Coração De Seda
107 Capítulo 107
Notas iniciais
—Pensando na nossa filha? —Zion pergunta enquanto olho para o que vem pela frente.
—Fazem quatro dias que estamos fora de casa e eu sinto como se eu estivesse fora por cem anos. —Falo fazendo Zion sorrir. —Eu nunca pensei que fosse sentir isso.
—Falta de casa? —Ele pergunta enquanto andamos.
—O que toda mãe sente quando está longe do filho. —Falo fazendo Zion ficar incrédulo. —Eu estava com medo disso. Eu estava com medo de sentir medo por outra pessoa. Mas quando eu tive Ashira nos braços eu vi o mundo de outra forma. Aquele pequeno ser estava derrubando todos os muros que existiam em mim.
—E você? Sente medo por isso? —Zion pergunta ao acariciar meu rosto.
—Sinto medo de nunca mais vê-la. De nunca mais saber onde ela está. —Falo amedrontada pela hipótese de ter minha filha arrancada de mim. —Nossa filha não é saudável e eu não posso mais engravidar, Zion. As vezes eu acho que isso pode ser um castigo.
—Por ter sido uma má filha quando adolescente? —Zion indaga ao desenterrar tudo o que fiz com meus pais. Mas eu me refiro ao meu pecado com Arão.
—Isso também. —Falo com a voz embargada. —Mas se caso alguma coisa me acontecer...
—Nada vai acontecer. —Zion me interrompe e então sorrio. —Não precisa pedir para ninguém ficar responsável por Ashira caso você morra, Anippe. Eu farei isso. —Fala. —Mesmo que Ashira não fosse minha filha eu cuidaria dela. Porquê ela é filha da mulher que eu amo. —As palavras de Zion me deixam um pouco confusa, mas ao mesmo tempo aliviada. Logo em seguida o abraço forte e ouço sua risada.
—Eu não sei o que seria de mim sem você. —Falo ao abraça-lo ainda mais forte. —Não tem como uma pessoa ser igual a outra, não é?
—Por quê pergunta isso? —Zion pergunta ao acariciar meu rosto.
—Porquê eu cresci vendo o amor dos meus pais. E ao ver eu queria pelo menos viver um algo igual com alguém. —Falo pensativa. —Com você. —Quem sabe, penso. Uma vez eu amei Zion, porque não consigo novamente? Todas as vezes que nos beijamos é Zion quem dá o primeiro passo, nunca eu. Tento insistentemente unir nossos lábios, mas eu mesma abaixo meu rosto.
Zion então beija minhas bochechas e me faz rir. Ele se alegra e então olho em seus olhos. Será possível que o amor que tenho por Arão vai mesmo me fazer por onde nunca mais amar Zion? Não! Eu já amei Zion, posso amar novamente.
—Seja paciente com você mesma. —Zion fala. —Sei que está nervosa desde que nossa filha nasceu. —Meu marido fala e então fico aliviada.
—Me dê tempo. —Peço. —Não desista de mim...
—Claro que não. —Zion afirma paciente enquanto olho em seus olhos. —Eu estou com você justamente por isso. Na saúde, na doença. Na paz ou na guerra... —Ele fala me fazendo rir. —Eu te amo, Anippe. E quero que você saiba disso. —Zion fala e então uno nossos lábios suavemente. Aos poucos intensifico nosso beijo, deixando claro que o desejo. Fico um pouco envergonhada, mas rapidamente me lembro que eu e Zion já somos marido e mulher. Não posso deixar de ser feliz e nem posso prender Zion. Eu devo ama-lo como um dia amei. Mesmo que eu minta sobre a paternidade de Ashira.
(...)
—Não quero mais. —Falo para Zion que me oferece o jantar.
—Pensei que ainda estivesse com fome. —Zion fala.
—Estou enjoada. —Falo. —Deve ser a ansiedade.
—Sempre ansiosa. —Zion brinca. —Sempre dizendo seus desejos e em seguida sendo imprevisível.
—Sempre. —Falo. —Preciso de sua sua ajuda.
—Diga.
—Djoser e minha mãe brigaram. —Minhas palavras fazem Zion se engasgar com seu vinho. —Zion?
—Me perdoe. —Ele pede. —Nunca pensei que algo desse tipo fosse acontecer.
—Mas aconteceu. —Falo. —Você sabe o quanto minha mãe adora Djoser, sempre foi o filho favorito dela. Mesmo eu tomando a maior parte do tempo dela e de meu pai com minha rebeldia, Djoser é o filhinho amado dela. Do meu pai nem tanto, não que meu pai não goste do meu irmão, mas... Djoser é o primogênito dela. E nada é mais importante que o primeiro filho. —Falo. —Meu pai sempre aconselhou Djoser e meu irmão sempre o obedecia, e obedece até hoje. Mas, me perdoe pelo o que vou dizer agora, sempre vi que minha mãe dominava até os sentimentos de meu irmão. Desde criança ela tinha esse dom. Enquanto meu pai apenas falava para meu irmão que os filhos devem obedecer seus pais. —Falo lembrando de meu pai e meu irmão. —Acho que por ser seu primeiro filho, minha mãe se acha no direito de proteger meu irmão em demasia.
—O que quer que eu faça? —Zion indaga curioso.
—Você e Djoser são cunhados agora. —Falo. —Pode conversar com ele.
—E acha que isso vai adiantar? Djoser brigou com a mãe e não com uma serva. —Zion fala me surpreendendo. —Mas eu falarei com ele. É capaz de minha sogra adoecer.
—Ela já está. —Falo para Zion. —Minha mãe é sentimentalista, você sabe bem disso.
—Vi quando ela passou mal antes de seguir viagem. —Zion confessa. —Acha que isso se deve ao fato dela e de Djoser estarem brigados?
—E pelo fato de Gab estar com Amun. —Falo. —Eu também ficaria assim, afinal Amun é um homem sanguinário.
—Não sei como ele pode pensar em ficar no trono. —Zion fala. —Ele não direito algum.
—E mesmo que quisesse. Nem mesmo Gab que é o filho mais velho de Seti ficou no trono. Até mesmo Ramsés que foi rei, morreu. A única que pode estar no trono é minha mãe. —Falo estarrecida. —Eu vou fazer por onde honrar o nome dela.
—Não deveria fazer nada. —Zion fala preocupado enquanto olha para mim. —Você ainda está doente, Anippe.
—Não estou. —Nego, minto na verdade. —Estou ficando melhor. —Minto novamente. Zion sabe disso e acaba rindo.
—Você é muito teimosa. —Zion fala me fazendo sorrir. —Mas eu vou te ajudar.
—Eu sei que vai. —Falo na esperança de fazer com que minha mãe e meu irmão sejam o que um dia já foram. —Eu ainda posso lembrar da expressão do meu irmão quando minha mãe feriu o rosto dele. —Falo. —Não era Djoser quem estava ali, o olhar era de outra pessoa...
—Djoser não é mais um menino para sua mãe ainda ter as rédeas da vida dele. Djoser já é pai, sua mãe não pode simplesmente sair batendo nele por aí como se fosse algo normal. —Zion fala seriamente me fazendo ter medo dele. Mas logo meu marido volta com seu semblante sereno de sempre.
—Você tem razão. —Afirmo. —Ainda me lembro de quando ela faz o mesmo comigo. Me lembro ainda melhor de quando Djoser quase me bateu também.
—Como? —Zion indaga incrédulo e vem até mim. —Quando foi isso, Anippe?
—Faz algum tempo. —Falo assustada pela reação de Zion. —Esqueça isso, já passou.
—Eu não estou gostando nada disso. —Zion revela. —Djoser está... Estranho.
—Eu tenho medo que meu irmão fique enlouquecido com o poder. —Falo. —Eu não vejo Djoser sendo ambicioso, mas posso ver ele sendo autoritário.
—Pior que Ramsés? —Zion indaga.
—Pior que minha mãe. —Falo. —Ela quase enlouqueceu quando rainha.
—A loucura real. —Zion brinca. —Você não pode ficar mais louca do que já é. —Ele fala e então meu riso passa a ser de nervoso. —A sua família não é originada de incesto como as outras dinastias, não é? —Se assim fosse justificaria tanta loucura.
—De maneira alguma. —Falo e então sorrio ao lembrar que quase houve um incesto entre minha mãe e Gab. É que melhor, ou pior, eu e Djoser já nos beijamos. Mas isso não é nada comparado ao que poderia acontecer com minha mãe e meu tio.
—Nenhum? —Zion pergunta com um sorriso malicioso nos lábios. Logo chego a suspeitar da curiosidade de Zion. —Tem certeza?
—Absoluta. —Falo irritada. —Não existiu nenhum.
—Você sabe que Amun está falando que além da senhora Henutmire ter tido um breve caso com Gab, diz também que você e Djoser praticaram incesto? —Zion pergunta.
—E você acreditou? —Indago incrédula.
—Claro que não. —Zion fala me deixando aliviada. Eu então suspiro e vejo ele vir até mim. —Amun fala isso porque não tem mais armas para se defender. —Ele fala seguro. —Você e Djoser podem ser irmãos, o incesto pode até ser permitido, mas eu sei que você nunca iria sequer beijar seu próprio irmão. —Zion fala me fazendo lembrar da travessura que eu e Djoser fizemos. Ainda posso me lembrar do olhar assustado de Uri. Mas isso não importa agora, já passou.
—Amun está assustado. —Falo. —Ele sentiu que eu não sou como minha mãe. Ela pensa duas vezes antes de fazer alguma coisa, mesmo sabendo que vai fazer o que deve. —Falo risonha ao lembrar da minha mãe e do quanto ela se esforça para se redimir. —Mas eu não. Eu não tenho porquê pensar duas vezes. Amun matou Kamés e Ramsés, meus tios, quase me fez enlouquecer pensando que ele também matou meu pai. Amun um dia pode até ter amado minha mãe, mas a única coisa que ele deseja agora é o reino, o trono da minha família. Ele pegou o trono de Moabe para si, não vai pegar o meu trono também. —Falo com firmeza.
—Olhe em sua frente. —Zion fala mudando de assunto. Eu então vou para a ponta da embarcação e posso ver o sol brilhar e as nuvens no céu. —Sabe onde estamos? —Ele indaga.
—Chegamos antes do previsto. —Falo ao ver o palácio de Elda. Tão diferente do meu, diferente de qualquer outra coisa que já vi. A cidade é diferente como pensei. —Chegamos em Moabe. —Falo e então olho para a frota de navios que estão próximas umas das outras. Olho fixamente para o palácio e sorrio. É lá onde Amun está. Será lá o seu decreto final. —Meu reinado está apenas começando —Foi a única coisa que falei ao ver cada navio se aproximar do reino.
(...)
As vezes eu acredito na profecia de Amun, onde ele mesmo disse que viria outra rainha, distinta na cor, ocupar o lugar de minha mãe. Amun também disse que a primeira esposa de Djoser teria o ventre seco. No entanto, Halima e Yaffa estavam grávidas do meu irmão. Quando Djoser se casou primeiro foi com Yaffa, depois com Halima. E o resultado foi certo: Minha mãe fez o parto de Yaffa e recebeu um neto morto nos braços.
—Aquele é Djoser? —Indago ao ver um homem muito parecido com meu irmão se aproximar com sua guarda. Sim, é meu irmão. —Já está pronto? —Indago ao ver Zion preparado para a guerra.
—Vou lutar ao lado do seu irmão. —Zion fala e então sinto meu coração bater forte. —Na linha de frente.
—Como? —Foi a minha vez de ficar surpresa com Zion. —Se você realmente for lutar na linha de frente com meu irmão... —Falo enquanto Zion se prepara. —Não me deixe sozinha no mundo. —Peço ao segurar com força o braço dele. De uma hora para outra me bateu um desespero inexplicável.
—Já está pronto? —Djoser pergunta para Zion.
—Estava esperando você. —Zion fala antes de montar em seu cavalo.
—Não se preocupe, Anippe. Ele volta para você. —Djoser fala.
—Tenham cuidado. —Peço. —Amun é traiçoeiro. —Falo seriamente. —Não me deixem lutar sozinha.
—Qualquer coisa que acontecer com nós dois... —Djoser fala olhando para mim. —Espero que nossos filhos ou até mesmo Lyanna governe o reino. —Djoser brinca —Não se preocupe, Anippe. Somos da tribo de Judá, nosso estandarte é um leão. Quem pode ser traiçoeiro com um leão?
—As serpentes. —Falo e faço meu irmão se lembrar das histórias que nossa mãe contava.
—Se eu morrer... —Djoser faz uma breve pausa. —Não leve meu corpo para nossa mãe.
—Se eu morrer antes... Ponha meu corpo em uma embarcação no Nilo. Sou filha do Nilo não sou? Deixe-o me levar para onde quer que seja o lugar onde os mortos vão. —Falo. —Mas não fale disso agora. Vamos ganhar essa guerra. —Afirmo. —Traga Gab vivo e Amun amarrado aos cavalos. —Sorrimos então. Djoser e Zion se vão e a cada momento em que eles ficam distantes eu fico nervosa.
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