Coração Vago
18 Capítulo 17
"O vento vai dizer
Lento o que virá,
E se chover demais,
A gente vai saber,
Claro de um trovão,
Se alguém depois
Sorrir em paz
Só de encontrar"
O Vento — Los Hermanos
No outro dia Fatinha levantou contente. Ela estava com o pressentimento de que seria um bom dia. E no geral ele foi.
Ela estava atrasada e por isso se arrumou rapidamente. Ao chegar na sala encontrou o café da manhã na mesa onde estavam sentados Ju e Bruno.
–Bom dia, bela adormecida! –Juliana a cumprimentou.
–Bom dia. Acho que eu dormi demais.
–Dormiu mesmo, temos quinze minutos, do contrário só depois do intervalo.
–Vem tomar café conosco. –Bruno convidou.
Fatinha se juntou aos dois, adorando toda aquela descontração logo de manhã. Em menos de dez minutos ela já estava pronta para sair.
–Então vamos Fatinha? Nós ainda temos que passar na Lia. –Ju anunciou.
–Vamos. Por que vamos passar na Lia? Onde ela mora?
–É a nossa rotina de todos os dias. Eu sempre passo na casa dela para nós irmos juntas para a escola. Ela mora aqui também. Apartamento 302, do lado do nosso.
–Entendi.
–Tchau maninho!
–Tchau Ju, tchau Fatinha! Boa aula. –Bruno respondeu da cozinha.
–Obrigada. Tchau Bruno! –Fatinha se despediu, saindo do apartamento.
Quando elas chegaram no 302, Lia já esperava na porta.
–Que demora! Já estava desistindo e voltando para a minha cama. –A roqueira reclamou.
–Para de drama Lia. –Ju respondeu.
As três rapidamente já estavam na rua.
–A nossa rotina vai ser alterada. –Ju anunciou. –Fatinha como você mora alguns andares acima você poderia descer e se encontrar comigo lá em casa. Mamãe vai adorar ter ver todas as manhãs.
–Todos os dias? –A loira perguntou, surpresa.
–É claro, aí nós passamos na Lia e vamos juntas para a escola. O que vocês acham?
–Pra mim está ótimo, só de não precisar acordar mais cedo já me deixa feliz. –Lia concordou em meio a um bocejo.
–E você Fatinha?
–Perfeito. –A garota respondeu sem conseguir conter o sorriso.
Esse dia está sendo melhor que o esperado. –Fatinha pensava.
Na escola não ocorreu nada demais. Ju e Lia tinham uma mais nova melhor amiga chamada Maria de Fátima. Os alunos ficaram surpresos, e obviamente virou assunto para o TV Orelha. No mais, o dia foi tão comum quanto os outros. A diferença é que Fatinha estava muito feliz por finalmente ter feito amizade com as garotas do colégio.
(...)
Duas semanas se passaram, e um simulado estava por vir. Fatinha estudava sempre que possível, mas estava tendo dificuldade em uma parte da Biologia.
–Tenho certeza que vou zerar a parte de Genética do simulado. –Ela comentou com os amigos.
–Eu até te ajudaria Fatinha, mas eu prometi passar o dia com a Tatá. –Lia falou, se desculpando.
–Genética não é o meu forte, amiga. –Ju disse.
–Se você quiser eu posso te ajudar. –Vitor se ofereceu.
–Sério? Você não tem que trabalhar hoje? –Fatinha perguntou.
–Hoje eu saio mais cedo. Quando você terminar o turno lá no Hostel me encontra na oficina e nós vamos estudar na sua casa.
–Não quero abusar de você Vitor.
–Não é abuso. Eu me ofereci.
A loira pulou no pescoço do garoto e disse:
–Você é um anjo mesmo!
–Pode ir parando com essa pegação aí. –Lia reclamou, brincando.
Para a alegria de todos, na última semana Lia havia finalmente cedido, e aceitado o pedido de namoro de Vitor.
–Boba, não vou roubar o seu namorado, ok?! –Fatinha disse mostrando língua para Lia.
–É bom mesmo. –Disse a marrenta. –Vitor, depois que você terminar a sessão estudo, passa lá em casa pra gente sair.
–Claro. –O motoqueiro concordou.
–E você Fatinha? Vai fazer alguma coisa com o Bruno hoje à noite? –Ju perguntou com o olhar carregado de malícia.
–Para de bobagem Juliana, eu e seu irmão somos só amigos. –Fatinha a repreendeu, constrangida.
–Amigos que dentro de poucos meses vão me dar uma sobrinha. –A it-girl provocou.
O sinal tocou indicando o fim do intervalo, salvando Fatinha de ficar mais envergonhada com as brincadeiras da amiga.
O dia correu rapidamente, e quando Fatinha deu por si já estava em casa estudando Biologia com Vitor.
–Como você sabe que a mãe e o pai do indivíduo 3, geração II são Aa? –A loira perguntou, confusa.
–Nós sabemos que esse indivíduo é aa, certo? –Vitor perguntou e a amiga confirmou. –Então tanto o pai quanto a mãe precisam ter ao menos um “a” no genótipo, então eles só podem ser “Aa”, porque todos os que têm albinismo, ou seja, possuem o genótipo “aa”, foram destacados, entendeu?
–Mas um deles poderia... –Ela começou a dizer, mas interrompeu a frase ao entender o seu erro. –Ah! Um cromossomo vem da mãe e o outro do pai, então obviamente eles devem ser “Aa”! Que lindo!!! Vitor você é um excelente professor!
Fatinha estava tão feliz que pulou no colo do garoto e o abraçou.
–Você é que é uma ótima aluna, guria. –Ele respondeu apertando o nariz da loira.
No mesmo instante Bruno chegou, mas Vitor e Fatinha só o notaram quando o moreno fechou a porta com mais força do que o necessário.
–Estou atrapalhando alguma coisa? –Bruno perguntou nervoso.
–Oi Bruno, nem vi que você tinha chegado. –Fatinha cumprimentou o rapaz, toda sorridente.
–E aí. –Vitor cumprimentou o moreno.
Estava mais do que óbvio a aversão de Bruno pelo amigo da garota, mas ela não percebeu.
–Você não está atrapalhando. Esse anjo aqui, –Fatinha apertou a bochecha de Vitor. –está me salvando em Genética.
–Como se você precisasse ser salva, Fatinha. Você está chegando às conclusões sozinha, eu nem tenho ajudado tanto assim.
Fatinha saiu do colo do amigo e voltou para a própria cadeira.
–Além de lindo é modesto. A Lia é uma sortuda mesmo. –Ela falou brincando.
–Boba. Vamos voltar a Biologia, pode ser? –Vitor falou.
–Claro.
–Você entendeu o que é uma doença autossômica recessiva, certo?
–É o caso do albinismo. É recessiva porque precisa dos dois genes para a característica ser manifestada.
–Ótimo, então vamos falar agora de uma herança autossômica dominante.
Bruno estava incomodado com esse excesso de afeto entre os dois, mas tentou disfarçar. Ele tomou um banho rápido, pegou o notebook e sentou no tapete da sala.
Inicialmente ele até tentou estudar, mas acabou não conseguindo. Por fim, acabou fingindo estar fazendo algo, quando na verdade estava observando a Fatinha e Vitor estudando.
A Lia é uma sortuda... Ela está querendo ficar com esse motoqueirozinho de novo? –Bruno pensava, nervoso. –E ele todo idiota, se aproveitando da situação para encher a Fatinha de elogios. Isso porque está namorando. Babaca.
O telefone de Bruno tocou, tirando-o dos pensamentos raivosos. Era Nélio.
–E aí Brunão, vamos fazer alguma coisa hoje? –O amigo perguntou. –Eu e o Rasta estamos pensando em ir na casa da Suzana hoje, ela tá fazendo uma social.
–Que Suzana? –Bruno perguntou confuso.
Ao ouvir o nome de mulher, Fatinha ficou alerta.
Será que Bruno está saindo com alguém nesses últimos meses? –Ela se perguntou, irritada.
–A Suzana, prima do Rasta. –Nélio esclareceu.
–Aquela que você pegou? Está querendo ela de novo? –Bruno perguntou, zoando o amigo.
Fatinha ficou aliviada ao ouvir que o moreno não estava de rolo com essa tal de Suzana.
–Figurinha repetida não completa álbum, Brunão. Mas se rolar, que mal tem?
–Que isso ein?! Garanhão! –O moreno brincou com o amigo.
–Para de palhaçada e me responde, vai sair com a gente ou não? –Nélio perguntou.
–Não sei se quero ir nessa social... –Bruno falou olhando para a mesa onde Fatinha e Vitor estudavam.
–Bruno, sem querer intrometer, mas já intrometendo, vai sair com os seus amigos. Eu e o Vitor ainda temos um bocado a estudar e eu só vou poder cozinhar mais tarde. –Fatinha disse, incentivando o rapaz.
–Nélio, eu não vou não. –Bruno respondeu ao telefone, para a surpresa da loira. –Não estou animado.
–Você casou e eu não fui convidado, só pode! –Nélio exclamou, do outro lado da linha. –Casou não, você morreu, né?! Não sei se você reparou, mas já faz meses que você não vai às festas conosco. No máximo sorveteria ou Misturama.
–Para de drama Nélio, o dia hoje foi puxado. Fica para a próxima, ok?!
–Você é quem perde, eu e o Rasta vamos aproveitar por você.
Depois disso, Bruno desligou o telefone e voltou a olhar para o notebook. Ele havia achado um site engraçado e ficou mexendo.
Duas horas se passaram, Fatinha e Vitor continuavam estudando. Bruno estava assistindo uns vídeos toscos para passar o tempo.
–Agora vamos a um exemplo. –Vitor disse depois de já ter dado a explicação. –Uma mulher de sangue Rh- está grávida do primeiro filho, essa criança é Rh+, a criança terá ou não a eritroblastose fetal?
–Sim. –Fatinha respondeu, confiante.
–Resposta errada.
–Mas você acabou de dizer que para ocorrer a doença a mãe deve ser Rh- e a criança Rh+.
–Sim, mas por que? –O garoto perguntou, incentivando a menina.
–Porque ao haver o contato entre o Rh- da mãe com o Rh+ do filho, a mãe produzirá anticorpos.
–Então por que o primeiro filho não possui a doença?
Fatinha pensou por alguns segundos até chegar a conclusão.
–Porque como é o primeiro filho, a mãe ainda não terá produzido os anticorpos! É isso? –Ela perguntou esperançosa.
–Exatamente! Você aprende rápido, ein?! –Vitor elogiou.
–Obrigada, mas o mérito não é só meu. Eu tenho o Rh- e o bebê Rh+, então a doutora Raquel tinha explicado vagamente sobre o assunto.
Vitor colocou a mão sobre a barriga arredondada da loira, instintivamente.
–E quando nós vamos saber se é um menino ou uma menina?
–Se ele ou ela cooperar, na semana que vem já saberemos.
Por alguns segundos, Vitor ficou brincando com a barriga de Fatinha.
–Já dá para sentir mexendo? –Ele perguntou, curioso.
–Ainda não, mas a Raquel disse que é normal depois da 17ª semana, e é justamente nela que eu estou.
–Ei, você podia mexer para o tio Vitor, né?! –O rapaz sugeriu ao bebê.
Bruno estava fervendo de ódio.
Ele não tira a mão da barriga dela! Que intimidade toda é essa? Se esse motoqueirozinho está pensando que a minha filha vai mexer pela primeira vez para um qualquer, ele está muito enganado. Acabou a palhaçada! –O moreno pensava nervoso.
Bruno levantou subitamente e deu um olhar ameaçador a Vitor. O motoqueiro logo percebeu a indireta e tirou a mão da barriga da Fatinha, que estava alheia ao que acontecia.
–Eu vou pedir uma pizza, pode ser? –Bruno anunciou, rude.
–Ótima ideia! Eu quero de calabresa. –Fatinha disse.
–Você não vai jantar conosco, né Vitor?! –O moreno perguntou, afirmando.
–Não, eu tenho compromisso. –O garoto respondeu.
Bruno fez o pedido da pizza, a previsão de entrega era de mais ou menos meia hora.
–Pronto, daqui a pouco eles devem estar chegando com a pizza.
O universitário ia voltar ao notebook, mas desistiu irritado.
–Vitor, você não acha que já está na hora de ir embora, não?!
Fatinha olhou para Bruno assustada.
–Bruno! –Ela o repreendeu.
–Eu acho que você já está aqui há tempo demais. –O moreno disse, ignorando a reprimenda de Fatinha.
A loira estava chocada com a situação. Vitor entendeu que a paciência de Bruno já havia esgotado e decidiu ir embora.
–Já estudamos bastante por hoje, Fatinha. Outro dia nós continuamos.
–Vitor, você não precisa ir embora só porque o Bruno se esqueceu dos bons modos.
–Já está ficando tarde Fatinha, e eu combinei de passar na casa da Lia. É melhor ir agora mesmo.
–Se você quer assim.
A loira levou Vitor até a porta.
–Obrigada pela ajuda, anjo.
–Por nada. Precisando é só chamar. –Ele a abraçou. –Tchau Fatinha, tchau Bruno.
–Tchau anjo.
–Hn. –Foi a única resposta de Bruno.
Bastou a porta ser fechada para que Fatinha virasse, furiosa, para Bruno.
–O que diabos foi isso?
–Não sei do que você está falando. –O rapaz se fez de desentendido.
–Você não sabe?! Qual foi a necessidade dessa grosseria com o Vitor?
–Eu não gosto dele.
Fatinha sentou no sofá próximo ao rapaz.
–Vamos combinar uma coisa. Esse apartamento aqui é nosso e não seu. Então, eu posso trazer quem eu quiser para cá e você deve ser o mais educado possível. Espero que essa cena de hoje não se repita. –Ela disse nervosa.
–Fatinha, você fica linda quando está brava, sabia? –Bruno não resistiu ao comentário.
A loira ficou sem reação, e antes que ela pudesse dizer ou fazer alguma coisa, Bruno já estava ao lado dela envolvendo-a em um beijo.
O choque inicial de Fatinha durou poucos segundos. Logo ela já estava com os dedos entre os cabelos de Bruno retribuindo o beijo.
Em meio a mordidas e puxões de cabelo, eles estavam deitados no sofá. O beijo só foi interrompido, para que Fatinha tirasse a camisa do rapaz, e logo a blusa dela também foi pelos ares.
Bruno foi descendo os beijos pelo pescoço, passando pelo decote do sutiã até alcançar a barriga. Naquele instante ele finalmente pode realizar o seu maior desejo: Bruno distribuiu beijos por quase toda a barriga, demonstrando todo o amor que ele sentia por aquela criança.
Quando ele menos esperava sentiu uma resposta: o bebê chutou.
–Você sentiu isso? –Fatinha perguntou.
–Senti. –Bruno encostou o ouvido na barriga da loira, esperando o bebê chutar novamente.
–O bebê chutou! –Fatinha exclamou, abismada.
–Ei filhota, –Bruno começou a falar com o bebê. –chuta de novo para o papai ver?
Como se tivesse entendido o pedido do pai, o bebê chutou novamente.
–Pode ser um menino, também. –Fatinha disse com os olhos cheios de lágrimas.
–Ignora a sua mãe, filha. O papai sabe que você é uma menina.
–Sabe é?!
Os dois ficaram conversando com o bebê por vários minutos. Eles estavam extremamente felizes. O momento só foi interrompido com a chegada da pizza.
Bruno foi até a porta, sem camisa mesmo, e recebeu a entrega. Os dois comeram no sofá, ainda conversando sobre e com o bebê. Nomes foram sugeridos, mas nada foi decidido.
Naquele dia eles foram dormir tarde. Fatinha tentou resistir ao sono o máximo que pode, mas durante uma gravidez esse máximo é quase nada.
–Eu vou dormir. –Ela anunciou em meio a um bocejo.
–Boa noite Fatinha. –Bruno deu um beijo na barriga dela. –Boa noite princesa.
–Boa noite papai. –Fatinha respondeu, imitando uma voz infantil.
A loira escovou os dentes, vestiu o pijama e deitou na cama. Foi somente quando ela fechou os olhos que ela percebeu surpresa:
–Meu Deus! Eu fiquei com o Bruno!
Notas finais
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