Alguém com o destino amaldiçoado está fadado a cometer uma série de erros que culminam em sua condenação a uma vida miserável e torpe. Isso porque, desde o momento em que se não há mais esperanças, inconscientemente ele busca uma maneira de acabar com a sua tormenta. Alguns se rendem aos vícios. Outros se tornam insanos. Mas todos eles, em maior ou menor grau, têm o desejo da própria destruição cravado na alma. O desejo de morte.

Esse mesmo desejo estava incrustado na pele de Sophia quando ela saiu naquela noite para vê-lo. Embora ainda não soubesse, já naquela época ansiava pelo beijo da morte, que a libertaria de sua prisão terrena, de seu destino triste. Por isso buscava Thomas. Sua redenção. A força devastadora que arrastava sua tênue existência para a ruína. Assim, ela não fazia mais do que cavar sua própria cova ao se encontrar com ele.

Esperou até que a casa estivesse em completo silêncio e as almas embaladas pelos encantos soníferos de Morpheus para sair na calada da noite às escondidas. Percorrendo as ruas frias de Saint Shadow, só o que se podia ouvir era seu coração batendo acelerado enquanto ela caminhava o mais rápido que suas finas canelas aristocráticas lhe permitiam. Ele a esperava no mesmo lugar, com um sorriso na face e promessas de grandes sonhos em seu semblante. Ela o recebeu com o olhar triste.

–Lady Sophia – cumprimentou ele, com uma reverência formal.

Ela, por sua vez, abandonando qualquer vestígio de educação e bons modos esperados por alguém da sua classe, atirou-se aos braços do outro, abraçando-o com avidez.

–Thomas! – exclamou ela com voz sôfrega. – Sou a mais infeliz das mulheres.

Pego de surpresa, Thomas não soube ao certo o que fazer com as mãos. De repente, a dona de seus pensamentos estava entregue a ele, chorando, sofrendo, inconsolável. Ele então a enlaçou com carinho, passando as mãos em suas costas para confortá-la. Ela por sua vez aninhou-se a ele, encolhendo os ombros.

–Porque está dizendo isso? O que foi que lhe fizeram?

Ela não se atreveu a olhar para seu rosto.

–Devo me conformar com o meu destino, mas quanto mais eu penso nele, mais me repudio por não conseguir aceitá-lo. Sou mesquinha e egoísta, porque traio minha família em pensamentos e ações, mas como poderia suportar se não viesse vê-lo?

A tortura em sua voz fez Thomas segurar em seus ombros com força e afastá-la, obrigando-a a olhar para ele. Seus olhos eram intensos ao falar.

–Você não é mesquinha nem egoísta, é uma das pessoas mais bondosas e altruístas que conheci na vida – disse em tom firme e seguro. – Agora me diga o que está havendo de tão terrível para deixá-la nesse estado.

As lágrimas voltaram a macular-lhe a face.

–Sir John me pediu em casamento depois do baile e papai lhe concedeu minha mão. Eu não tenho escolha, Thomas. Não há esperança para nós.

Ele sentiu uma sombra de desânimo apoderar-se de seu ser.

–Quem é esse Sir John?

–Um burguês de Bristol, recém-nomeado cavaleiro pela Rainha. Eu não sei que pacto fez com o meu pai, mas pelo visto é muito vantajoso para os dois.

Seus braços caíram, sem forças. Fosse quem fosse, o tal noivo era um rival infinitamente superior a ele. Desconsolado, afastou-se dela, deixando que seus olhos fitassem o chão.

–Está acabado então? Veio me dizer que é o fim para nós?

–Eu sinto muito, Thomas... Eu preferiria morrer a ter que me casar com ele – sua voz era de profunda tristeza e revolta.

Quando enfim ergueu o rosto a ela, tinha um brilho estranho no olhar.

–O convite para fugir comigo ainda está de pé, é só dizer que sim.

Ela o fitou por um longo momento. Ali estava uma alternativa fácil e perigosa para os seus problemas. Fugir significaria uma traição enorme aos valores ensinados pelo pai e por padre Bernard. Não teria perdão, nem volta. Mas se ela conseguisse se livrar do casamento para estar com Thomas, de que importava? A ideia da liberdade e de um futuro repleto de amor a consumia por inteiro. Se ela pudesse ter a vida de sonhos que sempre imaginara, os próprios céus poderiam lhe virar as costas porque ela não se importaria. Bastava olhar para o fundo daqueles olhos castanhos para saber que Sophia desistiria do Paraíso por eles.

–Eu aceito.

Thomas a olhou, tentando acreditar em suas palavras.

–Aceita?

–Sim! Eu quero fugir com você, para Paris ou para o inferno, não importa... Desde que seja você, não importa mais nada.

Ele esboçou um sorriso plácido enquanto se aproximava dela, cada partícula de seu corpo enchendo-se de esperança. Tomou suas mãos entre as suas, as acalentando.

–Tem certeza de que quer isso? Sabe que será considerada como herege...

–Nunca estive tão convicta de algo – respondeu com firmeza.

Uma das mãos subiu até a face, percorrendo a tez macia com os dedos. Sophia fechou os olhos, sentindo o calor que emanava de seu toque. A proximidade de seus corpos a fazia se embriagar em suas palpitações. Thomas aproximou os lábios lentamente, desfrutando cada gesto daquele momento único. Não queria que ele acabasse jamais. Sophia abriu os seus ao senti-lo tão próximo, convidando-o a tomá-los para si. Encontraram-se em um beijo manso, sem pressa. Estar nos braços um do outro para sempre era tudo o que mais desejavam, e apesar da infelicidade de pertencerem a classes distintas e de terem nascido em uma sociedade moralista e hipócrita, o amor que sentiam era puro e sincero.

Absorvidos em sua paixão proibida, nenhum dos dois poderia supor que havia mais alguém por ali. Há apenas alguns passos de distância, um par de olhos negros os espreitava por entre os arbustos, em absoluto silêncio. Tão imóvel quanto um felino, ele os examinava atentamente, achando cada vez mais interessante tudo que via. Já os esperava antes mesmo que viessem, estrategicamente posicionado para não ser visto, e ouvira cada palavra pronunciada naquela noite, tornando-se tão cúmplice de seu segredo quanto cada árvore e cada ser vivo que habitava as redondezas da floresta.

Ninguém sabia o que se passava na mente de Jack Hawkins, nem os motivos pouco cristãos que o levaram a bisbilhotar o encontro dos dois amantes. Tudo o que se podia dizer é que ele desde então já tinha alguma ideia de como aproveitar-se do fato para seus planos escusos. A escolha por Saint Shadow não fora aleatória. De fato, havia um motivo que o levara até ali. O sorriso de Jack crescia malicioso em sua face enquanto as mãos de Thomas enlaçavam a cintura de Sophia.

Alheios ao perigo que corriam, despediram-se um do outro com promessas de amor eterno e um futuro por escrever. Apenas o soturno permaneceu, tão sombrio quanto a própria noite.

–Interessante... Isso tudo é muito interessante... – disse lentamente, a voz carregada de mistério e significações.

***

Ao ganhar o primeiro lance de escadas em direção aos quartos, o som de alguém sendo açoitado fez Sophia congelar no lugar e seu coração disparar acelerado. Sentiu um medo terrível a invadi-la ao retomar seus passos, imaginando que o pai pudesse, de algum modo, ter descoberto que a filha tinha saído de casa para se encontrar com um camponês e agora estava castigando Nancy ou Qwilleran pela ousadia do filho. Quanto mais se aproximava, mais se podia ouvir a chibata batendo implacável, cortando a pele de quem quer que fosse, e seus gemidos de dor e de súplica.

Horrorizada, percebeu que o barulho vinha do quarto de Paul, seu irmão, e aproximou-se dele, esquecendo-se do perigo que corria e temendo pelo pior. Entre os soluços e gemidos, a voz de Paul saia tremida e fraca. Não demorou muito para conseguir decifrar o que ele falava. Entreabrindo a porta com cuidado, olhou pelo vão para não ser notada, e o que viu fez Sophia vacilar. Paul estava de joelhos, de frente para um altar com imagens de santos e crucifixos, várias velas acesas e uma bíblia aberta ao centro. Suas costas estavam desnudas e o chicote em suas mãos dilacerava a carne já machucada enquanto ele rezava, implorando por perdão. A cada nova investida, uma nova ferida era aberta, e sua oração saia mais como uma maldição.

Sophia mal pôde suportar a visão de seu irmão se autoflagelando. De olhos arregalados pelo choque e tapando a boca com as mãos para não gritar, saiu dali correndo, atirando-se à cama do jeito que estava, para mais uma noite de insônias e tortura. Sua mãe, Antoinette, havia morrido no parto de Paul e, tendo crescido ouvindo as lamúrias de seu pai pela grande perda, o garoto se julgava culpado pelo acontecido e passava cada dia de sua vida orando, pedindo perdão. Sua própria existência era um pecado terrível para ele, e por esse motivo resolvera que o melhor que se podia fazer com a vida era doá-la inteiramente a Deus e passar seus dias em sacrifícios e caridades, para amenizar o seu crime. Por diversas vezes, Sophia tentara conversar com o irmão, tentara convencê-lo de que nem ele nem ninguém fora culpado pela morte da mãe, que as pessoas simplesmente morriam porque esse era o destino dado por Deus a elas, e que ele não precisa se tornar padre nem se recriminar por isso. Tudo em vão. Paul nunca acreditara em nada do que lhe disseram, nem achava graça ou propósito na vida que não fosse esse. O comportamento do único filho homem era uma decepção para o Conde, que ansiava por se perpetuar na terra através de herdeiros homens dados por Paul. Suas filhas não poderiam jamais dar continuidade ao seu legado porque eram mulheres, e mulheres contraem o sobrenome dos maridos. Portanto, seu sobrenome morreria com ele, uma vez que não podia obrigar Paul a se casar por ele ser homem. Sua linhagem morreria com ele.

Berith nunca demonstrara qualquer preocupação com o irmão, de modo que Sophia era a mais próxima dele. Por muito ela quis acreditar que Paul ficaria bem, mesmo estando no seminário, que algum dia ele cairia em si e perdoaria a si mesmo, aceitando os fatos de seu passado. Porém agora, atormentada com o que vira, temia pela sanidade mental do irmão. E mais ainda, estava certa de que aquela visão era um castigo dos céus por estar prestes a trair sua própria família.