Notas iniciais
No marco de 110 capítulos com reclamações e aplausos, aqui estou eu trazendo mais um capítulo narrado pela rainha Anippe.

—As crianças de Seti. —Amun fala enquanto está no centro do templo acorrentado por várias correntes de ferro. Seu olhar vai de encontro a minha mãe e meu tio Gab. —A rainha Tuya era fraca, sabia? Se ela fosse uma rainha de verdade teria matado Gab ainda no ventre da mãe. —Fala e sorri. —Lhe soa familiar, Henutmire? —Indaga ao fazer minha mãe lembrar dos abortos que sofreu. —Deve se sentir intocável por ter dado um rei ao reino, não é? Carregou um menino no ventre e o criou sem sequer imaginar que ele seria um rei. —Fala. Seu olhar caiu em Djoser, sorrindo como um louco prestes a cometer uma barbaridade.—Espero não ter machucado muito as suas costas. As costas do rei, claro. —Brinca. —Onde está seu marido? Soube que ele voltou dos mortos. —Fala para minha mãe.


—Vou garantir que você não faça o mesmo. —Falo e então faço um gesto para que Zion machuque Amun. Logo um grito de dor saiu da boca de Amun ao sentir a espada bater em suas costas. —Pare de gemer. —Falo ao ouvir seus gemidos de dor. —Na próxima vez a espada irá entrar nos seus pulmões. —Falo enquanto me sento ao lado de Djoser. Meu irmão apenas observa Amun, um pouco sério, talvez pensativo demais.

—Soube que quer mudar seu nome.—Amun fala e então minha mãe olha para mim. Logo um servo se aproxima de Amun e lhe oferece algo para comer.

—Gostou da carne? —Djoser indaga curioso e então olha para Amun. —Me diga...

—Porque me oferece carne? —Amun indaga enquanto come e mata sua fome.

—É de Yaffa. —Djoser fala e então olho assustada para minha mãe. Ela se apavora com a situação, mas logo sorrio ao ver Amun ficar pálido. —Mandei cortar sua filha em pedaços. Se não me engano, a parte que comeu agora é o...


—Meu Deus... —Falo ao ver Amun passar mal e jogar a comida fora. —Você fez isso? —Indago assustada. Olhei seriamente para Djoser, embora ele estivesse rindo. Se eu pudesse esconder minha ânsia detrás dos meus fios loiros, assim faria.

—Claro que não. —Djoser fala e então suspiro aliviada. —Yaffa está muito bem guardada. —Ele brinca e então Amun se recompõe. —Eu fiz isso para você lembrar que matou o meu tio. —Djoser fala e então posso ver o quanto assustado Amun está. —Me diga, Amun. Também quer morrer queimado? —Indaga.


—Sua mãe matou Oritia. —Amun dispara fazendo minha mãe olhar para ele. —Ela também é uma assassina. —Dispara. —Sua mãe cometeu incesto. —Mente e então olha para mim. —Traiu o marido. —Fala. —Trouxe um hebreu para a família real.


—Não. —Minha mãe fala pela primeira vez depois de tempos. —Eu trouxe vários. —Fala seriamente e então sorri de canto. —Um principe que se tornou libertador. Um outro príncipe que se tornou rei. Uma princesa que se tornou rainha. E Lyanna...

—Será a rainha da nova ordem. —Amun interrompe, fazendo minha mãe se calar. —A rainha. —Fala e então sorri. Então a rainha mãe olhou para o homem como se não acreditasse.

—Lyanna não será rainha. —Minha mãe rebate séria. —Isso não vai acontecer.

—Quando você olhar para a princesa Lyanna novamente, com mais atenção... —Amun fala pausadamente. —Vai lembrar de tudo aquilo que você foi. —Decreta. —Lyanna não parece ser sua filha. Parece ser mais filha de Hur. —Ironiza enquanto minha mãe apenas escuta. —Eu desejo confessar um crime. —Fala e então nos surpreende. —O de rejeição. —Fala e então ficamos sem entender. —Duas rejeições. —Fala e então olha para Gab. —O faraó Seti, depois que soube que Gab era seu filho, o rejeitou mesmo assim e nunca deixou esse escândalo sair da sala do trono para fora.

—Isso não é um crime. —Djoser fala tranquilo. —Não seu.

—E Gab rejeitou Henutmire. —Amun fala e então faz feição de surpreso enquanto olho para Gab.

—Como? —Minha mãe indaga sem entender.

—Henutmire, a bastarda. —Amun brinca. —A filha de Gab que levou o seu nome, Henutmire. —Amun revela. Como ele soube disso? —Quer saber mais? Ela, se estivesse viva, teria a idade de Anippe. —Revela.

—Isso é verdade. —Gab afirma e então minha mãe fica nervosa. —Como soube?

—Tenho meus pardais pelo céu. —Amun fala irônico. —Deseja saber quem envenenou você quando estava no acampamento dos hebreus? A cinco anos atrás? —Amun indaga e então fico perplexa. —Foi Yaffa. —Revela. —Eu mantinha contato com ela. —Revela novamente. —Você e sua mãe são difíceis de matar. —Fala e então sorri para minha mãe.


—Mais algum crime? —Minha frieza surpreende Amun. —Talvez o de usurpação. —Falo. —Você matou dois reis e um príncipe. —Falo e então Amun dá de ombros. —Matou meu tio Ramsés, matou Balaque e usurpou o trono dele. E também matou Kamés.


—Kamés... —Amun fala nostálgico. —Quando você embalou Djoser nos braços, acaso notou que ele se parece com Kamés? —Ele pergunta olhando para minha mãe. —Você se parece com sua mãe, sabia? Uma pena ser mais uma cópia barata. —Ele usa de sua ironia para me atingir.


—Eu já sei o que irei fazer com você. —Djoser fala seriamente e então sorri para Amun. —Você vai morrer. Mas não vai ser uma morte rápida, claro que não. —Djoser fala presunçoso enquanto joga as uvas em direção à Amun. —Você vai morrer um pouco a cada dia. —Fala e então Amun olha assustado para mim, mas em seguida olha para minha mãe. —Num dia passará fome, no outro terá que comer aquilo que lhe for oferecido. Seja lá o que for... —O tom de voz de meu irmão me assusta. —Num dia não irá beber, no outro irá beber o que eu quiser. Num dia será afogado ao ponto de perder a consciência, no outro irá enfrentar o fogo até queimar... Algum braço? Perna? Talvez o rosto. —Meu irmão parece se divertir ao falar enquanto Amun se assusta. Djoser se acomoda no trono e então olha para mim. —E como o pior castigo para um homem você será um eunuco. —Foi a pior parte. Meus olhos arregalaram diante da situação de Amun. Minha mãe olhou surpresa para meu irmão, mas nada disse. Djoser é o rei, ela é a mãe dele, mas não pode intervir. E mesmo que eu quisesse, não posso. —Como pior castigo para um pai...


—Não, por favor. —Amun pede enquanto chora por saber que Djoser irá fazer mal para Yaffa. —Não faça nada contra Yaffa. Você a ama, não ama?

—Amei. Não amo mais. —Djoser revela me fazendo tremer perante sua frieza. —Ela é inútil como esposa. Não foi capaz de me dar um filho. Sabe o motivo? —Djoser pergunta irônico. Claro que Amun sabe! Ele mesmo rogou uma praga contra minha família dizendo que a primeira esposa de Djoser nunca seria mãe. —Sua filha está presa nos aposentos dela. Deseja vê-la quando for o dia de sua morte? —Djoser pergunta é posso ver satisfação em seu olhar. —Ou prefere vê-la no dia da morte dela? Sim, irei executar Yaffa antes de você. —Fala. Não é o meu irmão quem está falando, é outra pessoa. Eu me recuso a acreditar que seja Djoser quem esteja falando tudo isso. —Jogar Yaffa em um serpentário me parece ótimo. —Fala. —Você perdeu, Amun. Essa é a única coisa boa que vejo em meio ao caos que cometeu no Egito. —Fala. —Você vai morrer um pouco todos os dias até se lembrar de quem somos...


—Não teria coragem para isso. —Amun fala enquanto o faraó vai até ele. —Estou pronto para morrer.


—Morrer? —Foi a vez de minha mãe perguntar. —Hoje? Agora? —Indaga incrédula, porém risonha. —Você não morrerá por muito tempo, Amun. Você sempre foi audacioso, não foi? —Indaga ao se aproximar de Amun. —Meus leões também são. —Fala risonha, com semblante de perigosa. —Espero que sonhe acordado, Amun. Porque você nunca mais irá dormir, somente no dia de sua morte. Que irá demorar... —Fala.


—Vai fazer pior que Seti quando os revoltosos do norte foram afrontosos. —Amun fala para minha mãe. —Seti enterrou o castelo da família nortenha com areia. Areias do deserto, Henutmire. Cada homem, mulher e criança... Soterrados e seus gritos sendo ouvidos enquanto Seti mandava seus músicos cantarem cada vez mais alto. —Revela. —Eram crianças chorando e mulheres orando enquanto os homens gritavam. E o chefe da rebelião...

—Ergueu seu próprio palácio. Deu para sua esposa diamantes maiores que minha mãe usou. —Minha mãe fala pensativa. —E no final tudo está lá. Abaixo de Philae. —Foi quando olhei para Djoser. Eu acabo me lembrando de quando insisti em ir para Philae ser sacerdotisa.


—Mas agora as chuvas choraram em seu salão sem ninguém lá para ouvir. —Amun fala olhando para mim como se estivesse profetizando algo horrível pra mim. Olhei seriamente pra ele, embora eu tenha medo. Suas palavras permaneceram em minha mente como uma melodia tenebrosa e sombria, mas calma. Uma calmaria um tanto traiçoeira que faz meu coração se inquietar ao ponto se senti-lo bater forte.


(...)

—Ainda assustada? —Zion pergunta depois do julgamento de Amun. —Djoser foi muito... Não encontro adjetivo.

—Eu nem sei o que pensar. Djoser vai ferir Amun da pior maneira possível. Ali não era o meu irmão, aquele era o faraó. —Falo enquanto vejo minha filha brincar com meu cabelo. Seu sorriso vazio me faz sorrir também. Por segundos posso sentir que estou no céu.

—Ela te ama. —Zion fala ao se sentar ao meu lado. Fico nervosa diante da situação, mas logo sorrio ao ver que Zion ama Ashira. —E eu também te amo. —Ele fala e então beija meu rosto. —Eu amo vocês duas, saiba disso. Vocês duas são minha minha família. Durante a guerra quando eu quase desisti diante do medo e fraqueza me lembrei de vocês duas.


—Eu te amo, Zion. —Falo fazendo os olhos dele brilharem. —Você é o melhor pai que minha filha poderia ter. —Falo enquanto sinto o peso de cada palavra. As lágrimas escorrem pelo meu rosto ao ver que Zion me ama.


—Não precisa chorar. —Zion fala. —Você não é de chorar. —Fala me fazendo rir. Volto minhas atenções para Ashira e a vejo concentrada em nós dois. —Usar o nome de seu pai antes do nome da sua mãe é abrir mão da coroa. Mas isso não te faz ser mais ou menos filha deles. Mas me orgulha. —Ele fala me fazendo sorrir. Raramente ouço alguém falar que sente orgulho de mim. —Você está pronta para abrir mão da coroa e viver apenas como minha esposa? —Ele pergunta preocupado e então sorrio.

—Se for preciso, sim. —Falo. —A coroa não é nada diante do que posso ter. —Falo ao olhar para Ashira.


—Você já tem. —Zion fala ao me envolver em seus braços. —Vamos cuidar de você, Ashira. Até você entender e depois disso também. —Fala zeloso. Ashira fechou os olhos lentamente, se entregando ao sono novamente.

(...)


—Você teve uma filha... —Ouço minha mãe falar assim que passo pelo santuário. —E ela tinha meu nome.


—A mãe dela não sabia sobre meus sentimentos por você, nem que éramos irmãos. —Gab fala tranquilo. —A menina morreu faz anos.


—E mesmo assim você nunca me contou. —Minha mãe fala aflita. —Pensei que você iria me contar algum dia. Eu passei a confiar em você.

—Não gosto de falar sobre isso. —Meu tio rebate deixando minha mãe em uma saia justa. Ela fica sem reação, mas logo abraça o irmão. Foi a atitude que mais me chamou a atenção. Por não saber como consolar o irmão, minha mãe apenas lhe ofereceu um abraço.

—Ele está triste? —Lyanna me assusta ao fazer tal pergunta. Logo eu noto que a menina também está escondida e ouvindo a conversa.


—Está sim. —Respondo. —Mas eu acho que a mamãe vai dar um jeito nisso. —Falo risonha ao ver que finalmente os dois se entendem. Logo eu vejo Lyanna correr até Gab, tento fazer por onde minha irmã não ir, mas ela vai mesmo assim.

—Onde você estava? —Minha mãe pergunta para Lyanna. Logo a menina entrega algo para Gab. Algo que o faz sorrir. —Estava fazendo bagunça no jardim? —Minha mãe indaga e então vejo Lyanna recuar. Mas logo minha irmã recebe um abraço de Gab. Eram pequenas flores azuis, as que Gab sempre deu para Lyanna. Talvez Lyanna seja o suficiente para preencher o vazio que há em Gab.

—Obrigado, Lyanna. —Gab agradece. —Mas nunca mais tire as rosas do jardim. Você sempre faz bagunça. —Ele fala em um tom sério, mas logo sorri. —Não faça mais isso, me peça qualquer outra coisa. —Ele fala com seu tom engraçado.

—Me ensine a usar uma espada. —Lyanna pede me deixando surpresa. Por um momento pensei que ela fosse pedir uma boneca. —Eu sempre vejo Djoser usar uma.

—Você é muito pequena. —Gab fala e então Lyanna olha para nossa mãe. —Mas até ficar mais velha pode me ver lutar, não pode, Henutmire? —Ele pergunta para a minha mãe.


—Claro que pode. —Minha mãe responde. Minha mãe pediu tanto para que Djoser fosse uma menina somente para ele não ir para uma guerra, ficou aliviada por me ter, mas mesmo assim dei um jeito de ir para a guerra em Moabe. Agora Lyanna pede para manejar uma espada, mesmo que com apenas cinco anos, quase seis. Algo me diz que Lyanna dará um pouco de trabalho. —Mas até lá não vai pegar em nenhuma espada, entendido? —Indaga.

—Mas o papai disse que não teria problemas. —Lyanna fala e então minha mãe nega. —Mas, mãe...


—Não, Lyanna. —Minha mãe nega novamente. —Seu pai disse que não teria problemas, mas quando você estiver maior.

—Mas, mãe...

—Escute sua mãe, pequena Lyanna. Uma espada é muito pesada. Se você segurasse uma, certamente iria cair com o peso dela. —Gab brinca e faz Lyanna sorrir. Logo eu vou embora e paro de escutar a conversa, mas assim que olho para minha frente vejo meu pai vindo em minha direção.

—Pai... —Falo sorridente.

—Você está bem? —Ele pergunta.

—Agora que perguntou notei que não estou tão fraca como antes. —Falo para sua alegria. —Estou melhorando aos poucos. Já era tempo, não acha? Eu não poderia passar o resto da minha vida tão doente após um parto.

—Mesmo assim. —Meu pai fala enquanto caminhamos juntos. —Você não desistiu não foi? Em mudar o seu nome.

—Claro que não. As pessoas vão aceitar quem eu sou e o que sou, mas vão aceitar também que sou sua filha. Não posso aceitar tudo isso. —Falo.

—Você tem que entender que ainda há pessoas que não me aceitam. —Meu pai fala sem medo. —Por quê sou um hebreu. Mas você é uma rianha híbrida, Anippe. Se Ramsés quis colocar o nome de sua mãe antes do meu no papiro onde reconhece você como membro real, que mal há nisso?


—"Você tem que entender que ainda há pessoas que não me aceitam." —Repito o que meu pai acabou de falar. —Como vão me aceitar também? —As palavras secarem em sua garganta e não mais brotaram em sua boca com o que acabo de perguntar.

—Mudar o seu registro real vai apenas piorar a situação. —Meu pai acaba me convencendo. —Você vai perder a coroa. Vai deixar de ser rainha. Você mesma disse que seu reinado estava apenas começando. —Meu pai fala seriamente. —Você pode abrir mão de tudo e depois querer novamente. Tudo, menos a coroa. —Suas palavras acabam congestionando meus pensamentos. Não consigo pensar de forma correta agora que meu pai foi tão sincero. —Usar o nome da família real egípcia tem mais valor. Você é minha filha, isso é real. Também está registrado nos registros reais deste palácio.


—Eu vou pensar. —Falo seriamente ao ver que meu pai está apenas preocupado. —Se eu abrisse mão do trono, Ashira não poderia me suceder, não é?


—Não. —Meu pai afirma sinceramente.—Lyanna ocuparia o seu lugar como rainha do Alto Egito. —Fala. Eu então posso me lembrar de alguns servos cantando a canção que Djoser criou para Lyanna. Me lembro também da profecia que Amun fez contra minha mãe.


—Não vou mudar os registros. —Falo repentinamente. —Não agora. —Falo pensativa.


Agora eu posso entender tudo. Estou em um lugar que não é meu. Lyanna é a rainha do Alto Egito, não eu. A coragem, o brilho que existe em Lyanna é tudo o que há de diferente em mim. Distinta na cor, como Amun mesmo disse, não seria o favoritismo de minha mãe pelo azul, nem o meu pelo vermelho. A diferença são os olhos de Lyanna. Ela é a única dos três filhos que não tem os olhos azuis. Lyanna estava no ventre da minha mãe quando Amun fez a profecia. "Chegará" foi uma maneira agridoce de falar que a nova rainha ainda nasceria.

—Anippe? —Meu pai chama por mim enquanto penso. —Ficou calada de uma hora para outra. Está se sentindo bem? —Pergunta enquanto penso na gravidade deste problema.


—Acho que sim. —Respondo enquanto meu pai sorri para mim. —Eu acho que preciso sair um pouco do palácio e esquecer tudo isso. —Falo nervosa. —Conversou com Djoser?

—Sobre a sentença que ele deu para Amun? Ou melhor, as sentenças? —Meu pai pergunta e eu nego.

—Falo sobre a discussão que ele e minha mãe tiveram. —Relembro o meu pai. —Falou com meu irmão?


—Ele está muito confuso. —Meu pai revela. —Mas levando em conta que ele castigou Amun como deveria.


—Torturas. —Falo. —As piores que se pode imaginar.

—Djoser sente ódio por Amun, todos nós. Mas Djoser odeia mais. —Meu pai fala e segura minha mão. —Se Amun tivesse mesmo me matado você teria feito pior que Djoser. Eu sei que teria feito.


—Acho que meu irmão herdou isso de minha mãe. —Falo.

—Isso? —Meu pai pergunta sem entender.

—A forma que gosta de punir as pessoas. Nunca esperei que minha mãe colocasse fogo em um templo. Muito menos que Djoser fosse capaz de torturar Amun. —Falo fazendo meu pai pensar. —Acho que meu irmão e minha mãe são mesmo uma coisa só. Tanto para o bem quanto para o mal.

—Sua mãe já se arrependeu de muita coisa. —Meu pai fala enquanto eu concordo. —O peso da coroa muda as pessoas. O que sua mãe era até então? Ela aprendeu a ser uma princesa, não uma rainha. Sua mãe falhou, ela se deixou levar pela coroa. —Fala. —Nefertari pediu para que Henutmire não se deixasse levar, mas ela deixou. —Meu pai fala enquanto andamos com mais calma. —Djoser também. Ele não foi educado para ser rei, nem mesmo Amenhotep foi. As coisas aconteceram rápido demais. —Ele fala e eu sorrio. —O que há debaixo do véu do rei? Um filho, um irmão, um pai de um recém nascido. —Meu pai fala sobre Djoser. —Mas se colocamos a coroa sobre ele e um véu de ilusão, perfeito. Existe um deus ali, um rei. —Meu pai fala com um certo sarcasmo. —O mesmo foi com Henutmire. Hoje ela não é rainha, não gosta de lembrar que falhou. Esse foi o único erro de sua mãe, ser a rainha. E eu temo que você faça o mesmo, Anippe. —Meu pai fala aparentemente preocupado. —Você é minha filha. A terceira a nascer, porém a primeira filha. —Meu pai fala orgulhoso. —Uri era minha continuação. —Ele fala visivelmente triste pela morte de Uri. —Djoser é meu orgulho, mas você é meu amor. Minha primeira filha.


—E Lyanna? —Pergunto.

—Lyanna é minha alegria. A alegria que tive após perder a minha continuação que era Uri. —Meu pai fala ainda intrigado pela morte de Uri.

—Eu sonhava muito com ele. —Revelo. —Sonhos... Apenas sonhos. —Falo ao tentar explicar os sonhos que eu tinha. —Uri era o filho mais velho. Sei o valor que ele tinha para o senhor.


(...)

—Mãe? —Indago para mim mesma ao ver minha mãe andar de um lado para o outro no jardim. —Aconteceu alguma coisa para a senhora estar assim? —Indago ao me aproximar com cuidado.

—Radamés. —Minha mãe responde e então suspiro. —Eu sempre soube que ele nutria um sentimento por mim, mas...

—Mas? —Indago com a intenção que ela termine de falar.

—Isso não é assunto para eu falar para você. —Minha mãe fala nervosa. —Mas eu preciso falar para alguém. —Ela fala e então nos sentamos.

—Eu acho que vou ter que dar um jeito nele. —Falo ao ver o tamanho do problema. —O que ele fez?

—Radamés sempre me amou, disso eu sei. Me pediu em casamento mesmo sabendo que Hur estava vivo. Ele pensava que eu poderia largar Hur e viver com ele... —Minha mãe fala com um certo receio. —E agora ele me propôs outra coisa.

—Fugir? —Pergunto irônica.

—Ser amante dele. —Minha mãe responde me causando medo. Mas o que é isso? Ele enlouqueceu? Eu estou tão nervosa que nem consigo pensar. —Me propôs isso e sinceramente não sei o que fazer.


—Mandar ele para longe. —Falo. —Ele disse isso diretamente?


—Insinuou. —Minha mãe fala nervosa. —Disse que se eu não o quisesse como marido, eu poderia ter ele de outra forma. —Fala e então fico sem reação.


—Eu não acredito. —Falo. —Eu vou dar um jeito nisso sem que ninguém saiba desta proposta. —Falo pensativa. —Djoser está muito transtornado, mandaria matar Radamés por isso e seria um escândalo. —Falo, mas logo pulo de susto ao ouvir um grito de pavor e agonia. —O que foi isso, mãe?

—É o seu irmão. —Minha mãe fala e então arregalo os olhos. —Ele está punindo Amun. —Fala e então escutamos outro grito de dor. —Com ferro e fogo na pele de Amun.

—E Yaffa? —Pergunto. —Aquela maldita que quase me fez perder Ashira? Onde ela está?

(...)

—Bom dia, cunhada. —Falo com toda minha ironia ao entrar nos aposentos de Yaffa. Vejo ela chorar ao ouvir o pai gritar de dor em frente ao palácio, por isso respiro fundo. —Como você está? Espero que infeliz. Caso contrário, faço esse favor para você. —Falo com as mãos escondidas.


—O que você quer? —Ela pergunta ainda chorando. —Sua mãe matou a minha mãe. Seu irmão vai matar o meu pai. O que vai fazer comigo? —Ela pergunta fora de si enquanto chora. —Eu não tenho meu filho comigo por culpa da sua mãe.

—Culpa do seu pai. —Falo. —Eu quase perdi minha filha. Mas não perdi. —Falo risonha. —Mas a queda que levei gerou consequências, Yaffa. Eu não posso mais ter filhos graças ao parto forçado que tive. —Falo e então mostro o chicote em minhas mãos. —Sabe a dor que senti? Era como um chicote em meu ventre. Estalando e ferindo depois do que você fez.

—Não pode me agredir. —Yaffa fala ao se afastar aos poucos. —Djoser vai saber... —Ela fala e então sorrio.

—Eu poderia quebrar seus dentes. —Falo ao me sentar no divã. —Mas você precisa sorrir para Djoser. —Falo irônica diante do medo dela. —Poderia quebrar suas mãos. Mas com a raiva que sinto eu seria capaz de decepar suas mãos sem nenhum punhal. —Falo fazendo Yaffa se assustar. —Eu sei o que você fez. Me envenenou no deserto. —Revelo. —Você é prisioneira de Djoser, não esposa. Você não é minha serva, você é minha escrava. —Minhas palavras fazem Yaffa recuar novamente. —Prometo que vai passar logo. —Falo ao contorcer o chicote duas vezes. —Vou machucar do pescoço para baixo, certo? Meu irmão ainda precisa de você. Mas com o rosto impecável e com todos os dentes no lugar. Fora isso... Acha que devo bater primeiro nos braços? —Pergunto. —É melhor que você não corra. Porquê se você correr, vai ser pior. —Falo. Então vou até ela, mas ela recua e dá as costas para mim. Quando o chicote estralou nas costas de Yaffa, seu grito foi ainda mais estridente que o grito de Amun.


—Anippe! Pare com isso! —Halima pede ao entrar no local e ver Yaffa prostada no chão. —Você vai matar ela! —Ela fala angustiada e então segura em suas vestes azuis ao ouvir Yaffa gritar. —Amun está sendo ferido com ferro lá fora, Yaffa não precisa sofrer mais hoje.

—Se você falar mais alguma coisa, você também vai apanhar. —Falo e então assusto Halima. —Isso é para ela nunca mais fazer mal para mim ou para Ashira. —Falo brava enquanto bato em Yaffa. Ela então se levanta e corre, sendo assim somente a cama fica entre nós. —Volte aqui ou será chicoteada. —Falo ao estralar o chicote contra o chão. Yaffa então chora ao cair no chão de tão cansada que está. Suas lágrimas são de dor, mas nem por isso fraquejo. Sua carne irá arder em chamas...

Notas finais
Anippe põe fogo em todos os sentidos. Gente, me perdoem os erros ortográficos. 110 capítulos não é pra qualquer um, ler cada capítulo cansa. Mas é isso aí, 559 comentários não é pra qualquer um. Outra coisa, um beijo pra quem lê e comenta. Dois beijos e uma vergonha na cara de quem lê e não comenta. Isso é desestimulante demais, vocês não fazem ideia. Ultimamente vocês não comentam tanto quanto antes. Mas é isso aí, um beijo no coração de seda de cada um.