Coração Gelado 2

9 Alinhando o Passo – Parte 2


Renata encarava o teto de seu quarto fixamente, esperando pacientemente pelo anoitecer. Mesmo com a parede os separando, ela sabia que Alec estava no quarto ao lado; podia ouvir o som do ar entrando e saindo de seus pulmões.

— Alec? – chama ela.

— Sim? – responde do outro cômodo, não tendo dificuldade alguma em ouvi-la.

— O que Jane quis dizer com “teremos muito trabalho com ela”? – questiona subitamente, ouvindo uma movimentação estranha do outro lado da parede, como se ele estivesse arrastando a cama para mais perto.

— Quer dizer que ela te acha fraca – responde depois de algum tempo, fazendo-a perceber que a voz dele estava mais próxima do que antes. Ele realmente havia arrastado o móvel para junto da sua parede. – Sua posição na Guarda defensiva a privou de muitos conhecimentos de batalha, e teremos que corrigir isso… – Finaliza simplista, como se o seu comentário não fosse um golpe para o ego de qualquer vampiro.

— Jane acha qualquer um fraco – lança rapidamente, nitidamente irritada com o comentário desagradável. – Tifla petulanti! – xinga em maltês, fechando o semblante numa carranca.

Do outro lado, Alec ficou em silêncio. Estava deitado na cama, encarando a parede que os separava, refletindo. Tinha passado dias esperando por ela, sentindo um turbilhão de emoções estranhas e, agora que a vampira estava ali, a quietude em seu interior o deixava um pouco perdido.

— O que você pretende fazer com a sua liberdade? – pergunta Renata suavemente, quebrando o silêncio novamente.

— Nós criamos uma lista de coisas a fazer, eu lhe disse isso na viagem para cá.

— Não me refiro ao que o grupo irá fazer, mas você. O que você planejou? Qual é o seu objetivo?

— Eu... – Pausa, refletindo sobre a pergunta. Alec aguça sua audição, certificando-se de que não havia ninguém por perto que fosse capaz de ouvir suas palavras. Ele sentia-se novamente naquele quarto em Volterra, ao lado da única que poderia dar-lhe uma direção, mas com receio de ser ouvido por mais alguém. – Eu quero encontrar o amor, porém não sei por onde começar – confessa por fim.

— Entendo – responde ela, depois de alguns segundos de silêncio.

— Você sabe mais disso do que eu, preciso que me ajude – sussurra ele por fim. Mesmo sem vê-lo, Renata percebeu que aquela não era uma ordem ou um favor; era quase como um pedido desesperado.

— Alegria: emoção positiva de contentamento e prazer. Surge por um acontecimento bom e se manifesta através de reações físicas, como sorrisos e risadas.

— O que está fazendo?

— Repassando o que sei sobre emoções e sentimentos. Vamos procurar por algo que nunca experimentamos. É importante delimitarmos o que já conhecemos para podermos reconhecer o amor quando ele chegar.

Alec fica em silêncio novamente, pensando que talvez suas definições dos sentimentos não fossem tão bonitas como eram para ela. Diante de seu silêncio, a vampira continuou:

— Tristeza: caracterizada por desânimo, solidão e desamparo. Surge geralmente em resposta a perdas, frustrações ou decepções.

— Frustração: é o desapontamento que surge quando a realidade não corresponde às nossas expectativas ou desejos – acrescenta Alec, tentando participar do exercício, lembrando-se de como se sentiu com a quebra de suas expectativas, ao pensar que ela não chegaria.

— Raiva: sentimento de irritação, ódio, caracterizado pelo excesso de agressividade.

— Esse eu conheço bem! – zomba o vampiro, fazendo-a dar uma leve risada. – Medo: inquietação, ansiedade diante de algo que ameaça a segurança, o bem-estar ou a vida, sua ou daqueles que ama – continua, elaborando uma definição a partir do que já vira nos rostos e comportamentos de suas vítimas, humanas e vampiras.

— Essa foi boa. Você sente medo?

— Não – responde rapidamente, fazendo Renata revirar os olhos e sorrir. É claro que não sentia medo, pois nunca se sentia ameaçado. Ele era o causador do medo. – E você?

— Sim, muitas vezes.

— Você tem medo de mim? – A pergunta saiu rapidamente, antes que pudesse processá-la adequadamente.

— Não sinto mais. – Pausa, pensando a respeito. – Deveria?

— Não – responde convicto, percebendo o quanto aquilo era real após dizer em voz alta.

A risada contida de Renata flutuou através da parede, morrendo suavemente nos ouvidos de Alec, que achou o som bastante reconfortante. Enquanto ela prosseguia com o exercício, ditando palavras que pareciam saídas de um dicionário, o vampiro se deu conta de que estava aprendendo uma mecânica totalmente nova. Falar, ouvir e definir não eram apenas distrações para preencher o tempo até o anoitecer, eram ferramentas. Cada conceito compartilhado funcionava como uma etiqueta precisa, colada cuidadosamente sobre o caos de sentimentos sem nome que ele vinha reprimindo desde sempre.

Guiado pela voz suave da escudeira, ele descobriu que era reconfortante mapear o próprio interior e conhecer mais de si mesmo. Dar nome àquelas turbulências abstratas o fazia perceber que era capaz de sentir mais coisas do que imaginava e que o caminho para encontrar o amor já não parecia tão impossível.

O exercício estendeu-se até que os últimos raios de sol finalmente sumissem no horizonte, dando lugar à escuridão densa e gélida da noite de Dover. O tempo das palavras havia acabado; as exigências da natureza imortal agora falavam mais alto através do ardor incômodo em suas gargantas.

Sem precisarem trocar mais nenhuma palavra através da parede, ambos se moveram. Renata ajeitou os trajes humanos, enquanto Alec recolheu seu sobretudo e sua adaga. Ao se encontrarem no corredor silencioso do hotel, Jane e Maximilian não foram vistos; o som abafado da televisão indicava apenas que ambos não apareceriam até a hora da partida. Com um aceno mútuo, os dois deixaram a segurança do prédio.

Alec caminhava pelas ruas despreocupadamente, quase como se fosse um morador local. A proximidade com a saída da cidade era o cenário adequado para caçar, visto que partiriam logo em seguida, e o vampiro não se incomodou em prosseguir em silêncio até lá.

Renata o seguia de bem perto. Ele podia sentir a presença dela, apesar de seus caminhos não estarem emparelhados. Dover, sob o manto da noite, parecia uma pintura melancólica de tons cinzentos e azulados. A névoa espessa, vinda do Canal da Mancha, subia pelas ruelas desertas e silenciava a cidade, envolvendo as construções históricas e os postes de luz antigos em uma aura fantasmagórica. Para os sentidos apurados dos predadores, aquele cenário era um tabuleiro perfeitamente limpo, com as condições ideais para se evitar testemunhas.

Foi então que o silêncio da madrugada acabou quebrado pelo eco arrastado de passos humanos: um homem solitário, com o casaco pesado fechado até o pescoço e a cabeça baixa para se proteger do frio, dobrava a esquina de uma rua residencial. Ele exalava o cansaço típico de fim de expediente e, acima de tudo, o calor pulsante de um sangue jovem e vigoroso.

— Esse é dos bons — comenta Alec com um sorriso, hipnotizado pelo som rítmico do coração humano, que ecoava como um tambor na quietude da noite. Diante da presa, sua garganta queimou ainda mais.

— É sim. Tenho de reconhecer o seu bom gosto.

— Quem o alcançar primeiro fica com ele – propõe, já retirando o sobretudo e jogando-o no chão para que seus movimentos ficassem mais livres.

— Não, essa presa é toda sua – concede, notando através da coloração dos olhos que ele era o mais sedento dos dois. – Bon appetit! – encerra, vendo a postura do vampiro mudar e seus músculos se prepararem para o ataque.

Os olhos de Alec cintilaram com uma ansiedade selvagem. Quando julgou que o humano estava perto o bastante para o bote, o vampiro avançou como um borrão na escuridão; o impacto contra o peito do homem foi silencioso e brutal. Ele o derrubou no chão, rolando alguns metros pelo asfalto úmido com a presa firmemente presa em seus braços. O pobre mortal sequer soube o que o atingira, o ar deixando seus pulmões antes mesmo que pudesse gritar.

Alec se ergueu sobre o corpo atordoado e indefeso, encarando-o com olhos negros e sedentos, enquanto a queimação em sua garganta exigia alívio imediato. Ele estava tão imerso no próprio instinto que sequer notou que estava sendo observado. Próxima dali, Renata estudava cada um de seus movimentos com atenção. Era a primeira vez que podia assisti-lo caçar de forma tão aberta e intimista, sem a distração de um exército de Volturis ao redor ou a rígida separação entre os papéis de ataque e defesa que o clã sempre impunha.

Com o olhar fixo no pulsar da artéria da presa, o vampiro permitiu que a ferocidade de sua natureza tomasse o controle absoluto, retesando os músculos sob a camisa azul-marinho. Ele adorava caçar; a selvageria crua do ato fazia sua adrenalina disparar e, quando misturada ao calor do primeiro gole de sangue fresco, proporcionava-lhe uma sensação avassaladora de prazer.

A escudeira moveu-se silenciosamente por detrás de um poste, mudando seu ponto de vista para observar o exato instante em que o homem recuperou a consciência, passando a debater-se furiosamente em uma tentativa desesperada de fuga. Com facilidade, Alec o prendeu contra o chão usando apenas uma das mãos, enquanto a outra abafava qualquer clamor de socorro sobre a boca da vítima. O vampiro parecia saborear o pavor que emanava daqueles olhos humanos, o medo instintivo daquilo que a presa, lá no fundo, sabia que estava prestes a acontecer. Aquele vislumbre do sadismo característico de Alec fez Renata esboçar um sorriso involuntário; ela sentiu a própria sede intensificar-se no momento em que ele finalmente afundou os dentes na pele macia do pescoço, soltando um gemido contido ao receber o fluxo de sangue quente.

A presa sem nome ainda se contorcia sob o aperto, desferindo joelhadas e socos às cegas na tentativa de atingir algum ponto sensível, sem ter a menor dimensão de que qualquer reação humana seria inútil contra a anatomia de um imortal. Em resposta, Alec envolveu o torso do homem instintivamente, esmagando suas costelas com apenas um braço para que parasse de se mover. O movimento tencionou as linhas de suas costas, tornando os músculos sob o tecido ainda mais salientes, um espetáculo de masculinidade do qual a escudeira não fez a menor questão de desviar os olhos.

Um aroma inebriante atingiu as narinas de Renata de repente, trazido pela brisa gélida da noite e rompendo o transe que a prendia à caçada de Alec. O perfume floral da fragrância feminina misturava-se ao odor magnético de um sangue tentador, mais uma humana inocente que, por um cruel capricho do destino, colocara-se no lugar e na hora errados.

A vampira afastou-se de Alec sem emitir um único ruído, movendo-se pelas sombras enquanto farejava sua própria presa. Ao dobrar a esquina, encontrou-a poucos metros à frente, caminhando tranquilamente em sua direção enquanto apertava o agasalho ao redor de seu corpo. A mulher diminuiu o passo de forma abrupta assim que a silhueta de Renata surgiu sob a luz fraca de um poste, os instintos de sobrevivência humanos detectando, tardiamente, o perigo iminente oculto naquele cenário.

Renata flexionou levemente os joelhos, o corpo tensionado como uma mola prestes a disparar. Bastou esse sutil movimento predatório para que qualquer civilidade se rompesse; o pavor absoluto tomou conta do rosto da humana que, desesperada, girou nos calcanhares e passou a correr na direção oposta.

A escudeira sorri de excitação, passando a língua sensualmente na ponta de seus caninos já salientes. Ela se lança em perseguição, movendo-se com um felino selvagem, graciosa e sinuosamente, tornando qualquer tentativa de fuga humana uma ilusão.

Antes que a humana pudesse soltar o grito que travava em sua garganta, Renata a envolveu por trás em um abraço, prendendo os braços da vítima contra o corpo com uma firmeza inquebrável. Com a ponta dos dedos, ela afastou os cabelos da mulher para o lado, expondo a linha do pescoço em um gesto lento, quase sensual, que lembrava o brincar de um gato selvagem antes do xeque-mate.

Um suspiro satisfeito escapou dos lábios de Renata quando ela colou o rosto à pele quente, sentindo a pulsação frenética da artéria. Sem pressa, ela cravou os dentes na carne macia, fechando os olhos ao sentir o líquido rubro invadir sua garganta, deleitando-se com a sensação de poder e êxtase que a preenchia por inteiro.

Aquela era a sua primeira caçada sob o céu aberto após séculos de um confinamento velado; a primeira vez em que o sangue que corria por sua garganta não pertencia a uma oferenda trazida até os salões de pedra de Volterra, mas a uma presa que ela própria escolhera, perseguira e dominara na imensidão da noite.

Aquele primeiro gole carregava um sabor inédito e avassalador, muito além da mera saciedade física. Era o gosto vívido de sua própria alforria.