Corações Feridos
82 Uma visita mais do que esperada
Notas iniciais
Julie analisava o liquidificador, queria ter certeza de que tampou muitíssimo bem antes de colocar na tomada. Ela misturou um pouco de milho enlatado, junto com alguns legumes já cozidos.
Era uma manhã de sexta, ela acordou preocupada depois de ter uma longa conversa com Daniel e ele admitir que não se sentia bem sabendo que tinha uma ‘’família’’ e que já era pai, mesmo querendo ser, ele estava confuso. E demonstrou que não tinha experiência nenhuma, ou melhor, não lembrava ter. Ele nem ao menos conseguiu colocar uma frauda no bebê. E para Julie isso foi um sinal: Ela queria ser melhor agora, queria ser uma ‘’mãe perfeita’’ e era isso que ia fazer a partir de hoje.
Ligou o liquidificador depois de chegar três vezes se estava tudo certo. Triturou os pedaços de legumes. — Hmmm… — Deu um sorriso, olhando para o bebê que estava sentado na cadeirinha.
Bryan estava distraído com um brinquedo, mas o barulho do liquidificador chamou sua atenção para o que Julie fazia. — Eu sei que você vai adorar meu bebê. — Disse ainda sorrindo, desligou tudo. Colocou um pouco da mistura em um pote pequeno de plástico. — Eu já fiz muito isso para o Diego, ele gostava muito, mas depois passei a dar outras coisas.
Ela pegou uma colher pequena, também de plástico.
Se sentou de frente para o bebê. Ia dar a primeira colher pra ele quando Daniel apareceu na cozinha. Acabava de sair do banheiro, tomou um banho quente e não se secou muito bem, ainda estava um pouco molhado, principalmente o cabelo. Os dois não estavam muito bem um com o outro. Julie topou ajudar com a memória dele, mas ele acabou voltando atrás…
E disse que continuaria falando com Aline. — Hm. Você secou o banheiro? — Ela perguntou.
Daniel a olhou torto, mas balançou a cabeça em resposta. Ela não queria demonstrar que ainda estava com raiva sobre o assunto de Aline, não queria que ele confundisse essa raiva com ciúmes.
Pensou em outro assunto. — Olha, estou mudando! — Disse mais animada, balançou o pequeno pote com a papinha que fez. — Vou ser uma ótima mãe! Vem, fica aqui e aprenda! — Não escondeu seu ar superior.
Pegou um pouco da papinha e misturou com a colher, achou que deveria ter batido um pouco mais. — Hmmm… Que delícia! — Disse para ‘’animar’’ o bebê que… Não parecia estar com uma cara boa. — Vamos, come! — Tentou dar a primeira colher, mas Bryan virou o rosto. Ela revirou os olhos, disfarçou e levantou a cabeça.
Daniel a encarava sorrindo, cruzou os braços, observando sua ‘’performasse’’ como uma boa mãe. — Come meu bebê… — Aproximou a colher na boquinha dele. Mas ele afastou o rosto novamente. — Olha o aviãozinho… — Foi em vão. Ele desviava da papinha de todos os jeitos. — Permissão para aterrissar comandante… — Por fim conseguiu dar um pouco de papinha para o bebê. Ela sorriu, toda orgulhosa. — Não! — Mas Bryan cuspiu. Ela limpou a papinha dos lábios dele. E como Julie era teimosa, tentou mais uma vez. — Schhh… Ahh não… — Ela reclamou, o bebê começou a chorar. Realmente ele não era muito chegado a papinhas, talvez Beatriz o alimentava de outras formas. — Não chora meu bebê. — Ela pegou a mãozinha dele, mas ele continuou chorando. Daniel observava tudo ainda sorrindo e isso a deixou mais envergonhada ainda. — Como vamos fazer ele parar de chorar?
- Parece que ele não gostou da sua comida. — Balançou a cabeça. — Você é uma ótima mãe! — Riu.
- Quero ver fazer melhor! — Ela se levantou.
- Hm. — Daniel virou o rosto para o bebê que continuava chorando. Pensou um pouco.
E andou até o armário da cozinha. — Mas… O que? — Julie tentava entender o que ele estava fazendo.
Daniel abriu o pote de batatas Pringles. E espalhou as batatas pela mesa da cadeirinha. O bebê cessou o choro. Pegou uma batatinha e para a surpresa de Julie, começou a comer. Ela encarava Bryan boquiaberta, não conseguia acreditar nisso.
Levantou o rosto e olhou para Daniel, que continuava com o sorriso irritante desenhado nos lábios. — Mas besteira ele come! — Reclamou. Mas sua reclamação foi interrompida com o som do telefone.
Ela se levantou, ainda irritada com aquilo, como o bebê recusou uma papinha deliciosa para comer batatas fritas?
Mas pegou o telefone e atendeu. — Alô?!
- Oi querida! — Era sua mãe, e diferente de Julie, estava muito animada por sinal. — Tudo bem meu anjo?
- Ah… Tirando algumas coisas. — Olhou para o bebê que ainda comia as batatas. — Sim, está tudo bem, e aí?
- Está tudo ótimo Juh! — Só ai Juliana notou a animação da mãe, ia perguntar o porque de tanta alegria mas ela acabou contando. — Sei que você vai ficar feliz com isso, seu pai está vindo para te visitar!
- O papai?! — Mudou sua expressão, ela abriu um sorriso grande e falou eufórica. — Vai vir me ver?! Nossa! Que ótimo! — Conseguiu chamar a atenção de Daniel, que agora olhava para ela sem entender direito. — O QUE? — Mas sua animação sumiu em poucos segundos. — Como assim?
- Filha, eu… Precisei falar isso… Acabei contando que você e o Daniel estavam juntos.
- Mas não estamos, mãe! Porque fez isso?
- Ele não queria vir, estava indeciso, contei isso para ele ir te visitar, eu sei que você faria qualquer coisa para ver seu pai.
- Hm…
- Ele também não sabe sobre a amnésia do Daniel.
- Nossa e como eu vou fazer? Se eu contar para ele que o Daniel perdeu a memória, é capaz do papai contar coisas que… — Se interrompeu. Lembrou que Daniel estava ali.
O mesmo a olhou sério. Queria que ela continuasse. — Éerr… — Ela deu um sorrisinho para ele, mas Daniel continuou sério. — Então mãe, é melhor deixar isso para lá… — Desconversou. Tentando disfarçar. — Ele vem quando?
- Amanhã. — Pausou. — Queremos fazer uma surpresa para o Daniel, quem sabe ele não recupera a memória?
- Isso seria muito bom.
- Pois é… Chamei algumas outras pessoas.
- Chamou? Quem?
- Uns amigos dele, alguns parentes…
- Ah, está bem! — Sorriu. — Sendo poucas pessoas, eu aceito.
Sua mãe deu uma risada forçada e desligou o telefone. Assim que Julie colocou o telefone no gancho Daniel se aproximou. — Seu pai vai vir aqui?
Ela sorriu, sempre sorria quando pensava ou falava no seu pai. — Sim! Amanhã! — Estava animada. — Ele só vem me ver em ocasiões especiais. Ele mora um pouco longe e é bem ocupado.
- Amanhã é algum dia especial?
- Hm. — Pensou um pouco. — Na verdade, não. Não entendi porque ele vai vir, mas… Fico feliz do mesmo jeito! — Sem esconder sua alegria, Julie agarrou o pescoço de Daniel e o abraçou forte. Estava muito animada, essa era a melhor noticia que recebeu essa semana.
Ele retribuiu o abraço agarrando a lateral de seu corpo. Julie continuou sorrindo. Fechou os olhos, se balançando em seus braços. Ele riu com isso. A abraçou mais forte, descendo suas mãos para a cintura de Julie. Ela percebeu aquilo, mas estava feliz de mais para tirar as mãos dele dali.
Depois de um tempo, se soltou do abraço, ainda próxima e com as mãos na nuca de Daniel. Continuava em seus braços.
Se olharam.
Julie sentiu como se o olhasse pela primeira vez. Ela notou o que havia se esquecido, a linda cor escura dos olhos de Daniel. Ela conseguia notar seu reflexo nos olhos dele, porém, continuava com o olhar fixo nos dele.
Escutaram uma tosse, Julie virou seu rosto e olhou para o bebê. — Nossa! — Se soltou rapidamente, correu para pega-lo no colo. — Droga… — Deu umas batidinhas nas costas dele.
Daniel se aproximou por trás dela, abriu a boca do bebê e conseguiu tirar o pedaço de batata que estava entalado na garganta dele.
Julie olhou para Daniel com reprovação. — Eu estava tomando conta! Ele pegava pedaços pequenos, eu juro! — Se explicou.
- Ele quase morre engasgado e você diz que estava tomando conta, que ótimo pai você é! — Reclamou.
- Sou bem melhor do que você, pelo menos dei algo que ele coma!
- Hm. — Entregou o bebê para Daniel. — Precisamos nos organizar. — Respirou fundo. — Vou montar uma tabela com alguns horários, não vou cuidar o tempo todo do bebê. Precisamos dividir as tarefas. — Pausou. — Você fica com ele de tarde, porque eu cuidei dele hoje de manhã. — Explicou.
- E o que você vai fazer durante a tarde?
- Eu vou relaxar um pouco. — Sorriu enquanto Daniel a olhava torto. — Qual é o problema? Você não disse que é um bom pai? Melhor que eu? Então… Sei que vai conseguir cuidar dessa coisinha sozinho. — Beijou o rostinho de Bryan.
Julie foi se deitar um pouco, afinal, na noite passada precisou dormir no sofá e não dormiu muito bem, o neném ficou chorando, ela precisou esquentar um leite para ele dormir…
Uma hora e meia depois, Julie acordou um pouco melhor, porém, nem totalmente relaxada.
- Hm… — Ela limpava a banheira, tirava os bichos de borracha que deixava ali para conseguir dar banho no bebê. Ao em vez dos bichos, Julie acendeu algumas velas perfumadas, prendeu o cabelo e entrou na banheira de porcelana já cheia. — Ai… — Suspirou sentindo a água quente batendo no seu pescoço. Precisava relaxar em meio a tantos problemas. Fechou os olhos. Ouvia um pouco de música com o fone de ouvido no máximo, era ótimo para tirar o estresse.
Enquanto isso…
- Aqui, toma… — Daniel tentava cessar o choro de Bryan. — Fica com o patinho! — Mas não conseguia.
Ele estava sentado no sofá da sala, assistia Jornal quando o bebê começou a chorar. Ele não sabia o que fazer, foi diversas vezes para a cozinha, tentou dar qualquer coisa para ele comer, pensando ser fome, mas estava enganado. — O que eu faço?! — Se desesperou, o choro parecia mais alto e irritante a cada segundo que passava.
Acabou se lembrando de um detalhe: A frauda.
- Pode estar suja… — Pensou alto e se levantou.
Subiu as escadas, aproveitou que a porta do banheiro estava aberta.
Entrou com o bebê que continuava esperneando. Ele abriu umas das gavetas de toalhas do banheiro. Encontrou uma frauda limpa. — Hmmm. Era isso mesmo. — Sussurrou depois de despir seu filho.
Julie abriu a cortina preta que envolvia a banheira. Saiu de olhos fechados enquanto amarrava seus cabelos com a toalha e ainda ouvia música com o fone.
- Pronto, agora está limpo. — Daniel sussurrou se virando com o bebê.
Arregalou os olhos, paralisado ali. Olhava para Julie tentando não sorrir, a mesma levantou o rosto e diferente dele, deu um grito alto e longo. Estava completamente nua, seu rosto ficou tão vermelho quanto um tomate. O sorriso de Daniel começou a se formar. ela olhou para todos os lados, não achou nenhuma toalha por perto. Cruzou suas pernas e cruzou os braços em cima dos seios. — Sai, sai daqui! — Gritou enfurecida.
E o que mais a irritava era que Daniel ainda sorria.
- Tá, Já v-vou… — Estava um pouco atordoado, não conseguia parar de olhar nem se quisesse.
Hesitou um pouco, porém, virou seu rosto, Julie suspirou aliviada. Daniel deu mais uma olhadinha discreta antes de sair do banheiro, ela nem ao menos notou.
[...]
Depois de se vestir, Juliana estava no terraço. Ela organizava um quadro de tarefas. Já que ia dividir a rotina com Daniel.
Fez uma tabela com todos os dias da semana e com tudo que fazem com o bebê durante o dia.
Ela escutou passos, sabia que só poderia ser de uma pessoa, mas continuou concentrada apenas no que fazia. — Julie. — Daniel chamou. Ela fechou os olhos e respirou fundo. — Eu não sabia que você estava lá no banheiro, vim aqui para me descu--
- Tá bom! — Interrompeu. Daniel ficou calado. — Mas morreu o assunto. — Corou.
- Hm. — Se aproximou, notando a tabela que Julie montava. — O que é isso?
Julie revirou os olhos, ainda chateada com o que aconteceu a pouco tempo atrás. — Esqueça! — Gritou aborrecida, não estava com paciência de explicar novamente.
Ele a olhou quieto, pensativo. — Porque… — Suspirou. — Porque eu me apaixonei por você?
Ela parou o que fazia. Virou o rosto para o lado e olhou para Daniel. — O que? — Sussurrou sem entender aquela pergunta.
- No passado… — Fez uma pausa, tentando entender a si mesmo. — Porque me apaixonei por você?
Julie se embolou, realmente não esperava aquela pergunta, também não sabia como responder. Afinal, ela mesma se perguntava isso, se achava muito estranha e não conseguia entender como Daniel se encantou por ela.
Ela abriu a boca para tentar explicar. — Bom…
Mas Daniel a interrompeu antes mesmo de completar. — Porque você não faz o meu tipo. — Ela se calou. — Você é muito… Séria. E… Tão cheia de manias. É estranha.
Julie abaixou a cabeça. — Não sei se você pensava assim antes. — Disse um pouco tímida.
- Como eu pensava então?
- Eu já disse. Me achava diferente. Não me pergunte como foi se apaixonar por mim, porque eu não sei. — O cortou. — Apenas aconteceu, e foi muito lindo, pelo menos pra mim foi. — Continuou concentrada no mural que montava.
- Martim disse que eu era louco por você.
Os dois sorriram ao mesmo tempo enquanto as bochechas de Julie coravam. — Eu poderia estar fingindo, não? — Ela desfez seu sorriso com aquela pergunta. — Eu… — Ele balançou a cabeça. — Realmente não consigo me enxergar com você. Você é tão sem sal.
- Tem quem goste. — Revidou aborrecida. — Eu vou mostrar para você que eu sou divertida! — Gritou. — A-amanh-ã… A gente vai sair! — Acabou lembrando que seu pai viria visita-la amanhã. Mas seria de tarde — Hmmm… Amanhã pela manhã! Aproveito e levo o bebê para dar uma volta pela praça.
- E você acha que isso vai mudar meu modo de pensar? — Cruzou os braços.
Ela revirou os olhos. — Saia daqui!
[...]
- Que coxas mais gordinhas! — Julie brincava com o bebê no banheiro, colocava um macacão azul marinho nele e ajeitava seus cabelos negros e molhados. Como sempre, o bebê fazia manha enquanto Julie o arrumava.
Daniel entrou no banheiro, se aproximou por trás de Julie e resolveu brincar. — Ainda bem que está vestida dessa vez.
Ela se assustou com a voz dele tão próxima do seu ouvido…Ignorou o arrepio que sentiu e tentou não sorrir. — Não venha com gracinhas. — Entregou o bebê.
- Pensei que mudaria, seria mais divertida.
- E pra quê eu vou mudar? Só para agradar você? — Revidou. — Aliais.. Hm… Eu sou muito divertida, se você ainda não sabe. — Pausou. — A gente tinha algumas coisas em comuns, eu gostava de motos e você também.
Ele sorriu fracamente, Julie continuou. — No inicio, você tentou me ajudar a deixar o meu medo de motos por causa de um acidente que aconteceu comigo.
- Você ficou bem depois? — Ele perguntou mostrando preocupação.
- Ah. — Se olharam mas desviaram o olhar quase ao mesmo tempo. — Éerr, eu fiquei bem depois. — Não queria pensar no passado, ainda mais quando os dois se conheceram, afinal, no fundo ela queria que esse tempo voltasse. — Vamos… — Puxou o braço dele.
Depois de fechar e trancar tudo para ter certeza de que nenhum mendigo entraria na sua casa, Julie foi andando pelas ruas com Daniel, a praça não era tão longe, mas também não era tão perto. Ela segurava a bolsa do bebê enquanto Daniel carregava o mesmo no carrinho. Julie estava feliz, ansiosa para ver seu pai e lhe dar um abraço, mas ao mesmo tempo se sentia tensa. Seu pai não sabia sobre o problema de Daniel, e como eles começaram a se dar bem só depois que ele pediu a mão de Julie em casamento… Ela tinha medo de seu pai acabar falando de mais.
Sabia que sua mãe daria um jeito, mas isso não a deixava melhor, pelo contrário, sua mãe era louquinha, podia complicar mais as coisas.
- O mais difícil vai ser fingir que estamos juntos. — Ela pensou alto.
Dessa vez Daniel estava atento. Ouviu o que Julie disse sem querer. Acabou juntando as coisas, a ligação que ela recebeu e a visita do seu… ‘’sogro’’. — Seu pai não sabe que nos separamos?
- Oi ? — Ela acordou.
- Seu pai pensa que ainda estamos juntos.
Ela deu um sorriso amarelo. — Na verdade, s-sim… — Continuou andando, ainda mais depois da expressão estranha que Daniel fez.
Julie apertou os passos, andou um pouco mais pra frente carregando a bolsa. Daniel vinha em seguida empurrando o carrinho.
Se aproximou e pegou a mão de Juliana. Ela entendeu com aquele gesto que ele topou em fingir ser seu marido, Julie sorriu fracamente, afinal, mesmo depois de tanto tempo ela ainda se lembrava das palavras do seu pai no melhor dia da sua vida...
'' Julie falava com a sua mãe e seu pai. — Amo vocês dois. — Juliana disse abraçando seus pais. Estava se preparando para viajar em lua-de-mel. — E ai, pai. Vai ficar bonzinho com o Daniel?
– Vou. — Sorriu e fez uma pausa, pegando a mão de sua filha. — Vocês se casaram, pensei que ele era mais um dos moleques que gostava de brincar com o coração das menininhas. — Riu.
– Hum, conheço muito bem esse tipo... — Dona Heloísa se intrometeu, olhando para Raul.
– Mas Julie. — Seu Raul tocou no rosto da filha. — Ele é um bom rapaz. E sei que você puxou sua mãe em várias coisas. Não o faça sofrer como ela fez comigo. — Sussurrou. Dona Heloísa até saiu de perto, respeitava o casamento e sabia que era um momento especial para a filha. Se não fosse isso, já teria dado uma voadora em Raul. ''
Ela não queria decepcionar seu pai, ele estava feliz com a ''reconciliação'' dos dois, Julie não podia simplesmente estragar sua felicidade contando a verdade.
E não estava fazendo algo tão ruim, ele só ia passar alguns dias com ela.
Na verdade, Julie não tinha entendido até agora... Se ele só a visitava em dias especiais, porque viria hoje? O que tinha de tão especial hoje?
Resolveu parar de se interrogar, estava feliz de mais para tentar entender.
Eles chegaram na praça, Daniel olhava ao seu redor, não conhecia ninguém... Não conhecia as crianças que corriam pelo gramado, nem seus vizinhos que conversavam um com o outro.
- Senta aqui. — Julie pediu soltando suas mãos. — Eu vou ali comprar um suco... — Daniel assentiu.
Ela se virou e deu as costas, caminhou até um senhor que vendia sucos em um carrinho. — Obrigada. — Disse sorrindo ao senhor depois de pegar o troco, bebeu um pouco do delicioso suco de Graviola e se virou.
Viu Daniel segurando o bebê no colo enquanto cumprimentava Aline com um beijo no rosto. Ao longe ela conseguia ver os dois conversando.
Ficou parada ali, bebia um pouco o suco enquanto se questionava se interrompia ou não a conversa deles.
Sorriu em pensamentos. '' Claro que sim... ''
- Então, esse é o meu segundo filho. — Ele explicava balançando Bryan, quando Julie se aproximou.
- Me dá esse bebê lindo! — Julie pegou Bryan dos braços de Daniel assim que viu Aline brincando com o bebê.
- Eu não entendo. — A mulher balançou a cabeça. — Está com quantos anos, Juliana?
- Vinte e um.
- Hm... E... O bebê?
- Um ano e seis meses. — Estranhava tantas perguntas. — Porque quer saber?
- Porque pelo que eu sei, vocês acabaram se separando. Parece que você engravidou na separação. — Pausou. — O Daniel é mesmo pai do bebê?
Julie abaixou os ombros, se sentia em um beco sem saída. Daniel a olhou também. — Eu sou? — Ele pergunta para ter certeza. — Ou será que você andou se divertindo por aí? — Estava com uma expressão feia no rosto.
- Cl-aro qu-e nã-o. E-eu... Tiv-e a-apenas uma p-esso-a em t-toda a minha v-ida, fo-i você. — Não mentia sobre isso. — Não deveria dar ouvidos a essa mulher, de novo. — Balançou o bebê que mastigava seus longos cabelos.
- Hm. — Daniel desfez a cara feia assim que olhou para Aline, Julie revirou os olhos com isso. Detestava o jeito como ele babava por ela. — Queria que você conhecesse minha irmã. — Julie se irritou mais ainda quando Daniel pegou as mãos da professora. — Eu...
Ela logo tratou de dar um jeito. — Aqui. — O interrompeu. — Fica com o bebê, estou com os braços cansados. — Devolveu a criança para o ''pai'', ele acabou aceitando e precisou soltar as mãos de Aline.
- Como eu dizia... — Sorriu. — Queria muito que você conhecesse minha irmã, minha mãe...
- Ah. — Ela sorriu agradecida.
- Pode ir lá em casa hoje, quem sabe você não consegue mais informação do meu passado?
- Eu já disse que te ajudaria a recuperar a memória. — Julie cruzou os braços. — Não precisamos dela.
- Sch. — Foi apenas o que Daniel respondeu. — E ai, o que me diz?
- Bem... — Ela ainda sorria, mas fez uma careta. — Na verdade hoje não dá, tenho um compromisso. — Daniel entendeu aquilo como uma desculpa. — Sinto muito. — Beijou o rosto dele. — Tchau bebê. — Brincou com Bryan e passou sem falar com Juliana.
Ele se virou para a morena. — Foi por culpa sua. — Mordeu seus dentes.
- Ela disse que tinha compromisso!
- Não percebe? Ela falou isso porque você deixou bem claro que não queria ela por perto!
- É claro! Acha que eu queria ela na nossa família? Meus pais vão ir lá em casa hoje! O que iam pensar se vissem uma mulher estranha e você babando em cima dela?!
- Eu gosto dela. — Se defendeu.
- Que seja. — Revirou os olhos. — Mas o meu pai não sabe de nada, não sabe sobre sua amnésia... Só sabe que agora nós... — Gesticulou com as mãos e fez questão em por aspas e ele fez uma expressão irritada sobre isso. — ''estamos juntos''. E esse foi o único jeito de trazer ele até aqui, então farei de tudo para passar mais tempo com o meu pai! — foi andando, Daniel caminhou atrás.
- Onde vai?! — Segurou o braço dela.
- Para casa!
- Mas acabamos de chegar, pensei que você seria divertida.
- Iamos nos divertir se não fosse aquela mulherzinha! — Rosnou e voltou a andar.
- Mas o que é que você tem contra ela? — Daniel perguntava enquanto a seguia arrastando o carrinho e segurando o bebê.
[...]
Julie terminava de aspirar a casa. Os dois não trocaram mais nenhuma palavra desde que chegaram da praça. O bebê brincava no tapete, pela primeira vez ele não engatinhava pelo chão, estava quietinho, coçava o olho as vezes, com sono...
A campainha tocou. Julie desligou o aspirador e deixou no canto. Abriu a porta e mudou sua expressão rapidamente. Abriu um sorriso, seus olhos brilhavam.
- Pai! — Abraçou seu pai com força, parecia que não o via à anos... Era assim que se sentia. — Pai, que saudades! — Disse com lágrimas presas nos olhos. Sua mãe chegava mais atrás, junto com Bia, Félix e... Martim.
Seu pai foi entrando, Daniel se levantou. Esticou os braços. — É um prazer conhece-lo.
- O que? M-mas... Já me conhece a anos!
Julie riu de nervoso. — Ah pai, sabe como ele é né? Um brincalhão. Olha, repara só no piso da cozinha! — Apontou para o longe e seu pai levou o olhar pra lá. Julie deu um tapa fraco no braço de Daniel e resmungou. '' Para de dizer merdas! ''
Para disfarçar, Juliana levou seu pai até a cozinha.
Enquanto isso, Bia se agachou para pegar o bebê que esticava os bracinhos, queria o colo da mãe. Félix também se aproximou para carinhar o filho. Daniel olhava aquilo tudo sem entender, seu ''filho'' parecia mais feliz com os ''tios'' do que com ele e com a Julie.
Passaram-se meia hora. Todos se reuniram na sala, assistiam um filme. Foi quando Raul puxou assunto. — Quando foi que se reconciliaram? — Sorriu, Julie e Daniel se entreolharam, todos exceto Raul sabiam que ainda estavam separados.
- Ah. — Ela olhou para Bia que balançou os ombros, não sabia o que inventar. — Foi... Há algumas semanas atrás.
- Depois do acidente? — Perguntou.
- Que acidente? — Daniel sussurrou.
- Isso! — Ela ignorou a pergunta de Daniel. — A gente se aproximou e então voltamos.
- Voltaram mesmo? — Dessa vez Martim perguntou, todos olharam para ele. Julie não entendeu aquilo, afinal, Martim sabia que tudo aquilo era só ''atuação'' — Cadê o beijo?
Ela sorriu coçando a nuca. — Não inventa Martim... — Disse entre dentes.
Mas Martim continuou insistindo, Bia ria da situação. — Beija, beija! — Ele aplaudia, enquanto todos esperavam que o desejo de Martim se cumprisse.
Os dois não tinham opções. E para Daniel, aquela gritaria lhe causava dor de cabeça.
Ele segurou o queixo de Julie e lhe deu um selinho. Se soltaram depois de meio segundo, cada um virou o rosto para o outro lado. — É assim? — Martim continuou. — Não, tá fraco! Tá fraco! É assim que beija a Julie? — Provocava enquanto ria. — Pega ela de jeito cara!
- A gente não vai beijar de novo e ponto! — Julie encerrou a questão. Martim parou com as gracinhas, mas Bia ainda ria.
- Hm, muito estranho. — Raul comentou. — Vocês não tinham problema em se beijar perto dos parentes. Porque isso agora? O que está acontecendo com vocês?
Ficaram nervosos com isso. — Beijem! — Martim insistiu novamente.
Os dois viraram juntos. Se olharam, Julie não escondia a vergonha enquanto Daniel estava sério. Ele aproximou os lábios do ouvido dela, sussurrou algo tão baixo que só Julie conseguiu entender. '' quer mesmo continuar com isso? ''
Ela virou o rosto para ele, tocaram os narizes enquanto todos estavam na expectativa de um beijo. '' Não quero que o meu pai fique chateado comigo. '' Respondeu baixinho também enquanto olhava para os lábios de Daniel, cada vez mais próximo aos seus.
'' Devo te beijar agora é? '' Deu um sorrisinho.
'' É seu idiota, me beija logo! ''
E os dois terminaram com o pouco espaço entre eles. Uniram seus lábios para um beijo simples, não era um selinho, mas também não era um beijão. Era apenas um beijo molhado, doce e um pouco atrapalhado pois Julie não via a hora de acabar com aquele beijo. Ele beijava seus lábios enquanto fazia carinho nos seus cabelos. Ela foi se acalmando, fechou os olhos... O beijo estava começando a ficar bom quando ele separou seus lábios.
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