Corações Rendidos
24 Capítulo 24
Notas iniciais
— Dean, desculpe te desapontar... – Beth disse ao se despedir do loiro.
Havia dito um bem claro “Não” para ele, de uma forma nada educada. Naquele momento se assustara e falara sem pensar. Tinha o machucado, sabia disso e se sentia desconfortável ao olhá-lo no momento. Mas não cometeria tal ato que ela julgava importante na vida de duas pessoas, amando a outro. Jamais faria isso. Mesmo que esse outro não merecesse um pingo de seu sentimento. Ryan, Mike e Paulina ficaram claramente nervosos ao saber o motivo da aparente tristeza no rosto de Dawson. Mas Beth não podia fazer nada. Não se casaria com Dean, amando Eric, mesmo que ele a fizesse se esquecer do loiro ao longo do casamento.
— Você não me desapontou. – Ele disse. – Me fez admirá-la ainda mais. É tão fiel ao seu sentimento... E isso é difícil de encontrar hoje em dia. Não me incomodei com a sua resposta, eu até gostei dela. Mostra que você é uma mulher honesta e me faz crer que esse Eric é um completo idiota por estar desperdiçando uma mulher maravilhosa e linda como você. E que possui um forte e bonito sentimento por ele. Um amor que eu gostaria de ter para mim. Mas cheguei tarde. – Dean ensaiou um sorriso.
Beth alisou os cabelos e sorriu sem graça.
— O destino é injusto, não? – Ele riu, entristecido.
— Oh sim. Ele é muito injusto. – Beth concordou. – Mas pretendentes não lhe faltam, Dean.
— Não me faltam, sei disso. Mas eu não as quero. Me satisfaço sim, como qualquer homem faz, só que não brinco com nenhuma delas. Deixo claro que não quero nada além de uma noite ou duas talvez. Beth, eu demoro para gostar de uma mulher. E quando eu gosto... Meu sentimento não se apaga facilmente. E sei que você entende desse assunto... – Deu dois passos para perto do táxi que Konrad chamara. – Só digo que estarei aqui. Para sempre que você precisar. Estarei aqui pra você.
— Obrigada, Dean. – Foi a única coisa que conseguiu dizer.
Dean entrou no táxi e lhe deu um sorriso. Um lindo sorriso. Ficou a observá-lo partir.
Uma dor assolou seu peito. Tinha feito o correto? Trocar Dean por Eric? Trocar o certo pelo duvidoso? Ah, não sabia mais. Estava triste também, assim como ele, mas não podia fazer muito. Com uma merda de sentimento daquele, era melhor ficar enclausurada em seu canto, sem causar danos a ninguém. Sem causar terríveis danos ao coração de Dean.
Entrou na residência dos Kowalkowski e encarou seus familiares que estavam ali presentes. Cada um fazendo algo. Ninguém notara sua entrada. Paulina ajudava Annelise à juntar os presentes que ganhara. Apertou o manto quente que Dean havia lhe dado contra o corpo. No fundo, sabia que não tinha feito o correto com ele. Ryan e Loren estavam no sofá, um casal lindo, apreciando a barriga da ruiva que já estava um pouco alta. Queria tanto passar por aquilo... E desperdiçara uma chance de ter uma bela vida, momentos atrás. Suspirou. Richard e Konrad conversavam sobre algo muito interessante para ambos, já que pareciam tão sérios. Seu pai e seu avô foram os únicos que a apoiou em sua escolha. Deixaram claro que queriam apenas o bem de Beth e que a escolha que ela fizesse, não importaria para eles. Apenas a felicidade dela. Mike era o único quieto e sentado no sofá, sozinho. Era como ela. Sempre ficava sozinho. Fosse em questões do coração, ou até mesmo em relação à família.
Sentou-se ao lado de seu irmão e encostou sua cabeça no ombro dele, colocando os pés no sofá e cobrindo-se ainda mais com a manta quente. Era tão gostoso aquele pano!
— Nada mudou. Ainda te acho uma burra.
— Fiz o que meu coração mandou, Mike. Só isso. – Retrucou. – O que você tem? Parece preocupado.
Mike respirou fundo e soltou o ar devagar. Estava preocupado mesmo. Não sabia a quantas andava o plano de Emily, pois não ficara lá para ver o que tinha causado seu encontro com Keifer na porta da casa dele, mas ela lhe avisara que não acabava por ali. Ainda tinha algo a ser feito. Queria Anne, mas não daquela forma. Não era nem um pouco justo aquilo que estava fazendo. Já estava cansado de tanto pensar em como estava agindo. No jogo sujo em que estava se metendo. Mas já que estava na chuva, o que tinha a fazer era se molhar. E pior: Não podia nem contar à sua irmã sobre o que fazia. Não podia contar à ninguém. Tinha que ficar com seus pensamentos para si. Sem poder desabafar com alguém.
— Impressão sua, Beth. Estou apenas cansado. Trabalhei muito essa semana.
— Ah sim, Como estão Thor e Loki? – Indagou, mudando de assunto. Sentia falta dos dois. Principalmente de passear com eles. Lembrou-se da ultima vez que saíra com ambos e encontrara Eric. Foi sorte ele ter escapado de Loki e Thor.
— Bem.Estão muito bem. – Falou um pouco nervoso. Loki conseguira melhorar, mas ainda ficava com um pé atrás. Emily era uma completa doente mental. Sentia-se inclinado a esconder os dois animais quando ela viesse a visitar sua casa.
Durante toda aquela tarde, todos ficaram juntos. Mike e Ryan decidiram ir embora apenas no dia seguinte e ficar para comer o bolo de chocolate que Paulina fizera para Beth. Os dois haviam pegado folga de dois dias e assim poderiam ficar em Salisbury sem preocupações. Apenar que Ryan ficava preocupado com seu trabalho.
Beth comunicou Ryan seu desejo de voltar ao trabalho, mas no HUP. Ryan ficara feliz mesmo estando um pouco bravo com ela por não ter aceitado o pedido de casamento de Dean. Mas se sentia mais contente ao notas a melhora de sua irmã, pois a tristeza sumira de seu rosto e a via sorrir com freqüência desde que chegara. Ela querer voltar a exercer sua profissão era já um grande passo.
— Quando pretende voltar? – Indagou, assim que todos se retiraram para dormir.
Estavam apenas os dois na sala, pois não contavam a presença de Mike, que via um jogo de baseball na televisão.
— Terminarei essa semana aqui, já que só faltam dois dias. Segunda eu já retorno pra Filadélfia... – Beth disse, se acomodando melhor no sofá de dois lugares, já que Ryan tomara todo o espaço do sofá maior.
— Estou feliz que você queira voltar a trabalhar, Elisabeth. – Ele sorriu. – Mike também está de transferência do Thomas Jefferson para o HUP. Foi aprovado no começo da semana. Não é, Mike?
Ambos o olharam e ele apenas deu um sinal de positivo, pois estava vidrado da tela da TV. Quando ele via um jogo ou um filme, era melhor esquecer a presença de Mike no local.
— Legal. Os irmãos Mountbatten no mesmo hospital! – Beth exclamou. Aquilo não daria muito certo, apesar de serem profissionais e as vezes se esquecerem do parentesco quando trabalhavam juntos. – Mas Ryan, eu não queria ficar como enfermeira... – Beth tinha pensado muito e não sentia vontade alguma de trabalhar na mesma coisa que antes.
— Como? – Indagou, confuso. – Mas você se formou nisso.
— Eu sei, mas cansei. Quero voltar, mas não para ter contato direto com as pessoas, como eu tinha. Não agora.
— Eu avisei pra ela escolher a Obstetrícia ao invés da Enfermagem. Ela não me ouviu. – Ouviram Mike reclamar.
Beth sabia que ele havia avisado. Antes tivesse escutado-o. Amava ambas as duas profissões, aliás, amava todas os ramos da saúde. Mas escolhera sem pensar muito. Mal havia saído do colégio e já estava louca atrás de uma faculdade. Havia ido na que lhe interessara mais naquela época.
— Entendi. – Ryan pouco ligou para o que o irmão dissera. – Mas o que você quer fazer lá, então?
— Posso lidar com fármacos. – Disse, decidida. Era nisso que vinha pensando há um tempo.
— Fármacos? Mas você não estudou sobre isso, Beth! É muito complicado. Não posso te colocar como farmacêutica se você não sabe nada sobre o ofício.
— Ryan, querido... Você já ouviu falar em estudar? Pois bem, posso não saber tudo sobre farmacologia, mas estudando eu consigo. Você não nasceu sabendo neurologia. – Ironizou.
Ryan pensou por um instante. Não conseguiria deixar Beth naquela área. Não enquanto ela não cursasse farmácia. Era médico-chefe, não dono da droga do hospital!
— Elisabeth, eu não posso fazer muita coisa quanto a isso. Se fosse para você exercer o que fazia no Thomas, ficaria mais fácil, pois já tinha reservado uma vaga pra você antes. Mas te enfiar numa área que você não domina, não posso. Mas se você ficar no começo como enfermeira e cursar uma faculdade de farmácia nesse tempo, consigo te colocar no laboratório ou na farmácia do hospital.
— Então é isso. – Ela deu um largo sorriso. – Viu que simples? Vamos fazer isso, então! Assumo como enfermeira como fazia antes, até você conseguir me colocar como farmacêutica. Simples. Voltarei pra Filadélfia e procurarei uma boa faculdade de farmácia e começo a estudar.
Ele demorou um pouco, mas concordou e Beth ficou um pouco mais aliviada. Teria com o que se ocupar agora. Estudaria e trabalharia, como fazia antigamente, assim não pensaria em Eric durante 24 horas por dia. Mas em compensação, pensou, veria Dean durante uma boa parte de seu tempo, praticamente.
— Loren também está querendo por em prática Design de Interiores. Ela me falou esses dias por telefone...
— Até que enfim! Já estava mais do que na hora. Há quanto tempo ela se formou mesmo? – Riu quando Ryan deu de ombros.
Continuaram a conversar animadamente sobre tudo. Já fazia um certo tempo que não conversava com seu irmão. Praticamente desde que mudara da Filadélfia para Nashville. Beth se sentia melhor quanto todos estavam reunidos no mesmo ambiente. Se sentia diferente, melhor, sem tristezas ou qualquer coisa do tipo.
Depois de conversarem durante um bom tempo, cada um foi para seu quarto, quando Loren desceu e pegou Ryan pelo braço, alegando que precisava do marido e o carregou para o andar superior. Beth fez o mesmo com Mike, pois o irmão quase dormia no sofá.
***
Anne despertou sendo beijada na ponta do queixo e nos lábios. Ensaiou um sorriso e envolveu o corpo magro, mas sedutor de Keifer com os braços. Agradecia por sua mente nervosa não tê-la levado embora dali. Alguma cosia lhe dizia que tudo ficaria bem e de fato, estava. Desde a outra noite, tudo entre ambos corria perfeitamente bem.
Tom a tratava com carinho, como sempre fizera desde o primeiro dia em que se encontraram na França e explicara sobre a garota no carro. Entendeu-o, mesmo sentindo ciúme da mulher, e agradecia a ela por ter feito-o enxergar tudo claramente e voltar para seus braços.
Sem falar coisa alguma, ambos se deliciaram com o corpo um do outro e somente depois do orgasmo, Tom rolou para o lado, arfando. Alguém podia, por favor, lhe ensinar como ficar ao lado de Anne sem transar com ela? Pensou, e riu.
— Acho que estamos transando muito, ultimamente. – Ele disse, recuprando o fôlego.
— Estamos compensando pelo Cinderella todo! Já que o Eric anda nervosinho e não transando com nenhuma garota... O Jeff e o Fred, tadinhos... – Anne riu quando Tom lhe deu um cutucão. Rolou para cima dele. – E além de tudo... Adoro ter você dentro de mim.
Tom afastou uma mecha de cabelo úmido dela, e observou-a. Aquela bela mulher era sua. Toda sua. Não queria nem imaginar o que seria de sua vida caso ela fosse embora dali, por causa de seu ciúme incontrolável.
— Eu amo você. – Disse, antes de beijá-la.
Tom empurrou-a delicadamente para o lado e pegou sua jaqueta, que estava pendurada na cabeceira da cama. De dentro de um dos bolsos internos, tirou uma caixa, não muito grande. Fora preciso deixar Ane na companhia de Fred, Eric e Jeff no estúdio e pegar escondido um dos muitos anéis da francesa para fazer aquilo. Observou-a. Anne olhava fixamente para seu rosto, sem sorrir, segurando o lençol na altura dos seios e sentada na cama.
— O que é isso, Tom? – Ela indagou num sussurro. Era óbvio, mas queria ouvir da boca dele.
— Uma laranja! – Ele brincou, rindo.
— Palhaço! — Ela quase jogou uma almofada nele, mas se conteve. Seria o que estava pensando mesmo?
— Oh, eu sei que sou um palhaço... Só espero que não tenha dado falta de alguma coisa sua, pois peguei emprestada. Mas enfim... – Tom sentou-se na cama, imitando-a. – Eu já havia pensado nisso há algumas semanas atrás, mas não quis me precipitar. Só que agora sei que é o que eu mais quero, Anne. Agradeço até hoje aquele dia na França. Se não fosse minha falta de atenção, não teríamos nos conhecido. E nossa briga só me fez almejar mais ainda o que eu queria.
— Tom, por favor, não enrola! Fala logo!
— Calma!- Tom riu da ansiedade dela. – Anne Danielle, você aceita ser minha esposa?
O sangue de Anne pareceu sumir e o sorriso de sua face foi desaparecendo aos poucos. Se surpreendeu por não desmaiar quando ele abriu a pequena caixa, mostrando um lindo e dourado anel de noivado. Ele realmente estava pedindo-a em casamento?
— Tom... – Encarou-o com lágrimas nos olhos. – MAS É CLARO QUE EU QUERO! – Disparou e se jogou em cima do vocalista, abraçando-o, tamanha era sua alegria.
Ele riu e sentou-a na cama novamente. Seu nervosismo havia passado um pouco, mas suas mãos ainda tremiam. Colocou o anel na delicada mão da francesa e beijou-a depois.
O coração de Anne batia freneticamente. Era noiva de Tom Keifer agora... Nada podia separá-los!
— Eu queria comemorar isso agora, mas tenho que ir. Acho que ao menos o Eric e o Jeff já estão me esperando. Você vem comigo, Sra. Keifer? – Ele sorriu, estendendo a mão pra ela.
— Sim!
Se levantaram e tomaram banho juntos, arrumaram-se e depois de tomar café, saíram. Anne sentia tanta felicidade que mal podia acreditar naquilo.
Emily seguiu caminho contrário do que os dois pegaram, sorrindo. Tinha dado mais certo do que imaginara. Pelo que conseguira ouvir pela janela do quarto de Tom, ele pedira a idiota em casamento. Gargalhou sozinha, chamando a atenção dos poucos que transitavam na rua. Se ela pensava que ficaria com ele, estava muito enganada. Agora era só aguardar Mike retornar de Salisbury para acabar de vez com os pombinhos. E não teria erros. A sorte estava ao seu lado desde o dia em que os encontrara no Double Dutch e fechara parceria com Mike. Riu mais uma vez. Com ele retornando nos próximos dias, seria perfeito. Deixá-la-ia desfrutar mais um pouco de Tom. Observou a chave em sua mão. Fora um pouco difícil, mas não impossível. Ambos tão apaixonados, que esqueceram uma das janelas aberta.
Aquilo seria como tirar doce da boca de uma criança.
***
Eric parou o carro em uma das ruas que mais conhecia em Salisbury. Estava cansado de tanto dirigir. Encostou a cabeça no banco e fechou os olhos por um momento. Não sentia nem um pouco de sono, apenas estava com o corpo cansado e a cabeça pesada.
Gostava de estar ali outra vez. Lembranças lhe vieram à mente e sorriu. Aquele tempo poderia voltar, não se incomodaria. Foram os melhores anos de sua vida, os melhores verões passara naquela rua, naquele lugar. Com as pessoas que mais gostava. Por que tudo tinha que mudar? O tempo era injusto. A vida era injusta.
Ao sentir algo passar por seu colo, abriu os olhos assustado e olhou para baixo. Não viu nada, além de algo laranja passando. Olhou para o lado. Se acomodando no banco do passageiro, onde batia um pouco de sol, um gato grande e cheio de pêlos se deitava. Era laranja rajado de branco, com orelhas também peludas e o rosto um pouco amassado, em comparação à outros gatos que já vira. Um lindo felino. Salisbury já recebia seu retorno bem, mas se fosse uma mulher, gostaria mais. Uma mulher... Parou para pensar. Não, uma “mulher” não o fazia sentir nada. Nem desejo mais.
Mas que merda! Bateu a mão no volante, assustando o gato, que levantou a cabeça e encarou-o com aqueles olhos amarelados. Quase pediu desculpas ao animal, mas ele simplesmente voltou a encostar a cabeça no banco de couro, aparentemente já aquecido pelo sol. Gatos...
Decidiu-se por esticar as pernas e andar um pouco. Não tinha um lugar para ficar ali, depois teria de procurar algum hotel. Não estava a fim de ir para a casa de algum familiar. Queria ficar sozinho, não com um monte de gente e sua mãe lhe fazendo mil perguntas.
Abriu a porta e pensou em enxotar o gato dali, mas ele era muito bonito. Gostara do felino. Levaria ele para a Filadélfia. Mas e se ele fosse de alguém? Pegou-o com cuidado e o gato se largou em seu colo, como se já o conhecesse. Notou que ele possuía uma coleira e com uma ponta de tristeza, olhou a medalhinha que estava presa a ela, porém não tinha nada escrito. Era apenas uma medalha decorativa, sem informações. Mesmo assim, ele tinha um dono que daria falta dele. No fundo, queria aquele gato, mas não ficaria com algo que era de alguém.
Pensou por um momento. Sairia e perguntaria de quem era o gato. Se não fosse de ninguém da rua, o pegaria para si.
Um animal seria bom. Não queria admitir, mas se sentia muito sozinho. E era horrível. Mesmo que ele não o respondesse, teria com quem conversar.
Saiu do carro e trancou-o. Na rua não passava muita gente, estava praticamente vazia naquele meio de tarde. Quantas lembranças daquele lugar. Enquanto andava com o animal largado em seu braço, recordou-se de outro animal que encontrara em Salisbury, ali por perto. E dera-o para a irmã de seu melhor amigo... Como era o nome dela mesmo? Não se lembrava muito bem, mas sempre que tentava vinha apenas um em sua mente: Elisabeth. Até seu passado aquela garota estava afetando. Queria aprender a esquecer alguém rápido. Queria na verdade esquecê-la, mas por outro lado, queria estar junto com ela. Se ela chegasse nesse tempo em que estivesse em Salisbury, seria ruim. A primeira coisa que faria ao chegar na Filadélfia seria parar na casa dela.
Assim que avistou uma senhora junto de uma jovem e duas crianças, vindo em sua direção resolveu perguntar para elas sobre o gato:
— Por favor. – Parou-as.
— Algum problema, moço? – A jovem indagou, um pouco receosa. Pessoas com o estilo de Eric naquela cidade era raro.
— Vocês sabem me dizer de quem é esse gato? – Mostrou o felino para elas, pouco se importando como elas o olhavam torto.
— Não, não sabemos.
— Obrigado.
Elas se distanciaram, comentando algo que Eric não conseguira ouvir, e ele fez o mesmo. Com quase todas as pessoas que passava por ele, Eric repetia a mesma pergunta. Ninguém sabia informar de quem era o bichano. Depois de um tempo, acabou por desistir de sua procura. O felino iria para a Filadélfia junto com ele dali a quatro dias. Acariciou o animal, que começou a ronronar. Como nunca tinha pensado em ter um bicho de estimação para si?
Continuou a caminhar, para espairecer um pouco e logo no final da esquina se deparou com uma casa muito conhecida. Olhou para a placa de Boas Vindas da casa, para ter certeza que era aquela. Só ela na rua inteira tinha uma placa daquelas e com o nome da família. Rapidamente reconheceu e se lembrou, abrindo um largo sorriso. Kowalkowski. Paulina e Konrad. Fazia anos que não os visitava! Seria bom relembrar de tudo. Assim esqueceria um pouco de Beth, ao menos por uns momentos. Seria bom para entender se era aquilo mesmo que o seu coração desejava.
Em passos rápidos seguiu para a casa da senhora que tantas vezes chamava de avó. Era automático e tinha pego o costume muito rápido. Vivia tão colado naquela família quando criança, que era tratado como se fosse um deles. Pena que durara muito pouco. Depois que seus amigos se mudaram, sumira da casa de Paulina e de Annelise, e se tornara outro garoto. Tinha perdido seus dois melhores amigos e foi difícil fazer outros, pois sentia falta deles. Somente quando encontrou Tom, teve um pouco daquele laço de volta. Um pouco do que tinha com Ryan. Era muito bom voltar as raízes.
Quem sabe, nos dias que ficasse ali, esqueceria um pouco de sua vida? Seria ótimo. Tinha certeza que tudo estava para se tornar mais complicado, pressentia isso. Algo ia deixá-lo sufocado alguma hora. Todos os integrantes de uma banda tinham essa época... E ele estava entrando nela.
Sabia que não conseguiria se esquecer de Elisabeth por completo naqueles dias, mas ao menos um pouco faria a diferença.
Passou pelo jardim cheio de flores e parou em frente à porta dupla de entrada. Há quanto tempo não os via mesmo? 14 anos? 15? Não se recordava, mas devia ser mais ou menos esse o tempo.
Tocou a campainha e ficou a aguardar a abertura da porta, fazendo carinho nos pelos do animal que ainda estava deitado em seu braço e ronronava.
Ouviu uma voz feminina berrar um “já vai”. Devia ser Paulina. Ao ouvir o barulho do trinco se abrindo segundos mais tarde, abriu um largo sorriso e seu coração bateu mais forte de ansiedade. Como ela lhe receberia? Será que se lembraria? Tinha mudado tanto...
Mas no instante em que a porta foi aberta, seu sangue pareceu congelar e seu coração parou de bater por um segundo, voltando com força no instante seguinte.
Encarou os olhos azuis. O sorriso sumira de sua face. O que era aquilo?
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