Notas iniciais
Se lembram bem que Moisés levou Henutmire morta até o palácio? Pois então, já que eu inverti a morte de Henutmire para a de Nefertari, Ramsés também inveterá seu papel com Moisés. Mas a cena terá uma grande diferença e surpresa...

As portas do palácio então foram abertas para que Ramsés passasse com o corpo de Nefertari em seus braços e mostrasse ao nosso povo que a rainha de fato está morta. De imediato todos os súditos ajoelharam-se diante o faraó com sua esposa morta nos braços, mas eu vi o olhar curioso de outros sobre mim ao lado de Gab e Paser. Todos queriam entender porque eu estou usando a coroa de Nefertari, mas a guarda não permite que ninguém se aproxime de nós. Mas é então que meu coração acelera ao ver Moisés e em seguida vejo Hur com nossos dois filhos.

Anippe e Djoser me olham assustados e confusos, assim como Moisés e Hur. Tento me conter para não me atirar nos braços de Hur já que estamos vivendo um momento de dor e derrota. Mas eu não posso negar que estou extremamente feliz por ver a minha família novamente. Mas é então que meu olhar se cruza com o de Miriã que está ao lado de Arão e Joquebede. Sinto-me esnobe ao ter a coroa sob minha cabeça e com apenas um olhar Miriã se sente intimidada. Não sei se estou me deixando levar pelos ciúmes ou se o poder á mim dado está me transformando.

Eu sei que não devo odiar essa mulher até porque ela foi uma vítima nas mãos de Hur, sofreu por ser usada por ele. Mas o meu ciúme é maior assim como minha soberba. Alguns olham para mim admirados, outros permanecem olhando para Nefertari nos braços de Ramsés. Todos estão sem entender o que se passa, mas mesmo assim eu me sinto preparada para qualquer coisa.

—O rei pediu para que reunissem todo o povo? —Leila pergunta apavorada pelo momento. Ouço vozes, certamente perguntas, entre as pessoas.

—Ele quer compartilhar a sua dor. —Falo ao olhar para Hur. Me senti fraca ao ver minha cunhada morta, mas ao olhar para Hur eu me revitalizei.

—Se contenha, senhora. Agora como rainha do Egito não deve ser como costuma ser. —Paser pede aflito ao me ver olhar para Hur. Me sinto presa, sinto que a maldita coroa agora me impede se olhar para meu marido que, por minha causa, está com os hebreus.

—Hoje perdemos a nossa amada e estimada rainha Nefertari. —Ramsés fala tentando segurar as lágrimas. —A mulher que deu a vida ao futuro rei do Egito hoje foi levada para o mundo dos mortos. —As palavras de meu irmão fez com que algumas pessoas entrassem em desespero. Paser então começou a chorar, mas nada fiz para ajudá-lo. —Mas não devemos nos desesperar, meu súditos! O Egito não está órfão de sua poderosa mãe-rainha. —Ramsés surpreende a todos mais uma vez. —Olhem para esta mulher. —A mulher no caso sou eu, que agora intimidada pelos olhares e lágrimas, respiro fundo. Várias pessoas passam a me olhar confusas. Ramsés então entrega o corpo de Nefertari para os servos e sacerdotes que vão mumificar o corpo de minha cunhada. Cuidadosamente ele faz sua ultima caricia na esposa e então volta suas atenções para as pessoas.

—Pare já com isso, Ramsés. —Peço envergonhada ao sentir a forte mão de Ramsés segurar a minha. Se eu me tornar rainha do Egito de fato, não poderei partir para Canaã e ficarei longe de minha familia. —Hoje perdemos a rainha Nefertari, mas ganhamos uma nova rainha. —Ramsés então ergue nossas mãos para o alto e as pessoas então louvam.

Tudo ao meu redor começa a girar ao ouvir todos me chamarem de soberana do Egito, inclusive Anippe e Djoser. Moisés começa a sorrir ao me ver ser nomeada rainha do Egito, mas ao olhar para todas as pessoas que agora dependem de mim ao meu redor, sinto todo o meu corpo estremecer de medo. Hur me lançou um sorriso de orgulho, mas eu me entristeço ao ver que todos já não estão mais tristes pela morte de Nefertari.

Lágrimas de pavor e nojo brotam de meus olhos ao saber mais uma vez o quanto o povo egípcio é ambicioso e sem escrúpulos. Mal Nefertari morreu e todos já me adoram como se eu fosse melhor que a minha cunhada.

—Curvem-se diante da mais nova rainha! —Ramsés ordena e então a grande massa de pessoas se curvam diante mim. Ramsés não se importa ao ver que meus filhos e Hur estão de pé, nem mesmo ao ver Arão e Joquebede de pé ele se importa. Mas o seu olhar enfurecido vai até a hebreia que está longe de minha família e de Arão, o olhar de meu irmão vai até Miriã.

—Já chega. —Falo ao sentir minhas vestes me sufocarem, embora a seda seja leve como as nuvens, a pressão emocional que sinto —Já basta... —Peço para preocupação de Ramsés.

—Você não ouviu, escrava? —Ouço Bakenmut perguntar para Miriã. É então que Moisés e Arão intercedem pela mulher.

—A mulher é irmã de Moisés. —Falo olhando piedosa para Ramsés. Meu irmão então segura o meu rosto delicadamente e vai até Bakenmut e Miriã.

—Deixe-a. —Ramsés fala para a surpresa de todos. É então que Joquebede e Arão me olham aliviados. Este é o primeiro ato de benevolência que tenho como rainha. O povo agora não tem mais uma princesa benevolente, mas sim uma rainha. —Agradeça a rainha, escrava. Porque se não fosse por ela você não teria se livrado. —Ramsés fala esnobe. Moisés então olha para mim como se quisesse me agradecer, mas rapidamente volta a sua atenção para Ramsés.

—Eu sinto muito, Ramsés. —Moisés lamenta pela morte de Nefertari. Miriã e eu então nos olhamos, um duelo de deuses apenas coma troca de olhares, mas foi então que Arão me lançou um outro olhar amoroso e eu pude sorrir.

—Não devemos sentir! —Ramsés fala para fortalecer o povo. —Pois a nova rainha está diante de seu povo! —O grito do povo me apavorou ainda mais. Mas os olhares de meus filhos me deram forças. Um reino sem rainha é órfão do amor materno, mas graças a Deus eu estou aqui. —A partir de agora o filho e a filha do grande faraó Seti irão governar o Egito! —Ramsés ressalta para que o povo responda com mais um chamamento.

—A rainha está morta. —Falo, mas a minha voz é abafada com o grande clamor do povo. Sinto-me entristecida pela morte de Nefertari, mas ao ouvir meu nome ser dito por centenas de pessoas um sorriso enorme estampa meu rosto. —Vida longa a rainha.

—Vá buscar Hur e meus sobrinhos, Leila. Você agora é a dama da soberana do Egito. —Ramsés fala ao segurar minha mão. Eu então olho devidamente agradecida ao meu irmão. Como ele fez isso? Ele engoliu todo seu orgulho e viu que está errado. —Afinal de contas, uma rainha deve ter a família por perto. —Ramsés fala antes mesmo do frescor do clamor me deixar ainda mais feliz.

Flash Back On

—Ele é azul. Os deuses assim o fez. —Respondo.

—Ele é azul, assim como seus olhos. —Ele ressalta. —Por isso ele é seu. —Meu pai gesticula com as mãos ao me explicar. —Os deuses arrancaram um pouco deste azul para dar cor aos seus olhos. —Suas mãos pousaram em meus ombros. Senti que meu pai queria falar algo, mas nada falou, ele apenas me olhou e sorriu.

Flash Back Off

O céu e o Egito agora são meus, meu pai...—Uma lágrima se formou em meus olhos como cristais lapidados ao olhar para o céu limpo e lembrar de uma das mais belas e raras lembranças que tive com meu pai.

—VIDA LONGA A RAINHA! —O clamor do povo egípcio era quase como um mantra que me acalmava aos poucos. Agora que Ramsés permite a volta de Hur, sei que ficarei ao lado de toda minha família. Mas resta saber o que irei fazer para conseguir partir rumo a terra prometida.

(...)

—Agora você não pode mais partir com os hebreus, Henutmire. —Ramsés fala ao entrarmos juntos na sala do trono. —A rainha do Egito não pode se unir a um povo inferior.

—Já que você não permite que eu vá com os hebreus, pode pelo menos me deixar ser fiel a Deus? —Minha pergunta faz com que Ramsés pare de andar bruscamente.

—Com tanto que mais ninguém saiba da sua fidelidade a esse deus. —Ramsés fala e então segue até seu trono. —Muito em breve você vai estar ao lado de seus filhos. —Meu irmão fala um pouco amargurado por perder Nefertari. — Providencie o funeral de Nefertari, Henutmire.

—Vou fazer isso, mas antes eu irei ver meu sobrinho. —Falo preocupada. Amenhotep agora está órfão e precisa de toda a minha ajuda.

—Não me abandone, Henutmire. Você agora é responsável pelo toque feminino que o palácio precisa ter, pelas mulheres, pelas crianças e por todas as decisões que devem ser tomadas para o bem maior deste reino. —Ramsés fala me pondo ainda mais medo. Como irei dar conta de tudo isso? — Agora saia da sala do trono como todas as rainhas fazem. —O peso da coroa real se tornou ainda maior quando eu dei as costas para Ramsés. Respirei fundo ao ver as portas da sala do trono se abrirem para eu passar.

Meu coração bateu ainda mais forte a cada passo meu dado para fora da sala do trono. Sinto lágrimas brotarem em meus olhos ao sentir o peso da responsabilidade que Nefertari me deixou, agora eu sei o quanto minha mãe e minha cunhada se sentiam responsáveis por todo o palácio. E agora toda essa responsabilidade é apenas minha!

—O que eu vou fazer? —Pergunto ao me deparar com inúmeros servos ao andar pelo palácio. Todos mal me olham pelo grande respeito que me devem agora, mas ao ver Leila eu me sinto mais aliviada.

—Meu sogro e seus filhos aceitaram voltar para o palácio. —É a primeira coisa que Leila fala ao me ver. Ela então me olha da cabeça aos pés e se surpreende mais uma vez ao ver a coroa em minha cabeça. —É surpreendente o que aconteceu nesses últimos dias.

—Não se passaram sequer oito luas e me tornei rainha do Egito. —Falo surpresa comigo mesma. —Fui presa e hoje sou a senhora das duas coroas...

—Não sei como explicar o que eu sinto ao vê-la como rainha do Egito. —Leila fala ainda admirada. —Eu mal acredito que sou dama da rainha.

—Você e Karoma, Leila. Não posso desamparar a moça agora que perdeu sua senhora. —Falo.

—A senhora tem muito trabalho pela frente. O harém precisa do pulso forte da rainha. —Leila fala fazendo com que eu fique ainda mais indisposta.

—Nem me fale, Leila. —Falo. —Me leve até meus filhos, Leila. Precisa saber como eles estão, senti-los...

—A senhora só tem um pequeno problema com a princesa Anippe. —Leila me fala. Será que agora o poder fez com que Anippe voltasse a ser como era antes?

—Qual?

—Ela não pretende ficar muito tempo no palácio. —Leila me surpreende mais uma vez. —A princesa deseja partir com os hebreus.

—Eu também pretendo, mas com toda essa responsabilidade... —Falo exausta. —Anippe não pode me deixar, Leila.

—Converse com ela, senhora. —Leila pede. —Ela, aliás, todos nós estamos confusos com o que está acontecendo. E agora que temos uma nova rainha em tão pouco tempo...

—Eu não sei por onde começar. —Falo completamente confusa. —Vou deixar para falar com minha filha depois. Agora vou ver o que posso fazer para que as mulheres do harém e as crianças voltem ao seus afazeres.

—Posso acompanhá-la?

—Não. Eu quero que você vá até a costureira real e peça que ela vá ao meu encontro imediatamente. —Falo e surpreendo a minha dama. —Eu ainda tenho que ver Amenhotep...

—O príncipe deve estar sofrendo muito com a morte da rainha Nefertari. —Leila presume.

—Tentarei animar o meu sobrinho. Perder a mãe ainda tão jovem não é uma coisa que se aceite de um momento para outro. —Falo um pouco pensativa. Por pouco meus filhos não me perderam por culpa das pragas e da ideia absurda de Ramsés.

—Soberana. —Gab fala ao me ver acompanhada por Leila. —Podemos conversar?

—Vá fazer o que lhe pedi, Leila. —Falo para a minha dama que rapidamente se retira, mas antes lança um último olhar para Gab.

—Feliz por ter sua família de volta? —Gab pergunta. O meu sorriso é inevitável ao lembrar de que tenho meus filhos de volta.

—Não sabe como sou grata por tudo o que está acontecendo. Mas me entristeço com a morte de Nefertari. Ela era muito jovem...

—Ramsés e o Egito agora têm você, soberana. —Gab me trata como tanto respeito e formalidade que começo a me sentir superior á ele. —Eu preciso voltar para a Núbia.

—Agora? —Pergunto surpresa.

—Eu não tenho o que fazer aqui. Então irei voltar para a Núbia, o meu lugar. —Gab fala conformado. Seus olhos pousam sobre a coroa da senhora do alto e do baixo Egito, então um sorriso se forma em seus lábios. —Mas vou feliz por saber que agora o Egito terá paz e os hebreus serão libertos.

—Ramsés permitiu isso? —Pergunto de imediato.

—Ele não permitiu. Mas agora que você é a rainha do Egito... —Gab fala com segundas intenções. —Se esse deus dos hebreus existe, Henutmire. Então ele te colocou como rainha para poder libertar o povo de Moisés.

—Mas só Ramsés pode decidir algo...

—A influência de uma rainha vale muito para uma nação, Henutmire. —Gab fala e então me dá forças para libertar o povo hebreu. —Somente você pode ajudar os hebreus.

—Não sei se devo ajudá-los. —Falo ao me lembrar de Miriã em frente ao palácio. Aquela mulher foi cínica ao ponto de não ser curvar diante da minha presença! Por mais que eu me arrependa por não ter ordenado que ela se curvasse, sei muito bem que não posso me deixar pelo ciúme. Afinal, Miriã não é nada na vida de Hur.

—Como não? —Gab pergunta surpreso. Eu então me aproximo de Gab para que ele me ouça melhor. Gab é o único que pode me ajudar com o plano que tenho em mente. O meu desejo de vingança está crescendo a cada instante.

—Preciso que fique no palácio, Gab. Você vai me ajudar. —Falo para a surpresa dele.

—Ajudar em que? —Gab pergunta confuso. Somente Gab pode me ajudar em relação a Yunet.

—Você vai me ajudar a me livrar de Yunet de uma vez por todas. —Falo. Não sei porque minhas palavras surpreendem Gab, mas o seu olhar é de total espanto.

—Como assim? Se livrar de Yunet? —Gab pergunta pausadamente.

—Ora! Me livrar de uma vez por todas dessa mulher! Quero anteceder o quanto antes a sentença de Yunet, Gab. —Falo. O príncipe núbio então me lança um olhar de indignação.

—Acho que eu posso ajudá-la, minha mãe. —Anippe fala ao nos surpreender com sua presença. Gab então se retira ao notar que minha filha deseja ficar sozinha comigo. —Porque não fazer Yunet sofrer mais um pouco? —Anippe pergunta ao olhar fixamente para mim. Seus olhos transmitiam ódio, assim como os meus. A princesa egípcia, devidamente vestida, se aproximou aos poucos de mim. —O fogo será pouco para ela.

—O que pretende fazer? —Pergunto curiosa. A risada de Anippe foi cínica tanto quanto as risadas de Seti. Mesmo Anippe tendo o Deus de Israel em seu coração e sendo devota a ele como eu sou, ela não se importa em ter cravado em seu coração o pior sentimentos de todos: Ódio.

—Tortura. —Me surpreendo com a idéia maléfica de minha filha mais nova. Mas parece ser a Anippe frivola de antes, mas agora reconhecendo suas origem hebréias. —Será que Yunet ficará contente com a visita de alguns insetos em sua cela?

—O que você vai fazer, Anippe? —Pergunto surpresa com a maldade que ainda resta em Anippe.

—Irei servir um banquete para Yunet. Me acompanha? —Anippe pergunta e então a sigo até a cozinha real. —Eu preciso de uma bandeja com cloche vazia, Gahiji. —Minha filha fala ao entrarmos na cozinha.

—Vazia? —Gahiji pergunta e então que meu olhar vai até a bandeja. Eu retiro o cloche da bandeja, a destapando, e então vejo que ela está vazia.

—Essa está ótima. —Falo e faço com que Gahiji fique confuso.

—Desejam mais alguma coisa? —O cozinheiro real pergunta tentando me satisfazer.

—Por enquanto nada. —Respondo e então me retiro da cozinha acompanhada por Anippe. —O que vai fazer agora?

—Procurar pelo banquete de Yunet...

(...)

—Soberana... —Ikeni fala ao me ver próxima a cela de Yunet. Que por ironia é a mesma cela em que eu estive presa. —O que faz aqui?

—Fique por perto, Ikeni. E não me atrapalhe. Só intervenha se algo sair do controle. —Falo e então olho para Anippe. Ikeni então abre a porta de madeira velha para eu e Anippe entrarmos.

—Nefert... —Yunet parou de falar imediatamente ao ver que quem está usando a coroa sou eu e não sua filha. Olho para a cela imunda e vazia novamente ao me lembrar do quanto eu sofri. O olhar assustado de Yunet então cai sobre Anippe, que maravilhada com a situação começa a rir como uma louca.

—Então você é Yunet. —Anippe fala se aproximando sorrateiramente de Yunet. Minha filha ronda a mulher e a observa da cabeça aos pés e passa a rir ainda mais do estado deplorável da mulher. —Você é mãe de Nefertari?

—O que está acontecendo? Porque a coroa de minha filha está com você? —Yunet pergunta ainda confusa.

—Pensei que mulheres como você não soubessem o que é uma coroa. —Anippe menospreza Yunet. —Você até que dá pro gasto... —Minha filha fala ao retirar uma mecha da peruca de Yunet do rosto da mulher. Yunet então desvia seu rosto e fixa seu olhar em mim.

—Gostou de sua cela, Yunet? —Meu deboche foi perceptível para Yunet. —Você sempre quis ter tudo o que é meu, não é? Sempre foi assim. Mas agora não será mais porque eu sou a rainha do Egito.

—A rainha do Egito é Nefertari! —Yunet berra nervosa me fazendo rir. Anippe me lançou um olhar tão frio que por um momento pensei que minha filha estivesse morta, mas na verdade ela está apenas conhecendo a assassina do seu avô.

—Eu estou lhe ferindo onde mais lhe dói, não é? —Pergunto sendo debochada ao ponto dela me olhar amedrontada. —Ninguém te contou? —Pergunto fingindo indignação e pena. —Nefertari está morta assim como os meus filhos que você matou, minha querida. —Minha revelação faz Yunet entrar em pânico ao ponto de se ajoelhar. —Morta e quase mumificada...

—VOCÊ MATOU A MINHA ÚNICA FILHA! —Yunet grita e começa a chorar. Começo a rir ao ver o quanto desprezível a mulher consegue ser.

—De forma alguma, querida. Infelizmente os deuses levaram Nefertari para o mesmo lugar que os irmãos dela. Melhor dizendo, meios-irmãos. —Falo sendo debochada mais uma vez para medo de Yunet. —É uma lástima Amenhotep ficar sem sua mãe... —Yunet então olhou para Anippe procurando uma explicação. —Mas agora que sou a rainha e seu neto pode não ser mais o futuro rei...

—Ramsés não vai permitir que alguém ocupe o lugar do filho. —Yunet fala soberba.

—Djoser é meu herdeiro, Yunet. Por que caso alguém revele as origens infames e toscas de seu neto para os reinos vizinhos, certamente irão pedir que alguém ocupe o trono no lugar de Amenhotep. —O desespero foi notável no olhar de Yunet. —E Djoser estará aqui e servirá para tal coisa.

—E quem poderia falar das origens de meu neto? —Yunet pergunta. —Você?

—Quem sabe eu. —Anippe desafia Yunet. —Por acidente, quem sabe. —Minha filha passa a rir e então põe a bandeja ainda coberta pelo cloche na cama de Yunet.

—Eu aproveitei a ocasião para te alimentar. Você me serviu por tantos anos que eu não poderia deixar você sentir fome. —Yunet então voltou a me olhar amedrontada. Ela foi até a bandeja tomada pela fome. E ao tirar o cloche da bandeja e destampá-la, Yunet se depara com um camundongo morto e servido para ela como banquete.

—UM RATO! —Yunet grita assustada. Meu sangue gelou em minhas veias, acho que agora sim eu estou sendo digna em ser chamada de filha do Seti. Nunca orgulhei tanto o nome de meu pai como faço agora...

—Isso é pouco perto do que você já fez, Yunet. —Minha voz é tão branda que assusta Yunet e Anippe. —E isso será apenas o começo. O começo da minha vingança...

—Não devia se assustar com um parasita, Yunet. —Anippe fala se aproximando mais uma vez de Yunet. Eu então vou até a porta para me retirar, mas antes Anippe fala algo que me deixa assustada. —Você matou os bebês dela. Mas então eu e meu irmão nascemos, Yunet. E se Djoser não quer te matar para honrar os herdeiros mortos ainda no ventre de minha mãe, eu quero. E eu vou te matar com as minhas próprias mãos. E caso eu não faça isso nesta vida, tenha a certeza de que farei na próxima. —Anippe fala sorrateira.

—Você não teria coragem de manchar suas mãos com meu sangue. —Yunet rebate tentando intimidar Anippe.

—Eu sou neta de Seti, minha querida. Acha mesmo que temo por um castigo divino ao querer te matar? —Anippe pergunta e de imediato surpreende Yunet. —Você não sabe do que sou capaz. Você é acostumada a ter como inimigos pessoas que temem o julgamento de Osíris. Mas saiba que eu não sou assim... —Anippe então se aproximou ainda mais de Yunet. E seu ato me deixou ainda mais surpresa. Minha filha então empurra Yunet e a faz cair estirada no chão imundo. —Dói saber que sua amada filha está morta, não dói? —A pergunta de Anippe faz Yunet chorar. —Mas isso é muito pouco para você, não é? —Eu então dou meia volta e fica de frente para a mulher que está de joelhos no chão.

—Por que fez isso?—Yunet pergunta com a voz embargada pelo medo e dor ao saber que sua única filha morreu.

—Porque este é o meu final feliz. —Falo ao me curvar e pôr meu rosto bem próximo ao dela. —Muito em breve você irá sentir em sua pele, tudo o que eu senti.—Falo ao me erguer aos poucos. —Minha pele se transforma assim como o meu coração. Ele antes era um coração puro e comum, mas agora é mais intenso, raro e valioso como a seda. —Falo. —Bons sonhos, Yunet...

(...)

—A senhora viu a reação dela? —Anippe pergunta animada ao ser servida por Leila.

—Nunca pensei que você fosse tão artilosa, Anippe. Me surpreendeu. —Falo, de certa forma estou orgulhosa pela minha filha.

—Do que estão falando? —Leila pergunta confusa.

—Coisas de mãe e filha. —Anippe responde maravilhada. —Aliás, onde estão meu pai e meus irmãos?

—Não faço a mínima ideia. —Leila responde enquanto me sirvo das uvas macias e suculentas que estão na bandeja. Rapidamente me lembro do camundongo que foi servido para Yunet.

—Pretende partir com os hebreus, não pretende? —Pergunto de imediato para Anippe.

—Não é hora para falar disso, mãe. Me deixe pensar mais um pouco. —Minha filha pede e então eu não pergunto mais nada. —Leila, você por acaso conhece um homem chamado Zion?

—Zion é amigo de Bezalel e Deborah, princesa. Cresceu no alto Egito, mas agora se uniu a família de minha irmã. —Leila responde. —Porque?

—Ouvi muito falar dele. —Anippe fala um pouco pensativa.

—É um homem feito e de muita fé. Ficou órfão muito cedo, mas desde adolescente cuida de sua irmã. —Leila ressalta. —Lembro-me muito pouco de Halima.

—Ela tem quase a mesma idade de Djoser. —Anippe fala. —Ela me tratou muito bem enquanto estive na vila.

—O pai de Zion e Halima morreram na construção do sarcófago da princ... —Leila para de falar imediatamente ao me olhar. —Da rainha.

—No meu sarcófago? —Pergunto. A partir do nascimento de um membro real se é construído um sarcófago, e o meu já está pronto faz muitos anos.

—Sim, senhora. Eu me lembro muito bem dessa história. —Leila fala nostálgica. —O seu sarcófago foi terminado tempos antes do príncipe Djoser nascer, a senhora estava no oitavo mês de gestação enquanto a mãe de Zion estava no sexto a espera de Halima.

—Halima não conheceu o pai. Zion foi seu pai e seu irmão. —Anippe revela. —A mãe de Zion e Halima morreu pouco tempo depois do parto e então os dois foram criados por amigos até irem para o alto Egito.

—Que tragédia. —Falo assustada com a história de Halima e Zion.

—Zion tem vinte e dois anos se não me engano e Halima tem dezesseis. —Anippe fala pensativa e se levanta. —Mas já sofreram o suficiente nesta vida.

—Mas seguem fiéis a Deus. —Leila ressalta.

—Eu vou me retirar. Estou exausta. —Minto e me retiro. Não posso acreditar que o pai de Halima e Zion morreu na construção do meu sarcófago. Eu preciso conhecer os dois, principalmente o rapaz já que tratou a minha filha tão bem.

(...)

—Sentiu minha falta? —Hur pergunta ao me ver entrar em meus aposentos. De imediato vou ao encontro de Hur e me atiro em seus braços.

—Hur! Meu amor! —Falo ao sentir o seu corpo no meu. Abraço Hur com força e medo de perdê-lo novamente, acabo fazendo por ele perder o ar em seus pulmões e começo a rir disso.

—É você mesmo, Henutmire? Você agora é a rainha do Egito? —Hur pergunta ao me ver coroada. —Não acredito no que estou vendo!

—Eu não acredito que estou vendo você na minha frente. —Falo surpresa. —Eu senti tanto a sua falta! —Falo e em seguida o abraço ainda mais forte. —Mas graças a Deus você está aqui! —Falo. Hur me abraça com carinho enquanto eu beijo o seu rosto.

—Eu tive tanto medo de te perder, Henutmire. Você não sabe como eu tive medo de ficar sozinho com nossos filhos... —Hur fala ainda amedrontado.

—Onde Djoser está? —Pergunto a procura do meu filho. —Preciso ver ele!

—Djoser está com Amenhotep. —Hur fala e eu já imagino o motivo. —Seu sobrinho precisa de ajuda agora que Nefertari morreu.

—Foi tudo tão rápido. —Protesto. —Eu pensei que eu quem fosse morrer e não ela.

—Eu não posso me imaginar sem você, Henutmire. Estive a beira da loucura ao saber que você partiria com Gab!

—Mas eu não vou a lugar algum, Hur. —Falo cravando minhas unhas em seus braços. —Eu vou ficar ao seu lado.

—Não vai mais partir com o povo hebreu, não é? —Hur pergunta curioso.

—O que importa é que você está aqui. —É a única resposta que tenho. —E eu quero você só para mim. —Minhas palavras enfeitiçaram Hur como sempre. Eu não posso me dar au luxo de me preocupar agora. Eu preciso aproveitar o máximo do tempo que tenho com Hur, preciso contar tudo o que aconteceu de verdade e o que eu passei.

—Eu tenho medo pelo o que pode acontecer agora. Estou casado com a rainha e não com a princesa do Egito, Henutmire. —Hur fala amedrontado. —Todos estão confusos...

—É uma longa história, meu querido. E eu te prometo que irei contar tudo o que você precisa saber. —Falo. —Mas agora me deixe aproveitar a sua companhia, por favor. —Mais um abraço eu dei em Hur. Eu não quero explicar nada para ele agora. O que eu mais desejo neste momento é ter Hur comigo, somente ele pode me ajudar agora.

Estou confusa, estou amedrontada. Não sei mais quem sou graças a coroa que está em minha cabeça. Meu desejo de vingança está aumentando de forma avassaladora e eu não consigo parar isso. O que fiz com Yunet hoje foi pesado demais para mim, mas algo em meu coração diz que eu fiz o que deveria ter feito a muito tempo. A tortura que Yunet irá ter como castigo será pouco perto de todas as maldades que ela já fez, até mesmo ser queimada viva publicamente será pouco.

—Henutmire. —Hur fala ao se afastar assustado. Ele me olha incrédulo, mas em seguida olha para seu braço marcado por meus dedos. —No que estava pensando? Porque apertou tanto o meu braço?

—Eu não fiz isso. —Falo ao ver que de fato machuquei Hur.

—Você está diferente. O que está acontecendo? —Hur pergunta ainda assustado com a minha atitude. —Seu olhar não é mais o mesmo. Você está distante, parece pensa em algo grave...

—Yunet. —Respondo. —Yunet matou o meu pai, Hur. Ela mesma confessou para Paser. —Minha revelação o choca ainda mais. —Desde então a única coisa que me vêm em mente é vingança.

—Mas ela será morta a mando do rei, Henutmire. Como você vai se vingar? —Hur pergunta assustado. —Ela será condenada.

—Isso é muito pouco perto do que quero fazer com ela. —Deixo claro toda a minha fúria em minhas palavras.

—Você está se deixando levar pelo ódio, Henutmire. Você não é assim. —Hur fica indignado com a minha atitude. —Quando eu saí do palácio o brilho que existia em seu olhar era de bondade e esperança. Mas agora...

—Agora o quê, Hur? —Pergunto quase forçando Hur a terminar de falar o que pensa.

—Eu só vejo vingança no seu olhar. E sem motivos! —Hur concluí e me deixa incrédula.

—Como sem motivos?

—Você não sente nada pelo o seu pai. Nunca sentiu desde que o enfrentou por Moisés pela primeira vez.

—Que história é essa? —Pergunto esbravejando minha raiva. —De onde tirou tudo isso?

—Você dá ao entender, Henutmire. Você nega o sangue que corre em suas veias assim como Anippe. —A comparação que Hur acaba de fazer me deixa sem palavras, quase que sem ação. Eu sei o quanto Hur é sincero e não teme em falar a verdade para o meu bem, mas agora ele foi cruel demais comigo. —Você está se deixando levar não só pela vingança como também pelo poder.

—Você com essa conversa também? —Pergunto indignada. —Primeiro Gab e Paser. Agora é você quem vai me falar isso? —Pergunto. Rapidamente me lembro do sonho que tive a alguns dias. O sonho em que Disebek pedia para que eu não me corrompesse, mas por que eu daria atenção para um sonho onde aquele crápula está? —Eu apenas estou começando com a minha vingança.

—Você está sujando suas mãos. —Hur me alerta e então me lembro do que Anippe falou para Yunet. Quem dera eu tivesse a mesma coragem que Anippe tem. —Como quer ser rainha do Egito se vai sujar suas mãos com o sangue de Yunet?

—Eu não me importo, Hur. —Minhas palavras assustaram o meu marido. —A vingança é o único meio que tenho para fazer Yunet sofrer.

—A vingança é um caminho sem volta e escuro demais, Henutmire. Acha mesmo que vai conseguir se safar do destino que lhe aguarda? Sua imagem irá para lama quando souberem que você vai se vingar de Yunet!

—Como eu já disse: Não me importo. —Rebato. —Aliás, você devia me apoiar ao invés de me julgar.

—Eu não quero fazer parte da pessoa perversa que você está se tornando. —Hur fala pensativo. —Pense, Henutmire...

—Eu não sei, Hur. —Falo ao notar o quanto Hur está preocupado. Ele então segura nas minhas mãos e emocionado volta a falar.

—O que está acontecendo aí dentro? —Hur pergunta em relação ao meu coração. —O que você vai ter depois de concluir sua vingança, Henutmire?

—Terei você e os nossos filhos...

—Não, Henutmire. Você não terá nem á mim nem a nossos filhos. —Hur soltou as minhas mãos bruscamente ao fazer sua revelação. —Você disse que queria ir para Canaã, não disse? Pois então saiba que você querendo ou não, sendo rainha ou princesa, eu e nossos filhos iremos para Canaã.

—Você vai mesmo ter coragem de tirar meus filhos de mim? —Pergunto nostálgica.

Flash Back On

—Chego a pensar que talvez você e eu não deveríamos ter nos conhecido. —Agora foram as palavras de Hur que me amarguraram e me desapontaram, mas eu não me deixei intimidar.

—Está livre para ir. —Rebato com orgulho que o fere pior que uma espada que acabará de sair do calor de uma brasa.

Ele me olhou incrédulo, sem chão, como se procurasse entender o que estava acontecendo. Na verdade, nem eu mesma sei o que acontece comigo e com Hur. Depois de ter enfrentando tanta coisa para que pudéssemos nos casar e vivermos em paz sem nenhuma censura e até mesmo termos um filho, passamos a nos tratar pior que dois inimigos. Tudo isso começou quando Leila me revelou sobre Miriã, quando ele teve a coragem de me contar sobre o "caso" que ela e Hur tiveram.

—Se eu for, eu não irei sozinho. —Hur fala seguro. —Djoser irá comigo. —Pude sentir meu sangue ferver por entre minhas veias ao ouvir Hur falar. Também imaginei meu filho sendo tratado como escravo, e pior, sendo possivelmente criado por Miriã.

—Você só levará Djoser para longe de mim quando eu morrer. —Falo alterada. —Ao contrário disso, você sairá daqui e esquecerá que um dia tivemos um filho...

Flash Back Off

—Você teve a mesma lembrança que eu, não foi? —Hur pergunta emocionado. Quanto me dói saber que Hur de fato deseja partir com nossos filhos.

—Você pode tirar tudo de mim. Menos Djoser! —Falo alterada. —O que você pensa? Djoser é meu primogênito! Meu primeiro filho! O filho que mais ansiei em ter!

—Eu sei! Eu sei o quanto você ama o nosso filho, Henutmire. Mas deixá-lo aqui... —Hur para de falar imediatamente ao ver Anippe e Djoser entrarem.

—Mãe! —Djoser fala maravilhado ao me reencontrar. Meu filho então me abraça emocionado e mata as suas saudades.

—Você está bem? —Pergunto olhando Djoser da cabeça aos pés. —Deve estar assustado com tudo isso, não é mesmo?

—Muito. —Djoser responde afônico. —Eu ainda não entendo como a senhora se tornou rainha.

—É algo muito delicado, meu querido. Eu não posso te explicar agora. —Falo.

—A senhora precisa nos explicar o que aconteceu, mãe. Foi horrível acordar com as pessoas falando que Nefertari havia morrido e que Ramsés já tinha uma nova rainha. —Djoser revela. —Como tudo isso aconteceu?

—Nefertari, em seu leito de morte, pediu para que eu fosse a rainha do Egito. —Revelo. Meus filhos me olham assustados ao saber que de fato sou a soberana do Egito.

—Mas, como a senhora vai para a terra prometida se agora é rainha do Egito? —Djoser pergunta e então Hur lança um olhar repreendido para mim.

—Eu não sei. —É a minha resposta. —Não faço a mínima ideia.

—Agora que a senhora é rainha do Egito pode convencer meu tio a libertar o Egito e evitar uma tragédia ainda maior. —Anippe fala esperançosa. —O libertador é filho da rainha do Egito.

—Minha irmã tem razão, mãe. —Djoser fala e então me olha esperançoso. —Interceda por Moisés. A senhora agora tem o poder de convencer o meu tio...

Notas finais
Será que Henutmire está mesmo se deixando levar pelo poder? Acho que alguém está mudando aos poucos. Será que ela vai conseguir mudar a opinião de Ramsés? Até o próximo capítulo!