Tom dedilhava algo no violão em seu quarto de hotel. Tinha chegado do show há poucas horas. Estava amando tudo aquilo, estava feliz. Apenas uma coisa lhe chateava: Anne Danielle. Mesmo não querendo, pensava na garota todo o tempo. Olhava para o numero do telefone dela, mas não tinha coragem de ligar, mesmo seu coração dizendo para pegar o aparelho de telefone e discar os números.

Colocou o violão de lado e procurou em sua jaqueta o papel que Anne tinha anotado o numero de telefone. Achou-o e passou a observá-lo, como havia feito desde o dia que ela lhe dera. A letra da garota era linda assim como ela. Sentia-se vazio. Seu coração parecia ter um buraco enorme. Queria que aquele dia voltasse e suprisse sua vontade quando ambos estavam conversando no quarto: Beijar Anne. Sim, queria sentir aqueles lábios nos seus, nem que fosse somente uma vez. Se ao menos tivesse se inclinado mais quando estavam próximos... Como se arrependia disso! Mas agora não dava mais. Tinha perdido a oportunidade. E mesmo assim era melhor. Se o tivesse feito estaria se culpando por pensar em duas garotas. Sim, ainda se pegava pensando em Emily as vezes. Ela não desaparecia de sua cabeça de jeito nenhum! As vezes se recordava dos chiliques que ela dava e muitas vezes do prazer que ela lhe proporcionava, mas Anne ocupava seus pensamentos mais do que Emily.

Queria ligar para a francesa, mas tinha receio ainda. Algo parecia impedir que apertasse os malditos números. Tinha certeza que ela o havia esquecido. Afinal, que lembranças tinha dado à ela? Nenhuma. Uma conversa, um café, nada disso deixava marcado alguma coisa. Praguejou a francesa em pensamento. Pra que diabos ela tinha dado aquele numero? Se não tivesse feito isso, talvez não estaria pensando nela com tanta intensidade e com medo de ligar. Teria a esquecido e estava tudo certo. Mas não, ela tinha que ter feito aquilo para acabar com a sua vida. Tom havia decidido não se apaixonar de novo, não arrumar encrenca para sua vida, preocupações para sua cabeça e dor para seu coração. Só que o destino estava brincando com ele. Porque havia colocado Anne Danielle em seu caminho? Só para fazê-lo sentir tudo aquilo que não podia. Se não tivesse esbarrado nela, não a tinha conhecido e possivelmente à essa hora estaria largado na cama pensando em Emily ou compondo alguma coisa.

Parou por um momento. Olhou do papel para o telefone. Que se danasse. Ligaria para ela sim. Mas para isso, precisaria de uma força. Se levantou e pegou o pacotinho de pó que estava guardado na mala. Na mesa do telefone fez duas carreiras. Cheirou a primeira de uma vez. Fechou os olhos e ergueu a cabeça. Aquela merda não estava fazendo surtir as sensações que esperava. Cheirou a segunda e esperou um momento. Nada.

Pegou o pedaço de papel novamente. Ia discar os números. Passou a mão no rosto e pegou o telefone. Discou todos os números e esperou um momento. Chamou uma vez... Chamou a segunda... Na terceira desligou rapidamente. Ajeitou os cabelos e segurou a cabeça com as mãos. Aquilo era um erro. Ligar para Anne era um erro. Se fizesse aquilo, iria entregar seu coração de vez. Não podia se apaixonar e não iria.

Batidas na porta, que logo foi aberta. Era Fred acompanhado de Jeff. Fechou a mão, amassando o pequeno pedaço de papel e largou-o em cima da mesa. O que aqueles dois queriam? Se levantou e encarou os dois companheiros de banda.

— O que foi? – disse nervoso com as mãos na cintura. – Não podia esperar eu abrir a porta?

— Não, você é lento demais. – Jeff respondeu, deitando-se na cama do vocalista e cruzando as pernas.

Fred se largou no sofá próximo à janela.

— Esqueci que você não tem educação.

— Nossa, você também está nervosinho? Porque já não basta o Eric!

Expirou longamente. Seus motivos eram diferentes dos de Eric. O baixista estava nervoso apenas porque não ia conseguir mais comer Beth e ele estava se descobrindo apaixonado por uma garota que nunca mais veria na vida e que não se lembrava dele.

— Jeff, fala logo o que você quer, cara... – Passou a mão nos cabelos, ajeitando-os para trás.

— Vai rolar umas voltas por ai? Ah vamos fazer alguma coisa, não agüento essa coisa de show-hotel, hotel-show. — O guitarrista reclamou.

— Por que vocês não chamam o Eric? Eu não to afim de sair. Hoje não.

— Porque aquele loiro azedo tá com frescura! – Jeff exclamou. Eric tinha sido arrogante quando fora chamá-lo para sair e até bateu a porta na cara dele e de Fred.

Aquela história do sumiço de Beth estava afetando os nervos do baixista a ponto de deixá-lo insuportável. Todos ali sentiam falta das gracinhas que Eric fazia.

— Então vão vocês dois. Daqui eu não saio hoje.

Fred e Jeff levantaram no mesmo instante. Que culpa tinha se aqueles dois estavam estressados? Ambos saíram um empurrando o outro e Tom bateu a porta quando Fred quase alcançava o elevador.

Tom voltou para perto da mesinha do telefone e desamassou o papel. Inferno. Teria coragem de discar os números de novo? Não. Decididamente não ligaria para ela. Guardou o papel na jaqueta e saiu do quarto. Precisava conversar com alguém e sempre quem o ouvia era Brittingham.

Eric não sabia mais o que fazer para tirar Beth de sua cabeça. Desde que ela sumira não parava de pensar um segundo nela e relembrar da transa dos dois. Nunca ficara assim com garota nenhuma! Aquela estava afetando mais que a sua cabeça, sabia disso. Aqueles apertos no coração quando a imaginava era um sentimento. Um que Eric não queria ter. Não voltaria mais a ver Elisabeth. Ela não queria mais vê-lo, era mais correto, pois por ele já teria ido atrás da garota. Se não fosse a turnê que estava fazendo, nesse minuto estaria correndo todo o mundo procurando por ela. Maldita hora em que Fred havia apresentado aquela menina, maldito hotel em que ambos se encontraram, maldito destino. Odiava sentir necessidade de algo ou alguém que não podia ter.

Aquilo já estava se tornando insuportável. A dor de cabeça que Eric tinha de tanto pensar nela era horrível. Apenas uma coisa o fazia esquecê-la: Cocaína. Quando cheirava, eram os únicos 40 minutos do dia que passava com ela fora de sua mente.

Apagou o cigarro no cinzeiro e largou o copo de whisky numa mesinha próxima ao sofá. Pegou o pacotinho em sua mala que continha 150 mg da droga. Sentou no sofá novamente e puxou a mesinha para sua frente. Ajeitou três carreiras e encarou-as quando concluiu um pensamento: Não estava usando cocaína por diversão. Estava se drogando por uma mulher! Praguejou e cheirou a primeira carreira. Esperou alguns segundos. Nada do efeito esperado. Cheirou a segunda com a outra narina aguardando mais um pouco. Nada. Ajeitou mais duas. Cheirou as três que estavam enfileiradas na mesinha. Logo, sentiu seu coração começar a bater mais forte e sua boca se encher de saliva. Tremores passavam por seu corpo e a droga já começava a fazer seus efeitos. Beth sumiu de sua cabeça por um momento, para voltar segundos depois. Pior. Começou a arfar, precisava daquela garota. Estava ficando louco! Passou a mão no rosto e afastando os cabelos para trás. Jogou a cabeça para trás, afastando a imagem do rosto dela de sua mente. Daqueles olhos azuis quando lhe dera prazer. Xingou alto. Pegou o pacotinho novamente, com as mãos trêmulas e com o restante da droga fez mais carreiras. Ela tinha que desaparecer da sua cabeça e naquele minuto, antes que tivesse um ataque. O coração parecia querer abrir um rasgo em seu peito e sair para fora, de tão forte e rápidas que eram as batidas. Cheirou todas, uma atrás da outra, sem dar trégua. Seu corpo amoleceu. Tomou o ultimo gole do whisky que estava ao lado e foi o suficiente para Eric começar a cair na escuridão dos efeitos da cocaína consumida em excesso.

Não conseguia sentir mais nada em seu corpo, parecia que estava flutuando. Tudo parecia girar em sua volta. A saliva era excessiva em sua boca e grossa, pois não conseguia parar de engolir, parecia se formar um mar de água a cada segundo. Não sentia mais os dentes. Era como se apenas seus olhos estivessem funcionando no momento e sua percepção das coisas. Tudo estava errado. Seu peito começou a doer e a palpitar ainda mais forte. O ar parecia lhe sumir do pulmão, num desespero começou a puxar oxigênio, sem encontrá-lo. Tinha que chamar Tom. Precisava de um hospital. Estava tudo escurecendo. Se levantou e no mesmo instante caiu no chão, pois não sentia seus pés. Dali, não viu mais nada, apenas leves batidas na porta. Tudo apagou em questão de segundos.

Bateu quatro vezes na porta, mas o loiro não a abriu. Bateu novamente e nada. Eric não havia saído. Ele devia estar tomando banho ou dormindo. Mas algo estava deixando Tom inquieto. Encostou o ouvido na porta para tentar ouvir algo. Nada. Tudo silencioso. Forçou a maçaneta e abriu a porta. Antes não tivesse feito. Do batente da porta conseguiu ver o baixista jogado no chão. Tom começou a arfar. O que aquele imbecil tinha feito? Correu ao encontro de Eric e tocou o braço do amigo. Estava molhado de suor e tremia.

— Eric! Eric! – Chamou o amigo, sem resposta.

O loiro estava inconsciente. Sem esperar mais um minuto chamou o resgate pelo telefone do quarto do baixista. Aquele imbecil não podia morrer. Olhou em cima da mesinha próxima à ele. Whisky, um maço de cigarros e um cinzeiro cheio de bitucas estavam em cima. E restos de pó. O pacotinho que guardava a droga estava no chão. Tom xingou o amigo alto e passou a mão na cabeça. Não agüentaria esperar o socorro chegar. E se seu amigo morresse? Não. Iria tentar acordá-lo. Maldita hora que Jeff e Fred resolveram se divertir.

Puxou-o pelos braços, arrumando-o no chão mesmo com o rosto para cima. Bateu no rosto de Eric varias vezes chamando-o, mas não tinha resposta nenhuma. Se debruçou e encostou o ouvido no peito molhado de Eric. O coração batia freneticamente e forte. Aquele imbecil não podia ter uma overdose! Não sabia o que fazer, mas queria acordá-lo.

No momento em que iria bater nele de novo, paramédicos entraram no quarto e o afastaram de Eric. Tom estava assustado. Não ouvia o que lhe falavam. Apenas via seu amigo recebendo primeiros socorros e sendo colocado numa maca. Não dera nenhuma reposta para o que lhe perguntavam. Apenas ficou sentado no chão, os lábios secos e seus olhos fixos no amigo. Eric era seu único e mais próximo amigo. Não podia morrer, não podia...

Ficou mais calmo quando já tinham o tirado do quarto de hotel. Todo o terror estava passando. Acompanhou um paramédico que ficara ao seu lado, tentando lhe arrancar respostas que não tinha. Sabia o motivo dele ter usado tudo aquilo, mas não havia presenciado nada daquilo. Enfiou-se na ambulância e foi para o hospital. Tinha que dar um jeito de avisar Fred e Jeff do acontecido, agora como, não sabia. Não tinha a menor idéia de onde aqueles dois tinham ido se divertir.

Falou aos médicos tudo o que sabia e aguardou na sala de espera por alguma noticia. Torcia para que tivesse conseguido socorrer o amigo a tempo. Se aquele vagabundo morresse, fazia questão de quebrar a cara dele dentro do caixão. Estava nervoso demais. Suas mãos suavam e estavam geladas. Queria uma noticia logo.

— Tom! – Ouviu alguém chamá-lo.

Olhou para o corredor e viu Fred e Jeff indo ao seu encontro, ambos assustados.

— O que aconteceu? – Fred indagou assim que chegaram próximo ao vocalista.

— O Eric abusou da cocaína. – Respondeu, levantando-se.

Fred praguejou.

— E ai? Já sabe como ele tá? – Jeff perguntou, com as mãos na cintura.

— Não, não recebi nenhuma noticia ainda. Chegamos há pouco tempo. Como vocês ficaram sabendo?

— Jon conseguiu nos encontrar e contou que uma ambulância tinha saído do hotel com vocês dois dentro. De resto, foi fácil. – Fred explicou, sentando-se no sofá da sala de espera.

Jeff e Tom acompanharam o baterista e se sentaram também. Era bom Eric sair daquela, foi o pensamento de todos.

Tom sabia o motivo do abuso de drogas, álcool e cigarros do baixista: Elisabeth Mountbatten.

— Fred... Você sabe alguma coisa sobre a Beth? Ligou pra ela?

— Não, eu não encontrei o telefone dela nas minhas coisas. – Fred fez uma cara de decepção.

Parecia que apenas ele tinha alguma noção do que Eric estava sentindo por aquela menina. Fred e Jeff aparentavam estar em outro mundo! Daria um jeito de encontrar aquela garota. Eric não podia continuar daquele jeito.

Continuaram calados, esperando algum médico dar noticias.