Notas iniciais
Boa leitura (:

Capítulo 7: Chamas


Às vezes tinha vontade de abrir seu crânio e estourar seu próprio cérebro com suas mãos. Às vezes aquela voz se tornava inconveniente e insuportável, como naquele momento estava sendo, ao ponto de não lhe deixar se concentrar em outras coisas que requeriam o mínimo de atenção. Às vezes.

Já havia se passado algumas horas mas a vontade de arranjar outra vítima ainda não havia diminuído, muito pelo contrário. Não que não quisesse sangue fresco pintando seu rosto e mãos. Porém, havia assassinado e atacado há poucas horas, seria bom dar algum tempo até as coisas se acalmarem.

Mal podia ligar o fogão e preparar seu chá que seus olhos compenetravam-se no fogo e seus dedos vagavam ao encontro dele e ali repousavam apreciando o calor. Uma deliciosa sensação de queimação preenchia seu abdômen e o fazia repensar sobre atacar logo ou não.

A voz dizia que devia.

Levou sua mão livre em direção à sua testa e apertou o local com força, pensando e querendo parar de pensar. Unhas cravaram-se na derme e sangue brotou dos pequenos cortes. Queria parar com o desejo que manifestava-se em forma de imagens e sons em sua mente.

Grunhiu e num ato de raiva socou o recipiente de água fervente, fazendo-o cair no chão com um baque surdo. O líquido foi lançado contra a manga de sua jaqueta e barriga, queimando sua pele. Assustado, se moveu, entretanto calculou errado e seu movimento fez com que o fogo subisse pelo pano e entrasse em contato com sua pele. Retirou a jaqueta e a jogou no chão, pisoteando-a e jogando água sobre ela. Tinha entrado em pânico.

Merda.

Alguém como ele não devia demonstrar ou possuir emoções de fraqueza como essa porque elas poderiam facilmente destruí-lo ou leva-lo à uma situação mortal.

E aquela situação o relembrou de algo que aconteceu em sua infância e que tinha pensado que havia enterrado nas profundezas de sua alma para todo o sempre. Mas isso não era verdade.

Conseguia lembrar com nitidez o dia em que sua mãe e seu pai tiveram uma discussão na sala. Os gritos enfurecidos dele e dela. Falavam dele. Algumas coisas eram simples borrões, contudo algo não tinha escapado de sua mente. O dia em que o trancaram em casa e atearam fogo.

Recordava-se da maldita sensação da fumaça preenchendo seus pulmões e o desespero em tentar encontrar uma janela que estivesse aberta para poder fugir, entretanto encontravam-se emperradas. Havia entrado em pânico então.

Depois de alguns minutos, o fogo havia se alastrado ainda mais e sua visão começara a ficar turva. Não conseguia e não queria mais se mover. Permitiu que seu corpo tombasse próximo à sua cama e aguardou o fim iminente.

Seus orbes fecharam-se rapidamente.

Longe dali ou assim parecia — pois seus sentidos o traíam — sirenes tocavam.

O fluxo de imagens grotescas parou ao sentir dois braços o envolverem. Mãos seguravam sua cabeça, impedindo-a de atingir o chão. Só então percebeu que seu corpo convulsionava.

Não queria fita-lo. Sentia vergonha quando o outro o via em tal estado decadente. Ele, o invencível e poderoso Deus da morte, aquele que nada temia. Ridículo.

Após segundos que mais pareceram minutos, seu corpo voltou ao normal.

─ Me solte – murmurou sentindo que as têmporas ficavam quentes.

Tentou se levantar mas ele o puxou e o segurou contra o chão frio. Olhos azuis o miravam de forma desconfortável. Virou o rosto em direção à geladeira tentando evitar o contato visual que tanto lhe incomodava.

Lábios dirigiram-se à seu pescoço e roçaram contra sua pele. Cerrou os olhos com força tentando ignorar as carícias que lhe eram direcionadas e a pessoa que estava sobre ele, dominando-o.

─ Não – ouviu-o dizer em algum momento em que o mesmo erguia sua blusa e passava as mãos em seu peito.

“Isso é errado...” confirmou a voz em sua mente.

Desejava ser mais forte e sair dali. Empurrá-lo e matá-lo assim como fizera com tantas outras pessoas por aí. Ou pelo menos era o que aqueles sussurros o faziam pensar que ansiava.

O mais velho removeu suas roupas com facilidade enquanto explorava o corpo pálido e magro abaixo de si.

Sentia que cada lugar em que era beijado queimava mais do que seu pequeno acidente anteriormente e mais do que qualquer outro momento em sua vida pelo qual passara.

Odiava aquelas mãos que o tateavam, aqueles olhos que o desejavam e aquele sorriso sarcástico.

Detestava-o.

E mesmo assim não conseguia controlar os espasmos que atingiam seu corpo em ondas quando ele o tocava entre as pernas e o puxava para si.

Queria mais e mais se perder naquelas malditas sensações que o embalavam e recusavam-se a larga-lo.

“Pare...”

Colocou as mãos contra o peitoral forte acima de si e canalizou toda sua força naquele ato, o que só piorou a dor que sentia nos braços avermelhados. Ouviu um riso breve e sentiu raiva.

“Mate-o...Destrua-o”

Suas unhas penetraram na carne dele e o líquido da vida se acumulou embaixo delas. Algumas gotas secaram na ponta de seus dedos.

Escutou o som de desaprovação que o mais alto fizera.

─ Desista.

Sim, sabia que ele estava certo e que era uma causa perdida, o dono daqueles orbes era mais forte e persistente do que ele.

Suas mãos pousaram sobre os ombros do mais velho, permitindo-o continuar com aquela maldita tortura.

Uma boca cobriu a sua e dedos afagavam seu rosto com uma ternura desprezível, uma que nunca haviam demonstrado para com ele. Seu peito parecia pesar e não encontrava o motivo. Estava ficando doente?

Deixou suas preocupações de lado por um momento enquanto era preenchido por emoções fortes e por aquele homem que esperava que morresse.


:: { Coração Desgastado } ::


Assim que acordou, a primeira coisa que notou foi que tinha sido carregado para o único quarto daquela casa. E só então percebeu que se encontrava sozinho. Não que se importasse.

Levantou da cama e colocou suas habituais roupas pretas, parando apenas ao ver que o estado de seus braços havia melhorado.

Saiu e andou pela casa, vendo se realmente estava sozinho. E estava. Suspirou aliviado.

Foi até seu carro e o ligou, pouco se importando com o caminho que seguiria naquela noite. Apenas queria ficar um tempo sozinho e satisfazer suas necessidades sanguinárias e cruéis.

Parou o automóvel ao ver que uma bela mulher caminhava ali perto: uma prostituta. O anjo negro daquele mundo corrompido tinha aparecido para ele. A voz estava feliz com o inesperado encontro.

Fez um sinal para que a mulher se aproximasse e sorriu para ela, o que a assustou um pouco mas não a impediu de se juntar à ele.

─ Entre.

Algum tempo depois, pararam em frente à um depósito antigo. Fê-la descer do carro e o acompanhar. Olhou para os lados examinando se algum desgraçado resolvera aparecer e atrapalhar seus planos. Não havia ninguém.

A mulher o seguia calmamente e indiferente ao que se passava. Ou ela era muito burra para não perceber o perigo ou estava muito necessitada de dinheiro. Ou eram as duas opções.

Num rápido movimento, a segurou e apertou seu pescoço, interrompendo a passagem de ar momentaneamente. Puxou-a e a amarrou a uma estaca de madeira que deixara ali há alguns dias atrás.

Pegou um cano e desferiu golpes rápidos e sucessivos contra o rosto dela e sua barriga, fazendo-a urrar de dor ao sentir ossos se partindo. Devia ter perdido algumas costelas.

Parou e trocou a arma para uma faca.

─ Por favor, pare – ela suplicou enquanto cuspia sangue e lágrimas jorravam de seus olhos, tornando-a patética.

Bem, mulheres tinham o dom da vida e algumas não sabiam ou o mereciam, mulheres como sua mãe.

O sorriso que tinha aparecido em seus lábios quando ouviu as preces da prostituta sumiu no mesmo instante em que se lembrara daquela vagabunda.

Seu coração gelado batia com ódio agora.

Abaixou-se e rasgou o tecido do vestido dela. Removeria os ovários e tudo o mais daquela desgraçada. Tudo.

Gritos e espasmos eram produzidos pelo corpo da jovem assim que era perfurada pela faca sem piedade ou ressentimento.

Depois de arrancar-lhe o dom da vida, tirou-lhe os intestinos. E ela sempre gritava, sempre cuspia ou vomitava sangue.

Que coisa mais irritante...

Jogou gasolina ao redor dela, no corpo dela e na estaca. Pegou um fósforo e ateou fogo àquela estranha.

A boca dela se contorcia enquanto a dor e as chamas tomavam conta dela. Os gritos e as lágrimas pararam depois de pouco tempo.

Devia ir embora dali antes que alguém aparecesse.

Voltou ao carro e rumou de volta para casa. Casa? Desde quando tinha um lugar que chamava assim? Não, não era casa, apenas seu pequeno parque de horrores.

Teria de reencontrar aquele homem que o tirava do sério, aquele cujos toques e beijos agiam como veneno. Engraçado era sempre ter gostado de venenos.

Notas finais
Genteeeee, desculpem-me pela demora. Sabe como é escola :// Enfim, espero que o capítulo tenha lhes agradado, pois eu nunca havia planejado nada disso D: Preferem mais cenas calientes com nosso assassino ou que esta tenha sido a primeira e última? ;^; UASHASHU
Até o próximo (: