Notas iniciais
E eu aqui perturbando vocês em pleno domingo de manhã

—Mãe, a senhora está me ouvindo? —Djoser me chama curioso e preocupado comigo. —Está com o pensamento tão longe... —Meu filho fala e se aproxima ainda mais.

—Eu estou feliz em saber que seu irmão voltou, mas me preocupo com Anippe. —Falo deprimida. Esta é a verdade e é o que sinto, estou tão preocupada com minha filha que mal dou atenção para Djoser. —Me preocupo com sua irmã. Não sei como ela está e se...

—Ela está bem, mãe. —Djoser fala e em seguida me abraça carinhosamente. Eu me rendo aos braços de meu filho e repouso cansada sem esconder minhas lágrimas. —Chora, mãe. Vai fazer bem... —As palavras de meu filho me fazem chorar ainda mais em seus braços. —A senhora deveria estar feliz por quê Moisés voltou.

—Eu estou. —Falo ao me lembrar do rosto de Moisés. —Mas é que...

—A senhora não pode sorrir por isso? Não pode esquecer Anippe por um instante? —Djoser pergunta indignado ao saber que não consigo esquecer Anippe. —Hoje teremos uma grande festa no palácio e a senhora está totalmente deprimida. Tenta se alegrar um pouco...

—Eu vou tentar. —Falo e viro o meu rosto ao ver Hur entrar no ambiente. Djoser não nota o meu incômodo, mas se levanta do divã para me deixar a sozinha com Hur.

—Eu vou procurar Uri. —Djoser fala animado para a festa e se retira. Infelizmente eu fico a sós com Hur em nossos aposentos e eu tento esconder a minha impaciência com Hur.

—Henutmire... —Hur fala ao se aproximar de mim com cautela. Sinto sua mão pousar sob meu ombro, mas me esquivo rapidamente. —Me escuta, por favor...

—Não me peça nada... —Minha voz saiu embargada e falha ao sentir meu coração ser ferido pela mágoa novamente. —Nem se aproxime de mim, por favor.

—Eu quero te pedir perdão. —Hur fala com receio. —Henutmire, nosso filho vai acabar percebendo...

—Não me pressione tanto... —Eu o olho e ele se assusta ao ver que lágrimas insistem em cair. —Eu não quero discutir com você de novo. —Hur permanece ao meu lado após me ouvir. Sei que ele ainda me observa esperando que eu fale algo, mas eu não falo, não lhe dou esse gosto.

Tenho medo pelo o que está acontecendo. Não é medo de perder Hur, muito menos de não ter mais o seu amor. Tenho medo por quê sei que minha mágoa está se tornando ainda maior que o meu amor por ele, mas nada posso fazer contra este meu sentimento. Hur fez por merecer e, se ainda não o esqueci por completo foi em consideração ao nosso filho.

Mas só de pensar em me separar de Hur, sinto uma tremenda agonia tomar conta de mim. Sei que o que ele fez não foi certo, sei que além de ter me escondido sua "história" com Miriã e ter duvidado da minha fidelidade, Hur duvidou sobre ser o pai de Anippe. Eu estou profundamente magoada com ele, estou prestes a transformar o amor que sinto por Hur em ódio. O que vou fazer para isso não acontecer? É maior que eu!

—Mas eu não posso e nem quero viver assim. Você está distante de mim o suficiente para nos separarmos, Henutmire. —Hur fala rapidamente por causa de seu nervosismo.

—Eu disse para nunca mais falar comigo, que nunca me dirigisse a palavra novamente. —Eu falo sem olhar em seus olhos. Sei o quanto isso dói em Hur, mas a minha dor ainda é maior que a dele. —Me dê um tempo, por favor.

—Tempo para quê? —Hur pergunta nervoso e me deixa sem resposta. —Temos Djoser para criar e não podemos nos comportar como dois estranhos.

—Você não pensou nisso quando Gab te colocou contra mim. —Falo na defensiva, todavia Hur segue me questionando.

—Você estava irritada e me tratava com frieza por causa de Miriã, Henutmire. —Hur fala com razão e eu tento esconder a minha vergonha. —Estava tão indiferente comigo e, mesmo grávida, não se importou com isso.

—Mãe, pai... —Djoser nos chama animado e não percebe que eu e Hur estamos discutindo. —Paser pediu para chamar os dois o quanto antes.

—Não tenho ânimo para festividades. —Falo friamente e Djoser começa a rir. —Do que está rindo?

—Por nada. Mas eu não entendo por quê a senhora não quer ir conosco. —Djoser fala fazendo o pai forçar um sorriso. —Por acaso está doente?

—Já disse que não tenho ânimo para ir! —Falo sem paciência e meu filho se assusta com minha agressividade. Quando me dou conta do quanto fui arrogante com meu próprio filho, respiro fundo para tentar me recompor. Mas a minha impaciência não abandona a minha alma por nada. —Vá com seu pai e com Uri. —Falo um pouco mais calma.

Djoser concorda pouco satisfeito e ainda assustado com a forma grotesca que o tratei. Ele olha apreensivo para Hur e esperando ser acompanhado pelo pai. Então Hur, que me olhava ainda com surpresa, acompanhou Djoser. Quando ambos saíram dos meus aposentos, começo a chorar excessivamente por tudo o que está acontecendo comigo.

Eu não entendo por quê tenho todo o ódio de Anippe voltado contra mim e agora tenho um conflito com Hur. Somente o milagre de ter Moisés de volta pode me deixar mais aliviada com tudo o que está se passando comigo. Mas eu estou sendo injusta com Djoser... De alguma maneira eu estou descontando minha fúria nele, aos poucos, mas estou. Talvez eu deva ir até a recepção que Ramsés está dando, assim Djoser se sentirá melhor ao me ver lá.

—Com licença, princesa. Mas eu vim até aqui avisar que o príncipe Moisés está na sala do trono. —Chibale fala extrovertido. —Acabei de vê-lo.

—Ele veio sozinho? —Não sei por quê faço esta pergunta, talvez seja curiosidade.

—Ele veio com o irmão. —Mal Chibale terminou de falar e eu já estava de pé para ir até a sala do trono.

(...)

—Eu preciso ajudar o meu pai, senhora. Com licença. —Chibale fala ao entrarmos na sala do trono.

—Obrigada por me avisar, Chibale. —Falo olhando fixamente para Moisés e o seu irmão. Todos estavam olhando para meu filho, até mesmo Jahi. —Mas, por quê não fica mais um pouco? Seu pai vai entender...

—Se é o que a senhora deseja. —Chibale fala agradecido por poder ficar na recepção. Dou passos leves até me aproximar de Djoser e me deparo com Hur ao seu lado. É então que Moisés acena para mim e sorri aliviado.

—Não sabia que o soberano estava dando uma recepção. Eu não queria atrapalhar... —Moisés fala envergonhado e faz Ramsés sorrir. Eu não tiro os olhos de meu filho mais velho, muito menos de seu irmão. O irmão mais velho de Moisés tem os mesmo olhos que Miriã, mas tento não pensar nisso agora.

—Você nunca incomoda, Moisés. Ainda dá tempo de se juntar á nós. —Ramsés insiste em trazer Moisés de volta ao palácio.

—Não foi para isso que vim até aqui. —Moisés responde.

—Então para o que foi? —Ramsés faz a pergunta que eu desejava fazer.

—Vim trazer um recado de Deus. —As palavras de Moisés foram a gota d'água para Ramsés perder sua paciência.

—Recado de Deus? O que está acontecendo aqui? —Jahi pergunta assustado. —Eu não entendo.

—Moisés agora fala pelos hebreus, Jahi. Ele agora é um deles. —Djoser me olhou preocupado ao ouvir as palavras de Ramsés. —E o que o seu Deus, sem rosto e sem forma, mandou me dizer?

—O senhor pede para que o soberano deixe meu povo prestar culto á ele no deserto. —Moisés fala me deixando amedrontada. Ramsés pode pensar que este pedido é na verdade uma afronta. —Caso contrário ele mostrará o seu poder.

—Então que mostre. —Ramsés enfrenta Moisés. O silêncio toma conta do ambiente e eu olho preocupada para Moisés, todavia meu filho está seguro de si.

—Excelente ideia, meu marido. —Nefertari fala cheia de pompa e olha desafiadora para Moisés. —Vamos, Moisés. Mostre para todo mundo...

—Muito bem. —Meu filho fala com um sorriso no rosto. —Arão, joque o seu cajado do chão. —Moisés acaba me apresentando o seu irmão e eu passo a observá-lo ainda mais. Arão se afasta um pouco acompanhado por Moisés e ergue o seu cajado para que todos nós olhemos com mais clareza.

Quando Arão jogou seu cajado no chão, ao invés de vermos o objeto cair , vemos uma serpente ganhar espaço no ambiente. Ao ver o animal peçonhento rastejar pelo chão e ponderar-se para perto de mim, Hur me puxa com medo pelos braços. Todavia não reclamo ou sinto dor por sentir a força de suas mãos em meus braços, estou tão assustada com o animal que mal consigo me manter de pé.

—Moisés não está mesmo brincando. —Hur fala assustado.

—Ramsés não vai tolerar por ter sido desafiado na frente dos convidados... Desta maneira. —Minha voz se tornava trêmula ao ver o animal ainda rastejar pelo chão.

—Pelos deuses! Meu irmão só pode ter enlouquecido! —Djoser fala assustado e meu olhar vai de encontro ao irmão de Moisés, o tal homem que se chama Arão.

—Não sabia que seu irmão era mago, Moisés. —Ramsés fala para que toda a multidão não se impressione mais. —Um encantador de serpentes...

—O feito não é de Arão, Ramsés. Mas sim de Deus. —Moisés fala com toda a sua tranqulidade que faz Ramsés rir sarcasticamente.

—Isso é ridículo! Meus sacerdotes são capazes de muito mais! —Ramsés fala esbanjando o seu poder. —Paser! Simut! Mostre para Moisés do que os nossos deuses não capazes...

—Por que a rainha Nefertari olha tanto para Moisés? —Djoser pergunta me deixando envergonhada. Meu filho nunca soube que a esposa de seu tio namorou e noivou de Moisés.

—Depois eu explico. —Falo ao ver Simut se retirar da sala do trono a pedido de Paser. Volto minha atenção para a serpente que novamente pondera-se em minha direção, mas desta vez ela dá o bote.

—Pelos deuses! —Djoser fala assustado após Hur se colocar em minha frente. A serpente acaba recuando para meu alivio, mas Hur segue em minha frente me protegendo.

(...)

Após um longo tempo que acabou fazendo com que o soberano ficasse impaciente, Simut reapareceu com os objetos que Paser tinha pedido. Eu não faço a mínima ideia do que acontecerá agora, quer dizer, eu posso até imaginar. Por Ísis e Osíris! O que será de meu filho diante da fúria de Ramsés ?

Paser e Simut conversavam entre eles e rapidamente Paser jogou os cajados no chão fazendo um de seus truques. Em seguida um par de serpentes estava frente a frente com a serpente de Arão. —Hur me empurra para trás ao ver mais serpentes ganharem espaço na sala do trono.—Noto que Ramsés e Nefertari estão satisfeitos com o que Paser acabou de fazer, mas esta satisfação logo vai embora.
A serpente de Arão e Moisés acaba devorando uma das serpentes de Paser e todos começam a comentar fazendo o rei se irritar.

—Eu não quero ver isso. —Falo com nojo. Sinto uma ânsia insuportável após ver a cena inescrupulosa de uma serpente devorando a outra.

—Eu acho que o rei também não vai gostar. —Hur fala ainda olhando para as serpentes que ainda restam. Rapidamente todos os convidados gritam ao mesmo tempo e eu concluo que a última serpente de Paser é devorada pela outra.

—Mas como... —Ramsés fala incrédulo.

—O soberano me pediu para mostrar o poder de meu Deus...—Moisés fala com calma ao ver a indignação de Ramsés.

—Isso não é nada, não vale nada. —Ramsés fala bravo. —Diga ao seu Deus que se quiser me surpreender terá que realizar milagres ainda maiores.

—Eu já sei como isso vai acabar. —Ouço Uri falar ironicamente e Djoser concorda com as palavras do irmão.

Quando Arão tocou na serpente, ela voltou a ser o que era antes, um velho cajado desgastado com o tempo. Mesmo sabendo que já não corro mais nenhum risco, Hur continua em minha frente, me protegendo cautelosamente. É quando eu percebo, mais uma vez, que Hur me ama apesar se ter duvidado de mim. Sinto uma necessidade enorme de tocá-lo e falar que estou bem, que ele não precisa se preocupar comigo. Mas eu me admiro ainda mais com sua proteção e preocupação comigo, e é neste momento que toda a minha mágoa parece ir embora.

—A senhora está bem? —Leila pergunta me tomando atenção. —Está tão calada...

—Estou assustada. —Falo desconcertada. —E ao mesmo tempo preocupada. —Falo após ver Ramsés e Moisés saírem da sala do trono juntos. —O que será do meu filho após este confronto?

—Meu irmão está arriscando a própria vida, mãe. Onde já se viu enfrentar o Hórus vivo diante todos os convidados? —Djoser pergunta incrédulo e me deixa ainda mais nervosa.

—Você está bem? —Hur pergunta receoso pela minha reação e resposta. Eu demoro um pouco para lhe responder já que me sinto indecisa sobre o que estou sentindo neste exato momento. Noto que todos me olham curiosos e esperançosos pela minha resposta, inclusive Hur.

É então que eu me lembro do erro que cometi por ter deixado a mágoa falar mais alto que o amor quando meu pai me pediu perdão. Posso perder Hur a qualquer momento como perdi o meu pai, e saber que o perdi sem demonstrar o meu amor seria uma tortura para o resto de minha vida. Então eu não respondo Hur com palavras, eu apenas o abraço como forma de agradecer pelo zelo que ele tem por mim. Lembro-me bem da sua promessa, a qual prometeu cuidar de mim.

—Estou melhor. —Falo ao me sentir minúscula após seus braços me abraçarem, mas ao mesmo tempo me sinto protegida pelo meu marido.

Hur então olhou para mim e eu sorri deixando bem claro de que não guardo nenhum rancor, de que não estou mais magoada com o maldito episódio que ocorreu no santuário. Ele assimilou a mensagem e beijou o topo de minha cabeça me deixando corada de tanta vergonha.
Hur é o amor da minha vida, é tudo àquilo o que eu disse para o príncipe Gab e mais um pouco. Por mais que a mágoa me impeça de amá-lo, eu sigo amando-o com toda a minha alma.

Agora eu tenho certeza de que meu amor por este homem é maior que eu mesma, maior que qualquer obstáculo imposto pelo maior inimigo que se pode ter. Talvez o nosso amor seja capaz até de aplacar o tempo e superar a morte.
Chego a pensar que se um de nós chegar a morrer a qualquer momento, o outro se aprofunde nas saudades e na solidão que poderá levar ao óbito.
Eu não poderia existir sem ele, eu não seria eu mesma se Hur não existisse.
Se fui capaz de enfrentar todo o reino para tê-lo ao meu lado e Hur abandonou suas crenças hebréias definitivamente por minha causa, nada pode me separar nos separar.

(...)

—Não sabe como fiquei aliviado ao saber que você me perdoou. —Hur fala repousando em meus braços. Ele me olhava com tanta meiguice que cheguei a pensar que uma criança me olhava com curiosidade. —Você tirou um peso de minhas costas. —Ele fala ao beijar minha mão prolongadamente.

—Eu precisava de paz. —É a única coisa que respondo. Rapidamente volto a me lembrar do confronto entre Ramsés e Moisés hoje mais cedo e me preocupo pela segurança de meu filho. —Se bem que agora estou preocupada com Moisés. —Hur se levanta e se põe em minha frente.

—Moisés quer levar os hebreus para fora do Egito e é claro que o rei não permitirá isso, Henutmire. —Hur fala com razão. —Se Moisés não fosse um grande amigo, quase um irmão para o rei, com certeza estaria morto agora.

—Não diga isso! —Falo nervosa ao imaginar o meu filho morto. —Estou aflita por Moisés, Hur. Não sei o que fazer depois do que aconteceu hoje. —Falo atordoada. —Eu preciso ver o meu filho... —Penso alto e meu marido me olha assustado. —Preciso ver Moisés e saber como ele está. Nem que isso me custe sair do palácio sem a permissão do rei...

—Henutmire, isso é muito arriscado! —Hur me alerta preocupado. —Eu vou com você, então...

—Não, não! Nós dois fora do palácio chamaria muita atenção, Hur. É melhor que Leila me acompanhe até a casa de Joqueb... —Paro de falar imediatamente ao me lembrar de Miriã. De qualquer forma irei me encontrar com a irmã de Moisés. E ela não irá me impedir de ver o meu filho! —Eu não vou deixar de ver Moisés por causa de Miriã.

—Certamente que não. —Hur concorda sem saída e com preocupação.

—Falarei com Leila para me acompanhar esta noite até a vila dos hebreus. —Falo surpreendendo Hur. —Não posso deixar para depois.

—E se Djoser ou qualquer outra pessoa perguntar por você?

—Diga que estou dormindo e que não quero ser incomodada. —Falo. —Não quero que ninguém saiba da minha ida até a vila.

—Você está se arriscando muito, Henutmire. Não acha melhor esperar que Moisés e o rei se entendam? —Meu marido pergunta sugestivo.

—Não aguento mais esperar por notícias de Moisés. Eu mesma irei até a vila...

Notas finais
Para quem disse que nunca mais iria na vila