Notas iniciais
Vamos de segunda praga, pessoal

Eu não consegui dormir como desejava, estou tão aflita pelos meus filhos que minha preocupação faz com que eu perca o sono. Antes mesmo de Rá voltar a brilhar como todas as manhãs, eu já estou de pé. Não espero por Leila, eu mesma faço a minha maquiagem dos olhos. —O que me lembra Anippe. —Minha filha é dona dos olhos mais belos que já vi em toda a minha vida. É certo que a tonalidade dos olhos de Anippe deve-se ao fato dos meus olhos serem da mesma tonalidade.
Minha filha está ganhando traços únicos, traços angelicais que me fazem lembrar a minha juventude. Chego a pensar que Anippe se tornará uma perfeita cópia minha quando se tornar uma mulher.

—Já está acordada? —Hur me assusta ao falar comigo.

—Não dormi bem. —Falo ao pegar o pequeno baú de jóias. —Acho que a praga mexeu muito comigo.

—Acho que vou pedir alguma fórmula calmante para Paser. Certamente alguma fórmula funcione... —Hur beija o meu rosto em seguida e então sorrio .

—O que é isso? —Pergunto ao ouvir o coaxar de várias rãs na porta de meus aposentos. Hur me olha incrédulo e então vai até a porta verificar o que está acontecendo.

—Pelos deuses! —Hur esbravejou nervoso ao se deparar com uma infestação de rãs.

—Feche a porta! —Falo assustada ao ver as rãs pularem, mas nenhuma sequer passou por Hur. Mas quando Hur se afastou da porta algumas rãs entraram no quarto e rapidamente eu comecei a gritar histérica ao ver os anfíbios perto de mim. —Uma infestação de rãs? —Pergunto e passo a olhar para as rãs perto de Hur. Noto que elas não se aproximam muito dele, ao contrário de mim.

—É uma nova praga! —Leila exclama eufórico e me olha surpresa.

—Por que as rãs me seguem ao e não segue vocês? —Pergunto indo até minha cama, tentando palácio das rãs. —Coloquem esses bichos para fora! —Falo enojada pelo coaxar das rãs.

—Se acalme, princesa! —Leila fala espantando as rãs enquanto dou a mão para Hur. —São rãs para todos os lados do palácio!

—E pelo o que vejo só atormentam os egípcios. —Falo assim que minha dama fecha a porta enquanto rãs e sapos coaxam como um cantoria. Hur então me me abraça ao notar que estou aterrorizada com a nova praga. —E se essa nova praga atormentar todos nós por sete dias como a outra? —Pergunto trêmula.

—Mãe! Pai! Abram a porta! —Djoser grita penoso e bate o punho contra a porta. Quando Leila abriu a porta eu vejo meu filho entre as rãs e sapos, mas nenhuma se aproximava o suficiente para irritá-lo.

—Por ter sangue hebreu esses bichos não o incomodam... —Falo para Hur. —Certamente Anippe não será atingida pela praga...

—São dezenas, centenas, se não for milhares de rãs em todos os lugares! Mas nenhuma ficou no meu caminho enquanto eu vinha para cá. —Djoser fala com seu olhar preocupado de sempre. —É uma praga?

—Eu não acredito que mesmo assim Ramsés não vá ceder! —Falo amedrontada pelo coaxar das rãs.

—Talvez ele ouça a senhora, mãe! —Djoser pede esperançoso.

—Eu não vou me atrever a sair daqui, Djoser. —Falo. Nunca me senti tão desgraçada por ser egípcia em toda minha vida. —Vá você. Talvez ele te ouça...

—O príncipe tem muita influência sobre o faraó. —Leila incita ainda mais e Djoser consente.

—Cuide dela, meu pai. —Meu filho pede olhando nos olhos de Hur. Meu filho então segura o meu rosto com suas mãos e beija a fronte de minha cabeça com carinho e delicadeza. —Eu vou tentar reverter essa situação. —Foi a última coisa que meu filho disse antes de sair eufórico.

—Vá atrás dele, Leila. —Ordeno branda e então minha dama sai imediatamente.

—Eu nunca vou entender esse amor que existe entre você e Djoser. —Hur fala com orgulho e eu sorrio ao lembrar da forma protetora de meu filho para comigo. Mas ele tem razão, ninguém consegue entender esse grande amor que existe entre mim e Djoser. Isso me faz lembrar uma conversa que tive com Paser há muitos anos...

Flash Back On

—Relação de vidas passadas? —Indago surpresa. —Mas pelo o que me lembre isso poderia ocorrer somente se eu e Djoser tivéssemos assuntos inacabados.

—E quem garante que não, princesa? —Paser pergunta irônico. —Talvez tenham sido pai e filha. —Começo a rir com a sugestão de Paser, mas o sacerdote não se deixa intimidar pela minha graça.

—Djoser como meu pai em outra vida? Paser, você anda envolvido demais com nossas divindades. —Falo. —Mas, é claro! Você é um sacerdote.

—E a senhora é a princesa do Egito. —Paser levou sua mão até um papiro e em seguida me entregou. —Não notou que seu filho a venera como se a senhora fosse uma deusa? —Paser pergunta me fazendo rir novamente. —Todos já perceberam isso, alteza. Até mesmo o faraó está impressionado com isso.

—É apenas um amor de filho para com a mãe, sacerdote. —Argumento.

—Não, senhora, não é. —Paser fala seriamente. —Mas eu vou descobrir o que há de tão forte entre a senhora e o príncipe.

—Já lhe disse, Paser. —Falo orgulhosa de meu filho. —É apenas amor.

Flash Back Off

—É apenas amor. —Repito o que um dia disse para Paser, mas agora respondo Hur.

Eu nunca li o que tinha no papiro que Paser um dia me entregou, talvez por medo ou certeza de que tudo estava bem. Mas agora eu quero saber que ligação estranha é essa que tenho com Djoser, uma ligação sem explicação óbvia. Talvez Paser queira uma explicação científica ou até mesmo religiosa para poder entender a minha ligação com Djoser. Digo que é amor, que é carinho, mas agora eu sei que não é somente isso. Existe algo muito forte que me une á Djoser, algo mais forte que a ligação que tenho com qualquer outra pessoa. E temo por isso agora que Moisés está de volta. Temo por que sei que um dia eu terei que escolher entre Djoser e Moisés, e este dia se aproxima cada vez mais.

(...)

Passei a maior parte do dia trancafiada em meus aposentos por causa da infestação de rãs que está de "guarda" na porta. Mas isso é o que menos me preocupa, o que de fato me preocupa é a demora de Djoser. Faz tempo que ele foi falar com Ramsés e até agora não voltou. O mesmo digo de Hur, ele foi atrás de Uri para saber como ele estava e até agora não voltou. —O coaxar das rãs me deixa ainda mais nervosa, assim como a. demora de Hur e Djoser. —Ouço batidas na porta e êxito em abri-la por causa das rãs.

—Mãe, sou eu! —Djoser grita e então abro a porta imediatamente. —Moisés está no palácio.

—O que? Por quê? —Pergunto eufórica.

—Meu tio voltou atrás depois de eu ter o convencido. —Djoser fala estridente de alegria. —Então ele pediu para que fossem chamar Moisés e Arão.

—Arão também está no palácio? —Pergunto surpresa. —Então Ramsés...

—Cedeu. —Djoser completa feliz. —Os hebreus agora são um povo livre da escravidão. Hur...

Hur foi a primeira pessoa que me veio em mente com a notícia de Djoser. Pelos deuses, começo a trabalhar com a hipótese de Hur partir com os hebreus por causa de seu neto. Mas ele não teria coragem de me abandonar no Egito com um filho, ou seria?

—Mãe, a senhora ficou pálida. —Djoser reclama e me serve um pouco de vinho.—Está surpresa?

—Estou supresa, nervosa... Estou tudo menos tranquila. —Falo ainda mais nervosa com o barulho que as rãs fazem. —E preocupada com sua irmã.

—Por que a senhora não pede para meu tio trazê-la de volta?

—Não é tão simples assim, Djoser. —Falo. —Anippe preferiu o sacerdócio e isso não é nenhum tipo de brincadeira.

—Minha irmã não quer isso para ela, mãe. Eu, a senhora, e até mesmo Moisés que não estava aqui para presenciar a rebeldia de Anippe sabe que isso é apenas mais um capricho dela. —Djoser me deixa sem palavras. —Peça para o tio Ramsés trazer minha irmã de volta.

—E seu pai? Ele ainda está muito magoado com sua irmã. —Foi a minha vez de fazer meu filho ficar sem palavras. —Ele não vai se desculpar com ela de uma hora para outra.

—Minha irmã não deu notícias até agora, mãe. —Djoser fala. —A senhora acha que ele pode estar passando bem depois da água ter virado sangue e agora com essa infestação de rãs?!

—Olhe como fala comigo, menino. Eu ainda sou sua mãe! —Esbravejo impaciente. —Anippe não vai dar noticias por que sabe que errou.

—A água se transformou em sangue e hoje rãs invadiram o Egito, mãe. Só os deuses sabem o que poderá vir amanhã...

—Nada virá por que Ramsés libertou os hebreus, Djoser. E então Moisés partirá com o seu povo e eu e você... —Minha voz saiu falha ao saber que só terei Djoser de filho ao meu lado. —Eu só terei você.

—Eu lamento pelo o que vou dizer agora, mãe. —Djoser fala com um certo suspense. Eu então bebo um pouco do vinho servido por Djoser.—Mas eu...

—Você? —Pergunto após beber mais um pouco de vinho.

—Eu penso em... —Djoser temeu pela minha reação, mas revelou o seu desejo em seguida. —Eu pretendo partir com os hebreus. —A taça de vinho então escorregou de minhas mãos após Djoser me revelar a sua ideia de ir embora do Egito.

Notas finais
"Eu pretendo partir com os hebreus." Um minuto de silêncio.