Coração ao Vento
4 O Castigo de Jujuba
—Cara, Bluey foi incrível! — anunciou Meg, em pé gesticulando excitada, para quem quisesse ouvir no ônibus — Ela voou tão depressa pela pista que eu a perdi de vista! Nunca vi nenhum leedwee ser tão veloz assim! Nem mesmo no campeonato continental!
Senti meu rosto corar, envergonhada, o sentimento foi genuinamente meu, pois Kris estava olhando sorridente para Meg, feliz por minha vitória e ligeiramente aliviado por ter se livrado da surra que receberia caso eu fosse derrotada.
Júpiter pairava sobre sua humana com a cara amarrada de sempre, apesar de estar completamente indiferente às palavras dela.
—E o Arnon Trox... — continuou Meg — Tinham que ver a cara do idiota! Vou gravar aquela expressão ridícula naquela cara inchada para sempre! — o sorriso de Meg de repente se desfez, e uma expressão de tristeza e indignação tomou o lugar. Ela parecia ter se lembrado do que Arnon fizera a Jujuba por ter perdido a corrida — Babaca insensível — murmurou.
Não pude deixar de sentir felicidade e orgulho de mim mesma por ter vencido a Corrida de Leedwees, visto que meu objetivo sempre foi fazer o possível para proteger minha criança. No entanto o som de Jujuba colidindo com o tronco de uma árvore com um baque ecoava em minha cabeça. Kris tentou me tranquilizar dizendo que não era minha culpa por Arnon Trox ser o que era, mas não deixei de sentir muita culpa e tristeza por Jujuba. Contudo, não havia nada que eu pudesse fazer para melhorar a situação dela. Eu não poderia lutar para defendê-la, eu perderia com toda a certeza e provavelmente atiçaria a fúria de Arnon contra Kris. Também não conseguiria convencer Arnon a ser uma pessoa melhor. Duvidava muito que ele aceitasse e ainda mais seguisse o conselho de uma leedwee. Tudo o que me restava era torcer para que as fraturas de Jujuba sarassem rapidamente e que ela fosse bem na corrida daquela noite, a qual Arnon a inscrevera e pretendia apostar.
Boa parte das crianças no ônibus prestava bastante atenção no que Meg dizia. Os sorrisos e os vivas bradados por alguns só demonstravam o quão impopular Arnon Trox era. Quando a garota terminou, Kris começou a ser bombardeado por perguntas do tipo "Por que você não nos chamou para assistir à corrida?", e "Se sua ajudante é tão boa, por que você não a inscreve no campeonato da escola?", e "Que tipo de treino você usa com ela? Adoraria que o meu Nyuu fosse rápido também!". Enquanto Kris se ocupava em responder a todas as perguntas e a dizer que eu mal tinha o hábito de voar mais depressa que o necessário, aproveitei para me aproximar de Meg, que havia sentado 2 fileiras atrás de minha criança, para dar espaço aos outros e seus questionamentos. Meg alisava vagarosamente seu braço enfaixado. Pedi licença a todos que me olhavam e tentavam me tocar e cheguei voando perto do rosto da garotinha e comecei a falar.
—Ahm... Meg?
—Ah, oi Bluey. Desculpe por ter te atraído tanta atenção. Acho que me empolguei. — disse ela encabulada com um sorriso envergonhado.
—Ah, tudo bem, não precisa se desculpar por isso.
Alguns segundos de silêncio entre nós perduraram até eu tornar a falar.
—Ouça, eu gostaria de falar com você sobre o que aconteceu hoje com o Arnon Trox no corredor — eu precisava falar. O jeito que ela ficou em estado de choque quando Arnon agarrou seu braço me assustou. O sorriso de Meg logo se desfez em uma expressão triste -S-Se você quiser falar, é claro!
Meg deu um longo suspiro antes de falar.
—Bluey... — ela espiou pelo canto do olho para onde Júpiter contemplava a rua e os carros, completamente absorto da nossa conversa — ...não precisa se preocupar comigo, estou bem. O que aconteceu... Bem, nem sei explicar o que aconteceu, acho que eu só estava tentando criar uma cena para, caso algum professor aparecesse, criar um problema para Arnon. — Ela tornou a sorrir.
Meg pareceu notar minha expressão de pura incredulidade, pois seu sorriso mais uma vez deu lugar a um suspiro de lamento.
—Ok — disse ela — Bluey, eu realmente não gosto de mentir ou esconder coisas de você e do Kris, vocês são os meus melhores amigos, mas eu realmente estou passando por alguns problemas e sinto que não devo jogar o peso deles em vocês. Mas acho que você merece uma explicação, já que te preocupei. — Meg tornou a espiar Jupiter antes de continuar — Desde que a minha mãe morreu há 2 anos, tenho tido pesadelos e problemas para dormir. Tenho tido consultas com meu psicólogo durante esses tempos, mas não tivemos muito avanço. Às vezes, em situações de estresse eu tenho alguns devaneios e posso... Como dizer? Ir para o mundo da lua, entende?
—Não muito.
—Bom, é coisa da minha cabeça, não se preocupe. Estou me tratando e sinto que meus novos remédios podem ajudar.
—Tudo bem. — disse eu tentando não transparecer ceticismo.
Ela tornou a espiar Jupiter e murmurou para mim:
—Por favor, não conte para o Kris. Você sabe que eu o adoro, mas ele é muito ingênuo. Olhe só, você percebeu algo de errado e ele não. Eu não quero preocupá-lo com isso. Você pode fazer isso por mim?
Assenti relutante. Meg reagiu a isso com um sorriso luminoso.
A história de Meg não me pareceu muito convincente. Era verdade que sua mãe morrera há alguns anos, após despencar do sétimo andar do apartamento onde eles moravam na época, e lembro de tê-la visto tomar algum comprimido entre as aulas, mas essa história me soou inconsistente e muito suspeita. Considerei seriamente começar uma nova rodada de perguntas, questionar por que ela se ausentava tanto, por que vez ou outra aparecia machucada, talvez até mesmo perguntar sobre sua cicatriz avermelhada na bochecha, que tinha forma perfeita de uma lua crescente, da qual ela nunca nos contou como aparecera, mas Meg me pareceu extremamente desconfortável respondendo às primeiras perguntas, então decidi deixar para lá. Não queria me intrometer na vida pessoal dela se ela não se sentia bem compartilhando. Mesmo assim me comprometi a ajudar no que fosse caso necessário.
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Assim que Kris retornou a sua casa, mostrou aos pais o livro que ganhara de Meg, e contou como eu venci Jujuba na corrida, sem mencionar que provavelmente voltaria para casa bem machucado caso eu perdesse.
Após o jantar, Kris subiu para o quarto, arrancou a cobertura de plástico que envolvia o livro novo, sentindo aquele cheiro característico de papel e tinta de impressora, e pôs-se a ler deitado de bruços na cama.
"Enderson Corduroy (402-436) nasceu na cidade de Kruster, no território de onde atualmente é Neander. Não se sabe muito sobre a vida de Corduroy, mas estima-se que ele escreveu seu único livro, Contos de Fadas, em algum momento entre 420 e sua morte. Corduroy nunca chegou a publicar pessoalmente seu livro, o manuscrito foi encontrado décadas após seu falecimento. Contos de Fadas não é um livro particularmente bem escrito, mas atualmente é considerado um marco por ser um dos primeiros livros da história da humanidade e, até onde se sabe, o primeiro a retratar Tyr e Gaia."
Kris lera mais um pouco antes de adormecer. Os primeiros capítulos do livro retratavam como Gaia criou o planeta, as estrelas, o sol e as duas luas que iluminavam o céu à noite. O capítulo 2 falava sobre os tipos de poderes inacreditáveis que Gaia dera às suas fadas, conhecidos como singularidades. Além da singularidade que era de conhecimento geral: o poder de controlar os 5 elementos principais do planeta (Terra, Água, Natureza, Fogo e Ar), as fadas eram imortais, imunes a qualquer tipo de dano físico, tendo um poder regenerativo milhares de vezes superior aos de leedwees com humanos saudáveis. Além disso, fadas tinham a capacidade de fazer levitar objetos muitíssimas vezes mais pesados de que elas, como por exemplo um humano rebelde, e fazê-lo despencar de dezenas de metros de altura. A última das singularidades mais poderosas que Gaia presenteou os seus filhos foi a Alquimia, a arte da transfiguração e transmutação. Com esse poder, fadas poderiam transformar uma simples pedra de brita em uma pepita de ouro maciço, e de novo em um prato dourado. Poderiam juntar uma porção de areia e transformá-los em uma pilha de legumes, e juntando com um pouco de água, transformar tudo em uma nutritiva sopa, apenas com um gesto mágico. As ilustrações do livro mostravam que antes de executar um poder da alquimia, um círculo de luz brilhante preenchido com runas (ou seja-la o que fossem aqueles símbolos estranhos) surgia girando diante da fada que estivesse tentando usá-lo.
Kris fechou o livro e o guardou na estante, acima do computador, junto a todas as histórias em quadrinhos do Homem-Ave, defensor da lei, e sua ajudante Almanaque, a leedwee mais inteligente do mundo.
Kris apagou as luzes do quarto, se deitou na cama e adormeceu rapidamente. Com isso senti muito sono, e deixei-me levar, tendo como último pensamento o desejo de que Jujuba estivesse bem.
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No dia seguinte, muitos cochichos tomavam conta do ambiente no ônibus escolar quando Kris e eu entramos. Tenho certeza de ter ouvido várias vezes o nome Arnon Trox e Escrava, o último nome que Arnon malvadamente dera a Jujuba. Senti um arrepio percorrer minha espinha e um pressentimento ruim o meu coração. O que eu mais temia havia se tornado realidade, conforme descobri quando nos aproximamos de Meg, e Kris se sentou dizendo:
—Bom dia. O que aconteceu?
—Foi a Jujuba... — respondeu Meg, preocupada. Meu corpo gelou — Perdeu a corrida de ontem. Não só perdeu como chegou em último lugar. O Barter disse que o pai dele o levou na arena para assistir à corrida. Ele disse que Jujuba estava toda mole e roxa, gemendo. Parece que ela não conseguiu se curar a tempo de competir e teve que voar com as costelas quebradas. — Meg estremeceu — Arnon deu um jeito de apostar na vitória dela, e perdeu todo o dinheiro que passou 1 ano juntando. Barter falou que depois da corrida, quando estavam indo embora, conseguiu ouvir os gritos da Jujuba pelos corredores.
Kris não conseguiu dizer nada. Baixou a cabeça e juntou as mãos entrelaçando os dedos. Assim como eu, sentiu um peso no coração. Ele não disse nada, mas eu sabia exatamente o que ele estava sentindo. Sentia culpa. Ele provocou Arnon Trox, enfureceu-o provocando o desafio. Já Meg parecia se sentir igualmente culpada. Se tivesse se desvencilhado do Arnon quando ele a agarrou, Kris não tentaria defendê-la. Mas os dois estavam errados, a culpa era inteiramente minha. Eu gostei de vencer a corrida. Não pensei nas consequências. Mas se eu perdesse, minha criança sofreria. Eu não queria que ninguém se machucasse, pensei em Kris, mas agora Jujuba estava sofrendo. Minha cabeça girava.
Quando chegamos a escola fiquei atenta para ver se encontrava Jujuba, e quando a vi, fiquei em estado de choque por alguns segundos.
Jujuba estava no chão, uma das asas arrancadas, o corpo roxo, não pela cor dos cabelos e de sua cobertura de queratina, mas por fraturas e vergões. Sua cabeça sangrava, ela parecia muito tonta, parecendo ter tido uma concussão. Arnon Trox viera chutando-a pelo corredor. Eu o vi se preparando para chutar novamente. Recuou a perna o mais alto que pôde e acertou-a com uma bica nas costas. Jujuba fora atirada por uns 6 metros e aterrissou rolando bem na nossa frente.
Eu não pensei. Voei veloz para socorrê-la, a tomei em meus braços. Ela não respodia aos meus chamados. Desmaiara.
—Ai, minha Deusa! Jujuba, responde! — mas ela não acordou.
Arnon Trox se aproximou com passos pesados, bufando, arquejando, o rosto escarlate, com o mais puro ódio no olhar, como eu nunca havia visto antes.
—Você...- ele mirou o olhar em mim e eu me senti menor do que nunca, mais do que já era — O-NOME-DELA-É-ESCRAVAAAAA!!! — depois disso eu acordei numa saleta, a mesma onde todos os leedwees ficavam em dias de prova. Conforme eu fiquei sabendo depois, Arnon acertou em mim e em Jujuba um chute tão forte que desmaiei. Kris correu desesperadamente para pegar a mim e a Jujuba que não viu Arnon chegando para socá-lo no rosto. Meg ficou tão horrorizada que não conseguiu fazer nada.
Eu estava deitada num dos mini sofás da saleta, me recuperando. Logo descobri que Arnon me presenteara com o braço esquerdo e 2 costelas quebradas. A concussão em minha cabeça já havia sarado. Jujuba descansava no outro sofá. Ligeiramente mais ferida do que eu, ela ainda estava desacordada, sendo cuidada por meia dúzia de leedwees dos colegas de Kris. Através da portinhola da saleta pude ouvir a aula acontecendo normalmente. Espiei pela fresta da abertura e, para o meu desagrado, Arnon Trox estava em sua carteira, a cara amarrada. Kris do outro lado da sala, tinha um curativo na bochecha esquerda.
Os leedwees me contaram que Arnon não queria deixar Jujuba descansar, mas a professora ordenou que ela fosse carregada até a saleta, não porque a mulher morria de pena dela, mas pelos gemidos de Jujuba estarem perturbando a aula. Kris insistiu para ficar comigo, mas a professora não permitiu. Eu queria sair para mostrar à minha criança que eu estava bem, mas minhas costelas e braço doíam demais, e se aquilo era ruim, nem queria pensar no que Jujuba devia estar sentindo.
Me aproximei da Jujuba. Ela arquejava, muitos ossos nitidamente quebrados, mas pelo menos parara de sangrar e eu podia ver as manchas roxas lentamente se apequenando.
-Oh, Jujuba... — sussurrei.
Horas mais tarde, ao final da aula, eu estava perfeitamente inteira. Já Jujuba se recuperara consideravelmente. Toda a sua pele voltara ao normal, metade das suas fraturas se curaram e ela havia despertado.
-Oh Bluey... Eu falhei... Eu falhei com meu dever... Decepcionei Mestre Arnon... — disse Jujuba com voz chorosa.
-Não diga isso! — eu disse indignada — Você é a que tem menos culpa nessa história!
-Eu mereci o que aconteceu...
-Não! — berrei — Jujuba, foi ele quem te feriu antes da corrida! A culpa foi dele se você estava sentindo dor!
-Não importa mais... Eu fui uma desgraça. Mestra Ananda, mãe de Mestre Arnon, disse que eu devia ser boa para Mestre Arnon ou deveria desaparecer.
Meu coração pesou.
-Dessa vez não escaparei de ir ao Centro de Domesticação.
Naquele momento eu não sabia o que dizer. Não saia nada além de ar da minha boca aberta. Em toda a minha vida até então eu nunca havia me sentido tão incapaz, tão inútil, tão insignificante. Devia ser assim que os leedwees em geral se sentiam.
De repente o sinal tocou e ouvimos a portinhola da saleta se abrir. A cara gigante de Arnon Trox preenchia toda saída. Ainda nos olhava furioso.
-Ei! Monte de Estrume! Sim, esse é o seu nome agora! Anda logo! — e ele fechou a portinhola batendo-a bruscamente.
-Eu estou com você, Jujuba — finalmente consegui falar — Não sei como... Não sei... Mas vou te ajudar! Você tem a minha palavra!
Jujuba me agradeceu com sua voz doce. Eu não tenho palavras para descrever como ver ela naquele estado me cortava o coração. Seu rosto lindo e feminino que só conseguia transmitir expressões tristes.
No corredor, em direção à saída, Meg e Kris caminhavam juntos. Eu logo atrás, e Júpiter voando sobre Meg, completamente despreocupado.
-Então o que vai acontecer com Arnon? — perguntou Kris.
-Eu ouvi a professora dizendo que ele vai pegar uma detenção por ter te batido. — respondeu Meg.
-E o que vai acontecer por ele ter machucado Jujuba? — perguntei.
Meg hesitou por um momento.
-Ele levou uma advertência.
A sensação de injustiça me tomou o peito novamente.
-Advertência?! Ele torturou a Jujuba e por isso só levou uma advertência?!
Meg baixou a cabeça.
-Ele... Ele não foi advertido por ter batido em Jujuba... Foi por ele ter sujado o corredor com o sangue dela...
A minha vontade era a de gritar o mais alto e o mais forte que eu pudesse até que meus pulmões explodissem, mas mais uma vez tive que conter meus sentimentos.
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Foi uma manhã terrível. De fato, uma das piores da minha vida. Mas o dia ainda não havia terminado, e nada é tão ruim que não possa ficar pior, estou certa? E começou quando eu notei uma coisa estranha na saída da escola.
Uma leedwee rechonchuda chamou a minha atenção. Seus longos cabelos muito verdes e grossos, parecendo mais cipós que brotavam de sua cabeça redonda, era o que havia de menos estranho nela. Ao invés da cobertura colorida de queratina que cobria boa parte do corpo de todos os leedwees, ela usava um vestido feito de algo parecido com couro. Muito surrado e remendado, seu vestidinho cor de terra parecia ser muito, muito velho. Mas o que de longe chamava mais atenção nela eram suas asas. Era comum ver às costas dos leedwees um borrão branco indicando que suas asas cobertas de plumas cor-de-pérola batiam freneticamente. No entanto o borrão às costas dela era transparente, como se ela não tivesse plumas, como se ela tivesse asas de membrana, como uma libélula.
Percebendo que eu olhava fixamente para a leedwee por tempo demais, desviei meu olhar para não parecer rude. No entanto, ao dar uma segunda espiada de esguelha, notei que ela estava voando em minha direção. Ela parou bem na minha frente, e antes que eu pudesse me desculpar por ter a encarado, a leedwee falou.
—Saudações minha amiga — murmurou ela. Sua voz era macia e doce, porém um pouco rouca, como se ela não falasse há um bom tempo. De perto, percebi que sua pele era muito branca, como a de um humano que nunca tomara sol na vida.
—Ahn... Oi — disse eu com um sorriso envergonhado.
A leedwee sorriu levemente para mim, lançando-me um olhar acolhedor.
—É realmente uma alegria finalmente te encontrar.
Eu a olhei dos realmente grossos cabelos até a ponta dos pés, mas não me recordei de nada que me fizesse reconhecê-la.
—Desculpe-me, mas eu a conheço? — eu disse educadamente, porém querendo mais perguntar o que havia acontecido com as asas dela.
—Acredito que não. O meu nome é Freya. — A leedwee se curvou em reverência.
—Ahm... É um prazer. Meu nome é Bluey.
—Ah, eu sei! — anunciou orgulhosa — Você é uma de nós! Uma muito especial. E tem um bonito nome, apesar de ser sua marca de escravidão. Um...
—Desculpe, a minha marca do quê? — a interrompi.
—A sua marca de escravidão, minha jovem — disse séria — o nome que o humano dá é a marca de escravidão de uma fada.
A leedwee ficou um longo tempo parada me olhando e sorrindo, como se esperasse que eu concordasse.
—Ah... Ok então. Um prazer te conhecer, mas vou voltar para a minha criança. — Mas quando me virei para voltar para junto de Kris, Freya me impediu segurando meu braço.
—Oh, não querida Bluey, não se vá ainda! Desculpe-me se estou a confundindo. Não sou boa em conversação. Sei que está confusa, mas poderemos conversar melhor quando estivermos junto a Pandora e aos outros.
—Não conheço essa Pandora, e não te conheço, então se puder fazer o favor de soltar meu braço...
—Ah, não! Por favor, venha comigo! Pandora ficará triste se não formos!
—Meu humano está se afastando, preciso ficar perto dele! E acho que você deveria ir procurar o seu!
Freya me largou e olhou para mim com uma expressão incrédula, como se eu a tivesse xingado com o pior palavrão que já existiu.
—Eu não tenho humano! — berrou — Sou livre! Não pertenço a ninguém!
Eu a olhei espantada. Ela se irritou comigo por algum motivo, mas dado o fato de que ela estava tentando me arrastar a força para algum lugar, eu não me importei.
—Bom... Eu pertenço. — Eu disse em tom sério — Então, se me der licença, eu vou embora.
Freya pareceu se arrepender de ter gritado comigo. Seu olhar se entristeceu e eu pude ver seu lábio inferior tremer.
—B-Bom... E-Eu sinto muito, m-mas não vejo outro jeito, senão usar minha força.
Mas antes que Freya pudesse dizer ou fazer mais alguma coisa, eu adentrei à multidão de crianças que saiam pelo portão principal.
No ônibus, na volta para casa, eu não tinha vontade alguma de falar. Não queria conversar sobre Jujuba e muito menos sobre aquela leedwee estranha e obcecada. Sentei-me no ombro de Kris e fiquei olhando para fora, através da janela, contemplando a cidade. Para me distrair comecei a contar as estátuas, grafites, referências e templos dedicados à Tyr, a humana, que eu via pelo caminho. De longe consegui ver o topo do palácio real.
(Eu poderia incentivar Kris a se tornar um político), pensei. (Juntos poderíamos convencer o Rei a criar uma lei que garanta direitos aos leedwees). Eu já ouvi falar em políticos que tentaram fazer algo parecido, mas eles sempre foram esmagados pela fortíssima oposição. "Direitos para leedwees? O que vai vir depois? Licença maternidade para vacas leiteiras?", foi o que eu ouvi dizer um homem particularmente desagradável no noticiário uma vez.
Protestar por direitos? Absolutamente fora de questão. Mesmo que conseguíssemos marchar sobre uma avenida sem nos tornarmos cinzas por nos afastarmos demasiadamente de nossos humanos, um grupo de leedwees se juntando, atraindo autoridades seria como um bando de borboletas voando sobre uma saparia esfomeada.
Meus pensamentos foram me afastando do mundo real até que algo no mundo real aconteceu. O ônibus escolar parara abruptamente, me fazendo despencar do ombro de Kris e cair no chão com um baque. Ouvi gritos. Me recompus rapidamente e voei para ver o que estava acontecendo. Livros, mochilas e crianças estavam caídas no corredor e nos bancos. Kris havia se segurado firmemente no banco para não cair também. Meg se segurara em Kris. De repente algo inacreditável aconteceu. Imensos e grossos tentáculos verdes foram tomando parte externa do ônibus, se agarrando com força a ele, amassando algumas partes e quebrando janelas. Os gritos aumentaram. Queria sair para ver o que estava acontecendo lá fora, mas não podia abandonar Kris. O ônibus começou a ser erguido no chão, a parte da frente mais alto, fazendo alguns escorregarem para o fundo. Tentando ficar calma olhei melhor para os tentáculos e vi que cresciam folhas e espinhos deles. Eram plantas! Cheguei rápido a essa conclusão, mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, uma bola vermelha com manchas amarelas do tamanho de uma melancia foi atirada para dentro do ônibus e parou no corredor. Por um minuto pareceu que ela não ia fazer nada, mas ela começou a desabrochar como uma flor muito feia, e uma fumaça vermelha emanou do seu botão. Rapidamente o ar fora tomado pela névoa cor de sangue e, uma a uma, crianças foram caindo desacordadas. Me virei para ver Kris que tentava cobrir o nariz com a camisa, mas não adiantou. Ele caiu, e Meg com Júpiter logo em seguida.
-Ah, não... — disse eu logo antes de despencar desacordada no chão.
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