Coração De Seda
16 Capítulo 16
—Minha filha... —Meu pai fala diante do trono ao me ver entrar na sala do trono acompanhada de meus três filhos. —Meus netos... —Ele fala e desce do trono para nos abraçar. —Como você está linda, Henutmire. —Ele me elogia após beijar as minhas mãos.
—O senhor disse que eu sabia onde o encontrar para lhe dar o perdão que tanto queria. —Faço meu pai sorrir e meus filhos se olham orgulhosos de mim.
—Eu antes preciso pedir perdão para Moisés. —Senti lágrimas escorrerem pelo meu rosto após ouvir meu pai falar e olhar para Moisés. —Eu não entendi o amor que minha filha sente por você. Mas me entenda... Eu tive medo de abalar a ordem cósmica.
—Tudo agora é passado, soberano. —Moisés fala manso como sempre.
—Tem razão. —Meu pai fala voltando sua atenção para mim. —Agora o Egito é governado por outra pessoa.
—Ramsés quem carrega este fardo agora. —Falo e me envergonho ao ver todos rirem. —Falei algo de errado?
—Por acaso se esqueceu que a coroa está em sua cabeça, mamãe? —Djoser pergunta com ironia na voz. Eu levo minhas mãos até o topo de minha cabeça e sinto a coroa egípcia pesar.
—Onde Ramsés está? —Pergunto assustada e todos permanecem em silêncio.
—Não... —Nego ao entender absolutamente tudo. —Não! Não! —Nego com tristeza e sinto braços me segurarem para que eu não caia no chão. —Não, não...
—Henutmire! —Ouço Hur gritar o meu nome e acabo despertando. —Você está delirando de tanta febre... —Ele fala enquanto olho ao meu redor e noto que anda é noite. Foi tudo um sonho que acabou virando um pesadelo no final. —O que você sonhou?
—Não importa. —Falo brava ao me lembrar que brigamos recentemente. Respiro ofegante e percebo que Hur segurava meus pulsos com força. Eu devia estar descontrolada pelo o que vejo... —Já pode me soltar. —Falo e ele se dá conta de que estava me apertando com força. A prova é que após me soltar, meus pulsos ficaram avermelhados.
Eu me sento na beira da cama e sinto Hur se levantar em seguida. Ele me oferece água, mas eu acabo derrubando a taça e demonstro todo o meu nervosismo, e isso foi o suficiente para Hur se preocupar comigo.
—Pode voltar a dormir, eu vou ficar bem. —Falo e para não me contrariar, ele decide voltar a dormir. Até que me levanto e resolvo repousar no divã.
—O que está fazendo? —Hur pergunta ao me ver deitada no divã. —Não me diga que irá dormir ai...
—E por que não? —Pergunto com deboche e resolvo não lhe dar atenção. Hur insiste que eu me levante do divã e volte para a cama para dormir.
—Você ficará desconfortável neste divã, Henutmire. —Hur fala, mas eu não dou muita importância para ele.
Infeliz foi a hora que Gab colocou a dúvida na mente de Hur, mais infeliz foi a hora que, coincidentemente, Gab falou que nos relacionamos na época em que eu estava enfurecida por causa da Miriã.
Hur juntou todas as peças e acabou por desconfiar de mim, e se ele desconfiou é por quê não vinha confiando em mim há muito tempo. Eu sinto que meu casamento com Hur está por um tris com todas essas confusões que vem e vão. Ou todas elas são apenas uma má fase que devemos passar juntos?
Quando eu me lembro que Hur me deu as costas, que desconfiou de mim, mesmo que por alguns minutos, sinto uma vontade absurda de me atirar no rio Nilo e ser levada pela correnteza. Meu desespero foi tão grande que já me imaginava atentando contra a minha vida mais uma vez.
Sinto tão indiferente, me sinto tão distante dele, mas ao mesmo tempo quero ficar ao seu lado depois de tudo o que aconteceu. Mas, não consigo mais olhar para Hur e não me lembrar da sua expressão de dúvida, não consigo mais olhar para ele e não me lembrar da maldita discussão que tivemos no santuário por causa de Gab.
Gab... Se antes eu queria sua cabeça em uma bandeja, agora eu tenho certeza de que o quero que seja morto na minha frente. Talvez, se eu conversar com Ramsés, ele cumpra o meu desejo. Gab é responsável por todas as brigas que eu e Hur já tivemos, e por pouco não me separou do meu marido.
(...)
Sinto a estranha sensação de não estar no divã como pensei que estava. Ao abrir os olhos noto que fui colocada na cama, certamente Hur fez isso enquanto eu dormia. Me surpreendo ainda mais ao olhar ao meu redor e ver que Hur não estava ao meu lado, mas estava descansando desconfortavelmente no divã, nem mesmo as almofadas contribuíam para dar um pouco de conforto para ele.
—É hoje. —Falo ao me lembrar que hoje é o dia em que Anippe irá embora e estudará o sacerdócio. Sinto meu coração pesar ao temer Anippe indo embora, talvez, se depender do orgulho de minha filha, eu nunca mais a veja novamente. —Que os deuses protejam Anippe. —Falo aflita. Apesar de toda a rebeldia da minha filha, eu não desejo que nenhum mal a perturbe.
Talvez agora eu esteja dando valor ao meu pai, mesmo depois de tantos anos. Anippe herdou todo o gênio forte, toda a personalidade do meu pai, talvez eles tivessem uma boa relação se Anippe chegasse a conhecer o avô. Anippe e Amenhotep se parecem tanto com meu pai que chego a pensar que essa herança de personalidade me foi roubada. Ramsés nunca foi orgulhoso como é agora, o poder lhe subiu a cabeça e agora ele ensina isso para Amenhotep e, consequentemente, faz Nefertari agir da mesma forma.
Apenas o meu amado Djoser se salva, apenas ele ignora todo esse egocêntrismo. Nisso eu tenho que admitir, meu filho herdou de Hur toda a sua personalidade. Ele pode se parecer comigo na aparência, mas ao ouvir Djoser falar é a mesma coisa que ouvir Hur falar.
Djoser sempre foi mais calmo que Anippe, foi uma criança obediente como Moisés. Meu Moisés nunca me deu trabalho como Anippe está me dando agora.
Com Anippe longe eu terei mais calma com Hur. Minha filha não é um fardo, mas talvez com a cabeça voltada apenas para o sacerdócio, ela sinta falta de casa e comece a dar valor para mim e para as suas próprias origens. Por quê de certa forma, Anippe tem o mesmo sangue que Moisés, que Miriã, e de todos os hebreus.
Se Moisés foi chamado de príncipe hebreu, certamento Anippe é chamada de princesa hebréia. Minha filha não pode negar suas origens, isso é como negar a sí mesma.
Se Anippe pensasse de outra forma, ela já teria fugido para a vila dos hebreus, mas o desprezo que ela sente pelos hebreus a impede de fazer isso.
Mas agora é tarde para voltar atrás. Anippe se tornará uma sacerdotisa e passará muito tempo longe de nós. A única neta de Seti se tornará uma sacerdotisa, a minha única filha me deixará com seus irmãos sem sentir nenhum remorso.
Anippe desejou que eu sofresse durante a velhice sem se lembrar que eu quem passei noites em claro, preocupada enquanto ela ardia em febre.
Flash Back On
—Ela está com febre. —Falo desperada ao colocar minha mão sobre a testa de Anippe.
—A febre não cede a nada. —Hur fala para Paser. Anippe está tão doente que mal consegue se manter de pé.
—Não há nada que possamos fazer. —Paser desiste e me olha penoso. Ramsés surgiu com Nefertari ao seu lado, certamente lhe contaram que Anippe não está reagindo a nada.
—E minha sobrinha? —Ramsés pergunta para o sogro, mas o mesmo nega em sinal de reprovação.
—Chamem outros sacerdotes, magos... —Ramsés fala assustado ao ver Anippe desacordada.
—Vários passaram pelo quarto da princesa, meu soberano. Os melhores e mais...
—NÃO SÃO BONS OS BASTANTE! —Ramsés grita ao interromper Paser. —Os deuses não podem levar Anippe agora, ela ainda é uma criança.
—Ou talvez os deuses estejam nos dando um sinal. —Nefertari fala fazendo Ramsés se assustar.
Flash Back Off
Naquela época eu pensava que Anippe morreria da mesma enfermidade que meu irmão morreu, o irmão que nasceu antes de Ramsés e morreu ainda criança. Eu não poderia aguentar tamanha dor, ainda por cima com dúvidas sobre a existência de Moisés. Eu não poderia perder mais um filho, eu não aguentaria. Mas agora eu irei perder Anippe para o sacerdócio, ou será que a perdi no momento que levantei a mão para ela?
—Mãe? —Djoser me chama ao entrar em meus aposentos. Ele anda devagar, sem fazer barulho, ao ver que Hur ainda dorme. —Não impedir Anippe? —Djoser pergunta me deixando ainda mais nervosa.
—É a escolha dela. —É a única coisa que falo para consolar o meu filho.
—Ela vai odiar a senhora ainda mais, mãe. Não deixe que Anippe vá embora. —Djoser insiste. —Tanta coisa pode acontecer enquanto Anippe estiver fora...
—O que pode acontecer? —Pergunto.
—Moisés pode voltar. —Djoser fala rapidamente, mas se arrepende ao ver minha reação. —Me desculpe.
—Eu sonhei com Moisés está noite, Djoser. —Falo constrangida.
—Eu tive um pesadelo. —Djoser fala.
—E como foi? —Pergunto.
—Um homem levava a senhora e Anippe para longe, para além das fronteiras do Egito. —Djoser me espanta ao contar seu sonho. —O mais estranho é que o meu pai não estava aqui e nem com vocês.
—Eu não entendo... —Falo assustada e me lembro perfeitamente do meu pesadelo. O meu pesadelo não tem nada em comum com o de Djoser.
—Era tudo muito triste. Eu consegui ver a senhora e Anippe indo embora enquanto eu estava na sacada do palácio. —Djoser fala e eu consigo imaginar. —Eu pedia para a senhora ficar, mas a senhora não fingia não me ouvir e seguia viagem com o homem e Anippe.
—E como era esse homem? —Pergunto na expectativa de Djoser descrever Moisés.
—Já era um senhor, mais velho que a senhora, tinha o semblante sério, parecia ser um homem de poucas palavras. —Djoser descreve com dificuldades. —Tinha os olhos tão negros como a noite... —Me lembro do meu pai. —E ele falou uma frase que eu me recordo bem...
—E o que foi?
—Ele é azul assim como seus olhos. Por isso ele é seu... —Djoser repete a frase do homem desconhecido.
Meu coração acelerou ao perceber que o homem do sonho de Djoser na verdade é meu pai. Sinto o pânico se estabilizar dentro de mim ao entender o sonho de meu filho. Se Djoser pedia para que eu ficasse, e fingia não ouvir ele, é por quê não estávamos mais nos comunicando. Djoser sonhou que meu pai me levava com Anippe para longe, e talvez este longe seja o mundo dos mortos. É a única explicação que eu tenho, este é o significado do sonho de Djoser.
—Mãe. —Djoser me chama e se assusta ao ver que estou prestes a chorar. —A senhora pode imaginar quem seja esse homem? —Eu respondo o meu filho com um abraço.
Para onde meu pai me levava com Anippe? Por quê eu não ouvia Djoser falar comigo? Isso só pode ser um mal sinal dos deuses! Os deuses me levará com Anippe para o mundo dos mortos mais rápido do que eu pensei. Eu tento encontrar semelhança entre o sonho do meu filho e o meu, mas a única coincidência é que meu pai está nos dois sonhos.
—Mãe, está tudo bem? —Djoser pergunta assustado ao sentir a força dos meus braços. —Está estranha...
—Imaginação sua. —Falo ao me separar de Djoser. —Imaginação é o que não te falta, meu filho
—Acha que eu devo falar meu sonho para Paser? Talvez ele decifre...
—Não precisa, Djoser. Esse seu sonho não tem fundamento algum. —Falo e entristeço o meu filho. —Para onde eu e Anippe iríamos sem você? E ainda mais com um estranho!
—Anippe já vai embora, mãe. Eu só não entendo por quê a senhora também estava indo embora no meu sonho. —Djoser fala e segura as minhas mãos. —A senhora nunca vai me abandonar, não é?
—Eu não tenho motivo para isso. —Falo sorrindo para evitar o choro. —Eu não poderei ir a lugar algum sem você, Djoser. Você foi o primeiro filho que consegui carregar no ventre, o meu primogênito. Acha mesmo que eu te abandonaria?
—Não dê importância para o meu sonho, mãe. Vamos esquecer isso. —Djoser fala sem me olhar nos olhos de tão envergonhado que está. —Eu vou ver se Anippe acordou.
—Ela não deve ter dormido. —Falo e sorrio para o meu filho. —Me avise quando ela estiver pronta.
—Eu não irei me despedir de Anippe, mãe. Eu seu que ela vai voltar para o palácio. —Djoser fala seguro de sí e se retira.
(...)
Anippe seguia acompanhada por uma serva até a embarcação que a levaria. Eu estava bem atrás dela, até que ela parou em frente a entrada da embarcação e ficou frente a frente comigo. Paser se colocou em minha frente e entregou um papiro para Anippe.
—Entre isto ao sumo sacerdote, ele saberá do que se trata e você será bem acolhida no templo. —Paser fala e Anippe assente. —Tenha uma boa viagem, princesa.
—Obrigada. —Anippe agradece e Paser dá espaço para mim e Hur. Anippe ficou de frente para nós e nos observou por alguns instantes.
—Me desculpe, Anippe. —Hur fala e me deixar sem entender. —Me desculpe por ser seu pai. —Por um momento pensei que Hur estava se referindo a mentira que Gab inventou sobre Anippe não ser sua filha. —Você não merece ter um pai como eu.
—Eu não entendo. —Anippe fala e Uri me olha abismado. —Não entendo...
—Você não merece ter sangue hebreu em suas veias. —Fechei os olhos ao ouvir Hur falar. Ele vai falar para Anippe que já sabe sobre o preconceito que ela tem com os hebreus. —Se você nega o meu sangue, o sangue hebreu, você não pode ser minha filha. —Me desequilibro, todavia Uri me me ampara em seus braços. Me deparei com Anippe amedrontada após ouvir palavras tão duras vindas do próprio pai.
—Pai... —Anippe tenta se pronunciar diante da fúria de Hur, mas ele a impede de falar qualquer coisa.
—Não me dê explicações. —Hur fala com frieza e eu vejo uma lágrima traçar no rosto de Anippe. Eu coloco minha mão sobre o ombro de Hur, chamando sua atenção, mas ele não cede. —Adeus, Anippe. Espero que os deuses te protejam e sempre te favoreçam. —Hur se despede sem abraçar Anippe. Uri vai até a irmã para lhe dar um último abraço, e com isso Anippe chora desolada.
—Você virá nas festas? —Uri pergunta sugestivo, mas Anippe nega deixando claro que nunca mais irá voltar para nós.
Uri deu espaço para que eu me despedisse de Anippe. Eu e minha filha nos olhamos por alguns segundos, não pronunciamos uma palavra se quer. É como se existisse uma barreira invisível que nos impede de falar qualquer coisa, nem mesmo um aperto de mãos será dado na nossa despedida.
Eu me esqueci completamente de que Uri estava presente, de tanto observar Anippe, me desconheço, me desconheço por não sentir a necessidade que toda mãe tem de abraçar sua filha.
—Anippe... —Uri chama a atenção da irmã, mas a princesa nos ignora dando as costas. Eu dei meia volta e a guarda real me seguiu assim que me comecei a caminhar.
—Ela já foi. —Ouço Amenhotep falar. Quando olho para a minha esquerda o vejo acompanhado de Djoser, ambos estavam ofegantes.
—Eu pensei que ela fosse desistir no último momento. —Djoser fala e os dois se olham assustados. —Ela levou o papiro.
—Qual papiro? —Amenhotep pergunta curioso. E então, pensado que eu não os escutava, Djoser faz uma revelação.
—O que eu daria de presente para a nossa mãe. —Djoser fala me fazendo parar de andar rapidamente. —Eu entreguei como garantia de que ela voltaria. Pensei que ela fosse deixar no palácio, mas ela o levou.
—Ela não devolveu... —Amenhotep fala assustado.
—Anippe não voltará nunca mais. —Djoser fala e meu olhar é lançando na embarcação que rasga o mar e que leva a minha filha para longe de mim.
(...)
Flash Back On
—O que você tem, filha? —Pergunto para a pequena menina franzina que está a beira da piscina com o irmão.
—Mãe, eu tenho um irmão que já é grande? —Anippe me pergunta, e eu, sem entender respondo pensando que ela está falando sobre Uri.
—Não fala sobre o nosso irmão, Anippe. Ele tá no deserto. —Djoser fala me fazendo entender a dúvida de Anippe.
—Eu ouvi o tio Ramsés falar que eu tinha um irmão chamado Moisés. —Anippe fala. —Ele tá no deserto?
—Ele está no deserto. —Respondo.
—E por quê a senhora não vai buscar ele para mim? Eu quero saber como ele é, mamãe. —Anippe pede segurando a minha mão.
—Eu não posso buscar ele, Anippe. Eu não sei onde ele está...
—A senhora disse que ele estava no deserto, vai buscar ele para mim, mãe. —Anippe insiste e eu fico sem tem o que fazer. Anippe tem apenas sete anos e não entenderia o motivo de Moisés estar tão longe...
—Eu não posso, filha... —Falo magoada.
—A senhora é má, mãe. A senhora não quer trazer o meu irmão de volta por quê a senhora não gosta dele! E muito menos de mim! —Anippe reclama e sai correndo. Minha única alternativa foi chorar e olhar para Djoser. Quando me dei conta de que estava chorando na frente do meu filho, tentei disfarçar.
Flash Back Off
A lembrança me tortura enquanto observo o quarto de Anippe, agora vazio, mas que ainda tem o perfume da minha filha pairado no ar. Ao olhar para cada móvel, para cada detalhe do ambiente eu sinto como se minha filha ainda estivesse comigo. Eu não posso acreditar que a garotinha que teve medo de dormir em seu quarto pela primeira vez, agora está longe de mim.
A vontade que eu tenho é de ir buscar Anippe, mas eu sei muito bem que ela não virá comigo, ou com qualquer outra pessoa que seja.
Eu nunca irei saber o que está escrito no papiro que Djoser nunca teve coragem de me entregar, Anippe certamente o guardará consigo para o resto de sua vida.
Não é um mar, não é a distância que nos separa. É o orgulho ferido de Anippe, é o meu desgosto, é a minha grande decepção por ter uma filha tão ingrata como ela, é saber que estou sendo castigada pelos deuses.
Por Ísis! Eu não se morrerei de desgosto pela ingratidão de Anippe, ou de saudades.
Primeiro eu perco Moisés, agora eu perco Anippe. Agora me resta apenas um filho, Djoser.
—Mãe? —Senti um alivio ao ouvir a voz de Djoser. Comecei a chorar ao sentir o abraço do meu filho, mais uma vez. —Mãe a senhora precisa me ajudar.
—O que aconteceu? —Pergunto.
—Se lembra do escravo que se recusou a se ajoelhar no cortejo? —Djoser pergunta e eu concordo. —Meu tio vai matá-lo. —Me espanto. —Aquele rapaz é filho de Arão, irmão mais velho de Moisés.
—O rapaz é sobrinho de Moisés. —Falo ao entender tudo.
—Não sei com qual coragem, mas o pai de sangue de Moisés pediu para falar com o rei. Mas meu tio não deu importância. —Djoser revela. —Então eu mandei Ikeni avisar ao pai de Moisés que a senhora o atenderia.
—Você quer que eu fale com o pai hebreu de Moisés? —Pergunto assustada.
—A senhora pode impedir uma tragédia, mãe. Faça isso pelo o meu irmão!
(...)
Eu fui até os portões do palácio acompanhada por Djoser e Ikeni. Rapidamente me deparo com um senhor bastante velho, de costas para nós, até que Ikeni acelera seus passos para avisar ao homem que estou presente. —Fique aqui. —Falo para Djoser e caminho mais um pouco, mas permaneço afastada do homem ao me lembrar que ele é pai de Moisés, e que consequentemente também é pai de Miriã. Pelos deuses! O que estou fazendo aqui?
—Princesa. —O homem fala demonstrando seu respeito por mim. —Sou o pai biológico de Moisés. —Meu sangue gelou ao me dar conta de que estou frente a frente com o homem que concebeu Moisés. —Me chamo Anrão.
—O que deseja? —Pergunto com os pulsos acirrados de tão nervosa que estou.
—Vim lhe implorar para poupar a vida do meu neto. —Anrão fala.
—Não tenho poder o suficiente para isso. —Falo.
—Mas a senhora pode convencer o faraó. —Anrão se mostra objetivo. —Já enfrentou o faraó Seti, pode me ajudar a salvar a vida do meu neto.
—Eu vou tentar falar com o soberano sobre isso...
—Por favor, princesa. —Anrão suplica mais uma vez. —Salve a vida de Oséias como salvou Moisés. —Ele implora. Eu não posso deixar Oséias morrer por ser sobrinho de Miriã. Ele é filho de Arão, sobrinho de Moisés e neto da mulher que deu a vida ao meu filho. Eu preciso deixar as indiferenças de lado, é uma vida que está em jogo. —A senhora salvou Moisés do decreto do seu próprio pai, destruiu o decreto que mandava matar os bebês hebreus...
—Eu era muito nova, e naquela época o governante era outro. —Falo
—Pelo amor que a senhora sente por Moisés, salve Oséias...
Fale com o autor