Corações de Inverno

4 Capítulo 03: Um Passeio Molhado


Algumas horas antes...

O visconde despertara com uma sensação que não soube nomear de imediato — apenas reconheceu que lhe era estranha. Incômoda.

A luz pálida da manhã infiltrava-se pelas frestas das cortinas pesadas de veludo, desenhando faixas suaves no teto do quarto amplo e silencioso. Ainda assim, ele permanecia imóvel, os olhos fixos naquele ponto indefinido acima de si, como se ali estivesse projetada uma lembrança que se recusava a se dissipar.

Olhos escuros, tempestuosos. Uma postura firme demais para ser ignorada. Uma voz que não vacilava — nem quando desafiava.

Isabella Swan.

O nome surgiu em sua mente com clareza perturbadora. O visconde não tentou afastá-lo de imediato. Pelo contrário: deixou que a lembrança se organizasse, quase contra sua vontade. Recordou-se da dança — da tensão latente sob os passos perfeitamente ensaiados, das respostas rápidas, do olhar que não se desviava. Do atrevimento inesperado, ousado demais para uma jovem sem título.

E, por fim, do gesto final.

Ela pisara em seu pé.

Edward fechou os olhos por um breve instante, inspirando profundamente, como se aquele simples ato pudesse dissipar o incômodo que se instalara em seu peito. Aquilo era um erro. Uma distração inútil. Um desperdício de energia.

Levantou-se da cama com decisão, os movimentos precisos de quem se recusa a ceder ao descontrole. Vestiu-se com método, como sempre fazia quando precisava colocar ordem nos próprios pensamentos. Havia compromissos a cumprir, deveres inadiáveis. Não podia — não devia — permitir que sua atenção se fixasse em uma mulher que despertava reações controversas demais.

Ele precisava de uma viscondessa. Não de uma distração.

Precisava de alguém adequada. Tranquila. Uma esposa que compreendesse o peso do título sem questioná-lo, que não exigisse profundezas emocionais, que não despertasse sentimentos capazes de atravessar as muralhas que ele erguera com tanto cuidado ao longo dos anos.

E, nesse sentido, a irmã mais nova… sim.

Mary Alice Swan surgiu em sua mente como a escolha óbvia, quase inevitável. Jovem. Doce. Ingênua na medida certa. Gentil sem ser desafiadora. Encantadora sem ser perigosa. Alice Swan encaixava-se com perfeição na imagem da esposa que ele precisava — e, sobretudo, não naquela que poderia fazê-lo desejar mais do que estava disposto a oferecer.

Por isso, quando Lady Esme sugerira, ainda pela manhã, o envio de um ramalhete à jovem senhorita Swan, Edward não negara. Camélias cuidadosamente cultivadas nos jardins de Masen Hall. Azaleias escolhidas uma a uma. Um gesto elegante, apropriado, socialmente esperado.

Nada além disso.

Ainda assim, conforme a manhã avançava e a tarde se aproximava, uma nova ideia se impôs com insistência incômoda: visitar Alice pessoalmente. Um convite simples. Um passeio breve. Uma conversa sob circunstâncias controladas. Um meio eficaz de estreitar laços.

Sem alarde excessivo, o visconde decidiu ir até a modesta casa da família Swan.

A residência contrastava de forma evidente com o que estava habituado, mas não lhe pareceu inadequada. Havia nela uma sobriedade honesta, quase acolhedora. Ao bater à porta, foi recebido por um jovem criado, que se mostrou educado, embora visivelmente surpreso com a visita.

— A senhorita Alice saiu há poucos minutos, milorde — ele informou, após um instante de hesitação. — Acompanhada por um cavalheiro. Mas… — acrescentou — a irmã mais velha encontra-se na sala principal.

A informação acendeu algo inesperado dentro de Edward. Algo que não deveria. Após um breve pedido de permissão, seguiu na direção indicada.

Ao adentrar a sala, encontrou uma cena que não previra — e que, ainda assim, pareceu-lhe estranhamente apropriada.

Isabella Swan estava inclinada sobre o ramalhete que ele enviara mais cedo. As flores estavam dispostas diante dela com cuidado meticuloso, e seus dedos tocavam as pétalas com uma delicadeza quase contraditória em relação à expressão determinada que lhe marcava o rosto. Seus lábios moviam-se em murmúrios baixos, carregados de irritação evidente.

— Pretensioso… — resmungava.

Edward deteve-se à entrada, observando-a em silêncio. Havia algo profundamente — e perigosamente — divertido naquela cena.

O contraste entre a beleza impecável das flores e a severidade crítica da jovem, entre o gesto cuidadoso e as palavras mordazes, arrancou-lhe uma reação que não esperava de si mesmo.

Uma risada baixa escapou-lhe do peito, breve, contida… mas real.

Foi exatamente naquele instante que Isabella se virou. E o encontrou ali, parado à entrada, encarando-a com atenção aberta, curiosidade viva e um brilho indecifrável no olhar.

~*~

Isabella foi a primeira a romper o silêncio pesado que se instalara na sala, um silêncio denso demais para ser ignorado.

— Como… — ela pigarreou, recompondo-se com esforço — como o senhor entrou em minha casa, milorde?

Edward ergueu uma sobrancelha, como se a pergunta lhe fosse quase divertida. Sem pedir licença — e sem parecer invasivo — caminhou até uma das poltronas e sentou-se com calma estudada, o movimento elegante demais para aquele ambiente simples. Cruzou uma perna sobre a outra com naturalidade absoluta, como se estivesse em um salão aristocrático, não na modesta sala dos Swan.

— O criado permitiu minha entrada — ele respondeu tranquilamente. — Presumi que não haveria problema.

Isabella soltou um resmungo baixo, desviando o olhar por um instante.

— Imprudente — ela murmurou. — Seth jamais deveria permitir a entrada de visitas sem anunciar.

A jovem endireitou-se de imediato, cruzando os braços sobre o peito num gesto defensivo, quase instintivo.

— O que o senhor faz aqui, afinal?

Edward apoiou o cotovelo no braço da poltrona, a mão relaxada sustentando o rosto, enquanto a observava com atenção calculada — não como quem avalia uma ameaça, mas como quem estuda algo curioso demais para ser ignorado.

— Vim convidar sua irmã para um passeio.

A resposta a atingiu como um golpe inesperado.

Por um breve instante, Isabella sentiu o ar escapar-lhe dos pulmões, como se o peito tivesse se fechado. Recuperou-se rápido demais, porém, como alguém acostumada a esconder reações.

— Alice já saiu — Bella respondeu, com rapidez excessiva. — Está acompanhada de um cavalheiro adequado e não deve retornar tão cedo.

O tom era firme. Protetor. Quase feroz.

Edward apenas assentiu, sem demonstrar qualquer frustração.

— Não há problema algum — ele disse, com simplicidade. — Posso esperar.

A frase, dita com naturalidade desconcertante, foi suficiente para irritá-la profundamente.

Isabella soltou um suspiro resignado e afastou-se alguns passos, fingindo reorganizar as flores sobre a mesa lateral. No entanto, sem perceber, seus sentidos estavam perigosamente atentos à presença dele.

O modo como Edward se sentava com aquela elegância preguiçosa. A postura relaxada, mas impecável. O casaco escuro de lã fina moldando-lhe os ombros largos, a camisa clara perfeitamente ajustada ao torso, o nó da gravata discretamente sofisticado. O contraste gritante entre a imponência silenciosa do visconde e a simplicidade quase rústica da sala tornava sua presença ainda mais… marcante.

O rosto — sério demais para ser belo de forma óbvia, mas harmonioso ao ponto de prender o olhar. O maxilar firme, marcado por uma sombra sutil de barba bem cuidada. Os olhos claros, atentos, observadores — olhos que pareciam enxergar mais do que deveriam.

Quando Isabella se deu conta do rumo de seus pensamentos, sentiu o rosto arder.

Ruborizou.

Edward percebeu de imediato.

— A senhorita está bem? — ele perguntou, inclinando levemente a cabeça, o tom educado demais para ser inocente.

— Perfeitamente — Isabella respondeu rápido demais, voltando-se para ele com rigidez.

Sentou-se em uma poltrona do lado oposto da sala, mantendo deliberadamente a distância. Foi nesse instante que uma constatação a atingiu com força suficiente para acelerar-lhe o coração: eles estavam sozinhos.

Nenhuma criada. Nenhuma testemunha. Aquilo era um erro grave.

— Seth? — ela chamou, elevando a voz com intenção clara. — Seth, poderia vir aqui?

Antes que qualquer resposta humana surgisse, um latido ecoou pelo corredor.

O pequeno corgi apareceu trotando alegremente, as orelhas em pé, indo direto até Edward e se enroscando em suas botas escuras como se o conhecesse há anos. O visconde pareceu surpreso apenas por um segundo — logo depois, uma risada baixa escapou-lhe dos lábios. Inclinou-se e pegou o animal no colo com facilidade inesperada, passando a mão por sua cabeça com naturalidade.

— Ora, ora… — ele murmurou. — E quem é você, pequeno cavalheiro?

Isabella desviou o olhar, tentando ignorar a cena — embora algo em seu peito se revirasse de forma desconfortável. A imagem do visconde, tão controlado e imponente, segurando o pequeno cão com cuidado quase afetuoso, era perigosamente… humana.

— Seth! — Bella chamou novamente, com mais firmeza.

Desta vez, quem surgiu à porta foi Charlie Swan.

Ele estancou ao se deparar com a cena deslocada à sua frente: um visconde elegantemente vestido, sentado em sua sala modesta, com o pequeno Jake acomodado nos braços.

— Parece que temos visita… — ele comentou, surpreso, antes de fazer uma saudação respeitosa. — Visconde.

Seu olhar deslizou até Isabella, exigindo explicações em silêncio.

— O visconde veio visitar Alice — respondeu ela, contrariada.

— Entendo — disse Charlie, voltando-se para Edward. — Alice saiu há algum tempo.

— Sim, já fui informado — respondeu Edward com educação impecável.

Charlie pigarreou, percebendo, enfim, a tensão quase palpável no ambiente. O olhar frio e vigilante de Isabella cravado no visconde. O olhar de Edward, provocante demais para ser casual.

Buscando aliviar o clima, Charlie sorriu levemente.

— Bem… nesse caso, talvez seja melhor aproveitar o tempo. Isabella, por que não leva Jake para o passeio da tarde? — fez uma pausa estratégica. — E leve o visconde junto. Imagino que ele não queira ficar entediado esperando Alice.

O coração de Isabella quase parou.

— Pai, eu não creio que seja uma atividade adequada para um visconde — ela protestou, apressada. — É melhor não incomodá-lo.

— Não me incomoda em nada — disse Edward prontamente, levantando-se antes que ela concluísse.

O criado aproximou-se naquele instante, estendendo a coleira. Edward a tomou com naturalidade absoluta, como se aquele gesto fosse a coisa mais simples do mundo.

Isabella lançou ao pai um olhar suplicante, pronta para insistir, para recusar, para fugir daquela situação. Mas era tarde demais.

Edward já estava de pé, Jake abanando o rabo animadamente.

E Isabella Swan, desconfortável e sem escapatória, percebeu com clareza inquietante que aquele passeio estava longe — muito longe — de ser inofensivo.

~*~

Isabella caminhava ao lado do visconde pelas ruas de Forksford com passos firmes, ainda que o corpo denunciasse uma rigidez involuntária, como se cada músculo estivesse em alerta constante. Havia em sua postura algo defensivo — não medo, mas vigilância. Jake, o pequeno corgi, por outro lado, parecia determinado a compensar a seriedade silenciosa dos dois: farejava cada canto com entusiasmo indomável, puxava a coleira sem qualquer pudor e deixava pequenas marcas tortuosas sobre o calçamento irregular, parcialmente coberto por uma camada fina de neve.

Bella estava envolta em um xale verde-escuro, antigo, herdado de sua mãe. O tecido pesado acomodava-se sobre seus ombros com familiaridade, protegendo-a do frio cortante que mordia a pele. O vento brincava com os fios soltos de seu coque, libertando mechas rebeldes que tocavam-lhe o rosto, geladas, insistentes. O ar da cidade estava impregnado de aromas conhecidos e reconfortantes — a lenha queimando nas lareiras, o açúcar tostado das amêndoas vendidas nas barracas do centro, e aquele cheiro indefinido, quase doce, típico do inverno que convidava ao recolhimento.

O rosto de Isabella encontrava-se corado pelo frio, mas, em intervalos silenciosos, ela fechava os olhos por um instante e inspirava profundamente, como se quisesse gravar aquela tarde dentro de si. Havia algo de sereno naquele caminhar: o rangido suave da neve sob as botas, o vapor que escapava de seus lábios a cada respiração, o ritmo calmo da cidade envolta em tons de cinza e branco.

Edward a observava de relance.

Havia nela uma beleza que não pedia licença — não implorava atenção nem se anunciava com exagero. Simplesmente existia. A linha firme do maxilar, os olhos atentos e críticos, o modo como permanecia alerta até mesmo nos momentos de contemplação silenciosa. Aquilo o intrigava mais do que deveria — e o irritava ainda mais por isso.

Caminharam assim por algum tempo, envoltos em um silêncio espesso, quase confortável, até que Edward decidiu rompê-lo.

— Costuma sempre reagir com tanta… hostilidade, senhorita Swan? — ele perguntou, a voz calma, mas carregada de uma ironia controlada.

Isabella manteve o olhar fixo à frente, sem suavizar o semblante.

— Apenas quando percebo algo ou alguém com potencial de machucar aqueles que amo, milorde — ela respondeu. A voz saiu firme, fria como lâmina recém-forjada.

Edward arqueou levemente uma sobrancelha.

— Então a senhorita realmente me vê como uma ameaça?

Ela interrompeu o passo. Jake seguiu alguns metros à frente, mas Isabella se virou e o encarou de frente, os olhos escuros brilhando com franqueza implacável.

— Eu o vejo como alguém que não mede consequências quando decide o que quer — Bella disse, sem rodeios. — E isso, milorde, costuma ser perigoso.

O silêncio que se seguiu foi denso, cortado apenas pelo estalo distante da lenha queimando nas lareiras das casas vizinhas. Edward sustentou o olhar dela por longos segundos — o queixo erguido, os olhos teimosos, a postura que não cedia. Um sorriso quase imperceptível tocou-lhe os lábios.

— E a senhorita está preparada para lutar contra uma força maior? — ele murmurou, provocador.

Bella sentiu o coração acelerar, mas não desviou o olhar.

— Forças maiores costumam cair quando subestimam quem está disposto a resistir — respondeu, afiada.

O momento foi quebrado abruptamente por um latido agudo e vibrante.

Jake, como se zombasse da tensão crescente, puxou a guia com um movimento brusco — e ela escapou. O pequeno corpo disparou pela rua, espalhando flocos de neve a cada salto desengonçado.

— Jake! — exclamou Isabella, em pânico, percebendo que a guia estava solta. — Volte aqui!

O cão, surdo a qualquer autoridade, correu com a euforia de quem acabara de descobrir a liberdade.

— Santo Deus… — murmurou Bella, agarrando as saias do vestido e erguendo-as acima do tornozelo, esquecendo completamente os bons costumes. Saiu em disparada atrás do filhote.

Edward levou um segundo para processar a cena antes de segui-la, resmungando algo entre dentes sobre falta de disciplina e coleiras frouxas. O casaco escuro de lã esvoaçava com o vento, e o som seco de suas botas contra a neve denunciava sua irritação crescente.

— Senhorita Swan! — ele chamou, em tom de advertência. — Deveria ter segurado essa guia com mais firmeza!

— Não me diga — retrucou ela por cima do ombro, ofegante. — Está realmente querendo ajudar, milorde?

Ele não respondeu. Apenas acelerou o passo. Logo corriam lado a lado, as respirações misturando-se ao ar gelado.

O parque central abriu-se diante deles como um refúgio vibrante em meio ao rigor do inverno. O lago escuro dominava o espaço, cercado por árvores nuas cobertas de neve. Risadas infantis ecoavam, misturadas ao som distante dos sinos e ao rangido das carruagens nas ruas próximas. Barracas exibiam doces cristalizados, bebidas quentes e pães recém-assados.

Jake, contudo, parecia alheio a tudo.

Corria em zigue-zague, a cauda abanando freneticamente.

— Jake, pare! — gritou Isabella, arfando. — Vai acabar se machucando!

Edward estreitou o olhar.

— Se ele alcançar a rua principal, onde as carruagens passam… será um desastre.

— Então vá atrás dele em vez de narrar o óbvio! — disparou ela, em pânico.

Edward lançou-lhe um olhar incrédulo — e correu.

A cena beirava o absurdo: o reservado visconde, sempre impecável, correndo pelo parque atrás de um cão travesso. Alguns transeuntes riram, outros observaram boquiabertos; um grupo de crianças chegou a aplaudir.

Jake desviou entre pernas e bancos, indo direto em direção a uma jovem que caminhava distraída ao lado de um cavalheiro alto e loiro, próximo ao lago.

O coração de Isabella gelou.

Alice… — ela sussurrou, reconhecendo a figura.

Alice ergueu os olhos, surpresa — mas já era tarde demais. O filhote pulou em sua direção, desequilibrando-a. Um grito escapou-lhe antes que caísse na água escura e gelada.

Edward moveu-se por instinto.

Em um único impulso, o visconde lançou-se na água escura e cortante do lago. O choque do frio foi brutal, arrancando-lhe o fôlego por um segundo ínfimo, mas irrelevante. Agarrou Alice com firmeza, envolvendo-a pela cintura e puxando-a de volta à superfície antes que o pânico a dominasse por completo. A jovem arfava, assustada, os braços agarrando-se a ele por instinto.

— Está tudo bem — murmurou Edward, a voz grave e controlada, mesmo enquanto a água gelada lhe queimava os músculos.

Jasper correu pela margem, ajoelhando-se para ajudar a puxá-los para fora. Alice foi retirada primeiro, tremendo violentamente, o vestido pesado pingando e colando-se às pernas. Ao mesmo tempo, Isabella finalmente conseguiu prender a guia no pequeno corgi, que agora observava a confusão com a cabeça levemente inclinada, como se não compreendesse o caos que causara.

Edward foi o último a sair da água.

A bota afundou na neve fofa da margem, soltando um esguicho pesado e sujo. A camisa branca grudava-se ao abdome e ao peito, delineando com clareza os músculos rígidos sob o tecido encharcado. A água escorria-lhe pelos braços, pingava da barra do casaco e deslizava pelo maxilar tenso. Os cabelos, antes impecavelmente arrumados, agora estavam escurecidos e colados à testa, reforçando a expressão severa — quase feroz — que tomava-lhe o rosto.

O frio parecia incapaz de competir com a irritação que emanava dele.

Pessoas começaram a se aproximar, formando um pequeno círculo ao redor da cena. Murmúrios baixos, olhares curiosos, expressões alarmadas.

— Alice, você está bem? — perguntou Isabella, a voz tomada pela aflição enquanto se aproximava da irmã.

— Estou… bem… — respondeu Alice, batendo os dentes, os lábios arroxeados pelo frio. — Só… só está muito gelado…

Antes que Bella pudesse dizer mais alguma coisa, Edward avançou um passo.

— Esse animal poderia ter causado um acidente grave — acusou, a voz cortante como gelo recém-quebrado. — Deveria ter mais controle sobre o que lhe pertence, senhorita Swan.

Isabella virou-se para ele de imediato, os olhos escurecendo.

— Ele não é um objeto — ela rebateu, ofendida. — É um ser vivo!

— Um ser vivo que quase feriu sua irmã — replicou Edward, sem suavizar o tom. — Chame como quiser. Eu chamo de irresponsabilidade.

Bella cerrou os punhos ao lado do corpo, sentindo o sangue pulsar nos ouvidos.

— Se o senhor não tivesse essa necessidade absurda de controlar tudo ao seu redor — ela retrucou, avançando um passo — talvez entendesse que o mundo não funciona como um salão aristocrático, onde nada foge à sua vontade.

Algo brilhou nos olhos dele — uma centelha intensa, difícil de definir. Raiva, desafio… ou algo perigosamente próximo de admiração.

— Por favor… não briguem… — pediu Alice, trêmula, a voz fraca. — Jake só queria brincar…

Jasper, percebendo o estado da jovem, retirou o próprio casaco e envolveu-a com cuidado, aproximando-se dela de forma protetora.

Edward não desviou o olhar de Isabella.

— Brincar, senhorita? — ele murmurou, com uma frieza controlada. — É assim que justifica a desordem?

Isabella soltou uma risada curta, seca, desprovida de humor.

— Se é de ordem e silêncio que o senhor gosta, talvez devesse conviver apenas com estátuas — ela respondeu. — Elas não correm, não erram… e certamente não o desafiam.

O corgi latiu alto, abanando o rabo, como se aprovasse cada palavra.

— A senhorita testa minha paciência — disse o visconde, finalmente, com um fio de exaustão na voz.

— E o senhor consegue ser insuportável em qualquer circunstância — devolveu Bella, sem hesitar.

Edward fechou os olhos por um breve instante e respirou fundo, visivelmente se obrigando a recuperar o controle. Em seguida, voltou-se para Jasper.

— Whitlock, sua carruagem está próxima?

— Logo ali — respondeu ele, apontando para a rua lateral.

— Então levarei a senhorita Alice para casa — decidiu Edward. — Está molhada demais para permanecer aqui.

— Eu vou junto — disse Isabella de imediato, o coração apertando.

Edward virou-se para ela, o olhar firme, inquestionável.

— Não precisa. — A palavra saiu seca. — A senhorita já fez o suficiente hoje.

Antes que Bella pudesse protestar novamente, a decisão já estava em movimento. Alice foi conduzida até a carruagem, envolta no casaco de Jasper. O visconde subiu logo atrás dela, fechando a porta com um gesto definitivo.

As rodas começaram a se mover.

Isabella permaneceu imóvel no parque, a guia firme na mão, o pequeno corgi agora quieto ao seu lado. A neve parecia mais silenciosa do que nunca, o frio mais cortante.

Seu peito apertou.

O pior pesadelo tomava forma clara demais diante de seus olhos. O visconde estava com Alice. E ela não estava lá para protegê-la.