Coração De Seda
112 Capítulo 112
Notas iniciais
Meses depois...
—Zion está doente? —Minha mãe pergunta assim que lhe conto sobre as tosses e a indisposição de Zion desde a primeira noite que o vi tossir tanto. Nove luas se passaram desde que Zion adoeceu. —Ele deveria se consultar com Paser.
—Eu sei. Já falei isso para ele várias vezes. —Falo. —Ele nem chega perto de Ashira, nem chega perto de mim como fazia. —Falo nervosa. —Eu acho que ele tem medo que eu e Ashira também fiquemos doentes.
—Ele tem razão. Ashira não tem tanta saúde e você pode não aguentar. —Minha mãe fala preocupada. —Vou pedir para Halima falar com Zion. Eles são irmãos, podem se entender.
—Não acho que vai ajudar. —Falo sendo honesta comigo mesma.—Zion está muito doente e não quer contar para ninguém. Não fica perto de mim com medo, como se ele fosse um leproso.
—Mas vocês dividem a mesma cama...
—Não mais. —Revelo e então minha mãe me olha com surpresa. —Ele dorme no divã toda a noite. —Falo. —Zion está se matando aos poucos. Ele é muito teimoso! Eu já pedi para ele se consultar com Paser!
—Fique calma. —Ela pede. —Zion é homem, é compreensível que não goste de assumir que está doente.
—Ele é muito teimoso. —Falo novamente. —O que ele pensa? Se matar?
—Fique calma, Anippe. —Minha mãe pede novamente. —Darei um jeito nisso. —Fala mais uma vez. —Talvez Djoser deva ajudar você também.
—Djoser?
—Ele pensou muito em fazer de Zion o novo general. —Minha mãe revela. —Ele vai notar que Zion não está bem.
—Quem sabe. —Falo pensativa. —Mas precisa ser logo. Zion não sabe, mas está doente. Eu não quero que aconteça o pior... —Paro de falar ao sentir medo.
—Não me diga que você voltou a gostar dele...
—Eu amo Zion. —Falo e então tento falar novamente. —Mas eu também amo Arão. —Completo fazendo minha mãe me olhar com pena. —Eu amo Arão como eu nunca amei outra pessoa, mãe. —Falo. —Em todos os sonhos que tenho com ele... Sinto vontade de cravar minhas unhas em seu pescoço e perguntar porque me trocou tão rápido por outra mulher. —Falo enquanto choro. Não é possível que Arão tenha me esquecido tão rápido. Sei o quanto ele amou a primeira esposa, não posso negar o amor deles. No entanto, ele estava tão apaixonado por mim. Eu senti isso! —Mas ao mesmo tempo, nos sonhos, eu sinto vontade de me atirar nos braços dele e...—Minha voz simplesmente sumiu.
—E? —Minha mãe pergunta sugestiva tentando me fazer falar. Foi quando minha garganta doeu enquanto tento falar, como minhas lágrimas estivessem impedindo que minha voz saísse.
—E beija-lo. —Revelo com a voz embargada. A reação de minha mãe foi a mais penosa de todas.—Falar para ele que temos uma filha. —Falo e então ponho minhas mãos na boca enquanto choro. —Às vezes eu penso no quanto feliz poderíamos ter sido, entende isso? Não que eu não seja. Mas estar ao lado dele me faria plena.
—Não diga isso. —Minha mãe pede ao segurar meu rosto.
—Muita coisa aconteceu, Anippe.
—O que eu posso fazer, mãe? Eu ainda... Eu ainda amo Arão. —Revelo fazendo minha mãe se assustar. —Eu ainda amo Arão como nunca amei ninguém na minha vida. —Falo completamente enlouquecida ao finalmente perceber que nunca mais vou vê-lo novamente. —Eu me entreguei a ele por amor, não por paixão ou qualquer coisa do tipo. Foi por amor, apenas por amor! —Sinto minhas forças irem embora aos poucos enquanto tremo, mas consigo me manter de pé. —Todas as vezes que eu olho para Ashira eu me lembro disso. Em nossa única noite eu fui capaz de conceber uma filha dele... —Falo entre as lágrimas.
—Se acalme. —Minha mãe pede ao me abraçar. —Agora você precisa sufocar o amor que você sente por ele. —Seu conselho foi quase uma ordem. Embora ela saiba que isso é impossível. —Eu sinto muito por isso, Anippe. Você sabe que eu sempre deixei claro que o amor é o maior de todos os sentimentos.
(...)
—Saúde. —Falo ao entrar no campo de treinamento com minha filha nos braços. A menina espirrou e se assustou com seu próprio espirro, me fazendo rir. Vejo Lyanna treinar com Gab e Zion, com isso me sento bem perto. —Vamos ver sua tia Lyanna treinar. —Falo. Minha filha mantém seus olhos atentos em mim como sempre faz.
—Você veio. —Lyanna fala para mim ao se aproximar. —A mamãe não sabe que estou aqui.
—Mesmo que ela saiba, não vai fazer nada. —Falo risonha. —Agora vá, Lyanna. —Falo ao ver Gab esperar pela minha irmã.
—Não deveria estar aqui. —Zion fala preocupado. —Está muito quente para Ashira... —Zion nada mais diz. Meu marido começa a tossir sucessivamente e eu fico nervosa. —Soube que Djoser me nomeou general? —Ele muda de assunto.
—Não vai conseguir comandar os soldados com essa tosse. —Falo preocupada. —Zion, pelo amor que tem por mim, se consulte com Paser. —Falo e então ele olha para mim. —É melhor você descansar e se cuidar antes que seja tarde demais. —Falo.
—É o clima. —Zion teima novamente e então nego. —Nada muito grave.
—Eu não vou mais insistir. —Falo brava. —Mas se você realmente tem amor por Ashira, cuide de sua saúde. —Falo e então volto a dar atenção para Gab e Lyanna, deixando Zion de lado. Ele então se retira sem escolha me deixando na dúvida se ele vai se consultar ou não com Paser. —Muito bem, Lyanna. —Falo ao ver minha irmã treinar. Gab sorri orgulhoso de Lyanna e olha para mim.
—Então esse é o novo harém de Lyanna? —Ouço meu pai perguntar e então me assusto. Lyanna solta sua espada de madeira e logo olha para mim como se estivesse prestes a correr por todo o Egito e se esconder. —Pode continuar. —Meu pai pede e então a menina sorri. Foi como se nosso pai tivesse acabado de salvar a vida de minha irmã.
—Vou ser punida por ser cúmplice dela? —Indago sorridente enquanto sinto o peso de Ashira em meus braços.
—Eu não farei nada. —Meu pai fala risonho.—Mas você sabe como sua mãe é.
—Por isso espero que não conte nada para ela. —Falo. —Minha mãe diria que estou colocando Lyanna no mau caminho.
—Ela vai saber mais cedo ou mais tarde. —Meu pai fala. —E você, meu amor? —Meu pai pergunta para Ashira. Sorrio ao presenciar tal cena de meu pai com minha filha. —Temos uma conversa pendente? —Pergunta me fazendo rir. Ashira logo começa a gritar risonha para meu pai. —Acho que ela vai ser tão esperta como você quando criança.
—Espero que não seja tão rebelde. —Falo risonha. —Não é, Ashira? —Pergunto ao olhar para minha filha e vê-la bater suas mãos em meu braço para chamar a atenção do meu pai.
—Sua mãe está com Amenophis no jardim. —Meu pai fala para mim. —Quer fazer companhia para ela? —Pergunta. —Ela não sabe que Lyanna está aqui, você está com Ashira, Halima está com Djoser na sala do trono... Apenas eu não faço bem para ela. —Meu pai brinca. —Ela se sente muito sozinha.
—Vou até ela. —Falo. —Vamos, Ashira? —Pergunto para minha filha.
—Espere. —Meu pai pede me fazendo voltar. Ele beija o topo de minha cabeça e me abençoa, o que me faz sorrir. O mesmo ele faz com Ashira. —Acho que ela não tem mais um sorriso vazio. —Fala me deixando sem entender. Foi quando notei a presença de dois pontos brancos na gengiva de Ashira.
—Espero que ela não tenha o hábito de morder. —Falo risonha.
(...)
—Não me diga o que fazer, pai. —Ouço Djoser falar assim que entro na sala do trono com minha mãe. Acabamos por deixar Amenophis e Ashira com Karoma. —Eu sou o rei. —Fala. Eu posso perceber que meu irmão está bêbado.
—Djoser? —Minha mãe chama por ele e então meu irmão começa a rir como um louco. —Você bebeu?
—Não sei, mamãe. Bebi? —Pergunta irônico e então olho para meu pai. —Não precisa ficar nervosa. Todos sabemos que aprecio o vinho. Um pouco mais do que deveria, mas isso não vem ao caso.
—Eu tentei... —Halima fala envergonhada.
—Não vai me impedir de beber. —Djoser fala bruscamente. —Eu sou o rei, não sou? Posso beber o quanto eu quiser.
—Djoser, mantenha a compostura. —Meu pai pede bravo e então todos ficam em silêncio. Em silêncio até Djoser sorrir novamente.
—Eu ainda sou jovem, oras! —Djoser brinca. —Será que não posso beber? —Pergunta e então começa a rir novamente.—E a senhora? Como está? —Djoser pergunta para minha mãe. —Sai das suas saias em todos os sentidos, mãe. —Meu irmão fala e então posso ver minha mãe abaixar o seu olhar para o chão como se pedisse para sumir dali. —Desde que nasci... —Fala de forma chula para que todos ouçam.
Minha mãe então começa a chorar, mesmo sem querer. Diante das lágrimas de desgosto de minha mãe, meu pai olha furioso para Djoser. Amparo minha mãe, mas nada pode impedir que lágrimas de desgosto e decepção escorram dos seus olhos pelo seu rosto. Minha mãe sempre amou Djoser, ele é seu primogênito. E agora meu irmão está se voltando contra ela aos poucos.
—Pai! —Falo assim que vejo meu pai subir até o trono e desferir um tapa no rosto de meu irmão. Djoser cambaleia para o lado, mas se mantém de pé. Como se não fosse o suficiente, meu pai deu uma surra no rei do Egito ali mesmo, no trono.
—Isso é para você não se esquecer do respeito que deve para sua mãe. —Meu pai fala e logo em seguida bate do outro lado do rosto de meu irmão. —E essa é para você sentir o que é ser pai. Você pode ser um homem feito, rei, pai... Seja lá o que for! Mas eu sou seu pai e você me deve obediência assim como deve para sua mãe. —Fala alterado e então vejo minha mãe soluçar assustada.—Não vi sua mãe enjoar dia após dia, passar por tudo que uma mulher grávida deve passar, sentir você crescendo dentro dela para no final você falar com ela assim, Djoser! —Meu pai falava com um tom de voz que vi poucas vezes.
—Esqueça, Hur. —Minha mãe pede entre os soluços. —Eu quero ir embora daqui. —Ela pede e então me assusto. —Quero ir embora daqui, Hur. —Pede novamente. Djoser então olha para nossa mãe, mas nada fala.
Meu pai apenas olha para minha mãe e solta meu irmão. Halima segurava seu vestido, acuada na parede e com medo. Djoser ficou paralisado no trono, sem ditar uma palavra sequer. O que está acontecendo com ele? Meu irmão nunca foi de fazer algo assim. O lado ruim de meu irmão é que ele sempre nos surpreende com algo.
(...)
—Isso vai acalmar a senhora. —Falo ao oferecer a fórmula que Paser recomendou.
—Vai me acalmar por hoje. —Minha mãe fala e então olho para meu pai. —Eu acho que nunca estive tão doente em toda minha vida.
—Doente? —Meu pai pergunta assustado.
—Djoser está me adoecendo aos poucos. —Minha mãe fala. —Nunca pensei que ele fosse me tratar dessa maneira. Justo ele...
—Não pense mais nele. —Falo ao segurar suas mãos. Logo somos interrompidos por Gab e Lyanna. Minha irmã corre em direção a nossa mãe, mas ela parece sentir que nossa mãe está triste. Lyanna então olha assustada para nosso pai e em seguida para mim.
—A mamãe tá doente, papai? —Lyanna pergunta inocente.
—O que aconteceu? —Gab pergunta e então vem até minha mãe. —Algo com Amenophis? Ashira?
—Djoser. —Meu pai responde.
—Imaginei. —Gab responde mas logo começa a tossir forte. Noto que sua tosse é como a de Zion, forte demais.
—Gab? —Minha mãe chama pelo irmão.
—Não se aproxime. —Gab fala ao ver meu pai se aproximar dele. —Fazem dias que estou assim.
—Zion também. —Falo sem pensar. —Por acaso é alguma epidemia? —Pergunto para minha mãe.
—Devia ter perguntado para Paser. —Fala para si mesma.
—Tio... —Lyanna fala ao se aproximar de Gab, mas ele faz um gesto para que a menina não fique perto dele.
—Venha com o seu pai. —Meu pai fala e então faz por onde Lyanna se afastar de Gab. Minha irmã vai para o colo da nossa mãe enquanto meu pai ajuda Gab.
—Não quero que você adoeça também. —Gab fala enquanto meu pai o ajuda.
—Se sente. —Meu pai pede e então meu tio se senta no divã.
—É melhor chamar Paser. —Minha mãe sugere. —Aproveitamos e sabemos logo o que Zion tem.
(...)
—E então? —Pergunto após Paser examinar Gab.
—Isso nada mais é causado por causa do excesso de areia inalado e levados para os pulmões. —Paser responde deixando todos aflitos. —Deve se tratar e evitar ficar muito próximo das outras pessoas.
—Zion deve estar com o mesmo. —Falo nervosa.
—Me diga, Paser. Tanto Gab quanto Zion podem morrer? —Meu pai pergunta enquanto minha mãe dá atenção para Lyanna adormecida na cama.
—Os dois podem morrer. —Paser afirma. —Mas com um tratamento rigoroso podem se curar.
—Eu não vou conseguir. —Falo nervosa. —Zion nem sequer se importa com isso. Ele não vai cuidar da própria saúde. —Falo e então olho para meu pai. —O senhor pode conversar com ele?
—Não se preocupe, Anippe. Quando Zion me ver morto, vai começar a se cuidar mais. —Gab fala desesperançoso. —É melhor eu ir. Se Lyanna acordar vai querer ficar perto de mim.
—Não pode viver como um leproso. —Falo e então Gab olha para mim.
—Me perdoe, soberana. —Paser faz menção de falar. —A princesa Lyanna ainda é uma criança, indefesa. Se ela adoecer como seu tio, não vai passar nenhum dia ou noite viva. —Fala e então minha mãe olha para nós após a conversa. —Com licença. —Ele pede ao se retirar. Minha mãe então faz carícias nos cabelos de Lyanna enquanto ela dorme.
—Melhor eu não ficar perto de vocês. —Gab fala enquanto olha para minha mãe e Lyanna. —Diga para Zion que ele precisa se tratar. Ele tem uma filha, não deve pensar apenas nele. —Fala, me fazendo pensar. Eu então lembro do segredo que Gab me confidenciou, com isso vejo o quanto infeliz ele está.
—Fique mais um pouco. —Meu pai pede e então sorrio. Vê-los agindo amigavelmente é algo surpreendente.
(...)
—Eu sabia que ia encontrar você aqui. —Uri fala dando leve passos até a janela e ficar ao meu lado. —Gosta de observar tudo daqui de cima.
—Tudo está calmo. —Respondo ainda olhando para a paisagem que tenho da cidade. —Todas as guerras acabaram.
—Parece o paraíso. —Uri fala me fazendo olhar para ele. —Leve como uma pena branca...
—Às vezes eu penso no que seria das almas boas se não existisse paraíso. —Falo, mas meu irmão já não está mais ao meu lado. Era uma melodia calma e suave como o bater das asas de uma ave, era a paz dentro de mim. Posso sentir tantos sentimentos bons que sou incapaz de pensar em algo ruim.
Acordei com o choro nervoso de Ashira em seu berço. Me levantei como de costume e fui até ela em passos leves e rasteiros. —Ela se acalmou assim que beijei seu rosto e a balancei em meus braços. —Ashira repousou sua cabeça em meu ombro, de braços abertos enquanto eu andava de um lado para o outro com ela em meus braços.
—Leve como uma pena branca. —Falo o que Uri me falou assim que vejo uma pena branca no berço de Ashira. —Calma... —Falo ao notar que a inquietação de Ashira são o nascimento de seus dentes. —Você está apenas irritada. —Falo risonha para minha filha. Ela fica sentada na cama quando eu a coloco entre as almofadas. —Mas você fica linda mesmo assim. —Falei. Ashira perdeu seu sono assim como eu, agora terei companhia. Desde que Zion adoeceu que não dormimos mais no mesmo quarto.
(...)
—Acordadas? —Ouço meu pai perguntar ao entrar no jardim sozinho. —Deveriam estar dormindo.
—Minha princesa não tem sono. —Falo olhando para Ashira, ela está olhando para mim e meu pai como se quisesse falar também.
—A minha também não. —Meu pai falou olhando para mim. Acabo sorrindo com seu carinho, com isso abraço meu pai. —Você hoje é rainha do Egito, mas sempre vai ser minha menina. —Fala antes de beijar meu rosto.
—Eu era sua menina até Lyanna nascer. —Falo fazendo meu pai rir. —Agora não sou mais. —Falo.
—Jacó tinha treze filhos. —Meu pai fala pensativo. —E apenas uma filha. —Ele olhou para mim e eu acabei sorrindo. —Eu ainda posso me lembrar de quando você era deste tamanho. —Meu pai falou olhando para Ashira. —Quando eu estava com você em um dos meus braços e Djoser no outro. Com Uri... —Fala saudoso. —Eu me sentia o melhor homem do mundo.
—Mas o senhor é o melhor homem do mundo. —Falo, vendo meu pai chorar logo em seguida. Ashira olha curiosa para meu pai, mas logo em seguida começa a rir ao olhar para mim. —Haja o que acontecer eu quero sempre lembrar que sou sua filha. Não importa nada, pai. Eu posso ter falado muitas vezes o contrário, mas eu não sabia o que estava fazendo. Somente hoje eu posso entender àquela menina que corria para o pai e não para a mãe. —Falo olhando nos do meu pai. —Eu sou sua filha e isso nunca vai mudar.
—Nunca.
"O filho sábio dá alegria ao pai;
o filho tolo dá tristeza à mãe.
Provérbios 10:1"
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