Coração Sangrento
11 Teste do vampiro
Quando Thomas abriu os olhos, demorou um segundo para assimilar que estava dentro do caixão. Era um vampiro agora, um ser das trevas, e tinha que se acostumar a sua nova condição. Sem saber como, seu corpo sabia que havia escurecido e era hora de se levantar. Encontrou Jack parado ao lado do caixão, o esperando com a mesma expressão vazia da noite anterior.
— Boas acomodações?
— É estranho, na verdade. É como se eu estivesse...
— Morto? – completou Jack. – É o que você é agora... Um morto-vivo.
— Bem, e o que faremos agora? – perguntou ele, sem saber se gostaria realmente de ter uma resposta.
Jack o encarou detidamente.
— Primeiro você precisa se alimentar, não pode viver do meu sangue para sempre...
— E depois?
— Iremos à Londres.
— À Londres? – surpreendeu-se Thomas. – Mas por quê? Eu não posso simplesmente ir, ainda tenho coisas para resolver por aqui!
— Se é sobre aquela moça, esqueça-a. Ela está casada agora e você, como vê, é um vampiro. Jamais poderá ficar com ela novamente.
Thomas não quis saber de nada. A única coisa que via à sua frente era a figura de Sophia casada com Sir John, e não estava interessado em qualquer destino que não o levasse a um assassinato frio e humilhante, exatamente como fora o dele.
— E quanto à minha vingança? Você me garantiu que eu poderia matá-lo.
— E poderá, só não disse quando. A paciência é uma virtude dos fortes, meu caro Thomas. Fique comigo, aprenda e se fortaleça. Sua vingança virá em momento oportuno.
— Não compreendo porque devo esperar. Posso não entender nada sobre vampiros, mas desde que eu seja um, não é necessário ser forte para fazer isso. Afinal, o que Sir John poderá fazer contra um ser sobrenatural como eu?
Jack o olhava com notável indiferença.
— Muito bem, faremos um teste então. Se passar, poderá sair e matar o marido de sua ex-amada e recuperar sua honra e dignidade humana. Mas se falhar, virá comigo a Londres para aprender a ser um vampiro de verdade e não discutirá mais sobre isso.
— Que tipo de teste?
— Você verá. Venha comigo!
Jack então o levou para a estrada mais próxima dos arredores de Saint Shadow, a que levava para Kelso. Fazia uma noite fria e escura, iluminada apenas por um quarto de lua minguante e nada mais se ouvia além do sussurro do vento. A estrada estava deserta, mas apesar disso Jack o fez parar e observar, como se esperasse que algo fosse acontecer.
— O que estamos fazendo? – quis saber Thomas.
— Está vindo alguém – disse, sem tirar os olhos da estrada – quando estiver próximo, quero que troque algumas palavras com o sujeito, distraia-o, não deixe que perceba o que você é, sinta seu cheiro, mas não ataque. Se puder deixá-lo ir sem que nada aconteça, eu cumprirei minha parte do acordo. Caso contrário, virá comigo para Londres.
Thomas considerou a proposta. Não lhe parecia difícil. Deixaria passar quem quer que fosse, provando seu autocontrole para Jack, e depois partiria para a execução de sua vingança. Então sorriu por dentro ao voltar a olhar para a estrada, já imaginando como faria Sir John sofrer antes de sua morte. Ela, porém, continuava deserta e silenciosa.
— Como sabe que vem vindo alguém? – questionou ele, duvidando da sanidade de Jack.
— Basta abrir seus ouvidos para escutar.
Thomas tentou apurar os seus, e para a sua surpresa ouviu um trotar longínquo de cavalos. E apesar de longe, ele passou a ouvir com clareza tamanha que logo já havia criado a imagem mental dos dois animais puxando a carruagem logo atrás, com seu senhor os conduzindo e o passageiro em seu interior. Ele ouvia inclusive seus batimentos cardíacos, o que o surpreendeu. Seguindo seu pulso e imaginando o caminho percorrido pelo sangue farto em suas veias e artérias, suas presas foram acionadas antes que Thomas desse conta do que acontecia com seu próprio corpo.
Jack olhou-o com um sorriso presunçoso.
— Boa sorte – disse com sarcasmo antes de embrenhar-se na floresta e deixá-lo completamente só com a sua tarefa.
A carruagem se aproximava enquanto Thomas tentava, em vão, se controlar. Estava sendo totalmente dominado pelos seus instintos vampirescos, o que era assustador. Viu quando o condutor puxou as rédeas dos cavalos, fazendo a carruagem diminuir o passo na medida em que se aproximava, pois já o havia avistado. Então os cavalos relincharam, parando em cima de Thomas, enquanto o homem em seu interior colocava a cabeça para fora para ver o que estava acontecendo.
Inebriado pelo cheiro de sangue fresco, Thomas foi se aproximando do homem. Este, porém, o surpreendeu antes que ele pudesse atacar:
— Thomas, é você?
O vampiro parou de chofre ao ouvir o seu nome. De fato, conhecia aquele sujeito. Era um comerciante de Kelso que o havia ajudado com o seu trabalho na cidade. Instintivamente, tentou se ocultar pelas sombras da floresta ao seu redor.
— Todos pensavam que estivesse morto – continuou ele, sem perceber ainda o perigo que o cercava. – Onde esteve esse tempo todo?
Thomas, porém, foi incapaz de lhe responder. Estava concentrado em sua tarefa, tentando pensar em alguma coisa além do sangue, o que era extremamente difícil. Sentia cada poro de seu corpo dilatar com a proximidade do líquido quente, sendo atraído para ele com uma força descomunal. Inconscientemente, afastou seus maxilares, deixando as presas expostas em posição de ataque.
Enquanto isso, o homem desceu da carruagem, estendendo a mão para ele.
— Thomas? O que houve, está com algum problema? – perguntou ele em tom preocupado.
No entanto, ao finalmente ver o rosto distorcido do vampiro, toda a sua preocupação transformou-se em medo.
Notando o medo vindo do outro, Thomas sentiu sua pulsação, e o sangue correndo farto sob a fina pele foi demais para ele. Antes que o homem pudesse se afastar, Thomas puxou seu braço com uma rapidez sobrenatural, cravando as presas em seu pescoço quente e sugando todo o sangue para si. O grito de dor e desespero perdeu-se noite adentro e os cavalos começaram a empinar, relinchando inquietos.
O condutor, ao se dar conta do que estava acontecendo, abandonou a carruagem e começou a correr pela estrada o máximo que suas pernas cansadas podiam. Em seu desespero, acabou tropeçando em um galho de árvore e caindo ao chão de terra molhada. Antes que pudesse se levantar, uma silhueta imponente se projetou sobre ele.
— Por favor, por favor, tenha piedade... – implorava ele, paralisado de medo.
Jack, porém, sem expressão alguma, puxou-o para si, rasgando sua garganta e bebendo de seu sangue até que ele perdesse a consciência. Quando deu-se por satisfeito, afastou-se, fazendo um movimento brusco com as mãos em seu pescoço. Um clack seco fez-se ouvir, indicando que seus ossos haviam quebrado.
Jack então deixou o corpo inerte ao chão, indo ao encontro de Thomas, que ainda sugava sua vítima com avidez.
— Já chega... – advertiu ele.
Mas Thomas não o ouvia. Novamente, estava hipnotizado pelos efeitos mágicos do sangue ao tocar seus órgãos secos, os irrigando e fazendo-os voltar à vida. Quando a mão do sujeito enfim caiu, pendendo para o lado, Jack o arrastou para trás, obrigando Thomas a se separar dele. E assim como havia feito antes, também quebrou seu pescoço, para se certificar de que ele estava mesmo morto.
Thomas estava encolhido a um canto, os olhos vidrados no cadáver estirado ao chão. Custava a acreditar que tinha sido ele o assassino que lhe tirara a vida.
— Eu conhecia aquele homem... – disse, assustado. – Como pude ser capaz?
Jack se aproximou, colocando uma das mãos em seus ombros.
—Eu lhe avisei de que ainda não estava preparado. Você precisa aprender a se controlar, a usar seus instintos a seu favor.
— Eu sempre fui um homem de Deus... Veja no que me transformei agora! Se minha mãe me visse...
— Deixemos Deus fora disso – cortou Jack. – Somos vampiros, vivemos às sombras das luzes porque fomos renegados por Ele. Percebe agora que tem de se afastar? É preferível deixar sua mãe pensar que está morto, viver na ignorância, a saber da verdade: que seu filho tornou-se um ser amaldiçoado pelas trevas.
Thomas olhou para Jack, percebendo que o vampiro estava mesmo certo.
— Acho que tem razão... – concordou, assentindo devagar.
Jack sorriu de viés.
— Eu sempre tenho.
— Para Londres, então?
— Para Londres...
***
Thomas estava sozinho com os dois cadáveres ao seu redor. Jack o convenceu de ficar ali enquanto ele ia buscar alguém que pudesse os levar até Londres. Como o vampiro ia fazer isso sem levantar suspeitas, era um mistério para ele.
Na verdade, Thomas ainda estava assustado com o que fizera. Sempre fora um homem temente a Deus, tinha seus valores e suas crenças, e agora tinha matado um homem e sido cúmplice no assassinato de outro. Tantas transformações, em tão pouco tempo, ainda não tinham sido assimiladas por ele. Apesar de saber no que se tornara, não tinha consciência de tudo o que seu novo corpo era capaz de fazer. Por esse motivo, aceitara a oferta de Jack. Ao se afastar de Saint Shadow, estava fugindo de si mesmo, de sua história, seu passado, seus conhecidos. Precisava se afastar para se conhecer, até conseguir ter o domínio de suas próprias ações.
Sabia que estava ávido por vingança. Queria matar Sir John, mas não era um monstro, não era assassino. Jack lhe dissera que poderia viver sem matar pessoas, e era nisso que Thomas queria acreditar.
Olhou a sua volta, tentando ignorar os corpos à sua frente. Parecia-lhe ter esperado uma eternidade quando finalmente ouviu o trotar rápido de cavalos se aproximarem. Jack tinha conseguido uma carruagem maior e mais fechada, e seu condutor era um homem que Thomas não conhecia.
Jack ordenou que parasse assim que o alcançou. Com a proximidade de outro humano, por um instante Thomas temeu se descontrolar novamente. Mas já havia tomado sangue o suficiente e estava satisfeito.
— Thomas, meu caro – disse Jack. – Acho que esta servirá – completou, descendo da carruagem e indo se juntar a ele.
Thomas olhou desconfiado para o homem que conduzia os cavalos. Podia sentir que tinha algo de errado com ele.
— Tem certeza de que isto dará certo? – quis saber ele.
— Certamente, já tenho tudo planejado – explicou ele com uma piscadela, e voltando-se para o homem – George, os mortos são esses, será que você pode colocá-los nos caixões aí dentro para podermos seguir com a viagem?
— Sim, farei isso... – respondeu o outro, sem emoção.
Paralisado, Thomas assistiu ao homem puxar os caixões e abrir as tampas. Em seguida, caminhou até o primeiro cadáver e o pegou no colo, jogando às costas como um saco de batatas.
— O que significa isso, Jack? O que está fazendo?
— Preparando nossa viagem...
— Mas como...? O que fez com ele? – questionou Thomas, apontando para George, que agora fechava a tampa do primeiro caixão.
— Nada de mais, apenas disse que um acidente com ursos na floresta tinha feito duas vítimas e que precisávamos levar os corpos para suas famílias na Capital.
Thomas franziu o cenho, observando-o enquanto pegava o segundo corpo e o levava para o outro caixão.
— E ele acreditou nisso? – duvidou Thomas.
Jack suspirou, assumindo um ar de quem tinha de explicar o óbvio.
— Meu caro Thomas, você ainda tem muito o que aprender.
— Então me diga! – impacientou-se ele.
— Shh... – tornou Jack, apontando para George. – Lá dentro...
Thomas revirou os olhos, subindo para a carruagem a contragosto.
— Muito bem, bom trabalho George – elogiou Jack, seguindo Thomas para o interior do veículo. – Já podemos partir.
Então a porta da carruagem se fechou, trancando Jack e Thomas com os caixões lá dentro. Logo sentiram as rodas moverem-se, mantendo-os em marcha veloz e compassada.
— Estou farto de suas evasivas – reclamou Thomas.
— Certo, eu o hipnotizei, está bem? – esclareceu Jack. – Os vampiros têm esse dom de influenciar as pessoas, de fazer com que elas façam o que queremos.
— Hipnose? – espantou-se ele. – Não posso acreditar...
— Sim, é verdade, mas é preciso muito cuidado para usá-la, a hipnose tem suas limitações.
— E ele não se lembrará de nada quando acabar?
— Se lembrará apenas do que eu quiser que ele se lembre.
— Isso é bem conveniente...
De repente a carruagem deu um tranco para frente, fazendo os caixões se chocarem com muito barulho. Apesar de a cabine ser grande, os caixões ocupavam quase que o espaço todo, deixando os passageiros espremidos.
— Malditas estradas! – praguejou Jack.
— E quanto a esses caixões? Porque estamos levando os cadáveres conosco? – falou Thomas, como se só tivesse reparado na presença dos mortos naquele momento.
Jack olhou para ele, inconformado com a falta de inteligência do mais jovem. Ou talvez os últimos acontecimentos o tivessem privado de seu raciocínio lógico.
— Os corpos são apenas um pretexto para podermos trazer os caixões. Logo amanhecerá e precisaremos dormir, o que será providencial, pois chegaremos ao nosso destino apenas ao anoitecer. Tente relaxar um pouco agora...
— Não sei se consigo, depois de tudo.
— Consegue sim, tente desligar suas emoções.
Thomas suspirou, ajeitando-se como podia em seu assento apertado.
— Thomas? – chamou-o Jack novamente.
— Sim?
— Você vai gostar de Londres... Daqui a algum tempo, mal se lembrará da vida que está deixando para trás agora.
— Assim espero... – tornou Thomas, sem muita convicção.
A carruagem deixou a estrada de Saint Shadow nos primeiros raios de luz do dia. Lentamente, foi desaparecendo para sempre daquela terra seca e infértil que tinha sido a vida de Thomas, e que agora ele tentava esquecer.
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