Corações Perdidos
9 09. Rumo à explicações
Notas iniciais
— CERTO. ALGUÉM PODE me explicar novamente esse lance de “levados até lá por alguém”? — questionou Sam.
Muitas coisas se passaram pela minha cabeça quando Castiel disse aquilo, como por exemplo, o fato de termos sido abatidos em um lugar e de termos acordado horas depois, quem sabe até dias, a mais de cem quilômetros de onde estávamos inicialmente.
Mas é claro que, mesmo achando esse tipo de declaração bem sensata e justificável, eu não pude evitar ficar imensamente surpresa. Afinal, eu não suponho que as pessoas costumem ouvir todos os dias coisas como essas.
“Olá, fui capturada por um Wendigo, apenas para depois descobrir que era algum tipo de artimanha demoníaca e sádica. Bem divertido, certo?”. Não acho que essas sejam as notícias mais comuns das colunas semanais.
Ali, naquele quarto de motel, a uma distância considerável de casa, consegui perceber o quão séria aquela busca havia se tornado e quão sério era o compromisso daquelas pessoas comigo; Sam, Dean e Cas. Eles me ajudaram a chegar até ali, mesmo que a única coisa que tivéssemos conseguido até aquele momento fosse uma pista ao pé de uma montanha onde existem: um Wendigo querendo nos matar e uma pessoa misteriosa querendo nos matar. É, as circunstâncias também não estavam muito a nosso favor.
— Emma! — uma voz familiar praticamente berrou meu nome.
Saí de meu devaneio e me surpreendi ao perceber que estava apertando a colcha da cama com tanta força que, quando retirei a mão, haviam cinco perfeitas marcas de dedos definidas no tecido. O olhar de todos estava sobre mim, mas era o de Castiel que denunciava quem tinha me chamado.
— Desculpe, estava distraída — respondi piscando algumas vezes. — O que dizia?
O anjo suspirou e tornou a dizer:
— Estava falando que senti uma presença na montanha, mas não pude identificar quem era. Talvez você ou Sam tenham alguma ideia de quem possa ser — ele me olhou de maneira significativa. — Seja lá quem for não tem uma aura nada amigável.
Pensei por alguns segundos: Quem no mundo todo gostaria de ver minha cabeça empalada em um espeto?
A resposta era um pouco mais simples do que o imaginado: quase todos os monstros da costa leste de Los Angeles.
— Como posso saber quem era? — pensei alto. — Não tenho muitos amigos fissurados em me matar. Sam?
O caçador deu de ombros.
— Poderia ser qualquer um — respondeu.
O quarto emergiu em um silêncio profundo durando alguns segundos, até Dean se pronunciar e quebrar a quietação:
— E se voltássemos lá? — sugeriu e todos o encararam.
— Quê?! — Sam e Castiel dizem em coro.
— Voltar ao local do crime — explicou Dean como se fosse óbvio que deveríamos ir direto para a boca do dragão. — Talvez achemos alguma pista, é o mais sensato a se fazer.
Eu arqueei uma sobrancelha para ele.
— Desde quando você é sensato? — questionei.
— Desde que ninguém aqui sabe mais o que fazer — ele respondeu, se virando para mim. — Você não acha que é uma boa ideia, Garota das Armadilhas?
Revirei os olhos.
— Cala essa boca, por favor!
Sam, que parecia extremamente pensativo, se manifestou:
— Não é uma sugestão ruim, na verdade.
Ponderei a alternativa por um segundo. Era realmente o certo a se fazer; voltar ao local do rapto e ao local onde fomos encontrados, ver se achávamos alguma pista. Era meio imprudente, claro, poderíamos facilmente ser pegos, ainda mais naquele parque. E para esse tipo de imprudência eu só tenho um tipo de resposta.
— Estou dentro — sorri confiante. — Vamos ser tipo detetives insanos e tal, mas sem as boinas, claro.
— Elementar, minha cara Emma — Dean piscou um olho para mim e sorriu.
Sam pegou seu laptop, ligou-o e começou a digitar algumas coisas rapidamente na aba de busca.
— São dois lugares — disse. — Um, onde fomos capturados e outro, onde você e Castiel nos encontraram — ele olhou para o irmão. — Somos quatro, vamos nos dividir. Dean e Cas, vocês podem investigar o parque. Eu e Emma vamos voltar à floresta.
Não consegui evitar um sorriso. Se Sam e eu íamos investigar na floresta, eu poderia averiguar o pé da montanha, à procura de pistas do meu pai. Com Dean ou Castiel, isso jamais seria possível.
— Por mim tudo bem — dei de ombros, escondendo minha ansiedade.
— Por mim também — aprovou Dean.
— Então está decidido. Saímos amanhã, pela manhã — disse Sam. — Vou comprar algo para comermos, já volto. — Então ele se levantou e saiu.
— Preciso ir, Hannah está me chamando — Castiel avisou. — Qualquer coisa é só me mandarem uma mensagem.
Ah, eu não resisti. Como poderia?
— Com emoticons? — perguntei sorrindo.
Ele me olhou curioso, comecei a rir.
— Estava brincando! — exclamei. — Mas é claro que irei por emoticons — acrescentei com uma piscadela.
— Até mais, Emma — ele sorriu e desapareceu.
Me virei para Dean, que estava absorto em anotações do diário de seu pai e dos cadernos de Sam.
— Quem é Hannah? — perguntei.
Ele se virou para mim com os olhos semicerrados, parecendo confuso, então seu olhar adquiriu um brilho que eu não soube distinguir e ele respondeu:
— Uma amiga dele, se bem entendo.
— Uma anja?
— Sim.
Inclinei a cabeça para o lado com um sorriso malicioso.
— E eles por acaso...? — deixei o resto da frase por entender.
— Quê? Não! — Dean riu. — Quer dizer, não sei. Ele é gentil demais, não acho que já tenha rolado algo entre os dois.
— Os bonzinhos são os piores — repliquei.
Dean sorriu. Então seu olhar se desviou para o diário de seu pai mais uma vez e o brilho longínquo voltou aos seus olhos.
— Preciso esfriar a cabeça um pouco. — Ele pegou seu casaco que estava sobre a cômoda ao lado da cama. — Volto em alguns minutos, não cause problemas e não pule da janela. Acha que consegue fazer isso?
Revirei os olhos teatralmente.
— Bela piada — ironizei. — Tchau.
Ele me lançou um sorriso complacente e saiu.
Aproveitei os poucos minutos de paz que ganhei para ligar o notebook e trocar alguns emails com Moira, que parecia menos nervosa e mais confusa do que mais cedo. Porque é como deve dizer algum ditado por aí: enfrente um Wendigo hoje, encare sua melhor amiga amanhã.
***
Já era tarde, a luz da lua brilhava com força nos céus. Sam trouxera hambúrgueres de uma lanchonete que ele julgava ser “o melhor rango de Denver”, que no final eram mesmo gostosos. Dean já havia voltado e estava vendo um jogo de beisebol com o irmão, enquanto eu ainda trocava mensagens com alguns amigos.
Depois de algumas horas, todos já estavam dormindo, mas não sem antes colocarem os dois despertadores do quarto ativos. Queríamos todos acordando dispostos na manhã seguinte, para o caso de alguma luta inesperada. Dormi rapidamente e não tive nenhum pesadelo — algo que nas circunstâncias do momento era uma dádiva.
***
7h30 já estavam todos de pé.
Eu e Sam enchemos nossas mochilas com armas de fogo e chumbo e vários outros suprimentos úteis. Colocamos até sacos de dormir, para o caso de sermos obrigados a passar mais que uma tarde naquele lugar — eu estava implorando para que isso não fosse necessário. Dean também arrumou suas coisas, o único sem arma nenhuma era Castiel que, como Dean havia dito, “portava apenas sua graça”.
8h30 já estavam todos prontos e cada dupla seguindo sua direção. Nós despedimos de Dean e Cas e partimos em outro carro (aparentemente, a “Metallicar” era realmente um bebê para Dean) para a floresta.
Sam ligou o rádio do carro, estava tocando Man in the Wilderness. Até gosto dessa música, me fazia lembrar quando meu pai me levava para caçadas em pontos turísticos e visitávamos os mais famosos lugares, apenas por diversão. São boas lembranças.
— Acha que vamos encontrar alguma coisa lá? — perguntei a Sam quando as memórias se tornaram dolorosas demais para continuar pensando.
— Como assim? — ele franziu o nariz.
— Acha que essa busca vai dar algum resultado?
— Se não fosse dar, não estaríamos indo, certo? — ele piscou para mim e sorriu.
Suspirei.
— Eu sei, quero dizer, as coisas estão tão malucas. Pode ser que isso não dê em nada — disse.
— Precisamos ter fé ou seja lá o que for que nos motive a continuar — Sam apertou as mãos contra o volante, da mesma forma que Dean fizera uma vez. — Fé — ele riu. — É engraçado dizer isso porque essa palavra não é mais tão significativa pra mim.
— Acho que tem razão — respondi. — Digo, sobre a parte de ter fé. Pode não ser muito, mas é o que temos.
— É isso aí — Sam sorriu. — E eu sempre tenho razão — acrescentou.
Dei-lhe um murro no braço, de brincadeira.
— Ai! — ele fingiu dor. — OK, Grace, a razão é sua — se rendeu.
Meu sorriso se alargou, o que o fez gargalhar.
— Agora você está certo — concordei me recostando de volta no assento.
Ainda rindo, ele acelerou em direção às montanhas do Sul.
Fale com o autor