Coração De Seda
66 Capítulo 66
Notas iniciais
—Está mais calma? —Hur pergunta ainda preocupado com o meu estado emocional. Suas mãos estão em meus ombros, mas é seu olhar que me prende.
—A dor amenizou. —São as melhores palavras que encontro para responder ao meu marido. —Por um momento eu pensei que estivesse ficando louca. —Falo ao lembrar de todo meu desespero. —Me perdoe pelo meu comportamento grotesco, Hur. —Peço envergonhada, todavia Hur se senta ao meu lado e segura em minhas mãos.
—Eu não poderia ter esperado outra coisa. Você sempre foi muito apegada á Djoser, desde que soube que ele crescia dentro de você. —Hur fala nostálgico, mas rapidamente volta a si e põe sua mão em meu ventre. —Não se desespere, nosso filho vai voltar bem.
—Por um lado eu acredito nisso, mas ao mesmo tempo penso que não. —Falo ainda sentindo o mal pressentimento que tenho faz dias. —Dias já se passaram,Hur. Onde está o nosso filho? Será que ele está machucado? —Volto a ficar nervosa com minhas próprias perguntas, mas Hur toca em meu rosto com mansidão e então me calo. —Que o Senhor me perdoe pelo o que irei falar agora. Mas ele pode me tirar qualquer outro filho, menos Djoser. —Falo. —Ele é muito importante para mim. Ele é mais importante que a minha própria vida.
—Eu sei disso, meu amor. Sei que esteve disposta a dar sua vida quando Djoser estava para nascer, ouvi seus gritos e seu choro neste dia. —Hur relembra. —Quando ouvi o choro de Djoser pensei que estivesse sonhando.
—Eu mesma pensei que tudo era uma ilusão. —Falo. —Pensei que não o teria em meus braços, pensei em tudo o que não deveria pensar.
—Como está fazendo agora. —Hur fala sendo um pouco irônico comigo. —Djoser lembra-o, não é? —Hur pergunta me deixando sem entender. —Digo, não na aparência, mas no cuidado que ele tem com você.
—De quem fala?
—Seti. —Hur deixa claro. —Parece que Deus tirou Seti de você, mas te deu Djoser.
—Não nego que pensei em meu pai ao ter Djoser nos meus braços. —Falo. —Como também pensei que eu desejei a morte dele e fui atendida.
—Não diga isso. —Hur fala. —Você não tem culpa de nada.
—A maioria das coisas que eu sinto e falo acaba se concretizando, Hur. Eu desejei tanto a morte de meu pai, lhe neguei o perdão e...
—Não fale mais nada, por favor. —Hur pede ao ver tamanho fardo em mim. —Não fale o que não deve. É errado que não tenha perdoado seu pai até hoje.
—Estou sendo imatura?
—Imatura não é a palavra certa. —Hur fala risonho.—Rancorosa,orgulhosa, oblíqua... —Os três adjetivos me fazem abaixar o olhar. —Você já passou por muitas coisas, mas quando se trata de seu pai... —Hur parece pensar bem antes de terminar de falar. —Quando se trata dele...
—Não diga mais nada. —Peço estarrecida pela minha dor. —Eu estou esperando algo que nem sei mesmo o que é. Talvez seja o perdão.
—Já parou para pensar que você já deu esse perdão e não sabe? —Hur pergunta e me faz pensar. —Você já fez isso e não viu.
—É de se pensar. —Minto, mas com isso Hur passa a sorrir. Ele então me envolve em seus braços como se estivesse orgulhoso, e com isso eu me sinto um pouco melhor. —Eu li o papiro dele. —Falo em relação ao papiro de Djoser. —Ele me orgulha,sabia? —Minha pergunta faz Hur rir, mas ao mesmo tempo ele também deixa claro que está orgulhoso pelo nosso filho. Sinto Hur acariciar o meu ventre como se quisesse tocar em nosso filho e por isso sorrio.
—A criança que está aí dentro é fruto nosso. —Hur fala risonho e então eu ponho minha mão sobre a sua. —E pensar que a cada dia está crescendo.
—Espero que este seja igual a você. —Minhas palavras fazem Hur pensar. —Para que eu possa me lembrar do seu rosto todas as vezes que olhar para ele. —Falo, mas de imediato volto a olhar para cada traço do rosto de Hur. Que Deus permita que essa criança nasça com os traços de meu marido.
—Você pode me ver todos os dias. —Hur fala risonho. —Mas se deseja que a criança seja como eu...—Ele fala com uma certa alegria na voz. —Mas eu tenho muito medo por você.
—Não vamos falar sobre isso, meu amor. —Falo ao segurar delicadamente no rosto de Hur e acariciar como sempre fiz. Ele fecha os olhos como se quisesse lembrar de algo, mas na verdade ele está apenas aproveitando cada toque meu.
—Com sua licença, soberana. —Paser fala ao entrar euforicamente em meu quarto. —Mas a senhora precisa ver quem está na frente do palácio. —Paser mal termina de falar e eu já me levanto apressada ao lado de Hur. Vamos até a janela do nosso quarto e então eu posso ver Gab com Djoser.
—Meu filho. —Minha voz é rouca ao vê-lo debilitado. Nas em seguida eu vejo Ramsés e Ikeni. Onde está o exército? Evito não me preocupar com o exército de Ramsés, olho para Djoser inconsciente nos braços de Gab. —Hur, Djoser está inconsciente? —Pergunto assustada e então seguro nos braços dele. —Traga-o para mim! —Peço atordoada.
Hur então sai atordoado do local e me deixa sozinha com Paser. Sinto uma dor aguda em minha barriga, por isso seguro firme nos braços de Paser.
—Se sente mal, senhora? —Paser pergunta assustado ao me ver gemer de dor ainda de pé. —Venha, vou ajudá-la a se deitar.
—Não quero me deitar, Paser. Quero ver meu filho! —Falo ainda sentindo dor em meu ventre. Poderia a criança estar morrendo? Ou eu estou abalada demais ao ver meu filho nos braços de Gab? Não, não! Meu filho não pode estar morto! —Como eu posso sentir tanta dor? Como? —Pergunto assustada com tamanha dor.
—Eu não deveria ter falado nada. —Paser fala arrependido. —Sinto muito.
—Eu vou ficar bem... —No exato momento em que falo, vejo Gab e Hur entrarem com meu filho em meu quarto. —Meu filho! —Falo assim que ajudo a colocarem meu filho na cama. —O que aconteceu com ele? —Pergunto ao ver uma faixa branca em volta da sua panturrilha. —Djoser, meu filho, fale comigo...
—Ele está inconsciente. —Hur fala nervoso e então põe uma almofada de baixo da cabeça de Djoser. —Paser, nos ajude... —Ele pede aflito.
—Eu retirei a lâmina, mas era enferrujada. —Gab revela me assustando. —Ele caiu e acabou se cortando quando o mar se abriu...
—Como? —Pergunto assustada e incrédula não mesmo tempo. —Não me explique nada agora, Gab. Eu preciso cuidar do meu filho agora.
—Eu sinto muito, Henutmire. Eu fiz de tudo para a ferida não infeccionar, mas foi piorando com o passar do tempo... —Gab fala apreensivo com minha reação.
—Você fez mais do que deveria, príncipe. —Paser fala ao retirar a faixa e expôr o ferimento. Sinto uma súbita ânsia ao ver o ferimento de meu filho, mas tento me manter firme. —O importante agora é ele acordar.
—Ele ficou assim durante toda a viagem. —Gab revela me assustando ainda mais. Ouvimos meu filho gemer baixo, portanto todas as nossas atenções são para ele.
—Mãe... —Djoser chama por mim ao abrir os olhos lentamente. —Eu morri? —Djoser pergunta assustado e tenta se levantar da cama, mas grita de dor ao mover dia perna.
—Não se mova! —Hur pede e então o deita novamente. —Vai se machucar!
—Anippe... —Djoser chama pela irmã. —Onde ela está? —Ele pergunta tentando se levantar novamente.
—Meu filho, por favor... —Hur insiste ao ver Paser sair. —Se acalme!
—Dói muito, pai! É como se a lâmina estava em brasa na minha carne. —Djoser fala enquanto segura a minha mão firme. —Mas... —Ele fala assutado ao ver o seu próprio ferimento. —Eu vou morrer! —Ele fala assustado e então eu seguro o seu rosto
—Você não vai morrer! —Falo firme ao ver meu filho gemer de dor em minha cama. —Eu não vou deixar isso acontecer.
—Mas dói muito... —Ele fala e então olha para Gab. —Se ele não tivesse me ajudado, talvez eu tivesse morrido no caminho. —Djoser fala ainda gemendo de dor. Eu olho para Gab agradecendo.
—Não me agradeça nada. —Gab fala ao me ver abrir a boca para agradecer. —Fiz mais que minha obrigação, Henutmire.
—De toda maneira eu agradeço, Gab. —Hur fala olhando fixamente para Gab. Em outros tempos ambos desejavam se matar, agora com toda a verdade sobre Gab e eu, Hur não guarda nenhum rancor.
—Voltou a sangrar. —Falo ao ver o ferimento de Djoser. Meu filho grita de dor em nosso quarto enquanto eu tento estancar o sangue de meu filho com o lençol de minha cama.
—Não vai parar. —Hur fala assustado ao pôr sua mão sobre a minha. Tentamos estancar o sangue com nossas mãos, mas ele não para de jorrar.
—É normal sangrar tanto? —Djoser pergunta assustado, mas ninguém responde nada. —Mãe? —Ele chama por mim enquanto deita-se na cama novamente. —Mãe...
—Sim, meu filho? —Pergunto seriamente. Ele então segura a minha mão novamente com firmeza e tenta manter os olhos abertos. —Pode falar, Djoser. Estou aqui. —Falo.
—Eu vou morrer, não vou? —Djoser pergunta assustado e trêmulo. —Fale a verdade, mãe.
—Não vamos deixar você morrer, Djoser. —Hur fala por mim e então eu vejo Gab abaixar o olhar. —Eu perdi Uri, não vou perder você também. —Meu marido fala enquanto tenta acalmar nosso filho.
—Mãe... —Djoser chama por mim ainda nervoso. —Olhe para mim. —Ele pede. Eu olho firme para meu filho, mas as lágrimas brotam. —Eu te amo muito...
—Eu te amo mais, meu filho. —Falo trêmula ao ver que meu filho está tentando permanecer de olhos abertos. —Tente permanecer acordado.
—Ouça sua mãe, Djoser. —Hur pede em uma intenção de obrigar Djoser a se manter acordado. Meu filho tenta se manter firme, mas a dor é ainda maior que sua vontade.
—Ele vai ficar bem. —Gab fala tentando me acalmar, mas a verdade é que meu filho não vai ficar bem. —Vou ver porque Paser demora tanto. —Ele fala antes de sair apressado do quarto.
—Djoser? —Hur chama pelo nosso filho ao vê-lo inconsciente na nossa cama.
—Está ardendo em febre. —Falo ao tocar no rosto de meu filho mais velho e sentir a sua temperatura. —Como isso aconteceu? —Pergunto tentando entender o motivo de meu filho estar assim.
(...)
—O ferimento é profundo, mas limpando-o todos os dias vai cicatrizar. —Paser fala ao terminar de olhar a ferida de Djoser.
—Mas e a febre?—Hur pergunta temendo pela vida do filho. —Só faz piorar.
—O príncipe é forte, está lutando para viver. A febre só irá baixar quando ele acordar e se alimentar, até porque ele precisa de força. —Paser fala. —Mas todo cuidado é pouco.
—Como assim? —Pergunto assustada.
—A ferida pode não cicatrizar e... E caso a carne ficar necrosada... —Paser não termina de falar ao olhar para mim e ver que entendi. —Vamos dar tempo ao tempo.
—Eu não sei se vou aguentar ver meu filho assim. —Hur fala estarrecido com a situação que nosso filho se encontra. —Não quero vê-lo sofrer tanto.
—Onde está Ramsés? —Pergunto tomada pela fúria. Tudo isso é culpa dele! Ramsés é o culpado pelo o quê aconteceu com Djoser. Ele é culpado por toda essa dor que estou sentindo agora.
—Em seus aposentos, majestade. —Paser responde manso. —Está incrédulo com o que aconteceu com seu exército.
—Afinal, onde estão todos os soldados? —Pergunto curiosa.
—Parece que o Deus de Israel matou todos. —Paser responde me deixando um pouco confusa. —O rei disse que o mar se abriu para o povo hebreu passar, mas quando foi a vez do exército atravessar o mar vermelho fechou. Assim, todos os soldados foram engolidos pelas águas. —Paser revela me deixando sem palavras.
—Eu ainda não entendi muito bem. —Hur fala confuso.
—Muito menos eu. Mas os milagres de Deus é assim, inacreditáveis. —Falo ainda surpresa, mas volto minha atenção para Djoser. —E como meu filho não atravessou?
—Gab. —Hur fala sugestivo. —Ele deve ter enfrentado Ramsés por nosso filho.
—Djoser poderia ter morrido. Eu pensei que Moisés e Anippe corriam perigo, mas Djoser quem corria. Já era certo que Deus não deixaria Ramsés livre de uma punição. —Falo pensativa. —Mas como um mar poderia se abrir?
—Anippe deve ter se assustado. —Hur fala risonho. —Ela é difícil de se impressionar.
—Ramsés deve ter enlouquecido com tudo isso. —Falo.
—Soberana das duas coroas, era exatamente isso que queria falar. —Paser fala. —O rei não voltou com sua sanidade mental em perfeito estado. Ele está muito abalado!
—Imaginei. —Falo. —Perdeu a esposa, perdeu o filho, seu exército... E pode perder o trono. Se Amun fizer uma rebelião...Preciso falar com Ramsés sobre isso. Amun não pode saber que não temos mais um exército. —Falo aflita. —Ele é capaz de invadir este palácio e matar todos nós para ficar no trono.
—O poder faz isso com as pessoas. —Hur argumenta ainda olhando para Djoser. —Ninguém pode saber que Djoser está assim.
—Amun vai se aproveitar disso. —Paser fala pensativo. —Eu vou falar com o príncipe Gab sobre isso.
—Não é adequado, mas devemos nos prevenir de toda forma. —Falo. Paser então sai de meus aposentos e me deixa com Hur e Djoser. —Meu filho, o que foi que fizeram com você? —Pergunto ainda aflita.
—Vamos pedir á Deus que ele fique bem, Henutmire. —Hur fala sugestivo. —Ele pode nos ajudar.
—Você tem razão. —Concordo. —Mas eu estou com muito medo.
—Eu estou ainda mais. —Hur fala infeliz ao se lembrar da morte de Uri. —Já perdi Uri, não posso perder outro filho, Henutmire. Isso por acaso é um castigo? Deus está me punindo por alguma coisa...
—Não diga isso. —Falo estarrecida ao saber o motivo de tanta desgraça em sua vida. —Deus é misericordioso com todos que o obedecem. Ele não tiraria um filho de nós. —Falo. —Uri apenas morreu porque estava cego pelo orgulho. Você não tem culpa de absolutamente nada, Hur. —Seguro uma de suas mãos neste exato momento. —Deus não vai tirar Djoser de nós. Ele é inocente, não tem culpa de nada.
—Por um lado você tem razão. —Hur fala ainda temeroso. —Não posso perdê-lo. Djoser é a melhor parte que tenho de você.
—Não, não é. —Falo para sua surpresa. —Anippe é a melhor parte de mim. Ela herdou tudo o que deixei florar quando era mais jovem. Djoser pode se parecer muito comigo, mas Anippe é cópia. Não me assustaria nenhum um pouco se com o passar dos anos Anippe se pareça ainda mais comigo. —Falo pensando na minha única filha, mas rapidamente volto minhas atenções para Djoser. —Mas nosso filho vai ficar bem. Eu sei que vai. —Falo ao acariciar o rosto de Djoser. Agora noto que meu filho está deixando de ter as mesmas características que eu em seu rosto, ou será por consequência da perda de sangue?
(...)
—Ramsés? —Chamo pelo meu irmão ao vê-lo sozinho e desolado nor jardim real. Seus olhos estão vermelhos de tanto chorar como uma criança, mas ao mesmo tempo seu olhar é de fúria. Fúria consigo mesmo.
—Nosso pai tinha razão quando falava que eu não tinha capacidade em governar o Egito por causa das minhas emoções. —Ramsés fala culpado e nostálgico. —Ele não seria tolo em se deixar levar pelas emoções.
—E acabou sendo morto. —Falo para sua surpresa. —Morto por Yunet.
—Não nego que errei, mas também não quero admitir. —Ramsés fala e então põe as mãos em sua cabeça. —Eu errei até mesmo com você.
—Como foi o acidente de Djoser? —Essa é a única coisa que pergunto friamente para o meu irmão.
—Eu o empurrei. —Ramsés fala a única coisa que tem para falar. —Quando estava brigando com Gab...
—E ainda brigou com ele enquanto seus soldados marchavam... —Falo sínica e então sorrio. —Pensei que eu fosse a vergonha da família por ter me casado com um hebreu. —O olhar de Ramsés caiu sobre mim nesse exato momento. —Mas ainda assim sou a mãe do futuro rei. Está vendo Ramsés? Parece que o tabuleiro de Senet é meu agora. —Falo. —Como é saber que sua esposa grávida e seu filho morreram, mas que sua irmã ainda tem a família dela? —Minha pergunta surpreendeu Ramsés. —Você deveria ter me ouvido, Ramsés.
—Por favor, Henutmire... —Ele pede desolado. —Não me atormente mais, por favor!
—Você é o rei! Você deve saber lhe dar com isso! —Falo, mas paro imediatamente ao ver que estou atormentando meu irmão. —Já sabe de Amun?
—Estou surpreso com ele. —Ramsés fala um pouco pensativo. —Mas ele não irá conseguir nada, Henutmire.
—Com licença, soberanos. —Ikeni fala me interrompendo de prosseguir com a conversa. —Mas há um certo montim na frente do palácio.
—Como? —Pergunto incrédula. —Não é o que estou pensando...
—Falam sobre algo relacionado ao rei e o príncipe Gab. —Ikeni fala tudo e então Ramsés me olha de lado. —Dizem que o rei e rainha não devem governar.
—Como ousam? —Pergunto incrédula e calma ao mesmo tempo. —Quantos são?
—Vários. Inclusive, o sacerdote Amun e a princesa Radina estão lá. —Ikeni informa. —O que devo fazer?
—Vamos até lá. —Ramsés fala, mas eu o interrompo.
—Eu vou. —Falo para surpresa dos dois homens. —Quero uma escolta de cinco oficiais. —Falo. —Seis com você, Ikeni.
—Você vai sozinha até lá? —Ramsés pergunta incrédulo. —Henutmire, eu irei resolver isso.
—Amun quer minha atenção. E ele terá, Ramsés. —Falo pensativa. —Faça por onde Hur não ir até mim. Muito menos Gab...
(...)
Quando as portas do palácio foram abertas consegui ver Amun á frente de todos os outros rebeldes. Consegui ver Radina, mas não vi Orítia. Dou passos lentos e rasteiros, todos se calam assim que podem ver a minha figura em frente ao palácio. Amun olha para o meu ventre, mas em seguida passa a olhar para mim.
—Criando seu próprio povo ou rude montim? —Minha pergunta foi respondida com o silêncio de todos. —Oras, estavam gritando tempos atrás e agora parece que suas línguas foram jogadas para os crocodilos.
—Não esperávamos que o faraó se escondesse nas saias da rainha. —Amun fala provocativo e então eu ouço as risadas. Mas ao verem um largo sorriso em meus lábio, a risada para.
—Então de fato quer criar seu próprio povo. Começando com poucos, mas é de pouco que se começa. —Falo ao me aproximar de Amun. Os oficiais também andam como um cerco ao meu redor, mas o sacerdote fica de frente para mim. —Já criou o chamado de sua nação, Amun?
—Ao contrário de Ramsés I, pai do faraó Seti, não uso o ouro como poder. —Amun fala irônico. Brevemente me lembro que na biografia de Ramsés I, usava-se o chamado "Ouro é poder" em relação as riquezas que naquela época acharam no Baixo Egito. Mas meu pai mudará para o pensamento de Ramsés I ao falar que a força é o verdadeiro poder. —Nem ouro, muito menos força são os caminhos para o poder.
—E qual é? —Pergunto irônica.
—Conhecimento, majestade. —Amun fala com um pouco de irônia. —Conhecimento é poder.
—E o que você sabe? —Pergunto.
—Sei que a prática de incesto é permitida no Egito desde que Ísis e Osíris reinaram. —Amun fala no exato momento em que meu pensamento é Gab. —A família real não deveria se juntar e reproduzir com seres desprezíveis de outros lugares.
—Como por exemplo? —Pergunto irônica já sabendo a resposta.
—Como o marido da rainha. —Amun fala pleno de pompa. —Me deixe prosseguir, soberana. Não vamos desviar o assunto. —Amun fala ao ouvir a risada das outras pessoas. —Como disse, a prática de incesto não é um pecado, mas a traição é.
—E onde houve traição, sacerdote? —Pergunto calma. —Não consigo ver.
—A rainha Tuya tirou o verdadeiro herdeiro do faraó Seti I. Gab, esse é o nome do verdadeiro rei. Mas também é um traidor por ter se deitado com a irmã casada. —Amun fala e então as pessoas olham fixamente para mim. —Isso é traição. —Suas palavras foram jogadas ao vento enquanto eu olhava bem para seu rosto e meus dedos brigavam entre si enquanto minhas mãos estão unidas sobre meu ventre.
—Prendam-o. —Ordeno aos oficiais que então seguram Amun pelos braços enquanto os rebeldes se afastam assustados.
—O que fazemos, senhora? —Ikeni pergunta.
—Mate-o agora mesmo. —Minha ordem foi desesperadora para Amun e os rebeldes. Assim que Ikeni iria manusear o seu punhal, eu desmando. —Parem. —Ordeno. O montim então cessou, mas ainda assim vi o medo no olhar de Radina. —Esperem, por favor... Meu pai ficaria envergonhado ao ver sua única filha fazer um tipo de tolice deste tipo. —Falo risonha e me esnobo diante dos rebeldes. Amun então olha amedrontado para mim enquanto é oprimido pelos meus oficiais. —Mudei de ideia em relação a você, Amun.
—Como? —Ele pergunta assustado.
—Podem soltar o homem. —Ordeno para a surpresa de todos. Minha ordem é acatada. —Dêem três passos para trás cada um. —Os seis oficiais assim fizeram e então eu segurei o pano de meu vestido. —Tirem a mão que está sobre suas espadas. —Ordeno. Eu então vou até Amun no momento em que os soldados me obedecem. —Você tinha razão, ouro e força não são o poder, Amun. Poder é poder. E eu o tenho, não você. —No exato momento em que falo, uma flecha passa pelo meu braço, mas atinge somente uma das pernas de Amun.
Os oficiais então me cercam e olham para os lados, mas eu apenas olho para uma das janelas do palácio. Foi Gab quem atirou aquela flecha que quase me atingiu, mas que tinha a única intenção de atingir Amun. Vejo todos eufóricos enquanto olho para Gab. Teria Ramsés contado para ele que eu estava em frente ao palácio?
—Meu pai um dia me falou que os deuses arrancaram um pedaço do céu para que meus olhos fossem feitos. —Falo ao ver Amun sangrar no chão sem a ajuda de ninguém. Eu então me curvo e fico com o rosto bem próximo ao dele. —Mas ele nunca disse para mim que meu poder vinha dos céus. —Sorrio falsamente para Amun ao ver seu desespero. Pela primeira vez em toda minha vida eu posso entender a satisfação que meu pai tinha aí ver um inimigo seu sangrar ou estar em total desespero. —Acha mesmo que eu seria tola ao ponto de sair humilhada daqui, Amun? Vi meu pai fazer coisas terríveis que eu mesma desaprovei na época, mas agora eu entendi o motivo de tantas crueldades. Atrocidades cometidas com pessoas como você é na verdade uma justiça. —Minhas palavras foram piores que milhares de flechas em Amun. —Sua filha está ao lado da minha filha. Anippe tem o sangue de Seti, mas se ela souber que o pai de Yaffa é um traidor, minha filha mesma poderá voltar com o corpo da sua menina. Não queira despertar o pior que há em mim, Amun. —Falo antes de dar meia volta e entrar no palácio novamente. Ouço vozes alteradas, mas desta vez as vozes pedem ajuda aos deuses.
—A soberana está bem? —Ikeni pergunta assim que ficamos bem próximos ao corredor que dá acesso ao jardim. —Sabe quem atirou a flecha?
—O príncipe Gab, Ikeni. —Respondo farta ao lembrar do olhar ambicioso de Amun. Ele não vai descansar enquanto não me prejudicar. Ele vai conseguir mais pessoas para usurpar o trono, disso eu tenho certeza.
—Devemos nos preocupar com eles? —Ikeni pergunta.
—Não, Ikeni. Agora não vamos fazer nada além de esperar o próximo passo dele. —Falo me referindo á Amun.
—A senhora, assim como todos da família real, devem estar muito bem escoltados. Amun pode fazer mais alguma coisa contra a família. —Ikeni fala sugestivo e então eu o olho com curiosidade.
—Ainda há segurança no palácio mesmo sem o exército? —Pergunto, mas não é Ikeni quem responde.
—Temos um exército. —Gab fala. —O meu exército.
—Que está na Núbia. —Falo. —Radina partirá para lá, não duvido disso.
—Mas Radina nunca participou de um conselho, Henutmire. Radina não vai poder fazer nada contra mim. —Gab fala seguro de si, mas eu me recuso a acreditar nisso.
—Então seria aconselhável que o príncipe trouxesse seus...
—O que vai querer em troca? —Interrompo Ikeni com uma pergunta. —Não vai fazer isso apenas por cortesia.
—Você é minha irmã. —Gab fala, mas Ikeni interrompe.
—Meia-irmã. —Ikeni ressalta. —E o exército é seu, não dela. Isso não faz sentido algum.
—Meça suas palavras.—Gab chama a atenção de Ikeni rapidamente.
—Me deixe sozinha com o príncipe. —Ordeno rapidamente. Ikeni hesita em me obedecer, mas rapidamente se vai. —Muito cuidado ao falar assim com qualquer pessoa deste palácio, Gab. Sei que tenha me ajudar, mas não vai conseguir nada assim.
—E você conseguiu algo até agora sendo como é? —Gab pergunta, mas eu não falo absolutamente nada. —Henutmire, Amun quer te ver sem nada, quer o trono para ele.
—Se você não tivesse exposto seus sentimentos sobre mim talvez ele não tivesse a acusação de traição incestuosa contra nós. —Minhas palavras fizeram Gab pensar, pensar até o fardo em seus ombros se tornar pesado demais. —Agora ele tem tudo o que precisa. Além das pessoas que estão insatisfeitas com Ramsés.
—Não se preocupe com isso. Se preocupe apenas com Djoser que no momento está doente. —Gab tenta desviar o assunto.
—Eu deveria ter me arriscado e ido embora daqui. —Sussurro estarrecida por não ter ido embora com Moisés. —O Egito não é para mim. Definitivamente ele não é para mim...
—Você sempre diz isso quando se sente sem saída. —Gab argumenta ao me ver infeliz pela minha decisão, muito má por sinal. Vejo alguns sacerdotes irem até os portões, certamente irão para o templo.
—Amun ainda pode ser considerado um sacerdote? —Pergunto ao ter uma ideia súbita em minha mente. Estaria eu ficando louca ao planejar a morte de Amun?
—Tecnicamente ele ainda é. —Gab responde ao me ver tão pensativa. —Ainda tem alguma dúvida?
—Ele pode entrar em qualquer templo. —Falo pensativa ao ver os sacerdotes irem embora rumo ao templo. —Como eu não pensei nisso antes... —Minhas palavras assustam Gab. —Não vi Oritia no meio da multidão.
—Não sabe o que aconteceu com ela. —Gab fala. —Será que Amun a matou?
—Não... —Falo pensativa. —Ele não seria capaz de matar a mãe de sua única filha. Não sabendo que precisa dela.
—Em todo caso precisamos conter Amun. —Gab fala preocupado. —Foi com pequenas rebeliões que impérios caíram.
—Sei muito bem disso. Mas eu já tenho algo em mente caso Amun faça algo. —Falo dando as costas para Gab, dessa forma ele fica confuso.
—O que tem em mente? —Gab pergunta preocupado comigo, mas eu então fico de frente para ele novamente.
—A casa de um rei é o palácio. A casa de um sacerdote é o templo. —Minhas palavras confundem Gab. —Amun já veio aqui, agora resta esperar ele ir até o templo para que eu possa lhe retribuir o que ele fez.
—Enlouqueceu? —Gab pergunta assustado. —Vai ir ao encontro de Amun?
—E desta vez não haverá nenhuma flecha sua, nem mesmo a espada de Ramsés. —Falo tão calma que estranho a minha paciência. —Mas haverá fogo. —Meu decreto assusta Gab, mas mesmo assim eu dou meia volta e volto a andar.
—Não vai conseguir, Henutmire. Você não sabe onde Amun está...
—A cidade está com seus portões fechados, Gab. —Falo risonha e distante de meu irmão. —Assim eu tenho Amun por perto.
—Mas... —Gab hesitou em falar, mas seguiu em frente. —E se Amun fosse capaz de matar Hur? —A pergunta de Gab me assusta, mas ao mesmo tempo eu desconfio dele. —E Yaffa? Ela já devia saber do plano do pai e agora está perto de Anippe! Pode fazer mal para sua filha!
—Você sabe de alguma coisa e não quer me falar. —Falo mansa e vou até Gab, mas ele recua. —Amun falou alguma coisa para você enquanto estava naquela janela e eu voltava para o palácio, Gab. O que foi?
—Ele não falou nada. Eu vi em seus olhos que ele não quer matar você, na verdade ele quer te ver sem nada. —Gab fala pausadamente. —Sem trono, sem família, sem nome...
—Diga o que sabe de uma vez! —Falo ao empurrar Gab com toda minha força. Ele me olha assustado, mas resolve falar.
—Eu não sei de nada! —Gab exclama bravo e então eu me recomponho. —Só sei que não quero ver você chorar pelo mesmo motivo que Ramsés.
—Que motivo é esse?
—Perder o grande amor da sua vida. —Gab fala pensativo. Vejo algo familiar no olhar de Gab, mas não sei reconhecer. Algo em meu coração diz que Gab sabe de alguma coisa.
—Interrompo alguma coisa? —Hur pergunta ao aparecer repentinamente. Seu olhar estava em Gab, mas rapidamente cai sobre mim.
—Não é nada. —Gab responde enquanto olha para Hur. Sinto como se ambos estivessem escondendo algo de mim, mas não dou muita importância para isso. —Com licença. —Gab pede antes de se retirar apressado.
—Djoser acordou e chamou por você. —Hur fala mudando de assunto e então eu mudo de semblante. —Me contou sobre o mar.
—Eu ainda não acredito nisso, mas sabendo que o exército não voltou... —Falo, essa é a única explicação. —Eu estou com medo de Amun,Hur. Ele não está brincando conosco.
—Se acalme, Henutmire. Tudo está sob controle. —Hur me surpreende ao falar com tanta certeza. —Nada vai machucar você.
—Você fala com tanta certeza. —Falo vendo que Hur tenta fugir do meu olhar. —Gab falou que...
—Não ligue para o que Gab fala, meu amor. —Hur me interrompe novamente como se de fato estivesse me escondendo algo assim como Gab. —Ele não sabe de nada. —Ele fala risonho. —O que você deve saber é que eu não vou deixar que nenhuma mal te aconteça.
—Mas Amun pode te fazer fazer algum mal...
—Não se já tiverem feito antes dele. —Hur fala me assustando. —Vamos ficar bem, meu amor. Confie em mim.
(...)
—Eu sei que Anippe está bem. Apenas o exército do meu tio que não escapou. —Djoser fala ainda um pouco dolorido. —Eu ouvi uma conversa do tio Gab com o meu pai quando acordei pela primeira vez.
—Então depois que eu sai você já tinha acordado? —Pergunto.
—Sim, mas fingi estar dormindo por causa da conversa deles. Daí então o tio Ramsés vejo aqui e falou que senhora estava na frente do palácio com Amun. —Djoser fala com uma certa desconfiança. —Eles três então falaram sobre uma poção que Paser fez para o meu pai.
—Isso é normal. Seu pai precisa mesmo de algo que o deixe mais aliviado.
—Mas precisa ser algo tão forte? —Djoser pergunta e me deixa confusa.—Paser falou que a poção faria com que meu pai ficasse leve ao ponto de não acordar por nada. Ficaria quase como um morto...
—Não ligue pra isso. —Falo ao tocar no rosto de Djoser e sorrir ao ver sua preocupação. —Foi modo de falar. —Falo ainda risonha pela preocupação de meu filho. Vejo que ele tenta me falar algo, mas desiste ao confiar em mim. —Eu li o seu papiro. —Minha revelação assusta o meu filho. —Você escreve muito bem.
—Lembrei dele pelo caminho. —Djoser fala. —Mãe, o meu pai alguma vez inventou algo para proteger a senhora, mesmo que fosse uma mentira, e depois a senhora descobriu...
—Você está me deixando preocupada. —Falo seriamente ao ver que Djoser quer me falar alguma coisa. Por que eu sinto que Djoser sabe de algo extremamente grave e não quer me contar? Meu filho nunca foi de esconder nada de mim, mas agora eu começo a desconfiar disso.
—Acho que a febre piorou. —Djoser fala e então de imediato ponho a mão em sua testa. —Onde meu pai está?
—Ele foi justamente falar com Paser e por isso não veio comigo. —Falo. —Mas eu acho melhor Paser ver como você está.
—Não precisa! —Djoser fala de súbito e segura em minhas mãos como se estivesse me privando de sair. —Me sirva um pouco de água, mãe. Estou com muita sede.
—Claro... —Falo. Então eu sirvo a água que meu filho pede, mas não deixo de notar o nervosismo de meu filho. Djoser sabe muito bem esconder suas emoções e segredos, mas isso nunca funcionou comigo. Eu sei até onde Djoser está mentindo, e nesse exato momento ele não mente, ele apenas está omitindo alguma coisa de mim, a esta escondendo algo. De qualquer maneira eu não pergunto nada. —Beba com calma. —Peço ao ver que meu filho tem pressa em saciar sua sede.
—Fiquei sedento demais. —Djoser fala ainda nervoso. De imediato meu filho tenta se sentar, mas não consegue graças a dor que ainda sente. —Me ajude, por favor. —Ele pede e asism eu faço. Depois de muito esforço, Djoser consegue se sentar.
—Tem certeza que não quer que eu chame Paser? —Pergunto ao ver que Djoser faz um esforço mútuo para permanecer sentado.
—Não é nada. Eu vou melhorar com o tempo. —Djoser insiste com sua teimosia diária. —E como a senhora está? —Meu filho pergunta preocupado.
—Estou preocupada com você. —Falo ao notar que meu filho ainda sente muita dor. —E pensar que você poderia ter atravessado o mar...
—Gab me ajudou. Embora o tio Ramsés tenha quase me obrigado a passar. —Meu filho fala com o pensamento distante. —Foi horrível. Meu próprio tio parecia querer a minha morte.
—Não foi isso, meu filho. —Falo ao abraçar Djoser. —Ramsés estava louco, entende? —Pergunto ao acariciar os fios de cabelo de meu filho. —Mas graças a Deus que você está aqui.
—Manco. —Djoser reclama ao olhar para sua perna, mas de imediato olha para mim. Noto uma certa revolta em meu filho, uma certa raiva que poucas vezes vi em seu olhar. —Pensei que eu quem estivesse louco ao ver o mar abrir. Pensei também que tudo em minha volta fosse se destruir, mas...
—Mas você está aqui comigo, Djoser. —Falo e então seguro o rosto de meu filho. Como seus olhos ainda se parecem com os meus, embora meu filho esteja ganhando seus próprios traços. —Já imaginou o que teria acontecido comigo se você tivesse morrido? —Pergunto ao fitar mais claramente cada traço do rosto de Djoser. —Agora você é o príncipe regente, vai herdar o trono por direito absoluto. Mas acima de tudo vai me orgulhar.
—Eu não estou pronto para isso. —Djoser fala temendo pelo futuro, mas acaba me fazendo rir.
—Eu vou estar aqui para te ajudar, seu pai também vai estar aqui. Todos nós vamos te ajudar a se comportar como um rei. —Falo orgulhosa pelo meu primogênito. —Mas não falhará como Ramsés, muito menos como Seti. Não irá falhar como os outros reis.
—Serei justo com todos? —Djoser pergunta curioso e me faz rir. —Não ouvir apenas o lado que possa pensar mais? Que seja conveniente?
—Exatamente. —Falo orgulhosa ao ver que meu filho entendeu. —Vai ser justo com todos e nunca irá humilhar ninguém. Nem irá se colocar acima de tudo e de todos, entendeu? —Pergunto. —A pior tolice de um rei é se colocar acima de todos, até mesmo dos problemas que existem no reino.
—Como meu tio fez? —Djoser pergunta e me faz pensar um pouco mais.
—Isso mesmo. O maior erro do seu tio foi se colocar acima de todos, até mesmo dos problemas do reino. E isso apenas pela rivalidade mútua que existia de sua imagem e poder contra aquilo que nosso pai foi...
—Mas ele nunca foi assim. Parece que isso piorou com o passar dos anos. —Djoser fala ao lembrar da época em que Ramsés não sentia prazer em se colocar acima de todos. —Parece que a loucura do meu tio floreceu com o poder.
—O poder não muda o caráter de uma pessoa, nada pode fazer isso. Na verdade, o poder faz com que uma pessoa mostre o que verdadeiramente é. —Falo de braços cruzados e ainda olhando bem para os olhos de Djoser. —Veja o meu exemplo: Eu estou beirando com a loucura por causa do poder.
—Mas não está se tornando como meu tio. —Djoser fala de imediato.
—Não. Não posso me tornar como seu tio, Djoser. Mas eu não quero que com isso você se assuste com o dever que lhe aguarda. —Falo segurando nos ombros de Djoser. —Eu, seu tio, qualquer outra pessoa que possa ter poder em mãos será apenas os exemplos que você deve sempre ver e não seguir.
—Mas a senhora não foi cruel em nenhum momento ao fazer justiça quando matou Yunet. —Djoser fala na tentativa de me defender. —Eu não teria feito o mesmo... Talvez eu tivesse feito bem pior. O que Yunet fez não tem nome, não tem julgamento.
—Mas o que eu fiz tem nome, Djoser. Se chama vingança. E ela não é melhor que o perdão. —Falo.
—E a senhora teria coragem de perdoar Yunet? —Meu filho pergunta incrédulo.
—Perdoar não é o meu forte, Djoser. Acho que eu nunca vou saber perdoar verdadeiramente alguém que me fez tanto mal. —Falo pensativa.
—Mas isso faz muito mal para a alma. —Meu filho fala preocupado. —Mas, mãe... Mudando de assunto...
—Sim? —Pergunto ao me sentar do lado de Djoser.
—Eu posso me tornar rei agora se algo acontecer com meu tio? —Djoser me assusta com sua pergunta.
—Não. —Respondo pensativa. —Você está quase fazendo dezesseis anos, mas caso seu tio sofresse de algum mal, você iria governar apenas quando estievsse na maior idade. Em outra palavras eu e seu pai tomariamos a frente de tudo. —Minhas palavras fazem Djoser pensar muito, mas eu logo trato de tirar essa preocupação que o aflinge. —Por quê está se preocupando com isso agora? Você não pode nem deve se preocupar, apenas aprender a como se tornar um bom rei.
—Mas Amun fala que meu tio não é digno de estar no trono e acusa a senhora e Gab de traição. Além bdo mais, mesmo com todas as provas, Amun ainda acha que meu pai é inferior, que não merece estar casado com a senhora. —Meu filho fala preocupado. —Como eu posso ficar calmo e não ajudar se sei que o próximo a ser caluniado sou eu?
—Mesmo que isso aconteça, você vai ser o rei. Amun não vai ser tolo o bastante para mexer com você, Djoser. —Falo, tentando acalmar meu filho mais velho.
—Se Anippe estivesse aqui com certeza ela diria que estou sendo paranóico. —Djoser fala risonho e acaba me fazendo rir também. —Yaffa está com ela...
—E isso me preocupa. —Falo. —Yaffa já deveria saber de alguma coisa sobre as intenções de Amun.
—Se sabia escondeu muito bem. Yaffa apenas me contava sobre os desentendimentos de seu pais, nada mais que isso. —Djoser fala com uma certa desconfiança comigo.
—Se você sabe se alguma coisa, você precisa me contar. Você sabe disso, não sabe? —Pergunto enquanto olho no fundo dos olhos de Djoser. Meu filho me esconde alguma coisa, alguma coisa sobre o reino. Ou melhor, alguma ameaça...
—Eu sei, mãe. Mas Yaffa não me falou nada. —Djoser mente. Sei que ele está mentindo para mim agora. Me sinto um pouco decepcionada por saber que Djoser mente para mim.
Posso ver no olhar de meu primogênito que ele mente para mim. Djoser e eu nunca fomos de mentiras, mas agora eu posso dizer com todas as letras que ele mente para mim. Meu filho sabe algo sobre Amun, algo grave.
—Você também sabe que Amun pode machucar seu pai para me atingir, Djoser? —Minha pergunta faz Djoser arregalar os olhos. Somos interrompidos por Ikeni, seu semblante parece ser de susto.
—Com licença, soberana. Mas eu preciso lhe entregar isto. —Ikeni fala ao estender um papiro em suas mãos. —Um dos rebeldes de Amun entregou nos portões do palácio.
—Onde está Amun? Já sabem? —Pergunto ao receber o papiro em mãos.
—Uma patrulha seguiu o mensageiro, mas até agora não voltou. —Ikeni avisa.
—Me deixe ler o que tem aqui. —Falo ao desenrolar o papiro.
"Querida e majestosa Henutmire, não tive coragem de lhe dizer o que realmente tive que dizer hoje mais cedo por conta da enorme covardia que tenho. Pensei que talvez estivesse sendo cruel com você, que você não merecia tamanha dor com a minha revelação já que carrega um filho no ventre. Mas suas palavras me deram a certeza de que tanto Seti quanto você são demônios em forma de humanos que me surpreendem. Lamento pelos filhos que você perdeu por culpa de sua antiga dama, a mãe de Nefertari, a meretriz Yunet. Também sinto pelo filho de Seti que morreu com uma febre inexplicável.
Era sobre a morte de Kamés que eu queria lhe falar. Sei que ao perder seu irmão com aquela idade, em seu décimo quinto aniversário, foi espantoso. Também foi espantoso ver você chorar daquela forma na sala do trono com seu pai, que tinha os pulsos sangrando por tanto esmurrar as quatro paredes do palácio, mas por dentro eu estava orgulhoso de mim mesmo.
Eu tinha planos de me casar com você, de ser pai de casa filho que você tivesse em seu ventre. Eu poderia ter me tornando rei, Henutmire. Com a morte de Kamés eu teria me tornando o futuro rei caso me casasse com você. Mas você me repudiou. E então parti casado com Oritia e depois de anos esperando um filho, tive uma filha. Pensei em voltar ao Egito após a morte de Disebek, mas logo soube, assim como Gab, que você estava noiva de um nobre hebreu chamado Hur.
Mas eu não estou aqui para falar de nós dois. Mas sim para que você ligue os fatos e entenda a morte de seu irmão Kamés. Como poderia uma criança sadia morrer repentinamente? Haveria um veneno que matasse sem deixar vestígios? Sim, havia. E eu o usei no desjejum de seu irmão por dias até ele não aguentar mais. Usei em pequenas doses. Com todas as palavras eu posso lhe dizer: Eu matei Kamés envenenado e sai ileso.
Como seu estimado inimigo devo lhe alertar sobre o perigo que sua família corre, Henutmire. Mas não há como ter paz após o que você fez e a flecha que saiu do arco de Gab. Fico imensamente feliz em lhe comunicar, que além de ter matado Kamés, eu matarei toda a família real e você será a última á morrer. Esse trono é meu..."
—Soberana? —Ikeni chama por mim ao me ver com lágrimas nos olhos.
—Diga ao rei que eu quero o assassino do príncipe Kamés morto. —Falo segurando as lágrimas.
—Príncipe Kamés? O filho morto do falecido rei Seti? —Ikeni pergunta incrédulo. —Quem o matou, soberana?
—Ele. —Falo assustada ao entender que Amun sempre quis o trono. —Foi Amun. —Revelo com a voz embargada. —Eu o quero morto...
Fale com o autor