas menos que antes, e não sabia dizer se o sangue havia abandonado a sua face ou se apenas havia se acostumado com o calor.

Alguns segundos se passaram até que o silêncio foi cortado.

– Sinto que estou levando um fora. Não que eu tenha levado um fora na minha vida, mas acho que é assim que se sente. – Alfred disse, simplesmente, coçando a cabeça. – Bem, acho melhor eu ir pra casa agora. Sabe, chorar e tomar sorvete. É o passo seguinte, né?

Sem saber como reagir, Arthur apenas deu de ombros, deixando que ele se afastasse. Não se move até perdê-lo de vista, o que acontece quando Alfred vira a esquina. Quando se vê enfim sozinho, permite-se relaxar, segurando-se num muro próximo para evitar bater seus joelhos contra o chão. Estava, de repente, sem forças. Talvez se conter para não pular em cima dele e gritar que ele não estava dando um fora, mas o total oposto tenha lhe custado bem mais energia do que parecia.

Com um suspiro, concluiu: A vida é mesmo uma merda.

Mais tarde, bem depois de chegar em casa e logo em seguida de ter terminado seus trabalhos, ou grande parte deles, apanhou o celular e, sem pensar duas vezes, fez algo que nunca pensou que faria. Percorreu a sua lista de amizades até ter seus olhos fixados em um nome em particular. Não pensou duas vezes antes de começar a digitar.

Arthur diz: A culpa é toda sua.

Não demorou até que o texto sob o nome mudasse de online, para digitando. Logo, uma luz azul anunciava a chegada de uma resposta.

Francis diz: ??

Arthur começou novamente a digitar, seus dedos atropelando as teclas mal planejadas no teclado do celular.

Arthur diz: O Alfred. A culpa é sua.

Francis diz: O que aconteceu?

Arthur diz: Eu rompi relações com ele.

Arthur diz: Por sua causa.

Francis diz: ??!

Francis diz: Você não tinha que romper relações!

Francis diz: Devia ter estreitado elas ainda mais!!

Francis diz: Pooorrqueee??

Arthur diz: Por favor, não digite assim.

Francis diz: *sigh*

Francis diz: Como quiser, mon amour.

Francis diz: Mas eu realmente não entendo o que… Ou melhor, PORQUE você fez isso.

Arthur diz: ...

Arthur diz: Então…

Durante os dois minutos que se seguiram, continuou com o odioso ato de digitar no celular, respondendo as perguntas que lhe eram lançadas, mas então viu que aquilo não era realmente necessário.

Arthur diz: Okay, eu não aguento mais. Vou ligar para você antes que eu destrua a tela do meu celular.

Francis diz: Certo. ^_^

A conversa então se prolongou por mais uma hora, mais ou menos, os ouvidos de Arthur já doendo e seu braço cansado de segurar o aparelho. Durante esse tempo, contou em detalhes a volta para casa, a discussão e tudo que esteve em sua cabeça desde que descobriu sobre esses sentimentos. Francis na maioria das vezes permaneceu calado, talvez a fim de não o interromper – gesto que o surpreendeu, pois o via como nada além de um intrometido. A vida às vezes é uma merda, outras uma surpresa. É… São assim que as coisas são.

– E não sei, achei ele meio estranho hoje. Não sei se ele leu o texto ou não, mas não consigo pensar em outro motivo.

“Estranho como?”, foi a pergunta vinda do outro lado da linha.

– Bem… Estranho como em estranho… Ele parecia estar prestando mais atenção em mim do que normalmente.

Francis deu uma risadinha. “Isso é bom. Eu disse que nunca erro.”

Com um suspiro, Arthur disse que iria desligar, pois estava ficando tarde e estava cansado. A verdade é que ele começara a se estressar com Francis, pois odiava particularmente essa sua atitude de sabe-tudo. Porém, o colega o interrompeu com uma última pergunta.

“Espere! Eu preciso saber uma coisa!"

Arthur esperou pelo pronunciamento do outro.

"Tipo... Eu sei que não somos lá muito amigos, por isso, eu não consigo deixar de me perguntar porque você veio falar logo comigo.”

Não eram aquelas as palavras que Arthur esperava, mas ele sabia que elas não vieram sem motivo. Sentiu que devia a ele uma resposta sincera, por isso, disse:

– Não é como se eu tivesse lá muitas opções. Além disso, você já sabe sobre os meus sentimentos pelo Alfred e parece incentivá-los, ou pelo menos não vê eles como um problema. Quando eu passava pela minha lista de contatos, vi seu nome e tudo que pensei foi que não tinha jeito. Tinha que ser você.

Francis deu uma risadinha.

“Então estou perdoado por publicar o texto?”

– Eu não disse isso.

“Ah! Uma última coisa. Quando vai se confessar? Você não pretende enrolar essa história por muito tempo, certo?”

Arthur não respondeu de imediato.

– Não. Eu preciso fazer isso logo, e direito. Ou posso perdê-lo. Preciso dele.

“É estranho ser o amigo gay quando eu não sou sequer gay...”

– Cala a boca – resmungou o inglês, ao telefone. – Vou desligar.

Mas Arthur foi novamente impedido pela voz do francês, que parecia vir do outro lado da linha apenas para o irritar.

“Espera! Nossa, quanta pressa!”

– Fala logo. Eu quero ir dormir.

Francis suspirou e então prosseguiu. “Quais os seus planos?”

– Planos?

“Pra confissão! Mon Dieu, eu realmente não posso deixar tudo nas suas mãos!” Eu ia reclamar do comentário, mas ele não me deu vez, e continuou a falar. “Você vai chamar ele pra sair ou vai deixar que as ações falem por você? Vai chamar ele para trás da quadra da faculdade ou vai falar com ele no caminho pra casa? Você sequer consegue dizer ‘Eu te amo’ pra ele? Porque não é fácil, e a relação atual de vocês não melhora a situação. Vocês sendo melhores amigos e tal...”

– Tecnicamente, não somos mais melhores amigos. Meio que voltamos à estaca zero.

Francis ficou em silêncio por alguns instantes, suspirou e então perguntou, em uma voz muito séria: “Você realmente acredita nisso?”

– Bem…

“Se vocês eram mesmo os melhores amigos que eu, que sou eu, sei que eram, então você pode dizer o que você quiser e nada vai mudar. Até porque, eu duvido que o Alfred vá aceitar isso tão na boa assim.”

– Okay, okay. Você pode ter um pouco de razão. – Arthur dá uma pequena pausa. – O que sugere?

“Por que não escreve uma carta e entrega pra ele? Você sempre foi um zero a esquerda pra comunicação, mas é bom com as palavras.”

– Uma carta?... É, pode ser. Acho que vou fazer isso.

“Ótimo. E para amanhã, viu?”

– Eu já disse que está tarde...

“E que precisa ir dormir. Eu sei, eu sei.” Ele completou as palavras de Arthur. “Não precisa ser cumprido e complexo, só sincero. Apenas poucas linhas. Só tem que conter os seus sentimentos, e nada mais.”

– Certo…

“Bem, vou desligar agora. Au revoir!” E, com aquilo, Francis fez o que Arthur vinha desejando fazer já há algum tempo: desligou.

Com o som do telefone dando como ocupado em seu ouvido, restou ao inglês nenhum opção além de pousar o telefone. Seus olhos caminharam até seu caderno, postado sobre a mesa, como o havia largado durante a tarde. Aproximou-se dele e passou a mão pelo papel, coberto pela sua caligrafia. Puxando a cadeira para mais perto, sentou-se a agarrou a caneta, girando-a na mão enquanto pensava sobre o que escrever na tal carta.

Já passava da meia noite, e os minutos passavam e nada. Ele já desistia quando teve uma luz, apesar de não saber se aquele era realmente o caminho. Mas sem ver alternativa, pois escrever uma carta romântica não fazia seu feitio, pôs no papel as palavras que ocupavam sua mente e seu coração. Daria um fim àquela história da mesma forma que começou.

.

No dia seguinte, chegou mais cedo ainda que de costume. Entretanto, não se direcionou ao refeitório ou à sua sala de aula, o que seria o habitual, mas à sala de jornalismo. Bateu na porta duas vezes, de leve, e aguardou. A sua mochila parecia mais pesada do que nunca em suas costas. Seus olhos rodavam de um lado ao outro do corredor praticamente vazio, inquietos. Quando ouviu o abrir da porta, voltou a sua atenção de volta ao alvo original.

Quem o recebeu foi um garoto baixo, de cabelos pretos bem arrumados. Seu nome era Kiku, e já o havia visto algumas vezes pelos corredores, inclusive na companhia de Alfred. Não sabia exatamente qual era seu curso, só que era da área de Exatas.

– Olá?

– Ah, eu vim ver o Francis. Ele já chegou?

Sem dizer qualquer outra palavra, o garoto se virou e chamou pela pessoa que Arthur viera encontrar. Com uma reverência, que o inglês retribuiu como pode, Kiku se afastou, dando lugar ao loiro mais espalhafatoso da faculdade.

Bonjour! O que posso fazer por você, meu caro Arthur?

Um tanto sem jeito e sem dizer sequer uma palavra, Arthur pousou a sua mochila no chão e abriu um dos bolsos externos, de onde tirou uma folha de caderno dobrada. Francis se limitou a observá-lo, sua boca fechada e seus braços cruzados diante do peito. Quando o papel lhe foi oferecido, o jornalista ergueu uma de suas sobrancelhas, confuso, mas o apanhou ainda assim.

– Quer uma opinião?

Arthur balançou a cabeça, negando, a sua face já um tanto vermelha. Seus dedos, entrelaçados, se esfregavam de maneira inquieta.

– Eu gostaria que você publicasse. – Arthur fugiu seus olhos para o chão. De repente, toda a conversa que teve com Francis na noite anterior parecia muito mais constrangedora.

Francis nada disse, apenas ficou tentando entender a situação que a ele não tinha o menor sentido.

– A sua carta? – Perguntou, para certificar-se.

– Bem, sim, mas não é uma carta. Eu escrevi um texto. Não sei se pode chamar de carta.

– E quer que eu publique? – As sobrancelhas de Francis continuavam erguidas.

– Sim, – uma pausa – por favor. Se não for problema.

O jornalista olhou para a folha que tinha em mãos e então a desdobrou, finalmente compreendendo a situação. Leu-a e sorriu ao que terminou. Subindo seus olhos de volta ao garoto loiro de grossas sobrancelhas que o encarava obviamente ansioso, e extremamente vermelho, aguardando a sua resposta, se viu sem alternativa além de coçar a cabeça e perguntar:

– Tem certeza? Não prefere entregar pessoalmente?

Arthur não respondeu de imediato.

– Se não tem como então…

– Não é que não tenha como. Eu posso até mesmo incluir no jornal desta semana, já que ainda estamos terminando de juntar o conteúdo. – Francis o interrompeu. – Eu apenas quero saber se você não vai se sentir desconfortável depois. Isso – ele balança a folha de caderno – é bem pessoal, afinal.

Mas Arthur estava decidido, por isso voltou a negar com um movimento da cabeça.

– Eu gostaria muito que me fizesse esse favor.

Francis sorriu e anuiu a cabeça.

– Se é assim que você quer, assim será. – Francis concluiu com um sorriso que Arthur não pode deixar de retribuir, timidamente. Com acenos, se separaram.

Por ser ainda cedo, Arthur decidiu passar pelo refeitório e pegar um pouco de café antes de ir para a sua aula, que começaria em pouco mais de trinta minutos. Durante o caminho, encontrou com Alfred, que vinha no sentido oposto. Quando seus olhos se encontraram, nenhum dos dois soube bem o que fazer. Pensando igual, ambos jogaram seus olhares ao chão, fazendo de tudo para impedir um possível contato visual.

Arthur e Alfred se cruzaram no corredor e prosseguiram com seus caminhos, nenhum comprimento ou palavra trocados entre eles. Aquilo era estranho, e desconfortável, pensou Arthur, mas ainda assim fora sua a decisão. Tinha que aguentar firme, mesmo que doesse.

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Como de costume, era uma quinta-feira quando o jornal ficou disponível à venda no refeitório. Arthur chegou cedo naquele dia e comprou o seu, que lhe custou apenas um punhado de moedas. Adiantou-se a uma das mesas e se sentou, observando por um momento que, bem diferente de sua acusação do outro dia, não, não era o único comprador do noticiário impresso da faculdade.

Depois de observar seus arredores por tempo que julgou maior que o necessário, voltou sua atenção de volta às folhas que tinha a sua frente. Abriu o jornal e, ignorando todo o resto do conteúdo, procurou pelo nome de Francis Bonnefoy, encontrando-o na página três. Ansioso, leu as primeiras linhas, constatando que sim, aquele era o seu texto.

Apesar de lembrar de cada mínima palavra, releu-o.

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Olá, sobreviventes da primeira leva de notas! Espero que todos estejam na média, pelo menos, senão, melhor começar a estudar já; o pessoal de Cálculo 2 que o diga (nunca vi tanto nerd deprimido junto). Mas já que não adianta chorar sobre leite derramado, espero que curtam mais esta submissão anônima, que não estou dizendo que está diretamente relacionada à da semana passada, mas está. Lembrando que ela foi baseada em dois alunos desta faculdade.

Divirtam-se!

“Eu queria poder dizer que estava errado quando menti. Queria mesmo. Porque não há nada pior do que o ato de te amar. Dói, Alfred. Você está sequer ciente das feridas que me deixa? Se as mentiras foram o problema, me deixe concertar isso. Dessa vez, é hora de dar espaço à sinceridade, que é algo que muito falta na nossa relação. Chega de fugir. Chega de meias verdades. Chega de tornar a história, a nossa história, mais interessante do que ela realmente é. Somos humanos, com vidas pacatas e desinteressantes. Somos estudantes de uma faculdade que mata nossas vidas sociais. Somos amigos, que vivem a aprendem mais a cada dia. Não somos especiais.

Dito isso, apresento a verdade:

Alfred, eu te amo. Desculpe por demorar tanto para admitir. Desculpe se não se sente da mesma maneira, mas eu preciso por isso para fora. Sobretudo, desculpe por eu não ser mais o Arthur que você conheceu; meus sentimentos mudaram, logo não me vejo mais como a mesma pessoa. Por isso, não posso continuar a nossa relação. Não posso mais ser seu confidente, seu consolo, seu melhor amigo. Não posso porque minha ambição vai mais longe que isso.

Quando te vi pela primeira vez, não me dei conta de que estes acabariam por ser os meus sentimentos em relação a você. Isso nem passou pela minha cabeça. Você era alguém especial para mim, sempre foi, mas não desta maneira. Eu gostava de sair com você, jogar com você, falar com você… Agora, meu gostar virou amar. Por favor, não me odeie por isso, ou por ter, inicialmente, deturpado a nossa preciosa história ao apresentá-la ao mundo. Eu não devia ter feito aquilo, porque, mesmo que não sejamos especiais, ela é, pelo menos para nós.

Mas vim consertar isso, aqui, neste mesmo jornal de quinta, que ainda sei que ninguém, muito menos você, irá encontrar. Gritarei ao vazio, e esperarei um dia ouvir o eco de sua resposta.

Sendo assim, Alfred, eu te peço por uma chance para me redimir. Eu gostaria de falar sobre os meus sentimentos e sobre nós, e espero que essa não seja uma experiência desconfortável para você. Eu realmente gostaria de apresentar a nossa história – a verdadeira, não a fantasiada – para o mundo. Quero que todos conheçam os motivos banais que me fizeram apaixonar por você.

Tudo começou no colegial. Não lembro se estava quente ou chuvoso ou com neblina, só sei que era o começo da terceira semana letiva do nosso primeiro ano e que estávamos na aula de matemática. Tínhamos que entregar uma lista de exercícios para o dia seguinte e eu estava me matando pois, como bem sabemos, eu não sou exatamente alguém de exatas. Enfim, eu estava suando para resolver aquela inequação de grau 2 quando você chegou e falou comigo pela primeira vez:

‘Ei, está com problema? Quer copiar do meu?’

‘Não, quero resolver para aprender como se faz. Na prova não vai dar para copiar.’

Lembro de nesse momento me perguntar porque você estava falando comigo, porque ninguém falava comigo.

‘Ah, deixa que eu te explico então.’

Aí você puxou uma cadeira e me ensinou a fazer todas as questões. E, a partir daquele dia, começamos a conversar, a sentar um do lado do outro nas aulas e a estudar juntos, eu te ajudando com humanas e você me salvando em exatas. Quando dei por mim, comecei a frequentar a sua casa e você a minha, nos tornamos melhores amigos. Foi uma época divertida. Nós estudávamos juntos, ríamos dos nossos colegas de classe, saíamos nos finais de semana para ver seja-lá-o-que-estivesse-dando-na-hora. Éramos melhores amigos e eu adorava ter alguém assim na minha vida.

Mas o tempo passa e as coisas mudam.

Foi durante as últimas semanas de aula do segundo ano que percebi que as coisas estavam começando a mudar. Nós estávamos discutindo sobre a faculdade e dizendo que seria muito bom se pudéssemos continuar juntos quando você subitamente começou a falar sobre algo que nunca comentou e, por isso, pensei que, como eu, você simplesmente não se importava com esse tipo de coisa: amor.

‘Arthur, o que é amor?’

‘Não sei.’

‘Assim você não me ajuda.’

Silêncio. Eu apenas não sabia bem o que dizer e, para ser sincero, estava um pouco assustado com a resposta que você me daria. E se você arrumasse uma namorada e isso nos separasse? E se você começasse a passar mais tempo com ela do que comigo? Ah. Mas isso ainda não era amor, era apenas a reação habitual de um melhor amigo carente.

Por fim, decidi que era melhor falar alguma coisa.

‘Está apaixonado por alguém?’

‘Hum… Não sei. Talvez.’

‘Quer falar sobre isso?’

Foi então sua vez de se silenciar, causando-me um nervosismo de trincar os dentes.

’Passo. Talvez outra hora. Ou quando eu tiver certeza.’

‘Okay. Você que sabe.’

E a conversa extinguiu-se aí. Passamos o resto do intervalo em silêncio, simplesmente olhando para o céu que, novamente, eu não me lembro bem como estava (mas acho que estava ensolarado, faz mais sentido). Com aquela conversa, meu caro Alfred, você me abriu os olhos para um mundo novo, onde o amor existia e era algo sobre o qual as pessoas realmente se preocupavam.

Pulando a fase chata das provas finais do colégio e época do vestibular, vou falar agora do momento quando comecei a ver que os meus sentimentos por você estavam se transformando e que era uma rota de mão única, sem voltas: o nosso primeiro ano da faculdade. Ou seja, dois anos atrás. Nós estávamos no refeitório e umas garotas vieram falar com a gente; com você, mais especificamente.

‘Desculpe, não pudemos deixar de notar que vocês estão sempre sozinhos. Pensamos que talvez estejam tendo problemas para se adaptar.’

‘Vocês são de que curso?’

‘Estão em que ano?’

‘Querem almoçar com a gente?’

Lembro daquelas garotas de caras muito pintadas sorrindo falsamente para nós, principalmente para você, e insistindo e insistindo. Eu, que nunca fui muito bom de interação social, estava extremamente desconfortável com toda aquela atenção. Foi então que você veio em meu resgate.

‘Vocês poderiam nos deixar a sós. Estamos bem sozinhos. Na verdade, preferimos assim.’

E elas foram embora. Vi-as pelos corredores algumas vezes durante o restante daquele ano – elas sempre me encaravam com um olhar de ódio quando me viam –, mas então sumiram. Bem, não me fazem falta, sinceramente.

Mas o importante nessa história não foi o seu ato heróico ou coisa parecida. O que mudou na minha vida naquele momento foi ver, com meus próprios olhos, você sendo alvo do interesse das garotas. Eu senti ciúmes, mas não como da última vez. Era um ciúmes forte e egoísta, que me fazia desejar esconder você em um baú no meu quarto para que ninguém mais sequer te olhasse (desculpe, isso é meio sinistro, eu sei).

Foi pouco tempo depois disso que sonhei com você pela primeira vez. Não vou dar detalhes, pois isso seria constrangedor. É algo muito pessoal, também. Só direi que de manhã acordei molhado e me sentindo o maior criminoso do mundo. Lembra daquelas três semanas em que eu tinha que, todo dia, ajudar a minha mãe com uns negócios do trabalho dela? E dos dois meses em que eu ia visitar a minha tia no hospital, e eu disse que só estavam deixando parentes entrar e que por isso você não podia ir comigo? Então… Eu meio que estava te evitando (desculpa). É que eu realmente me sentia muito mal perto de você. Eu me sentia o pior amigo do mundo. E eu só parei de fazer esse tipo de coisa porque… Bem…

Lembra o dia em que eu disse que não podia ir na sua casa porque estava me sentindo mal e talvez estivesse doente? Deve lembrar, porque foi um dia engraçado (okay, não tão engraçado assim). De um lado, eu dizia que eu podia ir sozinho, do outro, você insistia em me acompanhar e se irritava comigo por não te deixar me ajudar (quando eu, na verdade, nem tinha nada). No fim, você veio comigo até em casa e só foi embora depois de me ajudar a deitar, a medir a minha temperatura e a colocar o pijama. Aí, quando você saiu, eu me masturbei pensando em você (desculpa), e eu vi que não tinha jeito, que eu estava apaixonado e que ir contra aquilo só pioraria a minha situação e me afastaria de você. Por isso, decidi: (a) nunca mais fingir de doente, pois você ia aos extremos de preocupação comigo; (b) se para ter sua companhia sem causar desconfianças eu precisaria me tocar quase toda noite pensando em você, que assim seja. Preferia deturpar nossa amizade do que a destruir por completo.

A partir daí as coisas seguiram até que normal, apesar da faculdade ter começado a nos afastar um pouco nos últimos tempos. Trabalhos de mais para tempo de menos, sabe como é. Mas mesmo essa distância imposta não fez meus sentimentos enfraquecerem. Pelo contrário, o simples ato de te ver no corredor e falar com você é capaz de me animar e energizar, por mais cansado que eu esteja. Os seu sorriso cheio de covinhas, as lentes dos seus óculos refletindo a luz do Sol, o seu cabelo loiro um tanto desalinhado... Por passar menos tempo ao seu lado, comecei a dar mais atenção a detalhes que nunca me foram importantes. Afinal, por mais bonitos que sejam os seus olhos, não foram eles que me fizeram apaixonar. Foi o conjunto. Todavia, aprendi a notá-los e a amá-los, o que me faz tecnicamente amar você, Alfred, ainda mais. Passei a te amar completamente, cada mínimo pedaço que forma o seu todo.

Dito tudo isso, espero que mesmo que não possa responder aos meus sentimentos possamos continuar a ser amigos, mesmo que não mais os melhores. Você é importante demais para mim; não posso te perder. Todavia, estes sentimentos também me são especiais e acho que honestidade é algo que te devo. O que menos precisamos é de uma amizade desonesta, afinal.

Mais uma vez: Alfred, eu te amo. Muito. Demais.

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Quando tirou os olhos do papel e pousou o jornal novamente na mesa, não se importando em dobrá-lo, tudo que foi capaz de fazer foi suspirar. Arthur suspirou fundo uma segunda vez e então enterrou a cabeça nas mãos. Era realmente embaraçoso. Nunca ele achou que faria algo daquele calibre. Expor-se na frente na escola toda, dizer sobre seus sentimentos e sobre seus pensamentos mais íntimos… Parecia tudo um grande delírio. Sim, era isso. Só podia ser isso. Estava sonhando, e logo acordaria e veria que tudo aquilo fora uma brincadeira de sua mente levada.

Se ao menos isso fosse verdade…

Arthur rodou os olhos pelo local. Algumas pessoas sentavam com seus colegas, conversando e tomando o café ruim que serviam no refeitório. Outros liam o jornal, e estes o preocupavam. Quais as chances de passar novamente despercebido? Certamente não muitas… Suspirando pela terceira vez naquela manhã, socou o jornal em sua mochila e ergueu-se, caminhando em direção à sua aula. Não havia nada mais que pudesse fazer; agora seria o que Deus quisesse.

Quando chegou na sala de Literatura Nacional, encontrou Francis já sentado em umas das carteiras do fundo. Arthur o ofereceu um oi, ao qual Francis respondeu monotonamente. Arthur continuou a andar até alcançar uma das carteiras da frente, onde largou seu material. A aula logo começou e, por um momento, Arthur deixou seus problemas de lado.

Foi quando a primeira parte, de duas, da aula acabou e começou um breve intervalo que as coisas começaram a acontecer. Cochichos, risadinhas… Sentia-se observado, mas não havia nada que podia fazer. Olhou para trás apenas para ver se via Francis, mas o jornalista já havia abandonado a aula, visto que sequer o seu material estava mais lá. Bem, não é como se quisesse algo dele.

Logo, a aula recomeçou e as risadinhas tornaram a diminuir. Arthur agradeceu profundamente por isso, apesar de saber que quando tivesse que ir embora as coisas seriam bem piores. Ele escrevia em seu caderno, tentando anotar tudo que o professor falava e que ele julgasse importante. Apesar de escrever rápido, o professor atropelava as palavras, deixando as explicações mais desorganizadas do que o inglês gostaria. Arthur olhou para o relógio pendurado logo acima da lousa, surpreendendo-se ao ver que a aula já estava para acabar. Começou a juntar seus materiais quando a chamada foi iniciada. Ao ter o seu nome chamado, o que não demorou muito já que a lista estava em ordem alfabética, saiu da sala, o olhar no chão a fim de evitar contato visual com quem quer que fosse.

Quando alcançou o corredor, este se encontrava mais cheio que de costume, mas não pensou muito sobre o assunto e continuou a andar em direção à saída. Porém, não demorou até que os comentários começassem.

– É ele?

– Ele não parece gay.

– Eu pensei que ele fosse diferente. Não pensei que quem escreveu aquele texto fosse tão franzino.

– Ele não é da nossa aula de sexta?

– Sempre achei ele meio bizarro. Agora tudo faz sentido.

Arthur acelerou ainda mais os passos, tentando filtrar os sons que entravam por seus ouvidos, mas falhando miseravelmente. Queria fechar os olhos e não ter que encarar mais aquela realidade, mas precisava deles para enxergar o caminho, por isso, aguentou firme.

– Se fosse comigo eu não olhava mais na cara.

– Sinto nojo só de pensar.

– Coitado desse tal de Alfred. Seja quem for, ele não merecia isso. Ninguém merece.

Arthur sentia os olhos quentes e ardentes; foi pouco depois de descer a escada que sua visão embaçou-se. Deixou que seus pés o guiassem pelo caminho que bem conheciam, concentrando-se em evitar o choro que desejava escapar. Não demorou a avistar o portão, ou borrões deste, e a acelerar ainda mais. Porém, colidiu com algo, que o segurou pelos ombros fortemente.

– Arthur!

O grande borrão tinha olhos azuis e cabelos loiros, e o encarava muito preocupado. Por mais que quisesse estar enganado, Arthur conhecia bem o calor que o acolhia.

– Alfred.

Arthur fez menção de agarrar a frente da blusa do outro e esconder seu rosto nela, mas impediu-se. Que direito tinha? Não eram mais melhores amigos; sequer sabia se eram amigos depois de tudo que foi revelado. Mas também não sabia se ele lera o texto, e isso era o que deixava o inglês mais ansioso. Braços o envolveram, trazendo-o para mais perto.

– Você está bem?

Respondeu com gemidos que sim, mas Alfred não pareceu satisfeito. Porém, ele nada disse. Simplesmente o deixou ficar ali.

– Arthur… – Sua voz era baixa e gentil, sussurrada ao pé do ouvido. Arthur podia sentir seu hálito quente contra o seu pescoço, mas estava nervoso demais para aproveitar a sensação. Ele continuou, depois de uma pausa; parecia de repente bastante nervoso. – Sobre o texto…

– Então você leu...

Arthur se livrou do toque do outro e impôs certa distância. O conforto que sentia há pouco, nos braços de Alfred, extinguira-se. A realidade o atingiu com força na cabeça, fazendo-o novamente se lembrar da sua complicada situação.

– Bem, sim… Kiku disse que eu não podia perder. – Ele bagunçou o cabelo com uma das mãos.

– Kiku?

– Sim.

– Acho que isso foi coisa do Francis.

– O aspirante a jornalista da sua sala de Literatura Nacional?

– Esse.

– Pode ser.

Uma pausa. O coração do inglês batia rápido e ele ansiava pelas palavras que se seguiriam, e que definiriam a relação dos dois a partir daquele momento. Arthur estava com medo, e a aparente tranquilidade de Alfred o deixava ainda mais apavorado. Ele sequer se importava mais com a resposta, só queria o fim de tudo aquilo.

– Mas então, sobre o texto…

Arthur queria dizer algo, mas não tinha ideia de algo decente para falar. Assim, decidiu não interrompê-lo.

– Você foi meio injusto.

Arthur sentiu seu coração se apertar. Ali estava a sua aguardada resposta. Injustiça. Sua sinceridade foi injusta. Arthur já estava começando a cair em prantos novamente quando uma mão lhe veio ao queixo e ergueu seu rosto, de forma que ele encarasse o americano. Alfred tinha os olhos azuis mais radiantes que o Sol e um sorriso doce nos lábios. A sua face se aproximou da sua, mais e mais, e então ele o beijou. Confuso, Arthur ficou parado, sem saber o que estava acontecendo, ou porque, ou como… Nada fazia sentido. Porém, quem era ele para reclamar? Fechou os olhos e aproveitou o máximo que pode daquela oportunidade.

Alfred rompeu o beijo e se afastou um pouco. Ele nada disse por dez intermináveis segundos, que deixaram o inglês com os nervos cada vez mais a flor da pele.

– Arthur, eu também te amo – disse, por fim.

A confissão veio tão fácil e tão inusitada que Arthur quase não acreditou. Seus lábios se entreabriram e suas sobrancelhas se arquearam levemente.

– Só que os meus sentimentos por você são ainda mais antigos, desde o segundo ano do colégio. A pessoa que eu dizia não saber dizer se amava ou não… Bem, era você. – Ele balançou os ombros, sem graça. Ele estava agora um tanto corado. – E tudo que você fez, bem… Eu faço há muito mais tempo. Não tem que sentir vergonha ou se sentir culpado por isso.

O silêncio voltou por alguns instantes. Arthur simplesmente não conseguia formular frases coerentes naquele momento. Alfred também não olhava mais em sua direção, talvez por culpa de seu constrangimento. A face de ambos estava colorida de um leve escarlate.

– Eu estava pensando em me confessar desde que entramos na faculdade, mas aí você começou a ficar mais distante de repente, por causa da sua mãe e da sua tia, e eu comecei a achar que talvez as coisas estavavam melhor do jeito que estavam. – Alfred explicou, depois de um tempo, visivelmente incomodado pelas mentiras que ouvira por quase seis meses por causa de um mal entendido. – Quem diria que seria você a dar o primeiro passo.

– Quem diria que eu seria correspondido – Arthur replicou, mecanicamente, ainda meio aéreo.

Uma risada.

– Sério? Eu achei que estava sendo bem óbvio.

– Só que não – resmungou, contraindo as grossas sobrancelhas.

Alfred deu uma breve risada e então beijou Arthur novamente. E, naquele momento, eles viram, sentiram e decidiram: não tinha mais volta.

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Notas finais
Obrigada aos que leram. Se puderem deixar sua opinião, eu ficaria extremamente grata. Espero muito que tenham gostado.Sem mais nada a dizer, eu me despeço. Até uma próxima~
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!