O visconde retornou à Masen Hall com passos pesados e irregulares, como se cada metro percorrido exigisse um esforço desproporcional. As botas encharcadas ecoavam pelos corredores silenciosos da residência, deixando para trás pequenos rastros de água que brilhavam sob a luz baixa das arandelas. O som repetitivo e molhado parecia acentuar sua irritação, marcando sua passagem como um lembrete constante do caos que ainda lhe fervilhava no peito.

A camisa branca, antes impecável, colava-se-lhe ao corpo de maneira incômoda, fria contra a pele aquecida pela tensão. O tecido encharcado delineava-lhe o torso com uma intimidade que ele detestava — como se até as próprias roupas ousassem expô-lo em um momento de fraqueza.

Edward avançava com o semblante carregado. A mandíbula cerrada demais, os músculos do rosto rígidos, os olhos claros obscurecidos por um turbilhão de pensamentos que se recusavam a se aquietar. Havia algo nele que destoava perigosamente do homem controlado e inalcançável que a sociedade conhecia. Algo desalinhado. Ferido. Irritado consigo mesmo.

— Milorde… — arriscou um criado, aproximando-se com cautela ao perceber o estado do visconde. — Posso ajudá-lo em algo?

Edward lançou-lhe apenas um olhar breve, cortante, suficiente para encerrar qualquer tentativa de conversa.

— Um banho quente — ele respondeu, por fim, seco. — E uma garrafa de whisky.

Nada mais foi dito. Não era necessário.

Minutos depois, a garrafa repousava em sua mão. Ele tomou o primeiro gole ainda de pé, sem cerimônia, sentindo o líquido forte descer-lhe pela garganta como uma chama viva. Bebeu outra vez. E outra. Cada gole era uma tentativa inútil de silenciar a inquietação que se espalhava sob sua pele, insistente como uma ferida aberta.

— Insolente… — O visconde murmurou, a voz baixa, carregada de desprezo mal direcionado. — Teimosa… imprudente…

A imagem surgiu em sua mente sem ser convidada, clara demais para ser ignorada.

Isabella Swan.

Correndo pelo parque coberto de neve, as saias erguidas sem qualquer preocupação com decoro, o rosto corado, a respiração ofegante. Os olhos castanhos — tempestuosos, vivos — sustentando o mundo sem pedir permissão. O modo como o enfrentara, sem medo, sem reverência, como se ele não passasse de mais um homem diante dela.

Edward praguejou em voz baixa e levou a garrafa novamente aos lábios.

— Maldita seja… — sussurrou, sem saber se a maldição era dirigida a ela… ou a si mesmo.

Não adiantava. O álcool aquecia o corpo, mas não alcançava o pensamento. A lareira crepitava ao fundo, lançando sombras inquietas pelas paredes, e ainda assim nada afastava aquela presença persistente. Quanto mais bebia, mais nítida ela se tornava.

Quando percebeu, a garrafa estava quase vazia.

A cabeça pesava, os pensamentos tornavam-se mais lentos e turvos. O visconde afastou-se da poltrona com esforço e seguiu pelo corredor até os aposentos, guiado mais pelo hábito do que pela consciência plena.

O banho o aguardava.

O vapor erguia-se em nuvens densas da banheira, envolvendo o aposento em um calor abafado e silencioso. Edward despiu-se sem cuidado, deixando as roupas caírem onde estivessem, e afundou na água quente com um suspiro pesado, quase um som de alívio, quando os músculos finalmente começaram a ceder.

Por alguns instantes, apenas o silêncio.

O estalo distante do fogo na lareira. O leve respingar da água quando movia as mãos. O peso do corpo relaxando à força.

Pensou — ingenuamente — que talvez conseguisse descansar.

Mas ela voltou, sem pedir licença, aos seus pensamentos. A senhorita Swan com o queixo erguido em desafio. A voz firme, cortante, recusando-se a ceder. O olhar que não se desviava. E, contra toda lógica, a lembrança incômoda de como seu próprio coração acelerara diante dela — como se fosse ele, o visconde, o homem habituado ao controle absoluto, quem estivesse em desvantagem.

Edward fechou os olhos, frustrado, a testa franzida.

— Não pode ser… — ele murmurou, exasperado, como se dissesse aquilo em voz alta pudesse desfazer o pensamento.

Saiu da banheira, vestiu o roupão com movimentos lentos e seguiu para o quarto. O álcool pesava-lhe nas veias, tornando os passos arrastados, o corpo exausto de uma fadiga que não era apenas física. Apagou as velas uma a uma, permitindo que a penumbra tomasse o aposento.

Deitou-se. O sono veio rápido — abrupto, denso — não como um descanso gentil, mas como uma emboscada inevitável, lançando-o em um repouso inquieto, carregado de sombras… e de olhos castanhos que se recusavam a deixa-lo em paz.

~*~

O sonho veio envolto em calor.

Não o calor reconfortante, mas algo mais intenso, quase febril. A lareira ardia com um brilho anormal, dourado demais, como se as chamas respirassem — vivas, pulsantes, dotadas de consciência própria. Elas se erguiam e se retraíam num ritmo lento, hipnótico, projetando sombras alongadas pelas paredes, sombras que se moviam com intenção, como se observassem.

O ar estava pesado e um perfume específico e envolvente flutuava ao redor, denso, quase narcótico, misturando-se ao cheiro da lenha queimando e à sensação vertiginosa de estar fora do tempo — fora de qualquer lógica que o visconde conhecesse.

Ele estava ali. Imóvel. O corpo rígido, os pés presos ao chão como se raízes invisíveis o mantivessem ancorado. Tentou mover-se, mas nenhum músculo respondeu. Tentou falar, mas a voz lhe morreu na garganta, dissolvendo-se antes mesmo de ganhar forma.

Diante dele, uma figura feminina movia-se lentamente.

A silhueta era recortada pela luz viva do fogo, desenhada com uma precisão cruel. Estava de costas. Os cabelos longos e escuros caíam em ondas suaves sobre os ombros nus, captando reflexos dourados a cada pequeno movimento. A pele reluzia sob as chamas — quente, luminosa, como se tivesse sido moldada em marfim e âmbar.

Cada passo que ela dava em sua direção parecia reduzir o mundo àquele único instante.

Algo despertou dentro dele. Antigo. Reprimido. Perigosamente familiar.

Um desejo primitivo, enterrado sob anos de disciplina rígida e autocontrole, rompeu as amarras com violência silenciosa. Não era apenas vontade. Era necessidade. Uma urgência que lhe incendiava as veias e tornava inútil qualquer tentativa de razão.

Ela virou-se. O movimento foi lento, quase etéreo — e ainda assim devastador.

Os lábios estavam entreabertos, cheios, suavemente provocantes. Os olhos, escuros e intensos, sustentavam um brilho que o atravessou como lâmina. Havia algo ali que ele reconhecia, mesmo sem querer nomear. Algo que lhe causava desconforto… e atração em igual medida.

O visconde aproximou-se — ou talvez fosse ela quem o puxasse, sem tocá-lo.

O coração martelava com força absurda dentro do peito. Estendeu a mão, hesitante, como se temesse que o menor contato pudesse desfazer aquela visão. Seus dedos roçaram a pele quente e macia do braço feminino.

O toque foi um raio.

O ar pareceu incendiar-se ao redor deles. O sangue lhe subiu em disparada, e ele se inclinou, dominado por um impulso que não compreendia — e já não tentava conter.

Beijou-a. O gosto era doce. Intenso. Real demais para ser apenas imaginação.

Ela suspirou contra seus lábios, e um riso baixo escapou-lhe — lento, carregado de malícia, insinuante como uma promessa perigosa.

— Acha que pode controlar tudo, milorde? — sussurrou ela, a voz aveludada, infiltrando-se como veneno em seus sentidos. — Até isto?

Edward estremeceu.

Aquela voz. Aquela entonação.

O coração disparou com violência, e a razão, frágil e confusa, tentou se impor — em vão. Havia algo inevitável ali, algo que o puxava para o centro do incêndio sem oferecer escapatória.

E quando, finalmente, os olhos dela encontraram os dele, o mundo ruiu. Não havia mais dúvida.

Era Isabella Swan.

Não a jovem austera e vigilante do mundo desperto, mas a encarnação de tudo o que ele temia admitir. Seu desafio constante. Sua insolência. Sua negação transformada em tentação viva.

As chamas da lareira se ergueram com fúria renovada, refletindo-se no olhar dela. O calor tornou-se quase insuportável. O visconde tentou recuar, mas o chão parecia prendê-lo, como se o próprio sonho se recusasse a deixá-lo fugir.

O desejo o consumia.

Ela tocou seu rosto. Os dedos traçaram uma linha ardente desde sua têmpora até os lábios, arrancando-lhe um suspiro trêmulo. Isabella sorriu — um sorriso que misturava desafio e promessa, pecado e revelação.

— Está vendo, milorde? — ela murmurou, antes de beijá-lo novamente, com uma intensidade que lhe roubou o fôlego. — Não pode fugir de mim.

O fogo rugiu.

E o visconde despertou bruscamente, o peito arfando, o corpo quente, o coração descompassado — com o nome dela ecoando em sua mente como uma sentença inevitável.

~*~

Alguns dias haviam se passado desde o incidente no parque.

O inverno, implacável em sua beleza silenciosa, cobrara seu preço com uma crueldade quase gentil. Alice não sofrera ferimentos visíveis com a queda no lago — nenhum osso quebrado, nenhum corte profundo —, mas o frio penetrara-lhe o corpo como um aviso tardio. A água gelada infiltrara-se-lhe nos ossos, e o resultado fora um resfriado teimoso, que a manteve de cama por dias.

O quarto da jovem permaneceu envolto em penumbra e calor artificial. Cortinas cerradas, a lareira sempre acesa, cobertores empilhados com cuidado excessivo. Alice alternava momentos de sonolência com despertares febris, as faces ruborizadas não pelo entusiasmo habitual, mas por uma febre leve que ia e vinha, deixando-a frágil, silenciosa demais para quem costumava preencher a casa com risos.

Isabella não se afastou um instante.

Sentava-se ao lado da cama com a paciência de quem aprendera cedo demais a vigiar a vida com atenção redobrada. Preparava infusões quentes de ervas, trocava compressas com mãos firmes e cuidadosas, ajustava os cobertores quando a irmã tremia de frio. Sussurrava palavras tranquilizadoras — promessas suaves, histórias simples — que tinham tanto a função de acalmar Alice quanto de conter a própria inquietação que lhe roía o peito.

A mais velha dormia pouco e observava muito.

Somente quando a febre cedeu por completo, e o brilho habitual começou a retornar aos olhos da caçula, foi que Isabella permitiu-se respirar com mais profundidade. A casa dos Swan voltou, aos poucos, a respirar com leveza.

Foi nesse clima de recuperação recente que Lady Esme Cullen apareceu para uma breve visita.

Sua chegada trouxe consigo um contraste delicado com a simplicidade do lar: o perfume discreto de lavanda, o som contido de passos elegantes, a gentileza quase maternal que parecia aquecer os cômodos como um raio de sol tímido em meio ao inverno rigoroso. Conversou longamente com Charlie, interessou-se genuinamente pela saúde de Alice, elogiou sua recuperação com palavras doces e, com naturalidade cuidadosamente ensaiada, estendeu o convite.

— Estou organizando um pequeno recital em minha residência — Lady Esme disse, com um sorriso afável. — Algo íntimo. Música, uma cantora de ópera… nada cansativo. Creio que seria um ambiente agradável para vocês.

Alice, sentada no sofá, aceitou antes mesmo que Isabella pudesse organizar os próprios pensamentos.

— Oh, sim! Claro que iremos! — exclamou a mais nova, o entusiasmo ressurgindo como uma chama recém-protegida do vento.

Isabella sentiu o desconforto instalar-se em seu peito como um peso conhecido.

O sorriso que ela esboçou foi educado, correto — mas contido. A ideia de reencontrar o visconde, depois das palavras duras trocadas no parque e da tensão que os envolveram, causava-lhe uma apreensão difícil de ignorar. Ainda assim, não se opôs, ao ver a felicidade da irmã.

Quando o dia do recital finalmente chegou, a casa dos Swan foi tomada por um silêncio expectante, quase cerimonial.

Alice surgiu da escada. A jovem Swan vestia um vestido rosa-claro, de tecido leve e delicado, com mangas suaves e uma saia que caía em ondas gentis até os tornozelos. A cor realçava-lhe a pele clara e o ar juvenil, conferindo-lhe uma aparência quase etérea, como se tivesse escapado de uma pintura delicada. Havia nela algo de angelical — frágil e encantador ao mesmo tempo — que tornava difícil não sorrir ao vê-la.

Isabella observou a irmã por um instante mais longo do que pretendia, admirando sua beleza.

Depois, voltou-se para si. Vestia um vestido azul-escuro, cuidadosamente retirado das antigas roupas de sua mãe. O tecido fora ajustado por suas mãos pacientes e talentosas, moldando-se agora ao seu corpo com sobriedade elegante. O decote era discreto, valorizando-lhe as clavículas sem ousadia; as mangas longas protegiam-na do frio e reforçavam a seriedade natural de sua postura. Não havia ornamentos excessivos, nem adornos chamativos.

As duas despediram-se de Charlie à porta.

O pai lançou-lhes um olhar orgulhoso e enternecido, ajudando-as a subir na modesta carruagem que aguardava em frente à casa, rangendo levemente sob o peso do inverno e dos anos. O cocheiro estalou as rédeas, e o veículo pôs-se em movimento.

Quando a carruagem começou a avançar pela rua branca, Isabella voltou o olhar para fora.

A paisagem deslizava lentamente: árvores cobertas de neve, telhados adormecidos, janelas embaçadas, o céu pálido anunciando mais frio. O som ritmado das rodas misturava-se ao silêncio do inverno, e o coração de Bella batia em um compasso irregular.

Era inútil tentar evitar. Os pensamentos correram à frente, inevitáveis, até o encontro que se aproximava.

O visconde.

O tom controlado de sua voz. O olhar frio, atento demais. A tensão quase elétrica que parecia surgir sempre que estavam próximos, como se ambos ocupassem lados opostos de uma linha invisível prestes a se romper.

Isabella apertou as mãos sobre o colo e respirou fundo, longa e lentamente, tentando conter o pressentimento que lhe subia pela espinha. Algo lhe dizia que aquela noite não seria simples.

~*~

A residência do visconde de Masen estava envolta em luz e som.

Assim que Isabella e Alice Swan cruzaram o portão principal, o eco suave dos violinos já se fazia ouvir, deslizando pelo ar frio da noite como um convite solene e cuidadosamente ensaiado. As notas pareciam se infiltrar entre as colunas de pedra e os arcos da fachada, antecipando a atmosfera refinada e contida do recital que estava prestes a começar.

As janelas altas brilhavam com a luz quente dos candelabros, contrastando com a neve acumulada nos jardins e nos caminhos de pedra.

Lady Esme aguardava-as à entrada.

A matriarca aproximou-se com passos graciosos, o sorriso genuíno suavizando-lhe o rosto. Recebeu Alice com afeto evidente, segurando-lhe as mãos entre as suas por um instante a mais do que o necessário, como se quisesse reafirmar o quanto se alegrava com sua presença e sua recuperação recente. À Isabella, ofereceu um sorriso igualmente gentil, porém mais atento — daqueles que observam com cuidado, que avaliam silenciosamente.

— Fico muito feliz que tenham vindo — ela disse, calorosa. — O recital será no salão principal. Reservei lugares próximos ao palco para vocês. Imagino que apreciem melhor a música de lá.

As jovens foram conduzidas para o interior da residência.

Assim que atravessaram o vestíbulo, Isabella não conseguiu evitar lançar um olhar atento ao redor, absorvendo cada detalhe da decoração cuidadosamente planejada por Lady Esme. O salão fora transformado com elegância contida e precisão quase impecável. Candelabros altos lançavam uma luz dourada e suave, refletindo-se nos tecidos claros que adornavam as paredes. Arranjos de flores brancas e em tons pálidos — camélias, lírios, pequenas rosas de inverno — pontuavam o espaço com delicadeza calculada.

Ao fundo, um palco improvisado havia sido montado. Cortinas de veludo cor de vinho emolduravam o espaço, criando um contraste rico com o restante da decoração. Vasos ornamentais ladeavam o palco, e a fragrância floral misturava-se ao aroma de cera quente e madeira polida, criando uma sensação quase hipnótica.

Foi então que seus olhos o encontraram.

O visconde estava a alguns metros de distância, conversando com um nobre de postura rígida e expressão austera. Vestia-se com a habitual sobriedade elegante: traje escuro impecável, corte preciso, a presença discreta, porém impossível de ignorar. Quando ergueu o olhar por um breve instante, seus olhos se chocaram com os de Isabella.

O coração dela acelerou de forma traiçoeira.

Houve apenas um segundo de contato — rápido, quase acidental —, mas suficiente para provocar-lhe um aperto súbito no peito. Edward desviou o olhar primeiro, retomando a conversa como se nada tivesse acontecido, como se aquele instante não tivesse existido.

Mas Isabella sentiu.

Lady Esme percebeu.

— Edward — ela chamou, com naturalidade calculada. — Venha cumprimentar as senhoritas Swan.

O visconde aproximou-se.

Com Alice, foi perfeitamente cortês. Um sorriso contido, algumas palavras gentis, um elogio discreto à sua aparência e à recuperação recente. Falava com a facilidade educada de quem se dirige a alguém que considera… apropriado.

Com Isabella, porém, tudo mudou.

A saudação foi fria. Distante. Rigorosamente protocolar. Nenhuma provocação velada, nenhum brilho curioso nos olhos — apenas a formalidade rígida de quem ergue um muro invisível e se recusa a atravessá-lo. Aquilo a incomodou mais do que ela gostaria de admitir.

Antes que pudesse reagir, questionar ou sequer organizar um pensamento coerente, Lady Esme indicou os assentos reservados. O murmúrio no salão começou a diminuir, como uma maré recuando lentamente.

O recital estava prestes a começar.

Isabella e Alice acomodaram-se lado a lado. Bella ajeitou o vestido azul-escuro com um gesto automático, alisando o tecido sobre o colo enquanto tentava ignorar a presença do visconde algumas fileiras à frente. O simples fato de saber que ele estava ali parecia alterar o ritmo de sua respiração.

Então, o silêncio se fez.

O som delicado de um piano rompeu o ar. Das cortinas de veludo surgiu a cantora.

Tanya Denali.

Vinda diretamente de Londres, sua fama precedia sua presença. Era bela de maneira impressionante e consciente: cabelos dourados presos em um penteado elaborado, ondas perfeitamente moldadas refletindo a luz dos candelabros. O vestido cintilava a cada movimento, desenhado para capturar olhares e mantê-los cativos. Havia em sua postura uma confiança inabalável — a certeza de quem sabia exatamente o efeito que causava.

A primeira nota preencheu o salão — pura, cristalina.

Em segundos, toda a atenção convergiu para ela.

A voz era tecnicamente impecável, poderosa, envolvente. Mas não foi apenas isso que capturou a atenção de Isabella.

Foram os olhares.

Durante as árias, Tanya lançava sorrisos sutis em direção ao visconde — carregados de uma intimidade mal disfarçada, de alguém que se sentia confortável demais em sua atenção. E ele, ainda que mantivesse a compostura irrepreensível, parecia corresponder. Inclinava levemente a cabeça, sustentava o olhar por tempo demais. Como quem reconhece um segredo compartilhado.

O estômago de Isabella se contraiu.

Algo incômodo, confuso, começou a se agitar dentro dela — uma mistura amarga de irritação, desconforto… e algo que ela não ousava nomear.

Seja discreta, mulher. É possível ver de longe a sua intenção, Bella pensou, irritada, ao observar a falta de sutileza da cantora.

A cada novo olhar trocado entre os dois, Isabella sentia o peito apertar um pouco mais. Apertou o tecido do vestido entre os dedos com força excessiva — uma pequena explosão de raiva contida.

Ao seu lado, Alice, vidrada pela apresentação, suspirou, encantada.

— Ela canta como um anjo, não acha, Bella?

Isabella desviou o olhar, erguendo o queixo em falsa indiferença.

— Só se for um anjo caído… — a mais velha murmurou, a voz mais baixa do que pretendia, carregada de veneno e sarcasmo.

Alice riu, distraída, sem perceber o incômodo da irmã.

Mas o visconde, algumas fileiras à frente, moveu-se ligeiramente. Isabella sentiu o coração apertar ao perceber o gesto.

Ele ouviu.

O desconforto tornou-se mais profundo, mais pessoal. Naquele instante, Isabella desejou nunca ter cruzado o caminho daquele homem — um homem que, contra toda lógica, parecia capaz de desorganizar seus sentimentos com um simples olhar.

E o recital seguia.

A música preenchia o salão com beleza e harmonia — mas, dentro de Isabella Swan, tudo era ruído...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.