Coração de Cavaleiro Jamie & Claire
2 Ambição
— James Fraser, você parte amanhã de manhã para Inglaterra e está incumbido de trazer minha futura esposa, Claire Beauchamp. Sei que você está bem cansado depois da batalha e do recolhimento dos impostos das terras do Oeste, mas não consigo pensar em ninguém melhor para este serviço meu rapaz. — enfatizou o Rei Dougal.
— Aye... sim, claro — respondeu sem pensar.
Sendo um dos cavaleiros mais habilidosos do reino, Jamie foi enviado para duas missões seguidas e atualmente estava em desafogo, porém parecia que suas férias que duraram menos de três dias tinham acabado.
— Sinto-me muito honrado por liderar a missão, meu Senhor. — respondeu Jamie com um leve sorriso.
— Sabia que poderia contar com sua lealdade e disposição, James. — tomou outro gole de vinho e mandou seu servo encher a taça novamente — Você tem permissão de levar alguns cavaleiros com você, a viagem é longa e não quero que nada aconteça com a minha jovem durante o caminho.
De repente alguém tossiu, cortando Dougal.
— Desculpe a interrupção... mas de onde saiu essa princesa, meu Rei? — perguntou Rupert com um tom de curiosidade na voz.
Dougal sorriu com a pergunta, obviamente satisfeito em poder falar sobre o assunto.
— Foi Deus que colocou essa moça em meu caminho. Claramente estou sendo recompensando por ser um ótimo Rei para meu povo. — começou ele olhando para os cavaleiros — Serei a salvação do reino Beauchamp e vou casar com sua princesa. A donzela estava prometida faz anos para um tal príncipe chamado Frank, do reino Randall, mas aparentemente o jovem apareceu morto por envenenamento há alguns dias atrás. Sendo assim, me correspondi com o pai da moça que aceitou com prazer a minha proposta de união. E quem não aceitaria? — disse dando risada. — A Família Beauchamp tem um invejável número de terras, porém, estão com dívidas e seus colonos começando a passar fome. Então uni o útil ao agradável; vou me casar com uma bela mulher e acrescentar um bom número de terras em minhas posses. Sendo um Rei misericordioso, tirarei aquele povo da miséria e em troca eles trabalharão para mim.
Jamie não gostava nada do que ouvia. Aparentemente o casamento era de total interesse econômico e para uma boa adição de terras no bolso do Rei Dougal. Já ouviu falar das terras dos Beauchamp na Inglaterra, eram um bom pedaço de solo e deveria ser mais ou menos do dobro do tamanho das terras do reino MacKenzie, que já não eram pequenas. Dougal sendo ambicioso e calculista não deixaria a chance de terras tão lucrativas ficarem dando sopa. Nessa Época casamento não era sinônimo de amor, eram acordos firmados para interesses políticos e econômicos. Contudo, Jamie não apreciava a ideia de viver com alguém o resto da sua vida por obrigação. Preferia ficar sem uma esposa a estar em um casamento com a ausência de amor.
— Além do mais, a donzela tem sangue azul. — continuou e ressaltou Dougal orgulhoso — Ela foi educada e será uma ótima rainha para os servos, mesmo sendo uma Sassenach... Soube que ela tem quadris largos, deverá ser uma ótima reprodutora e a linhagem pura de minha família irá continuar para eternidade.
E repentinamente, o Rei ficou pensativo. Começou a falar novamente, só que em um tom baixo e ameaçador, mais para si mesmo do que para os outros.
— Tenho certeza que o palerma do meu pai não iria criticar-me como sempre fazia... O tolo do meu irmão sendo estúpido como era, nunca chegaria onde eu estou hoje. — E saindo dos seus devaneios, levantou-se da cadeira e virou-se para Jamie.
— James, você pedirá a mão dela em meu nome. — ordenou.
— Sim, meu Rei. — respondeu o ruivo.
/
Algum tempo depois, os Cavaleiros estavam na parte de trás do castelo, cuidando de seus respectivos cavalos enquanto tomavam usquebaugh e vinho, debatendo sobre a assembleia.
— O nosso Senhor é realmente muito esperto: vai ficar mais rico e ainda arrumou um lugar onde enfiar seu pênis. — falou Rupert admirado.
Ao longe, Murtagh bufou.
— Mais rico? Só vejo que teremos que trabalhar dobrado. Com esse número de cavaleiros que temos hoje não iremos conseguir administrar e defender os dois reinos. — disse Murtagh, que até então estava calado e guardando sua opinião. Sendo um homem sensato, raramente concordava com as atitudes de Dougal. — Pobre mulher Sassenach que aceitou esse casamento, não sabe onde está se metendo.
Jamie, que estava escovando a pelugem de seu cavalo, pensava no assunto. Ele sabia que o Rei Dougal queria o melhor para o seu reino, mas raramente concordava com os meios escolhidos para obter essas melhorias. Entretanto, Jamie havia prometido sua lealdade e devia tudo que tinha ao Soberano. Órfão desde o seu nascimento e necessitado, o Rei permitiu que as senhoras da cozinha o criassem e quando completou a idade necessária para o treinamento de cavaleiro, Dougal bancou seus estudos e armas.
— Você tem sorte de ir nessa missão Jamie. — afirmou Angus Mhor, ignorando a opinião de Murtagh — Eu levei as correspondências nas últimas semanas para as terras dos Beauchamp e avistei belas raparigas no povoado. Você pode seguir o exemplo do Rei e começar a procurar uma esposa ou uma prostituta para praticar. — falou rindo de Jamie — A segunda opção é mais fácil, já que nenhuma família de qualquer donzela de classe vai querer comprometer-se com um rapaz pobre, sem nome e mutilado, mesmo sendo um cavaleiro do Reino. No Reino dos Beauchamp, deve haver alguma cozinheira que você pode pedir a mão em casamento.
— Estou indo a trabalho e não para diversão. — frisou Jamie aborrecido com os comentários.
— Uma coisa não impede a outra, meu caro. Ou você prefere rapazes? — retorquiu, rindo com os demais — Passei no povoado umas três vezes, consegui até ver moças com cabelos soltos, só isso já valeu a viagem para aquele fim de mundo.
Nos tempos atuais, ver uma mulher de cabelos soltos ou descobertos era quase a mesma coisa de vê-la nua. No seu Reino, as mulheres solteiras e casadas deveriam ter os cabelos sempre presos e, de preferência, cobertos. Cabelos soltos tinham um poderoso efeito erótico em alguns homens, mas pelo visto algumas mulheres na Inglaterra tinham costumes diferentes.
— Você que levou as cartas? Chegou a ver a tal princesa? — questionou Rupert enquanto tomava uma copo de vinho.
Nesse momento, todos os homens que estavam ali se viraram para ouvir o que Angus tinha a dizer sobre a futura Rainha.
— Não vi, mas há boatos que ela é tão linda quanto à própria Medusa e pode enfeitiçar os homens, transformando-os em pedra. — disse com a voz baixa e cautelosa — Dizem que ela é um ser mágico ou até mesmo considerada bruxa por alguns. Ouvi rumores que ela tem o dom de manipular as ervas e curar com apenas um toque.
— E você acreditou nisso? — questionou o gorducho Rupert amedrontado.
— Pare falar besteiras. — enfatizou Wallace, que estava sentado perto do seu cavalo ao longe. Com uma idade avançada, era gordo e tinha uma grossa barba negra — O Rei nunca se casaria com uma bruxa! Ser Sassenach já é ruim o suficiente.
— Posso ir com você nessa missão Jamie? — perguntou Rupert. Aparentemente tinha tomado coragem de ir à missão depois das palavras de Wallace.
— Você está louco homem? Claro que não. Não quero você me dando problemas com mulheres como na última colheita de impostos. A maldita mulher era casada! Ou você esqueceu? Não quero você criando transtornos para futura Rainha e duvido muito que a Princesa vai querer ficar olhando sua cara feia durante a viagem. — disse encerrando o assunto.
/
Passada algumas horas, Jamie era o único que restou no estábulo. Ao longe, ele escutou passos de pessoas se aproximando.
— Meu Deus, que susto rapaz. — disse o Rei Dougal depois de abrir os portões do estábulo e fazer Jamie se virar rapidamente. Usava um traje de montaria e estava junto com seus dois leais servos. Seu rosto estava branco, com uma expressão de horror. — Pensei que tivesse visto um fantasma.
— Quer um copo de água meu Rei? Para se acalmar? — perguntou o servo mais baixo.
— Não, já estou melhor. Por um momento cogitei estar vendo o fantasma de uma pessoa que quase destruiu tudo o que eu mais prezava.
Sem entender ao que Dougal se referia, Jamie começou a juntar suas coisas para voltar ao castelo. Aos poucos, a cor de seu rosto estava voltando ao normal e suas mãos pararam de tremer.
— É bom ver que está se preparando para a viagem, James. — disse Dougal puxando assunto. — Já decidiu quais cavaleiros você vai levar?
— Sim, já conversei com eles. Vou levar apenas 4 cavaleiros. Como vamos ficar um bom tempo fora, não quero deixar o Reino sem proteção. — explicou ele.
— Meu caro, você pensa para frente, gosto disso. Tirá-lo da cozinha e transforma-lo em cavaleiro foi uma das muitas decisões corretas que tomei. — disse orgulhoso de si mesmo.
— Fico feliz em escutar isso Senhor. — e fez uma reverência para se retirar do local.
— George, vá buscar o meu cavalo, quero vistoriar a plantação da cevada. — ordenou Dougal — E rapaz...
Jamie se virou.
— Boa sorte na sua missão.
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