Você continua o mesmo.
Pretensioso, pedante, metido.
Igualzinho… Talvez com o cabelo um pouco mais curto.

~#~

Querido diário,

[...] hoje o dia não foi lá essas coisas. Eu e Neji não estamos muito bem, eu não entendo o que está acontecendo, desde que contei que vou ter de me mudar para Nova York, ele está diferente, distante, mais arrogante parece. Será que ele está gostando de outra pessoa? Meu Deus, não pode ser, é paranoia minha. Mas ele está implicando muito mais com minhas manias, sei que não sou a pessoa mais normal e organizada do mundo, mas isso não era problema pro Sr. Mauricinho.

Bem que diziam que nós éramos opostos.

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O ar de Konoha era tão diferente do de Nova York… Era puro. Não tinha toda aquela cadeia de prédios que me dava claustrofobia, não. Konoha era livre disso, as pessoas sorriam por vontade e não por educação. E eu não podia acreditar que estava de volta à minha pequena cidade.

— Tenten-chan! – gritara Hinata. Ao seu lado estava Ino, elas haviam dito que me esperariam no aeroporto.

— Hina, Ino! – o tempo que passei falando inglês me desacostumou a usar os sufixos japoneses, o que de certa forma era ruim. Deixando minha mala de lado, me atirei num abraço demorado com as duas.

Minhas amigas estavam diferentes. Ino havia repaginado seu estilo – e com certeza o de Hinata também -, e estava mais alta. Já a Hyuuga não se escondia mais nos moletons largos, seu cabelo havia crescido até a cintura, os seios estavam imensos (que inveja!), e ela parecia mais à vontade consigo mesma.

— Menina, que estilo! – exclamou Ino. – Toda americanizada, tá até de cabelo solto!

Sorri meio torto. Eu também tinha mudado um pouco, aprendi a ser “mais feminina”. Em geral eu gostava do meu cabelo preso, mas já não era um crime soltá-lo. Aprendi usar maquiagem, roupas que me valorizam mais, entre outras coisas. Mas nunca consegui deixar alguns costumes para trás, como as camisetas largas que me deixavam confortável.

— Ten-chan, já tem lugar para ficar? – perguntou Ino, enquanto caminhávamos para longe do aeroporto.

— Sim, meus pais não venderam nosso apartamento. Acho que eles já sabiam que eu ia voltar, mas até que tudo esteja organizado, vou ficar na casa da Hina. Para onde vamos agora? – paramos de frente para um carro escandalosamente amarelo.

— Para o meu apartamento. – respondeu Ino, enquanto abria o porta-malas e me ajudava a levantar a mala grande e pesada.

Hinata sentou no banco passageiro da frente, pois já havia alguém no volante, alguém que eu (tolamente) não reconheci de imediato, só depois de ver o largo sorriso no retrovisor e ouvir:

— Bem-vinda de volta, furacão Tenten.

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— Caramba, e lembra daquela vez que você tava bêbado Naruto, daí você deitou em cima da bancada da casa do Sasuke e dormiu, e enchemos sua mão de ketchup, mostarda e xixi do Bart, e fizemos você passar na cara! – disse caindo na gargalhada junto do meu amigo loiro.

— Eu nunca quis tanto matar um gato na vida!

Nós já estávamos na porta da floricultura da Ino, onde em cima era a casa dela. No caminho, descobri que Hinata – finalmente – acatara um namoro com Naruto, já fazia quase dois anos. Ino estava pra se formar em Biologia, e se especializaria em botânica para cuidar da floricultura da família, e eu sentia que ainda faltava muito a se descobrir.

Depois de pegar minha mala, entramos no apartamento estranhamente escuro de Ino. Eu já suspeitava o que sucederia: Dois tubos de confete foram estourados, a luz foi acesa e naquela sala dez pessoas gritaram “Bem-vinda de volta furacão Tenten!”.

Furacão Tenten. Era o apelido carinhoso que me deram. Meu coração apertou-se dentro do peito, todos os sentimentos que havia reprimido por anos devido à insegurança agora estavam estourando a portinha da gaiola para sair. Todos os meus amigos estavam ali, haviam continuado ali por mim, não me esqueceram.

— Gente, valeu! – exclamei com a voz embargada e corri para abraçar todo mundo.

Depois de todo aquele abraça, chora, abraça, chora, beijo na bochecha, “nossa, você ta diferente!”, abraça, “americanizada”, chora, “saudades”, “saudades também”, trouxeram para sala uma garrafa de uísque e começamos a beber enquanto fazíamos uma sessão nostalgia, relembrando os melhores momentos do fundamental e do ensino médio.

Ouvi empolgada as histórias que se passaram durante a minha ausência, morrendo de vontade de ter participado. Igualmente, eles ouviam as minhas histórias sobre NY, as baladas diferentes, casas de shows, festivais, provavelmente com o mesmo sentimento de querer ter acompanhado.

Durante as histórias lá de nossos dezessete anos, eu percebia que eles evitavam tocar o fato de que eu namorei o –argh!– primo da Hinata. Não me incomodaria lembrar do que passei, só o final. Me incomodaria se ele estivesse ali.

~#~

— Tchau Temari. – disse para minha amiga.

Todos já haviam ido embora, e agora estávamos ali na porta da floricultura à quase quatro da madrugada. Ino estava com Gaara aos beijos num canto, ele dormiria ali aquela noite.

— Ino, eu vou com a Hina e o Naruto. – avisei, e ela interrompera o beijo desajeitadamente, me fazendo rir. – Obrigada por ter organizado tudo isso pra mim no seu apê.

— Não tem nada Ten, aparece aí amanhã. – ela piscou um olho.

Entrei no carro amarelo de Naruto, que deixaria Hinata em sua casa, onde eu passaria algumas noites. Depois de saber que Hinata estava namorando, pensei que seria um incômodo e que pagaria vela, mas ela disse que Naruto ia viajar no domingo para resolver umas coisas com o pai e que eu jamais a incomodaria.

Fomos deixadas na porta da casa dela e o loiro não entrou. Eu fingi que estava falando com alguém no celular enquanto eles ficavam naquele melo-melô de beijo, que não chegou a ser pior que o de Ino e Gaara (safadeza 100% aqueles dois).

Naruto arrancou com o carro e foi embora, e Hina procurou as chaves em sua bolsa.

— Estranho, eu não tinha deixado nenhuma luz acesa. – murmurou enquanto abria a porta.

Eu deveria ter corrido pra minha casa bagunçada e cheia de caixas empoeiradas. Eu poderia até ter dormido na rua, mas eu dei de ombros e segui minha amiga, puxando minha mala enorme.

Entramos na sala, e lá estava ele. Sentado, vendo aquela droga daquele programa que ele amava, com as batatas chips que ele era viciado ao seu lado. Até quando devia ser desleixado aquele cara era engomadinho.

— Neji-nee-san? Você não deveria estar na sua casa? – perguntou Hinata.

— Ah, sim, mas teve uma droga de um acidente com o disjuntor, não acende uma lâmpada lá em casa. – explicou, o olhar passando por mim e indo parar na prima, me ignorando completamente. — Então vim para cá, eu te liguei, mas você não atendeu.

Hinata checou o celular e viu as trezentas chamadas perdidas dele. Eu sabia que ela estava preocupada, apesar de não ter mais a aparência frágil e a postura insegura, ela era minha melhor amiga, e eu a conhecia o suficiente para reconhecer seu nervosismo nos dedos trêmulos que deslizavam no celular. Hinata sabia que seria um problema ter Tenten e Neji num mesmo ambiente por mais de dez minutos.

— Tenten, vamos lá no meu quarto pra você se ajeitar. Vamos dormir. – disse com a voz meio trêmula. Me espantou ela não ter gaguejado.

Não disse nada enquanto a seguia. Entramos em seu quarto, que eu preciso dizer que era lindo, com estantes e guarda-roupa planejados, e girou a chave uma vez na porta.

— Ten, a vinda inesperada de Neji trouxe um problema. Só tem um quarto de hóspedes. – alertou. – Se por um milagre eu ainda tiver meu colchão inflável de acampamentos, estamos salvas.

— Eu durmo no sofá. – respondi com uma calma fingida, a verdade é que eu estava me preparando para uma guerra.

— Mas Tenten…

— Tá tudo bem Hina, relaxa. – acalmei com um sorriso e abri minha mala, procurando meu pijama.

Depois de vestida confortavelmente com meu pijama que causaria náusea no engomadinho, com meus dois coques feitos, saí do quarto de Hinata (que já dormia). Ela pegava no sono facilmente e tinha costume de dormir cedo, então estava acabada àquela hora, depois de ter bebido um pouco.

Ele ainda estava na sala e aquilo era ruim. Ele já tinha o quarto de hóspedes e eu só queria dormir o mais rápido possível, coisa que não conseguiria. Quando seus olhos brancos pousaram em mim por meio segundo, ele voltou para a televisão.

— Oi para você também. – disse ele com canseira na voz.

— Não é por que estamos sob o mesmo teto que precisamos conversar. – respondi, já com as defesas armadas — Já que você pretende ficar assistindo TV o resto da madrugada, vou para o quarto de hóspedes. – tentei encerrar a possível discussão, mas quando me virei para o quarto, o ouvi responder sucintamente:

— Ele já está ocupado.

Bufei. Meu estado de preguiça mudou para raiva extrema.

— Escuta, se você não percebeu eu tô querendo dormir! Ou você libera o sofá, ou eu vou acabar com seu lençol com cheiro de naftalina!

Ele me olhou de verdade pela primeira vez naquele dia. E, com aquela cara de “tô cagando pro seu sono”, respondeu:

— Tenta ir no meu quarto para ver o que te acontece.

O cara tinha essas manias. Ele achava que podia tudo, que era superior as pessoas, que tudo o pertencia, ele se achava o tal. Mas eu tinha mania de acabar com a graça dele, de sujar suas coisas impecavelmente brancas, eu não abaixava a cabeça pro Sr. Pretensioso.

Com passos que poderiam rachar a cara dele, quase arrebentei a porta do quarto quando entrei e me taquei naquela cama com cheiro de lavanderia – eca! Mexendo as pernas, arranquei todo o lençol, taquei minhas pantufas em cima das mochilas dele e comi as balas de canela que estavam no criado-mudo. Tudo isso em menos de cinco minutos. Ele chegou com o rosto meio vermelho, vendo o estado de sua cama perfeita, seus travesseiros no chão e sem fronha. Ele poderia arrancar meus cabelos.

— Sua nojenta, suja, porca, idiota e retardada! – xingou – Tenten, eu quero que você vá pra casa do caralho!

— Dispenso a casa dele, a da Hina parece melhor. – retruquei com meu melhor sorriso sarcástico.

— Saia daqui agora sua imunda!

— Você vai finalmente parar com a mania de dono do mundo e liberar o sofá? – perguntei, me levantando rapidamente para o enfrentar.

— O que você tem a ver com as minhas manias? – replicou ele, dando um passo a frente mostrando que também estava pronto para a briga.

— Eu tive que aturá-las por três anos! – exclamei, sem pensar.

— Eu tive que aturar suas imundices por três anos, o que é bem pior! – gritou ele de volta, e nossos corpos estavam cada vez mais perto, ele mantinha as sobrancelhas franzidas e sua respiração irritada me dava choque ao bater contra meu rosto.

— Pro inferno você e suas crises “anti-grão-de-poeira”! – respondi, levantando os braços e me distanciando.

Era difícil fazer o cara perder o controle, mas eu sabia que ele já tinha perdido, façanha que só eu conseguia obter. Ele respirou fundo com os olhos fechados e contou até dez mentalmente, dando passos para trás.

— Chega. Não sei por que estou discutindo com tipos feito você.

— Seu metido, babaca dos… — antes que eu pudesse terminar, ele abriu a porta bruscamente, me interrompendo.

— Sai daqui, pega a droga do sofá e engole. Eu não quero ver sua cara.

— Você nunca aceita que está tendo uma crise de dono do mundo – respondi enquanto saía – Você sempre tem razão, grande Neji!

O silêncio pairou. Ralhei com ele por causa dos pacotes de batatas que ficaram no sofá, questionando suas manias perfeccionistas, afinal, se ele era tão limpo aquilo não deveria ter acontecido, e depois de resolvido, tudo ficou em silêncio, ele foi para o quarto e eu peguei o travesseiro e o edredom que Hinata tinha me separado.

Eu estava completamente ferrada. Teria de ficar uns três ou quatro dias ali ainda, e se aquele cara ficasse também, um de nós acabaria morto.

Cinco anos se passaram, mas o chato não mudou nada, continuava o mesmo metido, pretensioso e orgulhoso. Talvez só com seus amados cabelos um pouco mais curtos.

Notas finais
Primeiro cap. aqui! Espero que tenham gostado, já vou postar o segundo. Será que vai dar certo Tenten e Neji sob o mesmo teto? Faz tanto tempo que não posto uma fanfic que perdi o jeito de escrever notas... aushaush gud noite!