Coração de Chicago
2 Capítulo 2 — Um Problema No Batalhão
ASSIM QUE EU CRUZEI TODA a entrada do Batalhão 51 — após ver o Caminhão 81 (o qual meu irmão era responsável), o Carro-Pipa 51, o Esquadrão 3, a Ambulância 61 e o carro do Comandante Boden —, vi alguns dos amigos do meu irmão ali preparando alguns equipamentos.
Mouch e Otis. O nome verdadeiro de Mouch era Randall e o de Otis era Brian. Mas todos os chamavam pelos apelidos e eu não sei a causa dos apelidos até hoje. Então, não me pergunte.
Mouch era um senhor que parecia ter quase sessenta anos, e ele não tinha nenhum fio branco em sua cabeleira cor de areia, ele até tinha um bigode. Mas não o subestime, pois ele tem bastante energia para ser um bombeiro. Otis era um cara que parecia ter no máximo trinta anos, cabelos pretos, bigode e um estranho triângulo de cabeça para baixo em seu queixo — aquilo era sua marca. Eles dois pareciam ter o mesmo tamanho; eles eram pessoas legais.
— Ei, gente — os cumprimentei.
Eles me olharam e sorriram para mim.
— Ei, garoto — disse Mouch.
— E aí, Cam — disse Otis.
Sorri para eles.
— Vocês viram o Matt por aí? — perguntei.
Para mim, meu irmão deveria fazer o mesmo que eles dois estavam fazendo, mas eu acho que ser o Tenente tinha suas vantagens. Vai entender. Deve ser coisa de bombeiro, pensei.
— Lá dentro — disse Otis indicando a sala do Batalhão 51 com o polegar.
— Vai, pode entrar — disse Mouch com um sorriso.
Sorri para eles novamente.
— Obrigado — disse eu e segui para dentro da sala.
A sala deles era incrivelmente grande e aconchegante. Tinha uma mesa enorme à minha esquerda com mais de dez cadeiras de madeira maciça e vernizada. À minha direita tinha um sofá grande e, de frente para o sofá, tinha uma tevê de 45 ou 51 polegadas, não sei. Atrás do sofá tinha uma mesinha redonda que poderia abrigar umas cinco pessoas. Bem a minha frente no corredor, tinha uma cozinha. A cozinha, olhando da entrada, vinha um muro com a chapa que se fazia as frituras e atrás da chapa tinha a pia; era bastante enorme também e tinha alguns armários aos lados que continha pratos, facas, garfos e colheres, xícaras, canecas e copos. Também tinha armários embaixo da pia, onde tinha as panelas e tigelas. Uma cozinha aberta e incrível.
Adentrei ali, mas não encontrei meu irmão, pois a sala também estava vazia. Estranho.
À direita da cozinha tinha uma porta que levava para o outro lado do Batalhão 51.À esquerda tinha um corredor que ligava o escritório do Chefe (ou Comandante, se preferir) Boden, a sala de descanso dos bombeiros — mais conhecido como dormitório —, duas salas, um pequeno escritório para os Tenentes (contendo uma cama em cada sala), o banheiro e o restante de todo o Batalhão 51.
Como meu irmão não estava ali, segui para a esquerda, indo para a sala de meu irmão e, como esperado, ele estava lá. Eu reconheceria aquela cabeleira loura igual a minha e ombros um tanto largos de longe. Ele vestia a blusa cinza do Tenente do Caminhão 81 que continha um símbolo em cada ombro e tinha seu relógio de pulso preto no pulso esquerdo, e, de onde eu estava, dava para ver sua calça social preta e sua botina. Sua roupa de trabalho não mudava nunca. Ele mexia em alguns papéis e continha uma caneta em sua mão direita.
Bati na porta três vezes e girei a maçaneta.
— Incomodo? — perguntei e sorri.
Ele virou a cabeça para mim e me olhou como se estivesse cansado, ou coisa parecida.
— Ei! — disse ele e sorriu. — Entre.
Ele fez um gesto com a mão para que eu entrasse e assim eu fiz.
Assim que adentrei em sua sala, sentei-me em sua cama e tirei a mochila das costas. Tirei o capuz da cabeça e agradeci por ter o possível roxo no lado esquerdo do rosto — de onde ele estava só conseguiria ver meu lado direito e pouco do esquerdo; daria para esconder dele, pensei confiante.
— Saiu cedo da escola — disse ele. — Por quê?
Tentei me recordar, mas o que só vinha em minha cabeça era eu levando socos no rosto. Mas, por sorte, eu não consegui esquecer o que o diretor tinha dito para nós. Reunião de professores...
— O diretor disse que teria uma reunião de professores — disse dando de ombros. — Daí eu resolvi passar aqui para dizer oi.
— E veio a pé? — ele arqueou uma sobrancelha para mim.
Neguei com a cabeça.
— Jessica me deu carona até aqui — disse eu.
Ele assentiu.
— Se incomoda de eu terminar essa papelada aqui? — ele indicou os papéis a cima de sua mesa. — Depois te dou mais atenção.
Bufei e ri.
— Matt, relaxa — disse eu, ainda rindo.
Ele sorriu e virou-se para os papéis.
Franzi a testa.
— Afinal, o que é isso? — quis saber e tentei olhar para os papéis.
Ele me olhou e voltou para os papéis.
— Ah, alguns relatórios... — disse ele. — Ser bombeiro é ótimo, mas ter que fazer esses relatórios é um tremendo saco — ele suspirou e passou a coçou a cabeça.
— Saquei.
Dizendo aquilo, me joguei na cama dele.
— Não seja tão folgado — disse ele batendo em meu tênis.
— Estou cansado — rebati.
— De fazer o quê?
Abri a boca para falar que eu tinha tido um pequeno episódio com Paul e seus amigos, mas pensei duas vezes e fechei a boca.
— Tive uma tensa aula de educação física — menti.
Ele me olhou desconfiado.
Matt sabia que eu não mentia direito e eu tinha certeza que ele não tinha acreditado em mim. Afinal, eu não era um bom mentiroso.
Ele voltou a mexer em seus papéis
— Educação física, é? — perguntou ele escrevendo nos papéis.
— É...
Foi só o que eu disse e o deixei mexer em seus papéis.
Eu não podia contar o que tinha acontecido comigo na escola, Matt ficaria louco. Provavelmente ele iria à escola tirar satisfações com Paul e depois com a diretoria da escola, e, o pior, poderia me tirar da escola. Eu não podia dizer nada.
Eu não me via em outra escola sem Ryan e sem Jessica. Eu não podia arriscar a perdê-los. Eles eram pessoas bastante importantes para mim para perdê-los por um motivo bobo como aquele.
Mas, de alguma forma, aquilo me deixou nervoso. Eu queria contar para ele, mas ao mesmo tempo não podia e mentir para Matt me deixava tão mal que me dava vergonha. Meu coração começou a acelerar e minha respiração começou a ficar ofegante. Eu sabia que se continuasse daquela maneira eu só pioraria a minha asma, mas eu não conseguia controlar minhas crises asmáticas.
A falta de ar começou a surgir e minha cabeça começou a girar. Minha visão começou a ficar turva e eu não conseguia enxergar a minha mochila direito; eu estava prestes a desmaiar por conta da falta de ar. Tentei me colocar sentado, mas não consegui. Aquilo só fazia minha crise piorar. Mas, com bastante esforço e retirando boa parte do pouco ar que eu tinha, consegui me sentar.
— Matt... — falei o nome de meu irmão bem baixinho, pois a crise asmática não me deixava fazer mais do que isso.
— Cam, eu tenho que terminar esses papéis... — disse ele.
Eu comecei a puxar todo o ar que eu podia da atmosfera para os pulmões, mas não consegui. Parecia que nada do que eu fazia enchia meus pulmões com ar; era inútil. Comecei a mexer em minha mochila — quase não enxergando nada por conta da visão turva e a tontura que a crise asmática estava me causando — à procura de minha bombinha, mas minhas mãos tremiam tanto que eu não a conseguia abrir qualquer zíper da mochila. Minha visão começou a ficar escura...
— Matt! — falei um pouco mais alto e aquilo tomou quase todo o meu ar.
Pus a mão no peito de tanta agonia.
Matt me olhou com certa raiva, mas bastou para seus olhos se fixarem em mim que ele mudou de semblante rapidamente. De raiva ele pulou para preocupação.
— Cam! — gritou ele.
Ele me deitou na cama, mexeu em minha mochila, jogando tudo na cama. Quando achou minha bombinha, Matt segurou minha cabeça e a colocou em seu colo. Depois ele pôs a bombinha em minha boca, apertou a alavanca e puxei todo o ar que podia para meus pulmões.
Ar...
Senti o ar passar pela minha garganta e ir diretamente para meus pulmões, me fornecendo ar. Depois disso, inspirei profundamente e finalmente consegui puxar ar para meus pulmões.
Ele ficou mexendo em meu cabelo.
— Ei, amigão... tudo bem — disse Matt. — Tudo bem, vai passar... você vai ficar bem, O.K.?
Comecei a relaxar. Senti minha respiração começar a ficar mais controlada e meu coração desacelerar. Minhas mãos pararam de tremer e minha visão começou a voltar ao normal, e minha tontura começou a cessar; eu estava começando a melhorar.
Passou alguns minutos e eu já estava me sentindo bem. Fitei Matt e ele sorriu para mim.
Eu era grato por tê-lo como irmão. Matt sempre cuidou de mim — mesmo tendo passado por muita coisa no ano passado — mais do que um irmão; como um pai. Eu não podia reclamar dele por estar mexendo em meu cabelo daquela maneira. Ele era meu irmão e pai ao mesmo tempo e pais faziam aquilo com os filhos... não faziam? Bem, não eu sei, porque eu não tive meu pai em minha vida por muito tempo para saber como era exatamente essa ligação de pai e filho, pois meu pai estava morto. Eu não lembrava muito dele, mas isso é outra história.
De qualquer forma, o sorriso de Matt se desfez quando ele focalizou meu rosto. Ele franziu a testa para mim e, virando meu rosto para meu lado direito, ele provavelmente viu o que eu tentei esconder.
— O que houve com o seu rosto? — perguntou ele, ainda com a testa franzida.
Sim, ele viu o roxo em meu rosto. Droga!, pensei.
— Ahn... — ajeitei-me na cama, sentando-me nela. — Nada de mais.
— Não parece nada de mais para mim — disse ele sério.
O que eu poderia dizer para ele? A verdade? Isso estava fora de cogitação. Matt iria enlouquecer se soubesse e eu tentei me controlar, porque eu sabia que se eu continuasse com aquela linha de pensamento, eu poderia ter outra crise e aí sim ele realmente desconfiaria de mim.
— Eu bati com a cara na porta do armário da escola... — menti novamente. — Bem, na verdade, a porta bateu em minha cara — ri nervosamente.
— E como isso ocorreu? — ele franziu a testa para mim.
— Bem, o armário não estava querendo abrir quando pus a senha no cadeado, daí eu fiquei puxando, puxando e puxando, e, quando finalmente abriu, meu rosto estava perto da porta e... — fiz um gesto com o punho esquerdo batendo em meu rosto. — A porta bateu em meu rosto.
Eu sabia que era uma mentira bem ruim, mas era a melhor que eu tinha. Queria que pelo menos qualquer um de meus amigos estivessem ali, eles poderiam me ajudar a confirmar a mentira... quero dizer, ao menos eles deixariam a mentira mais convincente do que eu.
— Certo... — foi só o que ele disse. Ele estava completamente desconfiado.
— Quer falar com Ryan? — perguntei. — Ele estava comigo na hora em que isso aconteceu — arrisquei.
Eu sabia que se ele pedisse para falar com Ryan, eu estaria completamente morto. Eu não sabia se Matt me mataria ou simplesmente brigaria comigo, ou se ficaria com raiva de mim. Afinal, eu nunca menti assim tão seriamente para ele — todas às vezes que ele percebera que eu menti, ele acabou descobrindo por sis só, mas aquelas eram mentiras bobas. Essa era mais séria. Eu não queria que ele descobrisse.
— Não, tudo bem... — disse ele.
Soltei o ar.
— O.K. — foi só o que eu disse.
Ele, com cuidado, tirou minha cabeça de seu colo, me deitou melhor na cama e foi saindo do seu pequeno escritório...
Franzi a testa para ele.
— Para onde você vai? — perguntei desconfiado.
Se Matt fosse perguntar para Ryan em particular, eu estaria frito. Literalmente frito. Eu não tinha combinado nada com Ryan e não sabia se ele mentira por mim. Pelo jeito que ele era poderia ou não contar para Matt. Ele, em parte, guardaria esse segredo para mim, mas em outra parte, ele poderia falar tudo para Matt para Matt tomar alguma providência. E, pelo que conhecia de meu irmão, a sua providência seria me tirar da escola e comprar briga com Paul e seus capangas.
Ou, se Matt fosse perguntar para Jessica em particular, eu também estaria frito. Literalmente frito. Eu também não tinha combinado nada com Jessica, nadinha mesmo. Ela não era tão inteligente assim para mentir para os outros por mim, ela não sacaria que aquilo era para se manter entre ela, Ryan e a mim. Não querendo chamá-la de fofoqueira, mas Jessica podia dar com a língua nos dentes, ainda mais se eu não tivesse pedido segredo a ela sobre aquilo. Ela era ótima para manter segredos, mas tínhamos que dizer a ela que aquilo era segredo e eu não tinha dito.
Matt conhecia muito bem meus melhores amigos para ter o número deles em seu celular para me monitorar, perguntar por onde eu estava e se estava bem — desde que tinha descoberto que eu era asmático há seis anos atrás, Matt tinha desenvolvido uma forma superprotetora e superpreocupada de uma maneira incrivelmente maluca; ele sempre queria saber onde eu estava, a que horas eu voltava, com quem eu estava e se eu estava bem. Era maluco.
Ter aqueles pensamentos fez meu coração acelerar e minha respiração começar a ficar ofegante, mas obriguei a mim mesmo a respirar fundo várias vezes para poder não ter outra crise asmática; eu não podia ter uma. Se eu tivesse, ele realmente desconfiaria de mim.
— Eu vou atrás de Gabriela — disse ele. — Para dar uma olhada em você. Você ainda está com sua respiração ofegante.
Suspirei mais aliviado e assenti para ele. Seus lábios se puxaram para trás, mas não em um sorriso verdadeiramente feliz, e ele saiu dali.
Pelo menos ele não irá falar com meus amigos, pensei.
No tempo em que Matt ficou fora, ajeitei minha mochila. Peguei todas as coisas que me pertenciam, da cama, e pus de volta em minha mochila. E esperei.
Passei meus olhos por aquela sala e vi uma foto minha e de Matt juntos. Um com um braço envolto do ombro do outro. Levantei-me e fui até aquela foto.
Era meu aniversário de dezesseis anos — o ano passado; eu estava a caminho de fazer dezessete. Matt vestia uma blusa vinho e uma jaqueta jeans e um boné preto na cabeça. Eu estava vestindo uma blusa azul e também uma jaqueta jeans. Nós dois sorríamos, mesmo eu não achando que meu sorriso fosse tão bonitos e charmosos quanto o de Matt, e nossos olhos azul-esverdeados pareciam mais claros do que eles já eram.
Eu não tive uma grande festa naquele dia — tive uma pequena surpresa à tarde naquele dia com Jessica e Ryan na casa dela com salgadinhos, bolo, doces e refrigerantes —, porque, até então, os únicos convidados naquela noite foram eu e ele. Eu mesmo fiz o bolo — Matt não era um bom cozinheiro —, ele comprou algumas cervejas para ele, alguns refrigerantes para mim, duas pizzas gigantes para nós dois e comemos aquilo tudo assistindo algum jogo de futebol americano — eu podia ser do jeito que era, mas eu amava jogos de futebol americano. Em um intervalo, tiramos aquela foto.
Ter aquela lembrança me fez sorrir e me senti mais culpado por saber que estava mentindo para o cara que tomou conta de mim a minha vida inteira. Ele não merecia a mentira, somente a verdade. Quando ficasse a sós com ele, eu contaria tudo. Não mentiria mais.
Se eu mudasse de escola, eu ainda poderia ver Jessica e Ryan na casa deles ou eles poderiam vir na minha. Eu não morava tão longe deles assim. Ryan podia ou ir de bicicleta, ou até mesmo a pé, porque não morávamos tão longe assim um do outro. Jessica poderia vir de carro quando quisesse ou ela poderia ir de bicicleta, ou a pé também, pois ela morava mais perto de mim do que Ryan. Ou ela podia, simplesmente, se encontrar com Ryan em um local e dar uma carona de carro para ele para virem à minha casa. E eu também podia visitá-los. Matt poderia me deixar na casa deles quando fosse para o trabalho ou eu iria de bicicleta, ou iria a pé. Eu não ligava de andar pelas ruas de Chicago — mesmo tendo algumas gangues nas ruas, mas, quem iria querer comprar briga com um simples garoto que não fazia mal nem a uma formiga?
Eu não iria mentir para ele. Iria contar a verdade.
Matt não chegou com Gabriela. Muito pelo contrário, ela chegou sozinha, dois minutos depois que eu tinha devolvido a foto minha e de Matt em meu aniversário ao seu devido lugar.
Gabriela era uma menina de pele morena bem clarinha, cabelos castanho-escuros curtos até a altura dos ombros e ela parecia ser do meu tamanho. Tinha olhos da mesma tonalidade que seu cabelo e um sorriso branco de matar. Ela era... linda. Mesmo vestida naquele uniforme azul que tinha que usar por conta da Ambulância, ela era linda.
— Olá, Cam — disse ela sorrindo para mim.
— Olá, Gabriela — disse eu.
Ela entrou na sala de meu irmão e veio até a mim. Ela tinha uma bolsa — eu acho que poderia chamar aquilo daquela maneira — e, pondo em cima da mesa de Matt e abrindo aquilo, vi o estetoscópio, alguns algodões, tesoura, luvas e tudo que um paramédico teria dentro de uma bolsa para paramédicos.
Ela tirou o estetoscópio da bolsa e pôs ele em seu ouvido.
— Preciso dar uma olhada em você, Cam — disse ela.
Fiz uma careta.
— É preciso mesmo? — perguntei. — Estou me sentindo bem melhor.
Ela riu.
— Matt disse que você iria dizer isso — disse ela ainda rindo. — Mas preciso mesmo dar uma checada em você.
Ressentindo, assenti para ela.
— Preciso que tire a blusa. Pode fazer isso? — perguntou ela.
Assenti e, tirando o casaco, logo em seguida tirei minha blusa.
Eu não queria ter feito aquilo, mas eu tinha que fazer. Eu não era forte como Matt, eu era magrelo. Não era pele e osso, pois eu tinha carne em meu corpo, mas não tinha músculos, não tinha nada em me gabar com meu corpo. Eu não gostava dele. Se eu ao menos tivesse uma pequenina parcela do corpo de Matt, eu seria bastante feliz; eu não me sentia confortável sem blusa.
Ela pôs a parte que escuta o coração das pessoas em minhas costas.
— Agora preciso que respire fundo — disse ela e assim o fiz.
Fiquei respirando fundo e ela passou aquele treco gelado em minhas costas por algum tempinho.
Depois de alguns segundos, ela tirou aquele treco gelado do estetoscópio de minhas costas e de sua orelha, e sabia que aquilo era sinal verde para por a blusa de volta. E assim o fiz, vesti minha blusa rapidamente.
— Bem, você não está conseguindo levar tanto oxigênio para os pulmões — disse ela. — Talvez suas traqueias estejam bastante fechadas, mas você irá sobreviver — ela me olhou e riu. — Você só precisa fazer nebulização e repousar.
Sorri para ela.
— Obrigado — disse eu a ela.
Ela deu uma piscadela para mim, sorriu e foi saindo da sala...
— Ei, Gabriela... — disse eu.
Ela parou na porta e se virou para mim novamente.
— Onde o Matt está? — perguntei. — Pensei que ela viria aqui contigo.
— Ah, aconteceu algo com o carro do Severide — ela indicou o lado de fora do Batalhão com o polegar — e ele foi dar uma olhada. Depois o vi indo para a sala do Comandante Boden.
— O.K., obrigado — disse eu.
— De nada.
Ela balançou a cabeça em positivo para mim e saiu do quarto.
Era a hora de dizer a verdade para ele. Eu não irei mentir para ele, eu não irei mentir para ele, disse a mim mesmo. E eu não podia. A mentira me levou até uma crise e eu não queria ter outra. Tinha que contar a verdade e assim eu faria.
Levantei-me da cama, pus minha mochila nas costas e saí da sala de meu irmão a caminho da sala do Chefe Boden.
No caminho eu só conseguia respirar fundo e repetir “Eu não irei mentir para ele!” várias e várias vezes. Eu não sabia que o caminho era tão curto assim até perceber que estava de frente para a sala do Comandante Boden.
A porta estava aberta e consegui ver quatro pessoas lá dentro. Um homem de pele cor de café que vestia uma calça social preta e uma blusa branca com um distintivo ao lado do peito esquerdo, e nos ombros tinham os mesmos símbolos que a camisa de meu irmão, aquele era o Comandante Boden. Reconheci Severide ali — ele era um pouquinho menor que meu irmão e seus cabelos eram a mistura de cinza com pretos, bastante estilizo e ele vestia sua calça social preta, bonita e blusa do azul do Esquadrão 3, o qual ele era o responsável. Vi meu irmão ali dentro também — ele e Severide estavam de costas para mim. Mas eu não reconheci a quarta pessoa.
Ele parecia ser um pouquinho maior que Matt, seus cabelos eram curtos e pareciam ser cinzentos ou uma cor parecida com isso. Ele era forte como meu irmão e vestia uma blusa azul com os mesmo símbolos nos ombros que meu irmão e Severide tinham — como sua blusa era azul, ele fazia parte do Esquadrão 3, o que meu irmão não fazia parte.
Ele se virou para mim e... bem, eu não sei bem como reagi ao vê-lo. Pude ver seus olhos e eles pareciam como os meus. Seu rosto dizia que ele era sério e sua barba estava começando a crescer, e aquilo o deixava com mais cara de sério. Seu nariz era um tanto redondinho, mas não era feito... era um redondo de uma forma fofa. Mas é claro que eu preferia me atirar em uma sala em brasas do que admitir aquilo em voz alta.
Nós nos olhamos fixamente por um tempo e podia jurar que ele estava me estudando e que quase vi um sorriso em seu rosto. Mas eu escondi o rosto antes de ter qualquer certeza.
Aproximei-me mais da sala — minhas pernas bambas e mãos suadas, e eu não sabia o porquê daquilo — e bati na porta.
Os três — tirando aquele homem que já olhava para mim — me olharam.
— Sim, Cameron — disse Comandante Boden com sua voz rouca e grossa.
— Ahn... interrompo? — engoli em seco ao terminar a pergunta.
Severide, agora, estava de lado para mim e meu irmão me olhava. Comandante Boden ainda estava de frente para mim e aquele outro cara que eu não sabia o nome me olhou outra vez, e depois voltou a olhar para Severide.
Assim que olhei Severide, ele tinha uma espécie de alicate com uma corda de ferro, ou coisa do tipo, a mão.
— Claro que não — disse ele com um sorriso. — Entre.
Preferi não adentrar e ficar na porta.
— Não, não precisa — disse eu. — Só queria dar uma palavrinha com meu irmão, se possível, é claro...
Matt olhou para o Comandante Boden.
— Pode ir e nos encontre no vestiário logo em seguida — disse ele. — E vocês dois, me sigam — ele olhou para Severide e o outro.
Eles saíram da sala e foram direto ao vestiário. O homem que eu não reconheci me deu mais uma olhada, mas escondi o rosto para ele e fingi que não o vi.
— Aconteceu algo? — perguntou Matt já perto de mim.
Olhei para ele e por um minuto eu esqueci o que ia fazer. Assim que lembrei, não tive coragem para desmentir tudo, então, parti para outra coisa.
— Gabriela disse que eu preciso fazer nebulização e descansar — disse eu. — Vou indo para casa.
Ele me estudou por um minuto.
— Você está mesmo bem? — ele pôs as mãos em meus ombros ao perguntar e arqueou as sobrancelhas para mim, seus lábios se formando uma linha.
— Sim, estou bem — disse eu e senti minha barriga roncar. Corei. — Só... um pouco com fome — ri envergonhado.
Ele riu.
— Venha, vamos — disse ele me puxando para fora da sala. — Mills fez bastante almoço hoje e sobrou bastante. Não se incomoda de comer sobre, não é? — ele franziu a testa para mim, pois ele não sabia da resposta.
Neguei com a cabeça.
— Não, claro que não — falei semicerrando os olhos para ele.
Ele riu de novo, como se estivesse satisfeito consigo mesmo.
— Ótimo. Então você vai para a sala e eu sigo para o vestiário. Nós nos encontramos depois.
— Fechado — falei levantando o polegar para ele.
E assim Matt foi para o vestiário e eu segui para a sala matar a minha fome.
Acredito que aquela tinha sido uma das tardes mais frustrantes da minha vida.
Primeiro de tudo, eu almocei com a companhia de Otis, Herrmann, Cruz, Mouch e Pouch.
Herrmann era um cara que parecia ter quase cinquenta e tinha poucos cabelos castanhos na cabeça e uma boa quantidade de cabelos grisalhos, porém seu cabelo era ralo, ele não tinha muito cabelo. Ele e eu tínhamos quase a mesma altura e seus olhos eram parecidos com os meus. Ele não parecia ser tão forte como meu irmão, mas tinha braços; ele pertencia ao Caminhão 81. Cruz era um cara latino que aparentava ter quase quarenta, careca e com um bigode engraçado. Ele era forte e tinha uma tatuagem no braço esquerdo, e seu sotaque latino era quase não notável... eu disse, quase; ele também pertencia ao Caminhão 81. Pouch era um cão que o Batalhão 51 adotou desde o ano passado. Ele era um vira-lata, mas era encantador. Todos o amavam.
Herrmann se perguntava como um tal de Greg Sullivan podia se eleger sem ao menos saber como era a vida dos outros Batalhões. Mas quando Cruz interveio perguntando o porquê que o Herrmann se elegia, ele tinha respondido que não se enquadrava em um perfil elegível. Vi Otis concordar com a cabeça, mas encarei Mouch por um segundo e o peguei pensando. Talvez Mouch estivesse pensando em se eleger, quem sabe? Eu, se pudesse, votaria nele. Mouch era um rapaz de quase sessenta anos e eu sabia que ele tinha experiências vividas o suficiente para saber o que se realmente passa dentro de um batalhão.
Contudo, o Comandante Boden chegou à sala e os convocou para os seguirem. Eu pensei em duas vezes se ia (eu já tinha terminado meu almoço e a comida do Mills era ótima), mas quando meu irmão, que estava no fim da sala, viu minha curiosidade, ele fez um gesto com a cabeça para que o seguisse e assim o fiz.
Quando todos nós estávamos reunidos no vestiário — e eu vendo mais um rosto novo —, o Comandante Boden começou a falar.
— Tudo bem. Primeiro passo dos cortes... — ele fizera uma breve pausa, mas logo continuou: — o pagamento de horas extras foi suspenso.
Todos, sem exceção, protestaram.
— Lá vamos nós — ouvira Herrmann reclamar.
— E faremos duplas para usar os armários — prosseguira o Comandante Boden. — Vão remover uma seção inteira para guardar os equipamentos do Batalhão 33. Por favor, não me perguntem o porquê.
Ele encarara todos os presentes com uma careta.
— Isso é completamente absurdo — protestara Herrmann.
O Comandante Boden assentiu.
— Agora, devem formar suas duplas — dissera ele.
Ninguém se movera, a não ser Gabriela que tirara suas mãos do bolso do casaco azul de paramédica e tocara-os em Shay.
Leslie Shay. Ela era loura, tinha os olhos como os meus — mais um e eu achava aquilo incrível —, quase do tamanho de Gabriela e era a parceira de Gabriela na Ambulância 61, e Shay era lésbica.
Shay tocara na mão de Gabriela e elas se olharam.
— Todo mundo menos Cruz, por favor — dissera Otis pondo a mão no rosto.
— Vou ficar com o Otis — dissera Cruz do lado oposto ao de Otis.
— Não foi o que ele quis dizer — dissera Otis negando com a cabeça.
O Comandante Boden riu.
— Falando de assuntos mais sérios, temos razões para crer que Kelly Severide despertou a atenção de um incendiário — assim que o Comandante Boden dissera aquilo, todos voltaram a se mexer. — A Polícia e a Divisão de Incêndios me garantiram que estão investigando. Mas espero vigilância extra nos próximos turnos de todos.
Ele fizera outra pausa e prosseguira:
— E, finalmente... — ele olhara para meu irmão e continuara: — hoje faz um ano... que perdemos Andy Darden.
Andy Darden era o melhor amigo de Matt. Ele tinha dois filhos (Griffin e Bem) de idade menor que a minha (bem menor) e uma esposa, que, no caso, agora era viúva. Andy morrera em um incêndio há um ano atrás, onde aquilo despertou uma pequena rivalidade com Matt e Severide, mas aquilo já tinha superado... eu acho. Bem, ao menos era o que parecia, porque fazia tempos que eu não ouvira nenhum comentário de briga entre eles.
Meu irmão, que estava ao meu lado, cruzara os braços e, fitando o chão, assentira com a cabeça.
— Pensemos nele e na família que deixou — dissera o Comandante Boden. — Somos todos um pouco menos sem ele em nossas vidas.
Houvera um grande silêncio entre os bombeiros, paramédicos e o Comandante Boden.
— Deixo-os com isso.
Assim que o Comandante Boden dissera aquilo, ele saíra do vestiário. Meu irmão e Severide se olharam e, por um segundo, pensei que eles iriam brigar, mas eles apenas assentiram um para o outro e, no segundo depois, o vestiário começara a se desfazer. Mas, antes que aquele vestiário esvaziasse, aquele cara que estava com meu irmão e Severide na sala do Comandante Boden, me olhou com certa curiosidade em seu olhar e se fora.
Quando finalmente consegui um minuto com Matt, o puxei para sua sala e, assim que ele adentrou após de mim, fechei a porta para termos uma conversa particular.
— Qual é o nome daquele cara que tinha uma blusa igual a sua no vestiário? — perguntei por aquele outro rosto novo que eu tinha visto no vestiário.
— Qual? — ele franziu a testa.
— O de cabelos cor de bronze, mais ou menos a sua altura e pele quase igual a nossa — informei. — Ele é um novato aqui — falei indicando o Batalhão 51 girando o indicador.
— Ah, é o Tenente Spellman — disse ele. — Ele veio do Batalhão 33.
— Entendi — disse eu. — E qual é o nome daquele cara que estava na sala com você, Severide e o Comandante Boden? — perguntei.
Matt franziu a testa para mim.
— Clarke. Jeff Clarke — disse ele. — Por quê?
— Sei lá... — disse eu. — Ele é meio estranho. Parece sério e desconfiado de tudo.
Matt gargalhou, mas eu fechei a cara para ele no instante seguinte em que sua risada começou. Eu não via motivo de risada para aquilo, eu nem ao menos tinha contado uma piada! Porque a risada?
— Qual é a graça? — perguntei com raiva.
Ele ainda ria e, ainda de cara fechada, cruzei os braços.
— Porque você disse que ele era meio estranho — ele gargalhou outra veze e lhe chutei a canela. — Ai! — reclamou ele entre os risos e esfregando a canela esquerda.
— Não é engraçado — disse eu.
Ele riu.
— É um pouco, admita.
Neguei com a cabeça. Ele parou de rir e suspirou revirando os olhos.
— O.K., não tem graça — disse ele e se pôs de pé. — Meio estranho.
Ele bagunçou meu cabelo e voltou a rir, mas o empurrei logo em seguida.
— Matt! — falei com raiva. — Não toque no meu cabelo! — eu já estava completamente irritado..
Matt sabia que eu odiava que bagunçassem meu cabelo. Era quase um crime fazer aquilo. Mas aquilo não pareceu nada para ele e ele riu mais ainda.
Revirei os olhos para ele, balancei a cabeça em negativa, abri a porta e saí de sua sala.
— Ei, aonde pensa que vai? — perguntou ele pegando meu braço e fazendo-me voltar a olhá-lo.
— Para casa — disse eu pondo a mochila em um ombro. — Tenho dever de casa. Eu te vejo amanhã. Tchau.
Vire-me para a saída.
— Ei, espera — disse ele e já estava andando ao meu lado. — Te dou uma carona.
Parei de andar.
— E pode? — perguntei franzindo a testa.
Ele deu de ombros.
— Se alguém perguntar, eu dou uma desculpa — disse ele e riu. — Só tenho que pegar minhas coisas...
Dei de ombros.
— O.K., te espero no estacionamento — disse ele.
— Legal — ele levantou o polegar para mim e voltou para sua sala.
Assim que cheguei ao estacionamento segundos depois, eu avistei Mills varrendo o chão dali e o tal Jeff Clarke sentado à mesa do Esquadrão 3.
Mills era o cozinheiro do Batalhão 51. Ele era um rapaz corpulento de cabelos prestos, olhos castanhos tão clarinhos e pele morena igual à de Gabriela. Ele e ela tiveram um romance ano passado, mas tudo acabou bem, se não me engano — Matt não conseguiu me contar direito, pois ele estava quase dormindo e me irritei tanto que acabei desistindo de saber. E tinha para mim que eles tinham terminado, mas ainda eram amigos.
— Ei, Mills — disse eu em cumprimento.
Ele parou de varrer e me olhou. Vi aquele Jeff Clarke olhar para mim e depois voltou a olhar seu jornal; era melhor assim mesmo. Fuzilei-o com os olhos e desejei mesmo que meus olhos pudessem fuzilá-lo, mas infelizmente não podiam.
Eu não sabia o que tinha nele que o me fazia odiá-lo, mas eu sabia que o odiava. Eu sabia que ele não tinha feito nada além de me olhar, mas, de alguma forma, eu não tinha indo com a cara dele. Ele não parecia que pertencia a esse lugar. Ele era do Batalhão 33... mas que diabos ele está fazendo aqui que não está em seu Batalhão?, quis perguntar a alguém. Se ele tivesse sido chutado de lá, porque não faziam isso com ele aqui? Eu tinha que perguntar a Matt outra hora.
— Ah, ei, Cam — disse ele sorridente. — Como está?
— Bem, bem — respondi. — E contigo?
Ele bufou.
— Ah, sabe como é — disse ele. — Ser Cadete é completamente trabalhoso.
Ele apontou para a vassoura em suas mãos e riu. Ri com ele.
— Experimente ser irmão de Matt e você vai ver que sua vida não é ruim como a minha — falei. Pus as mãos aos lados da boca e disse: — Só não conte isso a ele.
E ri.
— Tarde de mais, eu já ouvi — disse a voz de Matt vindo atrás de mim. — Sua vida é ruim comigo, é?
Assustei-me e virei-me para olhá-lo. Ele estava parado bem atrás de mim e com as mãos na cintura. Ele não estava com uma expressão boa, ele parecia que iria me partir em dois. Engoli em seco.
Mas Matt riu e me empurrou de leve.
— Eu sei que está brincando, relaxa — disse ele quando eu ia dizer alguma coisa. — Vamos?
— Vamos — disse eu mais calmo.
Ele sorriu para mim e foi em direção ao Caminhão 81. O segui e Mouch, Cruz, Otis, Mills e Herrmann foram logo atrás de mim.
Segundo de tudo, a coisa que aconteceu com minha tarde para ela ser a pior, foi logo assim que Cruz dera partida no Caminhão 81.
Matt ia me levando para casa no caminho de uma de suas rotinas, mas parou em um restaurante — ou algo parecido — para dar uma olhada em Heather, a viúva de Andy, para ver como ela estava no aniversário da morte de seu falecido marido. Eu não sabia se deveríamos comemorar a morte de alguém, mas eu não perguntei.
— Se perguntarem, vimos um gato numa árvore — disse Matt assim que Cruz parou o Caminhão 81 em frente ao restaurante.
— Pode deixar — disse Cruz.
E Matt saiu do Caminhão e entrou no restaurante.
Eu não sabia o que meu irmão queria com ela, para início de conversa. O.K., ele era melhor amigo do falecido Andy, mas não havia ligação entre ele e a Heather, eu acho. Mas, de qualquer forma, não perguntei a ninguém do Caminhão 81 a respeito.
— Por que vocês tiveram que formar duplas nos armários? — perguntei ao Herrmann, que estava mais próximo de mim.
— Ordens superiores — disse ele de má vontade. — Uma tal de Gail McLeod surgiu de uma forma absurda e disse que o Batalhão 51 está em risco de fechamento.
Arregalei os olhos.
— O quê? — perguntei incrédulo.
— Um problema no Batalhão... — disse Mills ao lado de Herrmann. — Temos que ter menos gastos e andarmos na linha se quisermos nosso Batalhão ainda aberto.
— É só uma questão de tempo... — interveio Mouch do banco do motorista.
— Ela precisa fechar mais dois batalhões — disse Otis. — Depois disso, tudo volta ao normal.
Assenti com a cabeça e pensei por um tempo.
Aquilo não era exatamente possível. Como e por que teriam que fechar o Batalhão 51? Aquele era o melhor batalhão de toda Illinois, não podia ser fechado. Acredito que o povo de Chicago não deixaria aquilo acontecer, principalmente o povo que vivia no gueto em nossa cidade — eles precisavam dos bombeiros quase todos os dias. E sem contar que a cada dia tinha uma surpresa esperando pelos nossos bombeiros pelas ruas de Chicago. O Batalhão 51 não podia fechar.
Olhei para fora do caminhão e avistei Matt caminhando na nossa direção. Não tinha se passado nem dois minutos direito (eu cronometrei) e ele já estava de volta. Ele era rápido, pensei. Dei de ombros.
— Viu? — disse ele ao abrir a porta do caminhão, se sentando no banco do carona e logo em seguida fechou a porta. — Ninguém irá saber onde estávamos.
Mas não foi isso que me abalou, foi o que aconteceu em sequência.
Uma voz eletrônica disse assim que Matt terminou de falar:
— Alarme de incêndio. Caminhão 81, Esquadrão 3, Carro-Pipa 51.
Cruz deu partida antes que eu escutasse se aquela voz que convocada todos os bombeiros do Batalhão 51 pudesse convocar a Ambulância 61 e seguimos para o endereço que aquela voz poderia levar ao ato de salvamento ou ao ato de morte de todos os que trabalhavam no Batalhão 51.
Quando chegamos ao endereço, um prédio de quatro andares em chamas. Bem, ao menos o segundo andar do prédio estava em chamas e o restante parecia completamente cheio de fumaça; o ambiente ali estava tomado por fumaça. Aquilo não faria nada bem para um garoto que tinha asma como eu.
Todos se prepararam. Cruz, Matt, Herrmann, Mouch, Otis e Mills saíram do Caminhão 81, completamente vestidos de seus equipamentos de bombeiro. Máscaras, machados, casacos, capacetes... totalmente vestidos.
Eu não podia sair, então fiquei no caminhão e fiquei observando tudo. E pedindo a Deus para que meu irmão voltasse dali com vida.
Uma moça de cabelos louros e cacheados até a altura dos ombros, que vestia jeans e uma blusa social roxa, veio até o Comandante Boden — que apareceu perto do caminhão do nada (eu não o tinha visto chegar em seu carro) —, falou com ele alguma coisa que eu não consegui entender, pois eu estava um tanto longe deles, e apontou para o alto prédio ao lado do prédio em chamas.
Dawson (todos chamavam Gabriela por seu sobrenome, então eu não seria diferente, eu acho) e Shay apareceram e, com uma ordem do Comandante Boden, foram em direção ao prédio ao lado do que estava em chamas. O Comandante Boden segurou no braço da moça e a trouxe para mais perto dele, em forma de proteção.
Eu estava reconhecendo aquele local... parecia com perto de onde Ryan morava. Sim, ele morava ali perto! Eu já tinha passado por aquela rua, várias e várias vezes, de bicicleta para ir a casa dele. Talvez, se eu pudesse sair do caminhão e ir para a casa dele a pé, eu ficaria longe da fumaça..., pensei. Mas eu não podia. Eu tinha que ficar. Meu irmão estava ali e se acontecesse alguma coisa com ele... eu tinha que ficar. De uma maneira ou de outra. Eu sabia que se eu ficasse eu teria sérios riscos de ter outra crise asmática, mas eu iria arriscar; eu não deixaria meu irmão.
De qualquer modo, tudo ficou bastante tenso, porque Mills, Mouch e Otis não entraram mais no prédio em chamas assim que eles trouxeram algumas vítimas, e as chamas do segundo andar desse prédio já estavam no terceiro. Eu queria gritar com eles, mas eu não podia. Eu tinha que manter minha boca fechada. Como Mills tinha dito, eles tinham que “andar na linha” e eu estava no caminhão, então aquilo significava que era uma violação. Se alguém descobrisse, eles estariam fritos. Eu sabia que se eles entrassem naquele prédio novamente, era suicida e o Comandante Boden não iria arriscar a vida de seus bombeiros.
Mas o que piorou tudo foi o vento que veio de minha direita em direção à esquerda. Aquilo não era bom. Eu não era burro. O prédio em chamas, com ajuda aquele vento, jogaria as chamas para o outro prédio e, quando olhei para as janelas em chamas, algumas labaredas de fogo estavam indo para o prédio à esquerda. Como eu disse, não era nada bom.
E como eu esperava, não foi. As chamas conseguiram pegar no prédio da esquerda, queimando alguma cortina — ao menos era o que dava para ver de onde eu estava — e se alastrando por todo o andar.
— Shay, Dawson, saiam daí — consegui ouvi o Comandante Boden dizer. — Evacuem agora mesmo
Mas foi completamente inútil. As chamas se alastraram de tal maneira, que o segundo andar do prédio foi todo engolido pelo fogo e, consequentemente, o terceiro andar também foi. Aquilo era ruim, muito ruim. Shay e Dawson estavam com uma vítima naquele prédio, e se as chamas conseguissem alcançá-las, seria o fim para elas e para a vítima.
Consegui ver a cabeça de Dawson na janela do quarto andar do prédio à esquerda e consegui escutar o rádio do Comandante Boden.
— Comandante? — chamou ela pelo rádio do Comandante Boden. — Não tem como descermos por aonde viemos. Quarto andar.
— Aguente firme. Estamos indo — disse o Comandante Boden. — Severide, Casey. Shay e Dawson estão presas no prédio dois. Conseguem vê-las? — perguntou ele.
Uma pausa.
Por um momento, pensei que meu irmão tinha morrido. Mas depois lembrei que, se algum deles caísse em salvamento, alguma espécie de alarme soaria (e aquele treco era irritante, Matt já me fez ouvir) e o Comandante seria obrigado a mandar Mouch, Otis ou o Mills atrás dele. Meu irmão e Severide estavam vivos.
— Sim, chefe — disse a voz de Matt pelo rádio do Comandante Boden e me senti mais aliviado.
— Temos uma mulher incapaz nas escadas — disse a voz de Dawson pelo rádio. Olhei para ela e sua cabeça voltou para dentro do andar em que estava rapidamente, e voltou para a janela e completou: — Não pode se mover.
Outra pausa.
O Comandante Boden não se mexia e nem ousava em falar. Ele estava pensando e ninguém era louco de interromper aquele homem quando estava pensando. Ele era enorme e se alguém o interrompesse em seus pensamentos... sabe-se lá o que ele poderia fazer.
— Acabou o fogo no prédio um, Comandante — disse uma voz nova pelo rádio do Comandante Boden.
Deveria ser um dos novatos e, pelo que me parecia, não deveria ser daquele Jeff Clarke. Deveria ser a voz do Tenente Spellman. Bem, que seja. Eu só queria meu irmão a salvo, mais nada.
— Casey, não conseguimos transporte aéreo — avisou o Comandante Boden.
Eu não tinha reparado que ele tinha pedido transporte aero, mas nem me importei.
— Mills, Otis, coloquem a escada — disse Matt. — Tragam-nas.
Foi bom ouvir a voz de Matt, mesmo que tenha sido por aquele rádio.
O Comandante Boden se virou para Mills e Otis e disse:
— Vão.
Mouch, Mills e Otis vieram até a escada que ficava presa no Caminhão 81 o mais rápido que puderam. Eles a tiraram e, com Mouch acionando a escada eletrônica que tinha no caminhão, Mills e Otis, subiram na escada eletrônica segurando a escada que ficava pendurada no caminhão na mão e foram até a janela do quarto andar do prédio um — o prédio que já não estava mais em chamas.
Muita coisa se passou pela minha cabeça naquele momento de aflição. Por quê? Simples, do prédio um, saiu à escada que Mills e Otis levaram e, em seguida, alguém foi louco o suficiente para ir junto. A pessoa andou pela escada que fora feita de ponte e entrou, pela janela, no prédio dois, junto com uma mangueira.
Eu não sabia quem era, o que me deixou ainda mais frustrado. Eu sabia que meu irmão era louco o suficiente para arriscar sua vida naquilo. Então deduzi que tinha sido ele. Mesmo desejando estar completamente enganado a respeito.
Assim que a pessoa entrou no prédio dois (o da esquerda), uma entrou logo seguida pela janela no prédio dois. Então meu irmão e Severide eram burros e loucos o suficiente para andarem naquela escada-ponte.
O momento seguinte também tinha sido frustrante. Alguém tinha saído pela janela do prédio dois e, devagar, adentrou no prédio um. Logo em seguida, foi mais uma pessoa.
— Coloque-a na ponte — disse a voz de Severide. — Lá vem à vítima. Dê folga na corda.
Em seguida, uma maca com um volume estava passando bem devagar pela escada-ponte. Eu sabia que aquele volume era a vítima. Torci para que nada acontecesse com ela. Bem, quando eu digo acontecesse, era para que ela não caísse da maca e fosse diretamente ao encontro do chão, porque, se acontecesse, era esforço feito para nada. Mas, por sorte, a vítima não caiu. Nada de esforço feito para nada.
Mas, por azar, um vento surgiu.
Com aquele vento que surgiu, a fumaça que saia dos prédios veio diretamente para o Caminhão 81 e, como eu era asmático, aquilo me deu uma grande crise de tosse e minha respiração tinha começado a ficar ofegante. Meu peito começou a doer e eu me sentia tonto. Mas eu tinha que aguentar firme, eu não podia simplesmente desmaiar por falta de ar agora. Eu tinha que ver se meu irmão ficaria vivo.
Comecei a respirar fundo e, tirando minha bombinha da mochila, pus em minha boca, apertei a alavanca e puxei o ar para mim. Senti-me bem no minuto seguinte, mas ainda tive complicações para respirar, pois a fumaça ainda estava vindo para o Caminhão 81. Mas, por sorte, o vento levou a fumada dali segundos depois.
Mas aquilo não foi o que fez meu dia ser realmente o pior de todos.
Assim que a maca passou para o prédio um, um bombeiro seguiu para o para o prédio um logo em seguida.
— Casey, mexa-se — disse Severide pelo rádio do Comandante Boden. — Agora. Vamos, Casey. Vamos.
Aquilo me deu um aperto no coração.
O quarto andar tinha sido tomado pelas chamas e meu irmão ainda estava lá dentro. Era só questão de tempo para que ele virasse torradinho de Tenente Casey e eu não estava pronto para isso; não estava pronto para perder meu irmão. Se eu perdesse Matt, eu teria que morar com Christie — minha irmã mais velha de quem eu não gostava; ela era a minha única família além de Matt. Tinha minha mãe que tinha saído da cadeia e ido morar um alguém — ela não me deu satisfações para onde ia e com quem ia, e Matt fez questão de me fazer não perguntar sobre o assunto. De qualquer forma, eu não estava pronto para ir morar com Christie.
Quando vi alguém saindo do prédio dois (e eu sabendo que era meu irmão), me senti mais aliviado. Aquilo dizia que ele voltaria para casa e eu não precisaria morar com Christie. Suspirei aliviado. Afinal de contas, meu irmão não corria mais risco de morrer. Certo? Errado.
Quando eu menos esperava, uma coisa aconteceu...
Uma parte da janela do prédio dois tinha cedido e, com aquilo, a escada-ponte caiu e meu irmão, que estava perto do prédio um, se segurou na mangueira que ele tinha em seus braços para não poder cair quatro andares abaixo.
Meu coração foi a mil. Eu me mexi no caminhão, ficando com meu tronco todo para o lado de fora da janela. Eu quis gritar, pedir para que alguém fosse ajudar meu irmão para que ele não morresse, mas eu não podia. Era completamente inútil eu gritar. Severide, Otis, Mills estavam lá em cima — eu sabia disso porque nenhum deles tinha saído pela porta da frente do prédio um — e eles iriam ajudar meu irmão.
Mas, de qualquer forma, eu não queria arriscar. Eu queria dizer mesmo para alguém ir ajudá-lo. Salvar Matt de uma queda que, com certeza, causaria a sua morte. Eu, realmente voltei a me sentir mal. Meu coração apertou novamente e minha respiração ficou mais ofegante que nunca. Não posso ter uma crise agora, não posso ter uma crise agora, disse a mim mesmo e tentando me acalmar. Mexi em minha mochila e encontrei uma sacola que poderia me ajudar como uma forma de bombinha asmática — para eu não gastar todo o oxigênio que minha bombinha me fornecia. Pus a sacola em minha boca e comecei a soprar e puxar o ar que ia e voltava da sacola. Senti meus nervos se acalmarem e minha respiração voltar a ficar ao normal lentamente.
Como previ, alguém tinha ido ajudar meu irmão. Vi a cabeça e braços de alguém sair pela janela do prédio um e tentar puxar meu irmão para dentro do prédio.
Aquilo era completamente frustrante. Eu não consegui me contentar com a sacola. Joguei ela pela janela e, pondo a bombinha na boca de novo, apertei a alavanca e puxei o oxigênio que a bombinha me deu. Eu sabia que aquilo não seria o suficiente também, mas eu não podia simplesmente apertar a alavanca novamente. Eu tinha que me contentar com aquela puxada de oxigênio que dei, eu não podia puxar mais ar da bombinha.
Voltei a olhar para meu irmão pendurado no prédio um e, passado mais alguns segundos de frustração, meu irmão foi puxado para dentro do prédio um e eu caí para trás completamente aliviado e com minha respiração normal.
Aquilo que tinha feito o meu dia ser pior do que tudo que tinha acontecido na escola.
Depois que Matt tinha me deixado em casa e voltado para o trabalho, eu chamei Jessica para poder ficar comigo, mas ela disse que não tinha como ir porque tinha treino de líder de torcida. Quando pedi para que Ryan pudesse ficar comigo em casa, ele apareceu dez minutos depois. Eu era grato por ele. Não que eu não fosse grato por Jessica. Eu seria bastante grato por ela, pois ela era minha amiga, mas eu precisava de alguém para conversar e me fazer companhia e, como ela não podia ir, Ryan era o meu salvador.
— Cara, por quanto tempo você tem que ficar com esse treco na cara? — perguntou Ryan minutos depois de eu ter começado a fazer nebulização.
Pensei por um momento.
— Não sei — disse eu. — Tenho que ficar até o soro acabar. Bem, pelo menos tem pizza, refrigerante e tempo de sobre para fazer o dever de casa.
Ele gemeu e pôs a mão na cara.
— Dever de casa? — perguntou ele completamente triste.
Ri dele.
— Sim, temos que fazer o deve se quisermos ficar com nota boa em matemática — falei entre o riso.
Ele suspirou.
— Tá bom — foi só o que ele disse e pegou seus cadernos.
Eu teria que ensinar o dever para Jessica também, mas eu não me importava.
Ryan e eu ficamos terminamos o dever em vinte minutos e meu soro de nebulização ainda não tinha terminado. Comemos alguma coisa, assistimos alguma coisa na tevê e contei para ele sobre como tinha sido tenso meu dia ao ver uma ação dos bombeiros do Batalhão 51.
Ryan tinha dito que aquilo era completamente louco e emocionante. Mas eu o garanti que não tinha nada de emocionante quando vi a vida de meu irmão ser quase acabada por causa de um maldito incêndio e ele ficou completamente sem graça.
Mas, de qualquer forma, Ryan tinha que ir embora, pois já estava começando a ficar tarde. Ele se recusou a ir e preferia dormir em minha casa a me deixar sozinho naquela casa. Eu ri dele, mas garanti que ficaria bem sozinho. Afinal, Ryan não tinha levado roupas com ele para minha casa e eu sabia que minhas roupas não iriam servir nele. Acho que nem as de Matt serviriam nele. Ryan era bastante forte e as blusas de Matt não caberiam em seus ombros largos.
Contudo, quando chegou quase onze da noite, Matt me ligou.
— Oi, Matt — disse eu ao atender ao telefone.
— Cam, você está bem? — perguntou ele.
— Sim, estou — disse eu. — Por quê?
— Ótimo — disse ele. — Ei, escute, os filhos da Heather estão a caminho de casa, está bem?
— Por quê? — franzi a testa ao telefone.
— Heather foi presa. Ela se envolveu em um acidente de carro. Ela estava dirigindo alcoolizada e pôs a vida de alguém em risco. A vítima está indo para o hospital.
— Ela está bem?
— Sim, está. Olhe, Griffin e Ben estão a caminho de casa. Não conte a eles o que aconteceu com a mãe deles, está bem?
— O.K., não irei dizer.
— Legal.
Preparei-me para desligar o celular...
— Ei, Cam? — chamou a voz de Matt no telefone e o pus novamente na orelha.
— Sim? — disse eu.
— Obrigado — disse ele.
— Não há de quê.
Foi só o que eu disse e desliguei o telefone.
Meia hora depois do telefonema de Matt, Griffin e Ben bateram em minha porta e, acolhendo aquelas duas crianças, lhes dei comida para eles e as pus para dormir.
Mas, antes que eles realmente pudessem dormir, Griffin me perguntou o que tinha acontecido para eles virem para minha casa e eu disse que não sabia. Bem, ao menos era melhor do que realmente mentir para eles. Eu não era bom com mentiras, então não iria arriscar. Quando aleguei que Matt iria dizer o porquê, eles aceitaram de bom grado a resposta e dormiram no quarto que tinha o sofá cama, onde eles poderiam dormir bem.
Sentei-me no quarto de Matt para pensar um pouco, mas, quando eu menos esperei, eu tinha me esquecido de tudo e adormeci como uma pedra.
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