Notas iniciais
Sei que é muita cara de pau minha ficar meses sem postar e simplesmente voltar e postar um capítulo sem dar explicações... mas começo de ano é tão corrido para mim... e além disso fiquei sem inspiração. Espero que entendam. Esse capítulo não foi betado, mas talvez no próximo minha beta já comece a betar. Boa leitura. Beijinhos.

Capítulo 2

(Uma semana antes.)

Faltava apenas quinze minutos para que o sinal da última aula tocasse. Nick estava sentado na primeira carteira da segunda fileira, observando com atenção o professor explicar o trabalho de história. Anotou as informações mais importantes, decorando a folha branca com a letra caprichada. Quando terminou, alguns alunos já haviam guardado todo o material e o professor começava a apagar a lousa.

Fechou o caderno e recolheu o material dentro da mochila.

Pouco tempo depois o sinal tocou, liberando uma rajada de adolescentes selvagens que corriam pelos corredores, apressados para fugirem da escola. Nick foi um dos últimos a sair da sala, caminhando sozinho com tranquilidade, como fazia todos os dias.

Já estava mais do que acostumado com a agressividade de alguns alunos, e mesmo que se sentisse como uma pequena formiguinha boiando sobre uma folha no mar a mercê da maré, não sentia medo.

Já estava quase chegando à porta quando alguém esbarrou nele, fazendo-o perder o equilíbrio e tropeçar nos próprios pés, quase caindo.

O garoto respirou fundo, aliviado por ter a parede próxima para se apoiar, e olhou para o outro rapaz somente quando ouviu uma risada alta.

Não foi surpresa nenhuma quando reconheceu Marc Willian — o cestinha do time de basquete da escola que por alguma razão parecia odiar Nick desde a primeira vez que o vira — passar por ele acompanhado da namorada. Marc já estava longe quando ainda se virou e sorriu com escárnio para o mais novo.

Nick abaixou a cabeça, sem conseguir mirar aqueles olhos. Contou até três e então voltou a caminhar.

Não era de hoje essa perseguição de alguns garotos para com ele. Desde que entrara na escola, há um ano e meio mais ou menos, percebeu um certo sistema existente que separava os alunos pelas classes sociais, habilidades especiais e pela capacidade de socializar-se com os demais. Das três, Nick era provido de apenas uma: A boa situação econômica dos pais. Porém, esta era a que menos importava naquela escola, já que se tratava de um colégio particular, a maioria dos alunos também pertenciam à famílias ricas, com exceção dos poucos bolsistas. Por isso Nick continuava em desvantagem para com os demais, e talvez por isso havia sido a escolha perfeita para ser o saco de pancada da turma.
Era Injusto e cruel puni-lo por ser diferente, porém ninguém parecia ligar, como se este tipo de atitude de tão ter sido repetido ao longo das gerações tivesse se tornado aceitável, ou ao menos, normal aos olhos da sociedade. Até mesmo os professores que possuem o dever moral de repelir e corrigir tal comportamento tanto dentro quanto fora da sala de aula, as vezes eram os que deliberadamente incitavam os alunos a começar.

Com os olhos voltados ao chão e os ombros curvados, desceu as escadas de pedra e caminhou até um grande carvalho nascido há muitas décadas no gramado daquela instituição, onde comumente Sebastian o aguardava. Sebastian era o fiel e adorado empregado dos Young, contratado desde muito antes que o primeiro filho do casal nascesse. A confiança depositada nele era tão grande, que havia sido a primeira opção para levar e buscar Nick no colégio quando a necessidade surgiu. Não era apenas um empregado, mas um amigo sábio e um ótimo ouvinte, uma das poucas pessoas fora da família com quem o garoto dos olhos tristes não se sentia desconfortável, apesar de não falar em sua companhia.

A caminhada até em casa durava pouco mais de vinte minutos, e boa parte do trajeto passava pela movimentada avenida Marcos Aranha, cujo transito era gigantesco naquela hora do dia. Nick observava vez ou outra um ônibus passar lotado de gente, refletindo poucas vezes sobre qual seria a sensação de estar ali dentro.

O que parecia normal para as outras pessoas para ele era um mistério, pois nunca em sua vida precisou entrar dentro de um ônibus. Mesmo em carros só entrara quando pequeno e suas lembranças em relação a isso envolvem escândalos e muito choro, porque mesmo antes de aprender a falar já se negava veemente a entrar em qualquer tipo de veículo, o pânico o dominando só em imaginar.

Quando chegou em casa foi direto para o quarto, onde na porta havia sido entalhado seu nome, para que toda vez que entrasse soubesse que aquele lugar e tudo que ele dispunha lhe pertence. Não falou com ninguém durante mais de duas horas, o tempo de tomar banho e fazer o dever de casa.

Já tinha terminado quando ouviu batidas na porta, em seguida uma voz doce lhe questionou:

– Posso entrar? — Era sua mãe, Nick reconheceu, levantando e indo abrir a porta. Ela sorria quando ele a fitou ligeiramente, ainda cabisbaixo. — Posso entrar? — Repetiu a pergunta.

Nick deu passagem para que ela entrasse, em seguida lhe deu as costas e caminhou até a escrivaninha, organizando os livros da escola pelos títulos dentro da mochila.

Katia o observou com paciência, os olhos já acostumados com a organização e limpeza excessiva do quarto. Ficou em pé, sem saber se ele se incomodaria caso ela sentasse em sua cama.

Quando Nick terminou, empurrou a cadeira e se sentou de costas para a mãe, como se tivesse esquecido que ela estava ali. Mas Katia sabia a verdade, o menino não estava ignorando-a de propósito, ele apenas não sabia agir como um anfitrião, pois isso ninguém nunca o ensinou. Como ninguém nunca o ensinou que é falta de educação dar as costas a uma visita, mesmo sendo a própria mãe, não há como ele saber, porque esse tipo de coisa que é tão óbvia para a maior parte das pessoas Nick não consegue aprender sozinho. Não que ele seja burro, acontece apenas que Nick vê as coisas de uma maneira diferente da maioria, o que faz algumas coisas tão claras para a maioria serem quase impossíveis de serem assimiladas por ele, fazendo com que muitas vezes as pessoas o considerem grosseiro, o que não é uma verdade. Sua percepção do mundo era diferente da dos demais, e disso ele não tinha culpa.

Katia caminhou até a janela e a abriu, deixando o sol entrar e iluminar boa parte do quarto.

– Está um dia tão bonito. — Inspirou profundamente, sorrindo quando sentiu o rosto ser queimado pelo sol. — É uma pena que daqui a pouco eu tenha que voltar para o escritório. Poderia passar o dia todo tomando sol... — Suspirou com ar cansado, em seguida virou o rosto e avaliou o filho. — Você está um pouco pálido, está se sentindo bem? — Silêncio. — Eu estive pensando... Talvez seja bom mesmo você voltar a fazer natação. Tenho para mim que você ficava menos doente quando praticava esporte. Sem falar que você é um ótimo nadador. — Uma pausa — Eu preciso conversar com você. Não sei como dizer isso, nem sei se você vai entender... É sobre a sua irmã. — Ela passou a mão direita sob o peito, sentindo o próprio coração bater forte. — Ela cresceu, tornou-se uma mulher. Ontem nós duas tivemos uma conversa séria. Querido, olhe para mim. — Ele virou o rosto na sua direção, mas não a encarou. — Está prestando atenção? — O garoto assentiu depois de uma longa pausa. Katia respirou fundo e continuou. — Sabe, Nick, há muito tempo eu queria ter essa conversa com você. Talvez fosse melhor seu pai falar, ele é melhor com as palavras do que eu, mas acho que como mãe eu tenha mais jeito com esse tipo de situação. Seu pai poderia ser um pouco pratico demais, e não queremos isso. Você precisa saber disso de uma forma menos.. machista. Precisa de uma visão feminina. Sim, uma visão doce desta situação. Estamos passando por uma nova fase nesta família, pela primeira vez na vida, Barbara está namorando. Você sabe o que estas palavras querem dizer? Hein meu bem?

Nick franziu a testa. "Barbara está namorando" repetiu as palavras dentro de si, buscando seu significado. De repente uma torrente de imagens de revistas e filmes invadiu seu cérebro. Imagens de mulheres e homens de mãos dadas na praia, jantando em restaurantes, assistindo filmes em cinemas e dançando juntos.

"Namorar" questionou-se, "O que seria namorar?"

Como Katia continuava em silêncio, vendo a dúvida iluminar o rosto do menino, ele negou, esperando receber a resposta em troca.

– Bom, Nick, quando um homem e uma mulher se gostam, eles ficam juntos, assim como eu e o seu pai. Tudo começa com um namoro, encontros, jantares, ligações até tarde da noite, até que a coisa fica séria e o homem pede a mão da moça em casamento.

Nick franziu a testa.

– Porque só a mão? — Perguntou baixinho. Na sua mente, imaginava um casamento de um homem e uma mão gigante vestida de noiva.

Como todo autista, Nick não era capaz de entender metáforas.

Se dando conta do que havia feito, Katia se explicou.

– Não, querido, "pedir a mão" é só uma expressão, não é literalmente. Significa pedir a pessoa em casamento, e como a aliança, que é o símbolo do compromisso, vai na mão chamamos de pedir a mão. Entendeu? — Ele assentiu. — Ótimo. Bom, o que estou querendo dizer é que quando duas pessoas se gostam elas dentem a namorar.

– Então... todo casal de... amigos... um dia vai... namorar?

– Não necessariamente. Existem várias formas de gostar de uma pessoa, assim como existem várias formas de odiar também. Por exemplo, existe o amor de dois irmãos, como o que você sente pela Barbara, existe o amor de dois amigos, igual ao que eu sinto pelos meus amigos, e existe o amor de uma mãe pelo seu filho, igual o que eu sinto por você e pela sua irmã, e também existe o amor de um casal de namorados, igual o amor que a sua irmã está sentindo pelo namorado dela. Você entendeu? Ainda existem vários outros, esses são só alguns. O amor é um sentimento maravilhoso, e é ótimo que nós o tenhamos em nossos corações. Mas não é só porque sentimos um carinho por alguém que signifique que nós estamos apaixonados. Eu sei que é complicado de entender, mas eu só queria que você soubesse que é muito bom que a sua irmã esteja em um relacionamento, e eu espero que você a apoie e seja bom com o namorado dela. Eu tenho certeza que você irá tratar ele bem. E é por isso que eu o convidei para um jantar semana que vem, assim poderemos nos conhecer melhor e os dois poderão tornar-se amigos. — Sorriu. — Será um evento maravilhoso, estou super ansiosa. — Uma pausa — Bom, era só isso que eu queria te dizer. Desça daqui dez minutos para comer, esta bem? — Ia saindo do quarto quando ouviu Nick sussurrar alguma coisa. — Como disse?

– E-eu... só queria saber... se um dia... — Parou, os dedos sendo apertados violentamente. — Se um dia eu vou... gostar de alguém... desse... jeito...

– Como é? — Katia pareceu sem reação por alguns segundos. Não havia se preparado para aquela pergunta. Piscou atônica várias vezes até conseguir se acalmar. — Eu... — Respirou fundo. — Claro que não. Quer dizer... Bom, querido, eu sinceramente não sei. Talvez sim, quem sabe? Mas eu acho que provavelmente não. É muito difícil.

– Difícil porque? Porque eu sou... esquisito?

– Não! Da onde é que você tirou essa idéia? Nunca mais diga que você é esquisito! Se ser diferente significa que a pessoa é esquisita, então todo mundo é! Pelo amor de Deus, meu anjo, tire essas coisas da sua cabeça.

– Então... porque? — murmurou.

Katia suspirou, sem saber o que dizer.

– Eu não sei. Sinceramente nunca havia pensado nisso. É que eu não consigo te imaginar saindo de casa, de perto de mim... Não consigo imaginar meu ninho vazio, sabe? — Nick imaginou a mãe como um passarinho dentro de um ninho vazio, e se perguntou o que teria a ver. — Talvez eu só esteja sendo um pouco egoísta. Sim, é claro que isso pode acontecer um dia. Só que não é o que eu desejo... Não consigo imaginar a minha vida sem ter que cuidar de você... Meus filhos são tudo para mim... — sua voz ficou falha — Eu já sinto que estou perdendo a sua irmã, não acho que estou preparada para pensar em te perder também. Você é o meu bebe... Porém, quem sabe o que vai acontecer amanhã, não é mesmo? Tudo pode acontecer. Eu só espero que demore bastante, pois não estou preparada psicologicamente para te deixar. — Ela caminhou até ele, deu um beijo morno em sua testa e saiu do quarto.

Nick ficou ouvindo o barulho dos passos da mãe contra o piso do corredor até que fosse impossível de ser escutado. Em seguida se levantou e foi até o único espelho do cômodo. Ficou se observando por alguns minutos, até que se cansou e saiu do quarto para ir almoçar.

*-*-*-*-*

O que pode fazer uma pessoa feliz? Coisas simples, como um dia de sol? Almoçar a comida preferida junto das pessoas que ama? Contar piadas numa rodinha de amigos? Um passeio no parque? Beijar a pessoa amada num parque de diversões? Brincar com seu bichinho de estimação? Dançar, sorrir, sentir-se bem, amado? Ou algo realmente complexo com um nível maior de dificuldade e até mesmo de relevância? Como dar a luz a uma criança? Se recuperar de um câncer? Sobreviver a um naufrágio? Viver por cem anos? O que pode fazer uma pessoa feliz? O segredo da felicidade está no tamanho do salto que uma pessoa dá ou na força que ela coloca nele? Está na distancia percorrida ou na força de vontade que a fez conseguir começar a percorre-la? Está no inicio, no meio ou no fim? No ontem, no hoje ou no amanhã? A sua felicidade está aonde? O que te faz feliz? Você ao menos sabe o que faz a pessoa que você mais ama feliz? Sabe mesmo? Alguma vez você ousou perguntar a essa pessoa? Imagino que só um EU TE AMO já baste para ela, por isso diga, olhe no fundo dos olhos dela e a surpreenda, ela espera ouvir qualquer coisa de você, menos isso. Seja sincero, e não espere receber nada em troca, mas saiba que quando você ama alguém ser amado de volta é apenas uma consequência.

"O segredo é não correr atrás das borboletas... É cuidar do jardim para que elas venham até você." — Mario Quintana.

~..~

(Uma semana depois)

– Eu me apaixonei pela Barbara desde a primeira vez que a vi tentar intimidar um malandro que a estava paquerando no estacionamento do shopping. Fiquei tão ofendido com a postura do individuo que tive que ajuda-la, era o mínimo que eu podia fazer. Foi amor a primeira vista e olha que eu nem acreditava nisso. — Seu sorriso brilhante iluminou a sala e fez o casal de advogados se entreolharem, visivelmente encantados com a desenvoltura do rapaz. Barbara segurou a mão do namorado enquanto ele continuou a falar, sem nenhuma vergonha aparente. — Ela estava tão linda naquela noite. Mas claro, isso não é novidade. Só que naquele noite ela conseguiu estar especialmente bonita, como se tivesse previsto o nosso encontro. — Artur encarou a namorada com o olhar penetrante, devaneando. — As vezes eu acho que você sempre soube. — Barbara sorriu. — Enfim — Voltou-se as sogros que fitavam o casal de namorados sentados em um outro sofá. — Eu nunca, em hipótese alguma, esquecerei aquela noite. Acredito que existem momentos que marcam as nossas vidas, e aquele foi um deles. — Um silêncio estranho tomou conta da sala. Artur logo tratou de amenizar o constrangimento. — Ora, ora, parece que eu não estou deixando ninguém falar! Me desculpem, quando eu fico muito ansioso não há ouvidos que me aguentem tagarelar. Realmente não havia me apercebido que estava fazendo isso. — Riu com simpatia. — É um habito, eu já tentei passar em médicos, mas... Viram só? Estou fazendo de novo. Por favor, digam alguma coisa.

Katia pigarreou, em seguida olhou bem humorada para o marido e riu para o novo genro.

– Uau, Barbara tinha razão, você é adorável. — Riu um pouco mais. — Que coisa, eu aqui esperando um garotinho tímidos cheio de "não me toques" e me aparece totalmente o contrário. Que maravilha. Você não faz idéia do quanto estou aliviada.

– Eu avisei, Artur é perfeito. — Barbara disse orgulhosa, olhando para o namorado como quem olha um troféu.

– Meninas, assim vocês vão constranger o pobre rapaz. — Masaki lembrou. — Lembrem-se de deixa-lo respirar um pouco.

Artur se acomodou melhor no sofá.

– Não se preocupe senhor Masaki, é preciso muito para me constranger.

– Ótimo, vejo que você não é mais um desses projetos de homens filhos dessa nova geração cheios de frescuras. Isso é bom. Estou cansado de ver sangue jovem sendo desperdiçado. — Elogiou o sogro.

– Não senhor, pode ter certeza que eu não sou como eles. — Respondeu com sinceridade.

Masaki olhou para a filha e assentiu, como que em sinal de aprovação.

– Bom. — Falou mais para a filha do que para Artur.

– Mas me diga uma coisa, Artur, — começou Katia. — que história é essa de você está ansioso? É verdade?

– Com certeza senhora Katia.

– Pode me chamar só de Katia.

– Está bem. — Um pausa rápida. — Katia. — Repetiu. Ambos sorriram. — Pode não parecer, mas eu estava muito preocupado em relação a esse jantar.

– Preocupado com o que exatamente? — Ela quis saber.

– Ah, com tudo. Principalmente preocupado em atender as expectativas do senhor e da senhora.

– Acontece que o Artur é muito exigente mamãe, e acaba esperando o mesmo das outras pessoas também. — Explicou Barbara.

– E está certíssimo. — Masaki concordou.

– Mas não se preocupe, querido, nós somos exigentes sim, e nos agrada que você também seja, afinal de contas, é por isso que você está com a nossa filha. Mas em relação as nossas expectativas, até agora você está se saindo muito bem, não se preocupe. — Garantiu Katia.

– É muito bom ouvir isso. — O rapaz disse aliviado.

– Mamãe, e o jantar? — Barbara murmurou com um sorriso forçado.

– Ah, claro, eu vou só chamar o seu irmão. Você vai adora-lo, Artur, é o irmão mais novo da Barbara, é um encanto de menino — Explicou. — Com licença. — Se levantou e caminhou em direção as escadas. O quarto de Nick estava escuro e muito silencioso. Katia se perguntou se ele estaria dormindo. Bateu algumas vezes na porta. — Nick, meu anjo, eu posso entrar? — Como ninguém respondeu, ela entrou. Ligou as luzes e se deparou com o filho sentado no chão, ao lado da cama. — Querido? Está tudo bem? — Se aproximou com cautela, avaliando o estado do menino. O garoto estava visivelmente abalado, os olhos chorosos e presos por um sentimento perturbado. O rosto pálido parecia ainda mais frágil, enquanto seu pequeno corpo se encolhia, os braços parecendo querer proteger-se, abraçando fortemente as próprias pernas. Era como um pequeno bichinho assustado, uma pobre criança desprotegia que temia o escuro em silêncio. Esse pensamento fez Katia se compadecer. — Amor, o que aconteceu?

Os olhinhos de Nick miraram a mão machucada.

– Nick, sua mão! — Se agachou e segurou a mão do filho, avaliando o corte. — Onde foi que você fez isso? — Como ele não respondeu, ela suspirou. — Tudo bem, querido, não se preocupe, mamãe vai cuidar do seu dodói. — Se levantou e saiu do quarto, voltando minutos depois com uma malinha de primeiros socorros. Limpou o machucado e depois colocou um band-aid. — Pronto, agora está melhor. — O Lançou um sorriso carinhoso. — Você deve está com fome, não é mesmo? Venha, vamos descer. — Se levantou. Nick a olhou confuso. — Vamos, meu amor, prometo que hoje eu não vou te obrigar a comer o que você não quer. Lembra? Essa noite é uma noite especial. Agora levanta. — Ainda que receoso ele obedeceu. — Isso mesmo, bom menino. — Ela aprovou.

Ambos saíram do quarto e desceram as escadas devagar. Nick olhava para o chão, tomando cuidado para não cair.

– Agora sim, a família está toda reunida. — Informou Masaki.

– Artur, esse é o meu irmão: Nick. Aquele que eu te falei. — Apresentou Barbara.

Nick ergueu o olhar até a irmã, depois mirou a mão dela entrelaçada com a de outra pessoa, e só então voltou-se para a pessoa em questão.

Artur também o fitava e quando seus olhos se encontraram novamente algo estranho pareceu tomar conta do menino. Assustado, Nick se escondeu atrás do corpo da mãe. Tentou se controlar, mas as mãos começaram a tremer sem que tivesse consciência.

Todos o olhavam com estranheza, menos Artur, que parecia sentir-se culpado.

– Nick, o que houve? É só o Artur, não precisa ter medo, ele é amigo, não vai te machucar. — Katia tentou consertar a situação, sentindo-se muito constrangida.

Os olhos de Artur miraram o chão, tristonhos. Respirou fundo antes de confessar o que havia feito, como se se tratasse de um grande segredo.

– Bom, na verdade, acho que já o machuquei senhora Katia.

Todos o olharam sem entender o real significado das suas palavras. Masaki pareceu achar graça, achando que tudo não passava de uma brincadeira, mas ainda assim conteve o riso, preocupado demais com o filho escondido atrás da sua mulher. Barbara foi a única que realmente pareceu estar tão curiosa a ponte de questionar.

– O que você quer dizer com isso, meu amor?

Artur a encarou.

– É que quando eu cheguei encontrei o seu irmão no jardim. Acho que ele não me viu e quando eu me aproximei para cumprimenta-lo, ele se assustou e cortou o dedo no espinho de uma rosa. — Se explicou, pela primeira vez mostrando certo constrangimento.

– Só isso? — Barbara riu. — E eu aqui pensando que você o havia ameaçado com uma faca! Ou que havia tentado estrangula-lo com um cadarço! Fala sério, todo esse escândalo só por causa de um cortezinho no dedo? Mas quanta falta de noção, hein irmãozinho. Nem no dia do meu jantar especial você dá folga... — Disse, os olhos fitando o caçula como se fosse um inseto preso numa teia. Era odioso vê-lo se esforçar tanto para roubar os holofotes e chamar mais atenção que ela. Mas isso não iria acontecer, não nesta noite! Nick não iria estragar tudo outra vez.

– Barbara, não fale assim com seu irmão! Nick só está assustado, você sabe que isso é difícil para ele. — Katia tentou defende-lo.

– Mas mãe! Não é justo! Porque não o manda para o quarto então? Eu aposto que ele iria preferir ficar junto com aqueles livros mofados do que com gente de verdade! Ele nem gosta de nós!

– Você sabe que isso não é verdade. — Katia desaprovou.

– Então me diz: se ele gostasse mesmo de mim, porque estaria tentando estragar o meu jantar? Nick está é com inveja, porque nunca terá um jantar como esse!

– BARBARA! — A menina se calou quando viu a expressão da mãe. — Como você tem coragem de falar uma coisa dessas na frente do seu irmão?

– Mas mãe, ele nem se importa. Olha só, ele não escutou.

– Claro que escutou. Seu irmão não é surdo e nem retardado. Ele tem sentimentos, sabia? Você deveria respeitar os sentimentos dele.

– Eu respeito! Ele que não respeita os meus. — Choramingou.

As duas ficaram se encarando por um longo momento, até que Masaki interveio.

– Já chega vocês duas. O que é isso? Brigando feito duas crianças. O que Artur irá pensar de nós depois disso? Vocês deviam de envergonhar.

– Mas querido... — A loira começou.

– Não, Katia. Barbara está certa, não há motivos para fazermos escândalos. Hoje é um dia de comemoração. — Repreendeu.

A mais velha olhou para a filha, depois para o marido e suspirou, vencida.

– Claro, você está certo. Me desculpem, principalmente você Artur, por ter presenciado essa cena ridícula.

– Não foi nada senhora Katia. Isso acontece mesmo, é normal.

Katia sorriu.

– Que bom que você é um rapaz compreensivo. — Se virou então para Nick, que ainda permanecia encolhido atrás de seu tronco esguio. — Nick, vamos nos sentar, sim? — O menino a olhou de relance, ainda perturbado. Negou com a cabeça e em seguida encarou as escadas, em um pedido mudo para que o deixassem subir. — Não, meu amor, você não pode subir. Você vai jantar com a família hoje, assim como me havia prometido. Não aconteceu nada demais. Artur jura que não te assustou de propósito. Então esqueça o que está sentindo e seja um bom menino e sente-se no sofá, logo iremos jantar.

Obediente, ele seguiu a mãe até o sofá e se sentou ao seu lado, os olhos fixos no chão.

Aos poucos o tom amistoso voltou a conversa e logo o ocorrido já havia sido esquecido. Todos — menos o garoto dos olhos carvão — falavam animadamente, contando sobre suas vidas e planos para o futuro.

Nick ouvia tudo em profundo silêncio, até mesmo depois que o jantar fora servido e ele negou-se a comer. Vez ou outra sentia um arrepio quando ouvia a voz daquele desconhecido tão clara e próxima de si.

Depois que o jantar terminou e a sobremesa fora servida, demorou meia hora até o convidado anunciar sua ida. Abraçou fortemente Barbara, apertou a mão de Masaki e de Katia e quando chegou a vez de Nick, apenas disse:

– Fique bem, pequenino.

Normalmente Nick não se atrevia a olhar desconhecidos no rosto, mas por alguma razão seus olhos subiram por aquele tronco tão mais alto que o seu, passaram pelo seu pescoço e pararam no inicio do queixo até a boca, onde uma barba começava a nascer e um sorriso perturbador estampava uma felicidade sem proporções. Nunca Nick havia visto algo tão belo em sua vida. E não estou me referindo só ao sorriso, mas ao sentimento que nele transbordava. Um contentamento... Um certeza de que tudo ficaria bem. Nick sentiu-se bem apenas em ver aquele homem feliz, e isso o irritou. O irritou de tal forma que ele virou o rosto, deu as costas e saiu, indo para o quarto. Deveria estar com a pior das expressões, porque ninguém brigou ou o seguiu para reclamar.

Quando entrou no quarto foi direto para a cama, sentou-se e agarrou o travesseiro. Ficou se perguntando o que seria aquilo que tanto o perturbava. Até que finalmente entendeu.

Inveja, esse era o seu problema.

Já havia ouvido falar e lido sobre esse odioso sentimento várias vezes.

Estava com inveja daquele estranho porque nunca em sua vida foi capaz de demonstrar tanta alegria tanto quanto ele demonstrou com um único sorriso. Seu sorrisos eram sem cor, frios e calculados. Nem um pouco naturais. Já os deles eram brilhantes, reluzentes, sinceros.

Nick passou o resto da noite pensando nisso, até que adormeceu um sono sem sonhos. Mas quando acordou aquela imagem estava tão nítida em sua mente, que sentiu raiva, mesmo que não tivesse conseguido chegar a essa conclusão, pois dificilmente conseguia identificar o que estava sentindo com exatidão.

Notas finais
Digam alguma coisa, nem se for para me xingar pela demora.