Gaya lavava as roupas na beira do rio Yong, com o pequeno Carlos do lado. O rio Yong, naquelas paragens era manso e largo, a floresta as margens dele exibia uma explosão de tons de amarelo, indo esverdeado ao quase laranja. Gaya era uma mulher bonita e guerreira, morena cor de jabuticaba, vestia um vestido longo e folgado de algodão rudimentar, como as mulheres de seu povo, os Ayalas.

Carlos brincava entorno da mãe e a indagava:

— Mãe, por que o nosso povo vive se escondendo e fugindo de todos?

— Filho é uma longa história. Vós mercê ainda é muito novo para compreender.

— Mãe, a senhora sempre diz isso, mas já sou grande e sou capaz de compreender sim. Se vós mercê não me contar, outro há de dizer.

— Tens razão. Tu és um Ayala e não é mais criança de colo. Pois sentas que a história por deveras comprida.

Carlos se assentou ao lado da mãe que começou a contar:

— Há muito tempo atrás, havia em Pangéia dezessete reinos, liderados por dezessete reis corações de diamantes.

— O que são reis corações de diamantes?

— Os reis corações de diamantes, eram governantes bondosos que possuíam poderes mágicos e eram responsáveis pela paz e prosperidade do mundo de antanho. Todos os povos eram amigos e todos poderiam circular por onde quisessem. Todas as decisões eram tomadas em conjunto pelos dezessete reis. Pangéia era toda um paraíso de liberdade, prosperidade e paz. Até que Mefistófeles, o demônio que domina Pangéia atualmente, junto com os seus guardiões, armou uma armadilha para os dezessete reis corações de diamantes e os mataram. Mas antes de sucumbirem de vez perante o demônio os reis colocaram toda as suas magias em dezessete colares com pingentes de diamantes em formato de coração e os entregaram ao mestre Loyola, ancestral do mestre Gaal, que, junto com o restante dos Ayalas, se comprometeu a cuidar deles e lutar contra Mefistófeles.

Após a morte dos reis, nosso povo liderado pelos mestres lutou bravamente contra Mefistófeles, mas ele é um demônio poderoso, criador de ilusões. Apesar da luta nossa e dos nossos ancestrais, Mefistófeles dominou o mundo inteiro, seduzindo os fracos e maus de coração que se aliaram a ele. Fez de Pangéia um Império único, governado pelos Ping (uma família lacaia, totalmente sobre seu controle) que criou várias divisões em todos os antigos reinos e colocou famílias aliadas para governar cada uma das partições. Todos os povos se curvarão diante deles, menos nós os Ayalas.

— Mas por que não nos curvamos. Eles são mais fortes, mas poderosos. Já venceram os reis mágicos. Quem se curvou vive em cidades protegidas do frio e nós vivemos a fugir.

— Filho, nós somos livres. Todos livres. Mas os povos que se submeteu ao domínio de Mefistófeles. São servos, escravos. A maioria do povo só vive para servir os nobres amigos dos imperadores Ping. Filho o nosso povo é último bastião de liberdade no mundo.

— Mas o que adianta a liberdade se vivemos na miséria a se esconder?

— Cabe a nós mudarmos isso. É nossa missão coroar os novos reis corações de diamantes. É nossa missão ajudá-los a derrotar Mefistófeles.

Neste instantes ouve-se gritos vindos da direção do acampamento, Gaya levanta-se e pega Carlos. Ela olha para todos os lados e coloca Carlos na fenda de um tronco oco.

— Filho fica aqui até que venha buscá-lo, não saia por nada antes disso.

Carlos apavorado menea a cabeça positivamente. Gaya cobre a fenda com uma casca de árvore caída no chão e vai ao acampamento. Carlos ficou esperando dentro da fenda como ordenou a mãe, ouviu gritos, súplicas e prantos vindos do acampamento. Ele estava todo amedrontado, mas em obediência mãe não saiu, passou o restante do dia e a noite a espera da mãe que não apareceu.

Após abusar de esperar a mãe Carlos sai da fenda e vai em direção ao acampamento. No caminho o pequeno menino só encontra destruição. Gaya está morta a meia distância do acampamento. O mundo de Carlos desaba, ele continua em direção ao acampamento. Está tudo destruído, estavam todos mortos, toda a última tribo dos Ayalas se desfalecera.

Carlos passa de corpo em corpo, com esperança de encontrar alguém vivo. Mas todos estavam já com as pernas estirados. Só mestre Gaal ainda continha fôlego de vida, mas mesmo assim o velho mestre estava muito ferido. Carlos, com o rosto lavado em lágrimas o indaga:

— O que aconteceu, Mestre?

— Menino, tu não sabes? Não viu nada? Por onde andavas?

— Minha mãe lavava roupa e eu estava com ela. Ela me escondeu na fenda duma árvore quando escutou um forte barulho vindo de cá. Ela me disse para sair de lá só quando fosse me chamar, mas ela não foi, ela está morta. Como todos os outros... O que houve mestre? Por que estão todos mortos e vós mercê tão ferido?

— Li Tiuan. Uma Guardiã de Mefistófeles. Ele nos descobriu aqui. E exterminou a última tribo dos Ayalas. Só sobrou vós, pequeno Carlos. És agora o último Ayala. Aquele que aniquilará Mefistófeles e seus lacaios e devolverá a paz, a liberdade e a prosperidade a Pangéia. E vingará a todos os inocentes que Mefistófeles matou e honrará o nome dos Ayalas.

— Mas mestre como farei isso? Sou apenas uma criança.

— Mas não será uma criança para sempre. Apesar dos pesares, conseguir esconder os corações de diamantes da guardiã de Mefistófeles. Eles estão enterrados debaixo de minha tenda, deverás pega-los e leva-los consigo daqui. A vossa missão é encontrar os guardiões dos corações, os novos reis corações de diamantes. Um de cada povo será. A arqui duquesa de Animário vos ajudará, sai a noroeste e a procure.

— Mestre, mas como saberei quem serão os novos reis corações de diamantes?

— Sempre que um coração de diamante brilhar frente a uma pessoa, este novo rei é... Estou no meu último fôlego, morrendo eu. Só pegue os corações de diamantes e vá embora. Não fiques por aqui muito tempo...

Mestre Gaal expira. O pequeno Carlos o obedece, escava toda a tenda do velho mestre até encontrar a caixa onde estava os corações de diamantes. Pegou uma trouxa de roupa e colocou a caixa dentro e partiu rumo a noroeste.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.