Coração Negro
2 O Estranho
- Tudo bem, meninas, já chega por hoje – disse Claire, enfim abaixando os braços.
Com um suspiro de alívio, Jasmine deixou os ombros caírem, quase largando os pompons que insistiam em grudar em suas mãos suadas. Sentindo-se igualmente cansadas, as outras meninas seguiram para o vestiário. Depois do calor infernal, típico do verão escaldante de South Side, Califórnia, o frio das paredes de metal e da água dos chuveiros era um choque térmico mais do que bem-vindo. Por alguns segundos, o som das gotas frias batendo em suas peles foi o único a ser ouvido, mas para aquelas garotas, o silêncio era mortal.
- Eu vou matar as duas – Chelsea disse, alto o bastante para todas ouvirem acima do som dos chuveiros. – Elas somem e nós temos que aturar os surtos da Claire.
Jazz preferiu não responder, ao contrário das outras garotas. Claire, a chefe da torcida, ficara simplesmente surtada ao ver que suas amigas, Alicia e Gwen, resolveram faltar ao primeiro treino da temporada, sem nenhum aviso. Tudo bem, para aquele tipo de garota, falta de responsabilidade era comum, mas o estranho sumiço das duas resultara em longas e cansativas horas de treinos, deixando a todas furiosas. Mais uma vez ela se perguntou se valia mesmo a pena fazer parte da torcida para agradar a mãe. Quer dizer, ela não pertencia àquele mundo, por mais que tentasse provar o contrário a si mesma.
- Aposto que elas estão com aqueles caras da Milligan. – respondeu Libby, secando o cabelo com força exagerada ao falar. – Lembram que elas ficavam sumindo toda hora com eles na festa do Andy?
Conhecendo as duas, aquilo parecia bem provável, mas não valia a pena discutir. Alheia às teorias do desaparecimento, Jazz secou-se rapidamente, voltando para suas velhas roupas comuns. É claro que seu conceito de “roupas comuns” estava aderindo ao conceito das outras líderes de torcida, mas era o menor de seus problemas. Pôs a bolsa, com os livros e o uniforme jogados dentro, e foi até a saída. Já havia ficado ali tempo demais. Entretanto, não conseguiu deixar de ser notada.
- Já vai? – perguntou Chelsea, interrompendo a discussão com Anne.
- Já, — ela deu de ombros. – tenho uma montanha de dever de casa pra fazer.
- Quem mandou ser tão nerd? – riu a outra. – Só não esqueça de nos encontrar na Pizza Hut às nove hoje.
- Não vou esquecer. – sorriu Jazz, antes de sair.
Seus sapatos batiam contar os corredores vazios, criando um eco baixo enquanto seguia em um passo rápido. A essa hora, a escola já estava quase vazia, exceto pelos alunos em detenção, alguns professores, e as líderes de torcida. Seus ombros ainda estavam caídos, como se tanta responsabilidade estivesse começando a pesar.
- Jasmine! Ei, Jasmine!
Jazz levou alguns segundos para reconhecer a voz que a chamava, e virou-se constrangida, tentando sem sucesso plantar um sorriso no rosto. Vindo de uma das salas de aulas usadas nas detenções, o Sr. Carter sorriu de volta, chamando-a com um gesto da mão. Na mesma mão havia várias folhas digitadas. Tentando não suspirar, ela voltou pelo corredor até a porta da sala, sem vontade de encarar os alunos na sala. Eles, por outro lado, estavam muito interessados em encarar seu peito.
- Sr. Carter, o que foi?
- Bem, — disse o professor, obviamente sem saber como começar. – eu recebi o seu relatório sobre a Revolução Francesa. Bom trabalho.
- Obrigado. – Jazz desistiu de manter o sorriso no rosto. O professor não a chamaria apenas para elogiar um trabalho tão comum.
- Mas eu percebi que o final ficou um tanto... abaixo do seu nível. – ele a mirou seriamente. – Você não teve tempo bastante para terminar a pesquisa.
Jazz deixou os ombros caírem novamente. Já devia ter imaginado.
- Desculpe, fiquei ocupada antes de terminar a trabalho. – disse, tentando não soar mal-humorada. A verdade é que fizera aquela parte da redação as pressas, devido a mais uma das festas de última hora de Andy. Faltar seria uma gafe imperdoável.
O Sr. Carter apenas abaixou os olhos decepcionado. – Você é inteligente, Jasmine. Não desperdice isso para agradar os outros. – Então abriu um pequeno sorriso. – Vejo você amanhã na aula.
- Claro. – disse Jazz, voltando a seguir pelo corredor.
O peso sobre seus ombros parecia ter dobrado depois das palavras do professor. Sim, sabia que deixar os estudos de lado para sair com as líderes de torcida estava diminuindo suas chances de entrar para Harvard, como sempre quisera, mas não via modo de sair daquela situação. Deixar a torcida iria arruinar sua reputação até a faculdade, além de ter que encarar a decepção da mãe. Por que sua mãe tinha que insistir tanto para que Jazz fosse tudo aquilo que ela não fora? Não era porque estava em um bom colégio e podia ser popular que deveria querer fazer isso. Mesmo assim, ainda fingia gostar daquele desgaste e os contratempos, apenas para agradar a todos. Ainda tentando achar uma solução para esse dilema, desceu os degraus, seguindo o caminho tão conhecido. Até que uma risada aguda e irritantemente familiar a puxou de voltar para o presente.
Estancou na calçada, olhando em um misto de choque e raiva para o fim da rua. Lá estavam elas, Alicia e Gwen, os cabelos lisos e perfeitos agitando-se enquanto riam em falsete para um garoto. Jazz franziu o rosto. Nunca havia visto aquele garoto na escola, muito menos em uma das festas e encontros que ia. Com certeza teria se lembrado de tal figura. Ele devia ter algo entre dezesseis e vinte anos, sendo bem mais alto do que as duas garotas. Mesmo à distância de metade da rua, podia ver o contraste de sua pele pálida e seus cabelos pretos como carvão. Parecia não se importar com os quase quarenta graus daquela tarde, pois usava uma jaqueta de couro fechada. Como estava de costas, não era possível dizer a cor de seus olhos. Apesar disso, não parecia o tipo de garoto-capa-de-revista que aquelas garotas sempre saíam. Na verdade, era o tipo de garoto que elas desprezavam.
- Vadias! – Jazz virou-se a tempo de ver Claire descer os degraus, os saltos batendo furiosos contra as pedras. – Eu vou matá-las!
- Bem... Boa sorte. – respondeu, tratando de lhe dar as costas e descer a rua na direção oposta. A última coisa que queria era ter que ver um acesso de fúria da loura, as horas que passara treinando já fora demais para seus nervos.
Simplesmente seguiu pelo conhecido caminho para a casa, tirando a bolsa do ombro e carregando nas mãos, sentindo outra vez o peso dos deveres de casa da semana toda que deixara de fazer por mera preguiça. Já era um saco ir aos treinos, fazer o dever seria uma tortura! Arrumaria alguma desculpa para explicar isso na aula seguinte, pois sempre que saía com os garotos junto, a reunião de amigos virava um encontro de fumantes e maconheiros na frente de alguma loja até tarde de noite, e ela provavelmente estaria chapada demais quando voltasse para casa. Mas eram as regras daquele grupo fazer o mesmo que as outras, então não podia recusar.
Tentando esquecer esses pensamentos, destrancou a porta de casa e subiu até o quarto, jogando os materiais em algum canto. Não precisava se preocupar em deixar as coisas espalhadas, sua mãe só chegaria à noite, e provavelmente ela já teria saído a essa hora. Apenas deitou-se em sua cama, puxando o cobertor sobre a cabeça e desejando fugir do mundo todo. Devido ao cansaço do treino e a falta de sono na noite anterior, imediatamente dormiu. Entretanto, seu sono foi agitado. Estava correndo em uma longe rua escura, que parecia nunca chegar ao fim, por mais rápido que tentasse ir. Não havia mais nada à sua volta, apenas a estrada marcada por muitos pneus e postes que falhavam, como se houvesse algum problema com a energia. Mas não estava sozinha. Seguia um estranho de cabelos negros e jaqueta de couro, que andava calmamente, inalcançável. Estendeu a mão, tentando chamá-lo, mas assim que abriu a boca, o estranho parou, virando o rosto para ela...
- Hum? Quê? – espantou-se Jazz, levantando da cama e olhando confusa para os lados. Por que estava tudo rosa? Onde estava a rua vazia? E o estranho? Seu telefone tocou outra vez, chamando sua atenção. Bufando, afastou do rosto a juba em que seus cabelos havia se tornado e pegou o fone, tentando não rosnar feito um animal acordado da hibernação. – Alô?
- Ei, Jazz, por que demorou tanto para atender? – perguntou Chelsea do outro lado.
- Eu tava dormindo, Chels. – respondeu, tentando manter a calma.
- Dormindo? – a outra zombou. – Nem a minha avó dorme a essa hora!
- O que você quer? – Jazz já estava perdendo a calma.
- Eu marquei de ver as garotas uma hora atrás e elas não apareceram, você as viu?
- Eu vi a Alicia e a Gwen depois de sair da escola, estavam falando com um cara... E aí a Claire veio e ficou puta com isso, aí eu dei o fora antes que ela matasse alguém.
- Ah, elas estavam falando com um cara, é? – Chelsea se animou, e Jazz suspirou. – Como ele era? É conhecido? Tem namorada? Parecia interessado nelas? Por que eu sou bem melhor, se ele der mole pra mim...
- Ele não faz o seu tipo. – atalhou a morena. – Parecia um carinha estranho, com cabelo de quem acorda e aquelas roupas de motoqueiro. Sei lá, parecia coisa ruim.
- Você chegou a ver os detalhes importantes?
- Não vi a cara dele, ele estava de costas. E não prestei atenção na bunda dele também.
- E para o que é que você olhou? – Chelsea se irritou.
- Para nada, Claire apareceu uns dois segundos depois e eu fui embora. – E, esperando a resposta, olhou para a janela. O sol já estava se pondo, e logo seria a hora marcada para sair. Suspirou de novo. Assim não teria tempo de se arrumar direito. – Nos vemos depois.
E, sem dar chance para a outra responder, desligou e foi para o chuveiro. Levaria pelo menos duas horas para escolher a roupa certa depois do banho e ainda se arrumar. Mas essas eram as regras para andar com as melhores pessoas, então apenas deixou-se levar pela água morna batendo na pele levemente morena e nos cabelos castanhos, que tinham que ser alisados por meia hora para ficarem apresentáveis. Quando por fim terminou, estava usando uma roupa curta demais – regras, sempre regras – e tanta maquiagem que seu rosto parecia feito de cera, prestes a rachar. A noite já havia caído, mas ainda faltava algum tempo para a hora marcada, de modo que o som da campainha sendo tocada a surpreendeu. Quem poderia estar ali tão cedo? Hesitante, desceu os degraus da escada, e abriu devagar a porta, com medo do que veria. E, realmente, não era uma coisa muito calmante encontrar dois policiais na sua porta, fitando-a sérios.
- Posso ajudar? – engasgou.
- Jasmine Hale? – perguntou o homem à esquerda, recebendo uma afirmação. – Precisamos interrogá-la.
Fale com o autor