Notas iniciais
E hoje, 12 de agosto, trago o final da minha maior obra. A que me ensinou muitas coisas e que tomou dois anos de minha vida, obrigada, galera!

Ainda posso ouvir os gritos de dor e terror de Amun. Nunca fiquei com a consciência tão tranquila por ver aquele assassino morrer. Eu não o matei, eu fiz justiça. Se Hur e Ramsés não tivessem agido antes, talvez hoje Lyanna tivesse crescido sem seu pai. — Todos os dias eu olho para Lyanna e vejo que ela está se tornando uma mulher, com a mesma idade que Anippe saiu do Egito pela primeira vez. —Como seria a relação das duas hoje? Djoser é o mais velho, e meu único filho homem, elas são mulheres. Ou pelo menos uma delas já que a outra está morta. Anippe era a mais próxima de Lyanna. Minha pequena rosa nasceu após Anippe, quinze anos depois, um belo contraste. —Eu daria minha vida para vê-las juntas agora, com Djoser protegendo as irmãs. —Mas a vida de Anippe foi curta demais, morreu jovem...Ainda posso me lembrar da seda que usava enquanto seu corpo estava no mármore frio, com rosas em seu cabelo.

—Mãe. —Lyanna chama por mim enquanto penso na conversa que tive com Djoser sobre entregar o reino para ela. —Meu pai estava na oficina com a sua coroa e a coroa de Anippe. —Fala nervosa. —A coroa do tio Gab e a de meu irmão também. —Até então quatro coroas. —O que está acontecendo? Meu pai disse que irá fundir cada uma até tornar uma só. —A nova ordem como profetizado.

—Ele se esqueceu de uma. —Falo ao mostrar a coroa que minha mãe me deu quando eu ainda era jovem. —A última. —Princesa, a coroa que usei quando fui uma.

—Estamos sem ouro? —Lyanna perguntar inocente, embora eu negue.


—Seu irmão pediu para seu pai criar uma coroa para você. Essas cinco coroas serão fundidas e juntas vão fazer uma para você. —Minhas palavras assustam Lyanna. Eu então sorrio para ela ao ver que não há palavras que possam explicar o que ela sente. —Meses depois que Anippe morreu Djoser pensou em renunciar a coroa. E pensou em colocar você.


—Eu? —Lyanna pergunta perplexa. Minha filha deixou o brilho de seus olhos fugir com minha revelação.


—Ele disse que você era a verdadeira herdeira e merecedora do trono. Então... —Falo enquanto vejo que Lyanna está nervosa. —É você. —Falo olhando para sua reação. —Depois de tantos anos, você vai reinar no trono que vários lutaram.

(...)

Quando a coroa finalmente ficou pronta, Hur me chamou para me mostrar. O diamante avermelhado que estava na coroa de Anippe agora era apenas mais um na nova coroa. Até hoje me pergunto quem deve ter dado esse diamante para Anippe... Depois que Anippe morreu, Zion preferiu servir na segurança da Núbia. O mesmo eu pensei que Radamés fosse fazer. Mas com o passar dos anos Radamés parece ter sufocado o amor que dizia sentir por mim. Assim foi melhor já que Hur e Djoser temiam que Radamés fizesse alguma loucura parecida como as que Amun fez. Mas hoje Radamés é apenas mais um oficial que apesar da idade, sabe como proteger o reino.

—Ela vai gostar. —Falo para Hur ao olhar bem para a coroa. Mesmo sendo de ouro reluzente, os traços na coroa de Lyanna são delicados, como se houvessem rosas e folhas, em cada rosa um diamante. Bem no centro na coroa há uma rosa maior com um diamante esverdeado, como se estivesse representando um jardim. A coroa de Lyanna é muito simbólica, tal como sua personalidade. Com o passar dos anos muitas crianças nascidas levaram o nome de Lyanna, mas graças a sua figura, seu nome recebeu outro significado. Lyanna agora significa "filha das rosas".


—E se ela não gostar? —Hur pergunta ao analisar cada detalhe. —Uma coroa não é uma espada. —Ele brinca me fazendo rir. Seus braços me envolvem enquanto olho bem para cada detalhe de sua obra.

—Ela vai gostar. —Repito. —Não vai se adaptar de imediato, mas vai gostar.


—E por fim a profecia de Amun aconteceu. —Hur relembra. —Se lembra da canção que Djoser fez para Lyanna?


—Claro que sim. —Falo.

"Duas coroas serão suas. Uma para o amor, que será de grandes glórias e feita de flores azuis. A outra será de ouro, assim como seu sorriso. Seu nome será lembrado como Senhora da Vida, a resposta tão esperada. A possível Rainha da nova ordem..."


—Rainha da nova ordem. —Falo risonha. —Minha rainha. —Falo orgulhosa e então olho para Hur. Meu marido me abraça carinhosamente como sempre fez. Fecho os olhos ao repousar em seus braços e sentir a mesma paz que senti na primeira vez que me rendi aos seus braços.


—Eu te amo. —Hur fala enquanto permanecemos abraçados.


—Não acredito. —Falo em tom de brincadeira. —Não acredito porquê eu te amo mais. —Falo ao olhar em seus olhos. Hur então segura meu rosto com suas mãos e une seus lábios aos meus. Em minutos lembrei de toda a vida que tivemos juntos. Desde a noite em que declarou seu amor para mim até o nascimento de nossos filhos e netos.


De fato eu escrevi uma nova história com Hur ao meu lado. Uma história cheia de surpresas e tristezas, mas que no final de cada capítulo eu aprendi uma nova lição. E a maior de todas elas é que nós dois somos almas gêmeas. Que estamos juntos em todas as dificuldades. Nas alegrias e tristezas, na doença, na saúde e até mesmo na morte. Bendito foi o dia em que Hur teve a coragem de revelar seus sentimentos. Ele quem deu o primeiro passo, me guiando desde então.


—Trinta e cinco anos já se passaram desde que nos casamos. —Hur fala ao interromper o beijo. Eu permaneci de olhos fechados tentando não esquecer a sensação. —E não há um dia que eu te ame menos. —Fala me fazendo sorrir. Logo uma tosse forçada nos interrompe. Era Lyanna com Amenophis e Ashira.

—Vovô! —As duas crianças correram até Hur. Meu marido então segura as duas crianças com muito esforço.


—Vocês estão enormes... Não posso mais segurar vocês. —Hur fala risonho. —E o seu pé?


—Melhor. —Ashira responde.


—É minha? —Lyanna pergunta ao ver a coroa na mesa.


—Eu quem fiz. —Amenophis brinca.

—Um dia você vai aprender. —Hur acaba se deixando levar pela brincadeira.


—Vovó, falta muito para eu ver o meu pai? —Ashira pergunta curiosa. A menina sempre se empolga para viajar e visitar seu pai. Mas agora Ashira tem idade suficiente para viver com Arão, mesmo que no deserto.


—Logo depois da coroação de sua tia. —Falo e então minha neta sorri contente por isso.

—Mas você vai ficar longe de mim. —Amenophis fala aborrecido.


—Eu sempre vou te visitar na primavera. —Ashira fala ao abraçar Amenophis. Os dois acabam me fazendo lembrar de quando Anippe e Djoser eram crianças.


—Lyanna? —Halima chama por minha filha. —Djoser está esperando você. —Fala. Lyanna então olha para mim e para Hur.


—Eu levo você. —Hur fala para acalmar Lyanna. Minha filha então parece sorrir de tão nervosa que está. Eu olho bem para Lyanna e vejo que... Nem eu mesma sei explicar. Talvez seja o amor de mãe que me deixe confusa. Ainda posso me lembrar de quando ela abriu seus olhos pela primeira vez para mim. Agora ela me olha assustada, mas ao mesmo tempo feliz.


(...)

Lyanna adentrou a sala do trono acompanhada por Hur, eu estou logo atrás assim como a guarda real. No trono está Djoser esperando por Lyanna. Paser estava com a coroa em mãos logo atrás de toda guarda real. Quando olhei para os lados estavam todos os outros servos e alguns nobres do palácio a pedido de Djoser. Posso ver que minha filha está nervosa. Mas não deixo de sorrir ao ver o quanto bela ela é. Com apenas quinze anos Lyanna será coroada rainha, mas não será possível que reine absoluta. Ela terá á mim e seu pai para reger em seu lugar até ter idade suficiente.


"Duas coroas serão suas. Uma para o amor, que será de grandes glórias e feita de flores azuis. A outra será de ouro, assim como seu sorriso. Seu nome será lembrado como Senhora da Vida, a resposta tão esperada. A possível Rainha da nova ordem..."


Era a canção cantada pelos músicos quando Lyanna entrou na sala do trono ao lado de Hur, num tom baixo e calmo como o vento. Em seus belos fios ondulados e longos haviam pequenas flores de lis azuis. O branco de suas vestes era tão limpos que por um momento temi que algo manchasse. Mas Lyanna é prendada e sabe como se comportar. O vestido lhe caia bem. Tudo lhe caia bem. Se Lyanna estivesse coberta por feno, mesmo assim saberiam que ela é um membro da família real. E mesmo que ela estivesse coberta por feno, ela não iria se intimidar. Lyanna é chamada de "pequena rosa" pelos súditos, um apelido carinhoso devido ao seu hábito de caminhar pela cidade e espalhar rosas azuis. No dia em que se comemora o aniversário de Anippe, Lyanna visita cada abrigo e lá deixa um pouco de si. Todas as vezes que ela volta sempre me conta do número assustador de meninas com o nome de minha filha mais velha. Os súditos veneram Anippe pela ousadia que ela teve ao queimar todas as embarcações na guerra de Moabe para que nenhum soldado covarde abandonasse a guerra.


—A nova rainha. —Falo ao ver Lyanna dar sua mão para Djoser. Hur então fica ao meu lado, segurando minha mão.


—Todos sabem que governar é algo inexplicável. Para mim foi um dever. Mas dever é diferente de vocação. —Djoser fala pausadamente. —Desde que minha irmã, a rainha Anippe, morreu ainda jovem, pensei em abrir mão do meu direito de ser rei. —Fala e então espera a reação das pessoas. —Mas minha irmã, a princesa Lyanna, ainda era uma criança. Meu herdeiro, o príncipe Amenophis também. Então eu esperei dez anos para coroar a nova rainha. A rainha da nova ordem que irá ser estabelecida em todo Egito. —Fala e então Paser se aproxima lentamente com a coroa em mãos. —Eu proclamo Lyanna, descendente de Seti I, da tribo de Judá, senhora soberana de todo território egípcio e núbio. Senhora do Alto e Baixo Egito, princesa protetora da Núbia. —Djoser proclama enquanto eu e Hur sorrimos para Lyanna. Foi então que o emblema do leão foi tirado dando espaço ao estandarte da rosa. —Vida longa a rainha. —Exclama. Lyanna então se senta no trono onde vários de minha família sentaram. Olho orgulhosa para Hur, então vejo um sorriso iluminar o rosto do meu marido. Nossas mãos estão unidas, sinto que ele está nervoso também.


—A nossa menina, Henutmire. Tendo a mesma responsabilidade que Anippe teve. —Hur fala orgulhoso. Eu acabo sorrindo para Lyanna enquanto Djoser põe a coroa sobre sua cabeça.

Quando os nobres e servos dobraram seus joelhos e cabeças diante de Lyanna, consegui notar o nervosismo no olhar da minha filha mais nova. Ela parecia não acreditar no que estava vendo. Tão nova e inocente, mas ao mesmo tempo tão forte. Se Lyanna é capaz de fazer artes com sua espada, o exército terá a imagem dela para se espelhar. Lyanna é dócil, mas isso não quer dizer que ela não seja fraca. Muitas vezes vi minha filha exigir ordem e impor respeito como nunca antes vi. Lyanna sabe usar o poder que agora é seu. De todos os reis e rainhas, ela é mais sensata.

"Quando o leão fez da rosa uma rainha, tudo e todos tiveram a certeza de que não iríamos temer uma fera, mas sim os possíveis espinhos."


A melodia foi ganhando tom a medida que Lyanna de acomodava em seu trono. —Lyanna é o que muitos de minha família não conseguiram ser. Muitas quiseram se livrar do fardo da coroa, mesmo que repousassem no trono. E livres ficaram depois de suas mortes. Uma mulher pode ser frágil como muitos pensam por causa de sua sensibilidade, mas não uma rainha. E Lyanna tem tudo aquilo que as rainhas anteriores não tiveram. A famosa ousadia em ter medo. Quem teme algo sabe os seus limites e sabe ser prudente em não ultrapassa-los. Lyanna pensará por cada um aqui no Egito.

Djoser então abdicou sua coroa e Lyanna estava sentada no trono. E eu espero que seja por muitos anos. —Templos e navios queimados, homens e mulheres também, cinzas que deixam como marca a fúria de minha família. Leões em suas celas e uma rainha híbrida morta, a minha Anippe. — A tribo de Judá ganhou duas rainhas e um rei. E muitos ainda irão nascer. Mas o Egito... O Egito ganhou uma nova ordem para seu progresso. Tal como a Núbia. O principado núbio agora tem uma rainha. Eu e minha família somos o que restou de todas as coisas que aconteceram desde que os hebreus partiram. E Lyanna é a única esperança que restou do Egito ser guiado sem ambição. Lyanna é o que restou da dinastia de minha família. Uma adolescente que dita votos que ela mesma não sabe o significado. Mas que em alguns anos se tornará uma grande rainha.

"E assim disse o nosso povo: Após as cinzas, virá as rosas. Tanto para aqueles que morreram, tanto para aqueles que estão vivos."


(...)


Dias após a coroação de Lyanna, uma comitiva mandada por Arão chegou para levar Ashira. Não nego que foi difícil me separar de minha neta, mas eu não posso prender Ashira. Me parece que a história se repete, mas desta vez, com um final diferente. Djoser segue ajudando Lyanna com todos os assuntos que ela deve saber. Por fim, tudo e todos estão em paz.

—Está sentindo isso? —Pergunto ao estar abraçada a Hur enquanto estamos a beira do Nilo.

—Paz? —Hur pergunta ao entender o que eu sinto. —Parece um sonho. —Fala e então sorrio. —Foi aqui que tudo começou.


—Tudo? —Indago.

—Onde pedi você em casamento. —Relembra nostálgico. —Onde nossos filhos crescerem. —Fala e então sorrio. —Mas foi também onde Anippe morreu.

—Ela não morreu. —Falo ao olhar para o Nilo. —A filha do Nilo nunca morre.


—Tem razão. Anippe amava a vida e era intensa demais, insubmissa. —Hur fala orgulhoso de sua primeira filha. —Nossa filha não viveu para ver Ashira crescer, mas esteja onde estiver Anippe vai entrar em Canaã graças a sua descendência. —Meu marido fala enquanto lembro de minha filha.

—Nunca irá existir uma pessoa como ela. —Falo ao lembrar do sorriso de Anippe. Enquanto nos mantemos abraçados perante o Nilo, sinto algo se aproximar de nós. —Lyanna! —Me assusto com o susto que minha filha acaba dando em mim e em Hur.

—Não faça isso. —Hur pede ainda assustado. É então que ouvimos a risada de Djoser. —Não tenho mais idade para sustos.

—Vem. —Lyanna chama por Amenophis.


—Então não vai aguentar a notícia que tenho para dar. —Djoser fala risonho ao chamar por Halima. Minha nora então acaba rindo ao ponto de ficar vermelha.

—O que aconteceu? —Hur pergunta enquanto olho bem para Halima. Só agora notei que seu rosto está mudado, será que minha nora


—Eu queria muito guardar essa notícia até o dia do aniversário da minha sogra. Está tão perto... —Halima fala me deixando confusa. Então Hur olha para mim curioso. —Mas Anippe está crescendo muito rápido e logo todos vão notar. —Fala e então sorri para nós. Anippe crescendo? Anippe? Creio que é mais uma das brincadeiras de Halima e Djoser, mas não vejo graça alguma.


—Anippe? —Hur indaga sem entender. Pelo amor de Deus, eu vou perder minha paciência. Anippe foi minha primeira filha e está morta, respeitem isso!


—É esse o nome que irei dar para a criança que Halima espera se for uma menina. —Djoser revela me deixando perplexa. Então vejo Halima tocar em seu ventre e deixar o pequeno volume se notar. Foi então que lembrei de quando revelei para Hur que estava esperando a nossa Anippe

Flash Back On


—A partir de agora iremos viver sem que nada nos atrapalhe. —Hur fala esperançoso e eu vou até ele para lhe abraçar, mas o choro de Djoser nos separa.

—Ou não. —Falo com ironia. Eu preciso contar para Hur que em breve teremos outro filho, mas tenho quase certeza de que ele ficará mais incrédulo do que feliz. Djoser está com apenas dois meses de vida e ganhará um irmão, talvez irmã...

—O que aconteceu com você na sala do trono? Por quê desmaiou? —Hur me questiona com Djoser nos braços.

—Hur... —Começo a falar e sorrio ao ver Djoser se inquietar nos braços do pai. Hur me olha com atenção, esperando uma explicação e tentando acomodar Djoser em seus braços. —Os deuses nos favorecerem novamente.

—Como assim? Seja mais clara, eu não entendo. —Ele fala com grande curiosidade. —O que isso significa?

—Significa que carrego um filho seu em meu ventre. —Revelo deixando Hur sem reação. Temi pela sua reação, cheguei a pensar que ele deixaria Djoser cair de seus braços com tamanho impacto da notícia. Hur me abraçou e entre nós dois ficou Djoser, nenhuma palavra foi dita, neste momento eu apenas sou acolhida por Hur.

—Você escutou, filho? —Hur pergunta para Djoser. —Você não é mais o caçula, Djoser. Você vai ter um irmão. —Djoser tocou no rosto de Hur e olhava atencioso para mim.

—Agora você e Amenhotep terão que dividir tudo com seu irmão... —Falo olhando para Djoser. Meu marido então me trouxe para perto de si e depositou um beijo suave em meu rosto, um carinho pleno.


—Agora eu e você vamos cuidar de sua mãe e seu irmão. —Hur fala enquanto brinca com Djoser. Logo sua mão se estende até meu ventre pela primeira vez.


Flash Back Off


—Eu não acredito. —Falo incrédula e então sorrio para Halima e Djoser. É incrível ver que meu filho está se tornando um homem em todos os sentidos.

—Terá o nome da tia. —Hur fala pensativo. —Que venha com saúde. —Hur deseja orgulhoso.


—Eu não sei o que dizer. —Falo nervosa e alegre. Então me levanto e vou até Halima —Meus parabéns. —Falo antes de beijar seu rosto e abraçar Halima. Depois de dez anos, Halima dará outro filho para Djoser. —Você é a melhor pessoa para ser mãe dos meus netos. —Falo e então olho para Djoser. —Espero que você saiba ser um bom pai para essa criança como é um bom pai para Amenophis. —Peço.

—Aprendi com o melhor. —Djoser fala e então lança seu olhar para Hur. De fato, aprendeu bem.—Mas ser um pai como o senhor é, não posso ser. Não há homem no mundo que honre o dom de ser pai como o senhor faz. —Fala e então olho para Hur. Meu marido então sorri enquanto lágrimas se formam em seus olhos. —Vocês dois são feras quando se trata em proteger os filhos. Mesmo que eu tenha dado maus passos, nunca deixaram de me amar e proteger. Vocês dois passaram duas vidas me guiando, agora me deixem guiar vocês. Por mim, por Uri e Anippe que não estão mais aqui, e por Lyanna que ainda não sabe o que é a vida. —Fala me deixando estagnada. Djoser então beija minha mão e em seguida sorri e lembrança me tomam a mente.


Flash Back On


—Ele parece gostar do seu toque. —Falo. Todas as vezes que Hur toca em mim, meu filho se movimenta, é como se ele e Hur tivessem uma conexão. Todas as vezes que toco em meu ventre o meu filho não me responde com seus chutes fortes, ele permanece calmo, mas ao sentir Hur próximo à nós, ele sempre se move.

—Então você tem razão. —Hur fala e retira a sua mão do meu ventre, no entanto o nosso filho permanece inquieto. —Pode ser uma menina como você deseja... —Resolvo não dar atenção para o que Hur fala, até por que meu filho permanece inquieto e passa a me incomodar. —Henutmire? —Ele me chama.

—Não me sinto bem. —Falo. Minhas palavras causaram espanto em Hur, mas não é para menos. De todos os incômodos que sofro em consequência da gravidez, este parece ser o pior de todos.

—O que você tem? —Ele pergunta preocupado.

—Seu filho resolveu se agitar... —Respondo com ironia. Acabo por me sentar em uma das poltronas macias do harém, talvez em dentro de pouco tempo o meu filho pare de se movimentar tanto.

—Mal nasceu e já está dando trabalho... —Hur fala. Ele se senta ao meu lado e coloca sua mão sobre a minha barriga novamente, sua intenção ao me acariciar para acalmar o nosso filho não funciona, o bebê se agita ainda mais. —Está menos agitado? —Hur pergunta sorridente.

—Não. —Respondo. Minha mão se encontra com a mão de Hur, então sentimos juntos um chute forte. Não conseguimos evitar nossas risadas, afinal o bebê reconhece quem somos.

—Ele te ama. — Hur fala de repente. — E eu amo vocês dois. —Suas palavras me emocionam.

—Hur... —É a única coisa que consigo falar. Ele me abraça e continua a acariciar a minha gigante barriga.

—Você já devia se acostumar com o que falo, meu amor. —Ele fala me fazendo sorrir.

—Eu não vou me acostumar nunca. —Respondo. Eu fico mais próxima de seu rosto e repouso minha cabeça em seu ombro. —Talvez eu consiga entender quando olhar para o nosso filho.

—Todos os dias que eu olhar para ele irei me lembrar de você. —Hur fala e me abraça mais forte.

—Um filho nosso. Apenas nosso. —Minhas palavras fazem o meu filho se acalmar.

Eu sinto que está cada vez mais perto o nascimento do meu filho, sinto que sua inquietação é porquê ele já deseja nascer. Não vejo a hora de conhecer o rostinho do meu filho e saber se ele realmente se parece comigo ou com Hur.


Flash Back Off

—Pai! Pai! —Amenophis grita e chama toda nossa atenção. —Não, tia! —Fala ao ver que Lyanna irá jogá-lo no rio. Então rimos pela situação.

—Não faz isso! —Lyanna pede assim que Amenophis puxa-a para as águas.


Flash Back On

—Não! Não! Mãe! Pai! Leila! —Anippe chama desesperada enquanto Djoser a leva para rio junto com Uri.


—Eu não acredito. —Hur fala abismado ao ver Uri e Djoser jogarem Anippe na água.


—Eu ainda acabo com vocês. —Anippe fala brava enquanto os irmãos riem. Logo ela empurra Djoser que acaba derrubando Uri nas águas.


—Pelos deuses. —Falo ao ver a fúria de Anippe contra os irmãos.


—Parem! —Anippe pede furiosa e então os dois param. —Animais. —Fala e então posso ouvir a risada de Hur.


—Ela me lembra você quando está brava. —Hur dispara me deixando confusa.

—Não sou tão arisca. —Falo fazendo-o rir. —Tenho que mudar esse comportamento de Anippe ou caso contrário ela não será vista com bons olhos.

—Ela é apenas uma menina. O que lhe leva a crer que irá mudar o comportamento dela? —Hur indaga risonho. —Nunca vi nenhuma mãe mudar o comportamento de um filho.


—Mas eu vou. —Falo indignada. —Anippe é uma princesa, não uma garota de rua. —Falo para seu espanto.


—Não foi isso que eu quis dizer. —Hur tenta se redimir. —Você sabe que Anippe herdou sua teimosia, mas em uma dose muito maior. —Fala. —Ela ainda é uma criança, quando se tornar uma mulher vai mudar. —Fala e então me calo. —Ainda está assim por causa do preconceito do rei? Ele não vai fazer nada contra nossos filhos, Henutmire. Olhe para Ramsés quando ele estiver com Anippe e Djoser.


—Meu irmão tolera meus filhos. —Falo nervosa.


—Ele me tolera. —Hur fala dando ênfase e então olho para ele.


—Talvez seu povo pense assim de mim também. —Falo meu medo pela primeira vez. —Talvez olhem para mim e pensem que...


—Que? —Hur indaga sugestiva me pedindo para continuar.


—Que você não me ama e está comigo por conveniência. —Minto.


—Você está mentindo. —Hur fala. —Você iria falar outra coisa. —Insiste. —Acha que meu povo pensa que você me comprou? É isso?


—Faz diferença? —Indago. —São muros que nos separam deles.


—Djoser e Anippe também são deste povo. Pertencem a dois povos que se odeiam. —Hur acaba ganhando minha atenção. —O que lhe faz pensar que o povo hebreu também não vê nossos filhos com medo? Intolerância? As mulheres hebréias também sofrem com o asco que o rei tem sobre seus filhos. Os meninos que foram mortos.


—Mulheres egípcias dão a luz a homens, não a meninos. —Falo sem pensar e então Hur olha para mim com certa indignação. Logo eu vejo que fui rude com Hur. Rapidamente me lembro que ele é filho de uma hebreia, por isso me arrependo.


—Ótimo. Fico feliz que meus filhos tenham a honra que eu não tive. —Hur fala seriamente enquanto me observa. Pelos deuses, eu falei demais.


Flash Back Off


—Vamos lá. —Djoser fala para Halima. Então me sento novamente ao lado de Hur.

—Me perdoe. —Peço. —Eu acabei me lembrando de uma de nossas discussões que nunca me redimi. —Falo e então Hur olha para mim com carinho. —Quando eu disse que mulheres egípcias dão a luz a homens, não a meninos. —Falo envergonhada. —Eu destratei todas as mulheres de seu povo. Incluindo sua mãe e a mãe de Uri.


—Não nego que isso me machucou. —Hur fala me deixando péssima. —Mas você estava certa apesar de tudo. —Ele fala e então olha para Djoser. —Está tudo bem. —Fala e então voltamos a nos abraçar. —Isso não é nada diante do que sentimos um pelo outro. —Fala me fazendo sorrir. —Me perdoe pelo mal que fiz para você, Henutmire. —Pede.

—Isso não é nada diante do que sentimos um pelo outro. —Falo e então Hur beija meu rosto. —Você é o grande amor da minha vida. Amor de toda a minha vida, depois dela também. —Falo. Hur então sorri para mim e observa meu rosto.


—Eu não posso explicar o meu amor por você. —Hur fala enquanto segura meu rosto com carinho. —Eu posso demonstrar como sempre fiz. —Fala ao aproximar seu rosto do meu com cautela. Eu então fecho os olhos e apenas espero pela união de nossos lábios, e de fato isso acontece. Não há outra pessoa com quem eu me imagine agora sem que seja Hur.


Flash Back On

—Que os deuses protejam esse matrimônio. —Ramsés deseja com as mãos sobre nós.

—A minha proteção será o suficiente para nós dois. —Ele fala ao entrelaçar nossas mãos. —Eu irei te proteger como Ísis protege Osíris.

—E eu te amarei pelo resto da minha vida. —Falo.


Sinto meu corpo fraquejar diante do que acaba de acontecer. Então eu vejo minha mãe e Paser sorrirem para mim, são as únicas pessoas que realmente aprovam essa união. Mas mesmo que todos reprovem, agora é tarde demais. Eu e Hur estamos casados.


Flash Back Off

Vejo Djoser com Amenophis, eles estão longe mas suas risadas são altas. Logo sorrio sozinha ao lembrar do dia em que meu primogênito nasceu. Meu filho interrompeu um cortejo demonstrando que desde já não se importava em chamar atenção.


Flash Back On


—É um menino. —Leila revela com lágrimas nos olhos. A parteira por fim me entregou o meu filho. Eu tremo ao sentir meu filho em meus braços, choro de alegria ao ver o quanto ele é forte.
Eu beijei a sua minúscula mão e sorri ao ver dobrinhas pelo seu corpo simbolizando o quanto ele é forte, o quanto ele é grande.

—Por acaso era você quem me chutava todos os dias?—Pergunto ao me lembrar de todas as vezes que o senti se mexer dentro de mim. —Você se parece tanto comigo...

—Foi como eu disse. —Leila relembra a nossa conversa no harém. —Como ele vai se chamar?

—Djoser. —Respondo.—Príncipe Djoser...



—Segundo de seu nome. —A parteira fala e então afirmo. Meu filho então vai se acalmando aos poucos, como se quisesse me sentir mais perto de si mesmo.

—Chame o meu marido. —Falo enquanto olho para Djoser. —Sim, meu amor... —Falo com voz carinhosa. —Você vai conhecer o seu pai.


Flash Back Off

—Já cansou? —Hur pergunta assim que Lyanna vem até nós.


—Meu sobrinho sempre me cansa. —Lyanna brinca. —Eu sinto falta de Ashira. —Minha filha lamenta.


—Eu também. —Falo. —Mas não podemos prender Ashira em um lugar onde ela não deve estar.


—Se um dia ela quiser voltar, será bem acolhida. —Hur fala risonho. —Ela está tão parecida com a mãe.

—Eu lembro muito pouco de Anippe. Mas todas as lembranças que tenho dela são boas. —Lyanna fala. —Mas a última é a mais dolorosa.


—Quando ela saiu do palácio? —Hur pergunta. —Anippe saiu com Ashira nos braços sem rumo. Quando minha filha entendeu que não poderia vagar com uma criança pelo Egito, ela me entregou Ashira. É aquela foi a última vez que vi minha filha com vida. —Então vi que Hur estava prestes a chorar. Com isso Lyanna veio até ele, sentou ao lado do pai e o abraçou. —Ter perdido Uri e Anippe foi a pior dor que senti em toda minha vida. Meu primogênito e minha primeira menina. —Fala melancólico. Eu seguro sua mão deixando claro que estamos juntos até mesmo na dor.


Lyanna apenas permanece abraçada ao pai enquanto eu olho para longe e vejo Djoser com sua família. No final, eu estou feliz com tudo o que aconteceu. No final eu posso ver que tudo valeu a pena. Cada tragédia que aconteceu em minha vida teve sua respectiva recompensa.

—Para onde vai? —Hur pergunta assim que Lyanna se levanta. Minha filha então vira para nós novamente com um leve sorriso.

—Eu reinarei. —Lyanna responde serena e seriamente para nós. Foi quando eu vi uma pequena faísca de glória em seus olhos. Seus cachos largos e macios agora eram acobreados no sol. Suas vestes molhadas e brancas lhe davam uma aparência de serenidade. Em suas mãos haviam anéis e em seus pulsos braceletes luzentes. Logo Lyanna sorriu deixando claro que estava apenas brincando, mas eu vi seriedade em seu olhar. Com isso minha pequena rosa deu as costas e foi embora.

—Eu quase não me lembro dos filhos que perdi ainda no ventre. —Falo ao ver Lyanna se distanciar.


—Posso dizer algo que nunca disse antes? —Hur pergunta seriamente. —Você não merecia, com todo respeito, ter um filho de Disebek. —Fala e então acabo concordando com Hur. —Você merece um palácio. —Hur fala me deixando corada. Acabo sorrindo com sua insistência em me olhar com carinho.

Me aconchego em seus braços e logo repouso minha cabeça em seu ombro. E então olhamos para o Nilo. A maior testemunha desta nossa história, de nossas vidas. Que esteve aqui antes mesmo dos primeiros papiros serem escritos, e que estará aqui para testemunhar por toda a eternidade. O Nilo estará sempre aqui para recordar sobre o amor que um dia foi impossível entre nós dois. E ele estará aqui deixando claro que nossa história não tem fim.


—Me prometa mais uma vez que nosso amor irá durar. —Peço.


—Por milênios. —Hur fala enquanto segura minha mão. Então olhamos para o anel em que ele me deu quando me pediu em casamento. Agora levo seu nome, o Egito leva-o. Não um ramessida puro em PI Ramsés, a Núbia fervilha de hebreus e mesmo assim continua sendo Núbia. As famílias evaporam com os anos, os palácios não.


—Para sempre? —Pergunto. Então Hur sorri para mim enquanto olho bem em seus olhos. —Até o dia em que você ou até mesmo eu escrevermos a última palavra da nossa história? —Pergunto.


—Depois dela haverá sempre uma continuação. —Hur fala sobre nossa história. —O que foi escrito não pode ser apagado. —Fala tendo toda razão. —Para sempre, Henutmire. —O grande e único amor da minha vida fala olhando em meus olhos. Nos olhamos por alguns minutos, sem que eu pronuncie uma palavra sequer. Hur segurava meu rosto enquanto beijava o topo de minha cabeça. Foi então que nós dois olhamos para o céu azul e suas nuvens, enquanto nossos corações agradeciam pelo nosso amor. E antes de unir seus lábios aos meus e ter como platéia o céu e o rio Nilo, afirmo:


—Por toda a eternidade.

Notas finais
Não coloquei "fim" pelo fato da história de Henutmire e Hur realmente ser eterna para vocês. Obrigada mais uma vez, de coração. Me despeço em lágrimas de alegria e de saudades. Escrevi o final em janeiro/fevereiro mas somente agora postei. Até mais!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!