Corações Feridos

86 Textos do passado...


Notas iniciais
Esse capitulo é bem curioso...

- Boa noite, pai. — Julie beijou o rosto de seu pai enquanto abria a porta do quarto, seu pai a comprimentou e lhe deu boa noite também.

Julie abriu a porta do quarto segurando o bebê nos braços. Fechou a porta lentamente, não queria acordar Bryan e nem Daniel com o rugido. — Meu bebê…- Disse sorridente enquanto ajeitava o neném no berço. Ela o cobriu delicadamente, ainda sorria. Cada vez mais convencida de que ele era mesmo o seu filho.

Ela não conseguia voltar para a realidade. Tentava não se apegar ao bebê, mas era impossível.

Julie se deitou no colchão confotável e macio. Usava um short curto de algodão e uma blusinha apertada. Se cobriu com o lençol fino e se ajeitou no travesseiro.

Olhou para o chão. Via Daniel ali, ela sabia que ele não estava dormindo. Julie conhecia muito bem a posição dele, ele sempre dormia para o lado. Mas… dessa vez ele estava com a barriga para cima, parecia olhar para o teto, tentando enxergar algo na escuridão.

Ela ligou a luz do abajur. — O que aconteceu com você? — Perguntou ansiosa. Queria ouvir sua voz.

Daniel continuava calado. A luz do abajur iluminava seu rosto e Julie teve certeza de que seus olhos estavam bem abertos. — Não fez questão de dormir no colchão…Está ai, calado. — Tentava entender. — O que aconteceu?

- … — Ele apenas se virou de bruço, se ajeitou no colchão, tentando encontrar uma posição melhor. — Estou com dor de cabeça. — Mentiu, não queria tocar no assunto. Pelo menos por enquanto. Sabia que não era a melhor hora para isso, afinal, queria uma ótima explicação para tudo e sabia que não ia conseguir isso de noite.

O rapaz sentiu duas mãos apalpando seus cabelos, fechou os olhos, quase dormindo com o carinho. Mas virou seu rosto e viu que Julie estava agachada ali no chão frio, o carinhava só para ele se sentir melhor. — Quer um remédio?

Admirou aquela atitude, principalmente porque vinha de uma garota seca e cruel como a Julie. Era assim que ele a enxergava… Ele a via com outros olhos agora, achava que todas as outras mulheres que entraram na sua vida (Exceto Beatriz) eram perfeitas… Já Julie não.

- Eu só quero dormir. — Por fim respondeu. Levantou seu braço e segurou a mão de Julie, a fez parar de alisar seus cabelos. — Me deixe quieto, por favor.

- Tudo bem. — Ela assentiu um pouco triste pelo modo como ele respondeu, achou que depois de passar o dia com ele… Ele mudaria, pelo menos um pouco, o seu jeito de ser. Julie sentia saudades daquele lado apaixonado dele… — Então… Boa noite. — Ele continuava de bruço quando recebeu um beijinho no rosto. Abriu os olhos com o beijo e discretamente, a seguiu pelo o olhar. Só fechou os olhos novamente quando Julie já estava deitada, coberta e as luzes apagadas.

[...]

- Vamos acordando ai! Já vai dar quase onze horas! — Daniel ouviu umas batidas fortes na porta do quarto, acordou com o barulho e com a voz que gritava para ele, certamente era o pai de Julie que passava pelo corredor e pensou em acorda-lo.

- Hm… — Ele esfregou os olhos, notou que Julie já não estava deitada.

Se levantou e a primeira coisa que fez foi olhar para o berço. Queria pegar o seu ‘’filho’’ para seu dia começar melhor. Mas o bebê não estava ali. Ele suspirou e foi para o banheiro, fez sua higiene e desceu.

Estava com fome. Foi direto para a cozinha. — É, ele amanheceu bem melhor hoje. — Ouviu a voz da Julie, ela estava sentada na cadeira, segurava o bebê com uma mão, e o telefone com outra. Bryan mordia o ombro de Julie enquanto a mesma conversava. Daniel foi se aproximando lentamente. — A pele dele ainda está um pouco vermelha, mas está bem melhor. Sai hoje de manhã para compra a pomada. Já passei nele, muito obrigada doutor. — Ele amarrou a cara ao ouvir aquelas palavras, Julie parecia tão completa enquanto conversava com ele, mesmo por telefone… Ela parecia tão feliz.

Daniel achava diferente. Ela era muito mais séria e retraída com ele do que com esse médico. Ele não sabia ao certo o que sentia naquele momento, talvez era apenas puro egoísmo… Afinal, de todas as pessoas… Juliana é a quem mais convive com ele. — guh! — o Bebê focou os olhos no rapaz.

Julie virou seu rosto e viu Daniel ali. Se levantou assim que sentiu que Bryan começou a se remexer nos seu colo. O bebê esticou os bracinhos e Julie entendeu. O entregou para Daniel que pegou seu sobrinho sem hesitar, porém, olhava com uma expressão séria para a Julie.

- O que foi? — Ela sussurrou tampando o telefone.

Mas ele virou a cara e deu as costas para ela. Foi para a sala segurando o bebê. Se sentou no sofá com ele. E o colocou sentadinho nas suas coxas. Pegou a mãozinha do bebê, sorriu ao ver que era tão pequena e gordinha, tão sensível…

– Fala! — Julie pediu, completamente ansiosa. Ela cruzou os dedos e Daniel a imitou. Julie queria menino, Daniel queria menina. O médico percebeu o clima de ansiedade entre os dois e sorriu. Os deixando mais ansiosos ainda, pois não dava a resposta. — Anda doutor. Fala!

Ele olhou para os dois. Ainda sorrindo, doutor Miguel era um brincalhão e gostava de fazer suspense para os pais. — Quem você quer? — Perguntou para Julie.

– Menino! — Ela respondeu de imediato e com euforia.

– E você? — Olhou para Daniel.

– Menina. Lógico.

– Hmm...

Os dois estavam quase roendo as unhas com tanto desespero. — Atenção papais, porque só vou dizer uma vez. — Sorriu. Daniel e Julie olhavam para o médico, o olhar de ambos brilhavam ao saber que em poucos segundos descobririam. — É... — Julie fechou os olhos e mordeu os lábios. — Menino.

Daniel fechou os olhos com aquela cena que rodava sua cabeça. Sua testa começou a latejar, ele levou a mão esquerda para a sua cabeça. A dor estava forte, seu rosto ficou vermelho, ele mordeu seu maxilar com força, tentando suportar aquela dor. Abriu os olhos e viu tudo girando, estava atordoado. — Daniel! — Sentiu que o bebê já não estava no seu colo. Percebeu que Julie estava agachada, alisava o seu rosto. — Meu Deus, fala alguma coisa! Tá tudo bem?

Ele balançou a cabeça para cima e para baixo. — Tem certeza? — Julie continuava suspeitando.

- Uhum. — Ele se levantou. — S-só… Com um pouco de dor de cabeça.

- Está sentindo dor de cabeça desde ontem. — Ainda estava preocupada. — Eu já disse para você tomar um remédio.

- Tá, tá… — Ele deu de ombros. — Estou lá na garagem… — Sussurrou chateado. Mesmo sentindo essa forte dor de cabeça, Daniel faria de tudo para conseguir mais lembranças.

Passou pela porta dos fundos. Entrou na garagem, havia muitas coisas lá… Tinha muitas caixas de papelões fechadas, tinha um carro grande e preto.

Ele admirou o carro por alguns segundos, até que outra coisa lhe chamou a atenção. Encontrou algo coberto com um pano branco, sujo de gracha… Se aproximou se apoiando em algumas prateleiras com latas de tintas, ainda se sentia tonto quando puxou o pano.

Tossiu um pouco com o pó… Arregalou os olhos e se assustou com o que viu. Era uma moto. Um modelo novo, até um pouco caro, porém, totalmente destruído, o banco da frente estava detonado, junto com a roda de trás. Escapava um pouco de gracha que respingava no chão. O motor também parecia destruído. Daniel estava assustado. ‘’Então eu sofri mesmo um acidente...’’ — Se sentia um derrotado, não se lembrava das coisas que aconteceram com ele, não se lembrava das coisas boas, como a noticia de que seria pai e nem mesmo das coisas ruins como o seu acidente. — Porque isso? — Foi se afastando lentamente.

Esbarrou nas caixas de papelão que havia encontrado. — Droga! — Chutou uma das caixas e a mesma se abriu. — Mas… — Tentou entender porque tinha roupas de bebês ali.

Se agachou. Pegou algumas roupinhas, era tudo roupa de menino. ‘’ É do Diego… ‘’ — Pensou chateado, queria muito se lembrar do seu primeiro filho. Ele virou a caixa, deixando mais roupas pelo chão. Tinha roupas de todos os tamanhos… Algumas até dariam no Bryan. — Porque a Julie ia jogar essas roupas foras se temos outro filho? — Estava tudo muito confuso.

Ele suspirou, não queria ficar pior do que já estava. — Merda de vida… — Reclamava. — Queria ser feliz, pelo menos por alguns dias… — Jogou as roupas de volta na caixa, fechou e deixou como estava. Se levantou e viu que entre as caixas havia um baú.

Era pequeno, do tamanho de um pote de sorvete. Daniel pegou e colocou sobre um banco pequeno. Era de madeira e aparentava estar velho. Sentia que aquele baú responderia algumas de suas perguntas. Mas se irritou quando viu que estava trancado com um cadeado pequeno.

- Eu vou abrir isso… — Estava decidido. Se levantou e pegou uma caixa de ferramentas que estava perto do carro. Encontrou um alicate. Apertou com força o cadeado com o alicate, e o abriu. — Foi fácil… — Sorriu com isso.

Abriu o baú.

Eram cartas. Não estava nem um pouco afim de ler, mas ele realmente acreditava que aquela pilha de cartas resolveriam seus problemas. Abriu uma delas. Logo pensou em Julie, achou que era alguma carta dela ou algo do tipo… Mas se desinteressou assim que viu que era de um cara chamado ‘’ R.C ‘’

Na carta dizia sobre trezentos mil dólares guardados nos Estados Unidos. Mas Daniel não leu nem metade do texto descrito na carta.

Só viu a assinatura no final. Rodrigo Castellamare.

- Hum. — Olhou para o resto do baú com desprezo. Se deu o trabalho de pegar mais uma carta.

Querida Marta.

Há vinte e sete anos atrás, assim que me casei com você. Nós dois sabíamos que esse dia chegaria, preciso me mudar para os Estados Unidos, para proteger você e nossos dois filhos. Sei que você, mais do que ninguém me entenderia e me apoiaria nessa escolha. Se eu soubesse que encontraria uma mulher tão perfeita quanto você, jamais teria me envolvido com essas pessoas…

- Eu não tenho tempo para isso… — Parou de ler, Daniel não fazia ideia de quem era o dono dessa carta e o quão importante esse homem era para ele e para Bia.

Ele se levantou chateado. Achou que aquele baú era algo importante, mas não passava de lixo do passado…

Aproveitou que o portão da garagem estava aberto, saiu segurando o baú e jogou dentro da lata de lixo, no quintal. Deu as costas e voltou para a garagem.

Não viu que uma mulher passava enquanto ele jogava o ‘’lixo’’ fora. — Daniel… — A mulher sussurrou sorrindo vingativa. Atravessou a rua correndo, sem tropeçar do salto que usava. Abriu a lata de lixo. — Eca… Eca… — Fez uma cara de nojo, mesmo vendo que a lata estava vazia. A patricinha esticou os braços e pegou o baú. ‘’ Lixo de uns, tesouro de outros.’’ — Riu com seus pensamentos.

Daniel voltou para a garagem, na esperança de encontrar algo realmente dentro daquelas caixas. Mas ele começou a se desanimar ao abrir a terceira caixa de papelão e encontrar a mesma coisa que encontrou na primeira: Roupas de bebê.

A porta dos fundos se abriu. Daniel tratou de guardar a caixa rapidamente. — Bom dia. — Ele comprimentou Raul.

- Bom dia. — O pai de Julie respondeu naturalmente, porém, sem o olhar.

Ele abriu o capô do carro, pegou algumas ferramentas e começou a trabalhar. Daniel apenas observava quando se aproximou. — De quem é esse carro? — Ele pergunta sem conter sua curiosidade.

- Da Julie. — Raul responde concentrado. — Usei ele ontem para sair com a Aline. — Daniel abaixou a cabeça ao ouvir aquele belo nome, que ultimamente não arrancava mais sorrisos dele, e sim lágrimas. — Mas o motor estava fazendo um barulho estranho. Tem algo de errado, eu tenho certeza.

- Hm… — Não sabia o que dizer, ficou um pouco chateado ao se lembrar de Aline. — E… Eu dirijo bem? — Ele queria saber mais de si mesmo, sem deixar seu ‘’sogro’’ desconfiado com as perguntas.

Mas Raul já sabia de tudo. Ele parou o que estava fazendo e olhou para o rapaz. — Dirige normalmente. — Hesitou um pouco em responder e voltou ao seu trabalho.

Daniel também se calou um pouco, queria fazer mais perguntas… Porém, tinha medo… Pois Raul poderia começar a desconfiar. Ficou pensativo por alguns minutos, achou uma ótima desculpa para conseguir fazer mais perguntas. — É que… Eu sofri um acidente, o senhor sabe? — Raul apenas balança a cabeça. Daniel continuou. — E eu admito que as vezes me sinto muito confuso… É como se eu não me lembrasse de algumas coisas. — Fez uma pausa ao ver que o homem não lhe dava muita atenção.

Abaixou a cabeça chateado. Por fora estava calado, mas… Gritava por dentro.

Ele alisou o vidro do carro. — Encontrei o problema! — Raul sorriu. — Preciso descascar esse fio…Está com mal contato — Sussurrou. — Daniel, me traga uma faquinha. Por favor.

O loiro assentiu. — Claro. — Sussurrou fracamente. Saiu com a cabeça baixa.

Chegou na cozinha, lá estava Julie. Ela estava de pé, perto da pia. O bebê estava em cima da pia, Julie brincava com ele. Beijava seu rostinho, aproveitava todos os momentos que tinha com ele. Daniel foi se aproximando.

Ela se virou e seus rostos se aproximaram, mas Daniel se afastou assim que percebeu e Julie abaixou a cabeça, fingiu que nada aconteceu. — Seu pai pediu uma faca.

Ela suspirou. — E como você está? — Perguntou ainda preocupada com o seu jeito.

Daniel apenas se virou para pegar a faquinha, passou por ela e saiu.

Voltou para a garagem. — Eu posso ajudar em alguma coisa? — Perguntou. Queria ser útil.

Raul se virou para ele e notou a faca em suas mãos. — Não, obrigado. — Deu um sorriso fraco. Mas seu tom de voz ainda era seco. — Já me ajudou bastante. — Se virou para o carro de novo, ele mexia em alguns fios e no motor também. Daniel percebeu que mesmo Raul negando sua ajuda, ele se mostrava muito ocupado.

- Eu posso desencapar o fio… — Continuou insistindo e pegou o fio.

Começava a desencapar com a faquinha, era simples e Daniel fazia isso com a maior facilidade. Raul parou o que estava fazendo para observar o rapaz. Ele desencapava o fio com rapidez, mas forçava de mais a faca… Em tempo de cortar o seu dedo. — Me dê isso aqui! — Raul pegou a faca das suas mãos. — Eu já falei que não quero a sua ajuda, Daniel. — Daniel estava calado. — Vá fazer outra coisa, anda…

- Mas… O senhor está ocupado com o carro, eu pensei que poderia ajudar com isso…

- Pensou errado.

- Só que…Isso é tão simples… Eu…

- Daniel. — Ele respirou fundo o interrompendo. — Eu já disse para ir embora!

- Está bem. — Falou entre dentes. — Me desculpe. Não vou mais atrapalhar… — Passou por ele e saiu da garagem batendo a porta dos fundos com força.

Assim que bateu a porta ouviu um choro vindo da sala. Ele fechou os olhos, sabia que era o bebê. Junto com o choro, ele escutou alguns passos. Abriu os olhos e viu Juliana caminhando em sua direção, ela estava com uma cara de poucos amigos. Os dois se estranharam o dia inteiro… E Daniel ter batido a porta e provocado o choro do seu filho foi a gota d’água para a moça.

- Qual é o seu problema?! — Ela gritou perto do seu rosto. Cruzou os braços. Estava querendo entender o jeito dele desde a noite passada. — Não vai responder? Vai ficar ai, calado?! — Continuava gritando. — VAMOS, RESPONDE! — Ele abaixou a cabeça. — Porque… Tem que ter algum motivo né! Ou vai ficar irritado a toa? Tá parecendo mulher menstruada!

Ele se aproximou e antes que Julie percebesse já estava nos braços dele. Ela não entendia o motivo daquele abraço, mas isso a fez sorrir. Ela continuava confusa quando levantou seus braços e pousou na nuca dele, enrolando seus cachos com os dedos. — Me perdoe. — Ele pediu com a voz fraca. Se afastou um pouco, segurando o ombro dela. — Eu sou o errado. S-sou o culpado por tudo… — Ele estava à ponto de chorar e Julie percebeu. Ela se calou, esperando Daniel continuar. — Eu… Só queria ajudar… Queria me lembrar das coisas mas… Eu não tenho esse direito, não é?

Ela alisou uma madeixa de cabelo que estava quase no olho dele. Ia começar a falar quando Daniel se soltou e interrompeu. — Eu quero ficar um pouco sozinho. — Atravessou a sala, Julie o observava enquanto ele abria a porta e saia.

Ela foi até a janela, perto da pia. Achou que ele sairia para a rua. Ela sabia que sempre quando ele saia para algum lugar, chegava em casa mais confuso ainda. Mas Julie viu que ele apenas se sentou no gramado, apoiando suas costas na árvore. Ele abraçou seus joelhos e abaixou a cabeça. Julie sentiu seu coração se partir. ‘’ Eu sei que… Se fosse comigo… Eu também ia surtar… ‘’ — Se colocou no lugar do rapaz. ‘’ É mesmo horrível esquecer todas as lembranças, não saber exatamente quem você é. Não se conhecer… ‘’ — Ela balançou a cabeça, queria afastar esses pensamentos para não ficar triste.

Deu mais uma olhada para o quintal, Daniel continuava ali, na mesma posição que antes, abraçado com seus joelhos e a cabeça baixa.

Ela percebeu que o choro que escutava a poucos minutos atrás já tinha parado. Correu e subiu as escadas, imaginando que algo ruim aconteceu com o bebê. Foi até o quarto e se apoiou com força no berço, pois ainda corria. Mas sorriu abertamente quando viu que ele dormia tranquilamente, seus bracinhos estavam esticados para o alto, ele dormia com a barriga pra cima. Ela sentiu seus olhos se enxerem de lágrimas.

Julie também tinha medo de contar a verdade para o Daniel. ‘’Eu não quero ficar sem o bebê…’’ — Pensava triste. Achava que se… Contasse tudo para ele, era capaz de Beatriz pegar seu filho de volta. ‘’ Mas… É muito egoísmo meu, eu sei. Ficar com o bebê da Bia, e não ajudar o Daniel a se lembrar das coisas… Eu não posso fazer isso. ‘’ — Se sentiu determinada. Precisava ajuda-lo.

Saiu do quarto lentamente, fechou a porta e desceu as escadas.

Chegou na janela da sala e viu que ele continuava ali.

Ela abriu a porta, passou pela varanda com cuidado para não pisar nas rachaduras. E assim que colocou os pés na grama, ela correu em direção ao rapaz. — Oi ! — Disse com animação, se sentou de frente para ele.

Daniel levantou a cabeça e suspirou ao ver que era Julie. — Oi, já disse para me deixar sozinho.

- Eu não vou te deixar sozinho. — Pausou. — Sabia que esse era o seu maior medo? — Ele a olhou confuso, não fazia ideia do que Julie estava falando. — Eu te deixar sozinha. Esse era seu maior medo, você sempre me dizia que… Me queria sempre do seu lado. — Segurou seus dois braços. — Então é isso! — Sorriu. — Eu estou aqui. E… — Desfez seu sorriso, agora olhava no fundo dos seus olhos. — Pode me perguntar o que quiser, eu te respondo e te conto tudo.

Estranhou. — Porque mudou de ideia ?

- Bom… — Suspirou. — Eu só me coloquei no seu lugar e vi… Que eu estava sendo egoísta. E você já passou por tanta coisa… Te contar tudo vai me dar um trabalhão, mas… Já passou por tanta coisa e você não merece ficar sem saber…

Ele sorriu fracamente de lado. — Q-quem é RC?

- Oi? — Ela não entendeu.

- Rodrigo… Castellamare. Acho que é isso. — Sussurrou.

- Ah. — Ela sorriu. — Seu pai.

- Meu pai ?

- Aham. Porque? Lembrou de alguma coisa?

Ele negou com a cabeça. — É que… Eu estava na garagem hoje e encontrei algumas cartas dele para uma mulher.

- Deveria ser sua mãe.

- É. — Suspirou. — Mas… Eu joguei todas fora.

- Hm. Eu me lembro que… Você não me deixava ler aquelas cartas. Nunca me deixou ler, e eu… Também nunca me interessei mesmo…

- Porque eu não te deixava ler?

- Isso eu não sei. — Balançou a cabeça. — Sempre ficava nervoso quando eu tocava nesse assunto do seu pai, na verdade, até hoje não sei o verdadeiro motivo pelo qual ele foi para os Estados Unidos.

- Ele era legal?

- Eu não conheci direito. Mas… A Bia dizia que você era muito parecido com ele, sabe? O jeito… — Mordeu os lábios. — Então eu acho que o seu pai era sim, muito legal.

- E-eu era apegado a ele?

- A Bia era mais. Ela engravidou cedo, com uns… Dezoito anos e ele foi o primeiro a apoia-la. — Pausou. — É por isso que ela ama tanto você. Você é muito parecido com o seu pai, é o que ela diz.

- Ela… — Abaixou a cabeça. — Não me ama, n-não me ama…

- Sch… — Tocou nos seus cabelos. — Mas que besteira. Porque acha isso?

- Não é obvio?! A gente está sempre brigando…

- O problema da Bia é o mesmo que o meu. — Explicou. — Você perdeu a memória, esqueceu de tudo e… Dela também. Ela se irritou com isso e descontou em você. — Pausou. — A única diferença entre a minha reação e a reação dela é que eu… Não me irritei, só que fiquei muito triste e descontei isso em mim mesma.

- Tá. — Deu uma rápida olhada para ela. — Vamos mudar de assunto porque… Eu não quero te deixar triste.

- Ah, não? — Ela sorriu, mesmo com os olhos marejados. — Porque não quer me deixar triste?

- Eu não sei. — Respondeu confuso. — Só sei que… Eu fico triste quando te vejo triste. E fico feliz quando te vejo feliz.

- Está voltando? — Ela sussurrou sorrindo ainda mais. O abraçou e deitou a cabeça no seu peito. — Você costumava ser assim… Ficava triste quando me via triste. — Disse ainda abraçada com ele. Sentiu que Daniel alisava seus cabelos. Ela fechou os olhos, quase dormindo com aquele carinho.

- E porque na garagem tinha... — Fez uma pausa assim que Julie levantou seu rosto. Seus queixos estavam quase se encostando. Ele olhou bem no fundo de seus olhos e engoliu em seco, até tinha perdido o foco da pergunta e Julie também já tinha se esquecido o que ele estava dizendo. Ela levantou sua mão e timidamente pousou no seu ombro. Com isso ele avançou um pouco mais e seus lábios estavam quase se tocando. Ela fechou os olhos quando sentiu o polegar dele tocando nos seus lábios. Ele desceu sua mão pela lateral do corpo dela, até chegar na cintura. Daniel terminou com o espaço entre eles e a beijou delicadamente. Ele preenchia seus lábios de selinhos, sentia seu coração disparar, um sentimento dentro dele gritava para ele aprofundar aquele beijo. Se sentia estranho, e Julie estava do mesmo jeito. Ela notou que o beijo estava mais molhado, sentiu a pontinha da língua dele.

Foi quando ela se soltou, seu rosto estava completamente vermelho. — O qu-e vo-cê di-zia?

- O que aconteceu com você? — Ele perguntou.

- Nada, não aconteceu nada. Eu só lembrei que você tinha me perguntado alguma coisa. — Abaixou a cabeça. — O que era?

Ele ficou sério, não achou que Julie rejeitaria seu beijo assim. Continuava confuso, afinal, a primeira coisa que ela fez ao ver ele foi beijar seus lábios, no hospital, e com tantos pensamentos em mente, ele até chegou a pensar que ela… Ainda sentia algo por ele…

- Daniel. — Ela o despertou.

- Ah, e-eu só queria perguntar porque encontrei umas caixas cheias de roupas de bebê lá na garagem.

Ficou nervosa com aquela situação, se esqueceu desse detalhe. — Huh, sabe… — Coço a nuca. — É que eu… Eram roupas velhas.

- Não. — Ele interrompe. — Vi muitas roupas novas ali, ainda tinham etiquetas.

- Eu ia doar… — Sorriu em pensamentos, pela primeira vez encontrou uma boa desculpa para escapar das perguntas que a enforcavam.

- Tudo bem. — Ela o ouviu sussurrar. — Eu quero uma coisa… — Daniel disse esticando seus braços e tocando levemente no seu rosto, os dois se olharam como na vez em que se beijaram a pouco… Ela abaixou a cabeça. Não queria beija-lo de novo, mesmo sentindo algo bom dentro de si todas as vezes em que seus lábios se tocavam.

- O que você quer? — Perguntou tirando a mão dele do seu rosto.

- Seu pai. — Pausou, lembrando do jeito como ele o tratava. — Ele é sempre tão seco… Hoje eu tentei ajudar ele com um problema do seu carro. Mas ele não aceitou minha ajuda. — Parou para pensar um pouco. — E… Eu percebi que toda a vez que estou segurando uma faca vocês… Tiram de mim e inventam uma desculpa falando que não precisam da minha ajuda. — Ela fez uma careta. Daniel percebeu sua expressão. — Eu quero saber tudo. — Disse sério e com a voz firme.

- Quer saber porque o meu pai te trata assim?

- Quero saber isso e o motivo escondido… Não me deixaram cortar as frutas… Ele não me deixou desencapar o fio… Por quê?

Ela suspirou, hesitava em responder. — Será que o bebê já acordou?

- Porque? Porque está fugindo do assunto? — Ele puxou seus cachos com força. — O que está escondendo de mim?! Eu quero saber! E-eu… Eu sabia antes, não é? — Ela se calou. — Você disse que me contaria. — Ela continuou quieta. — Por favor… — Seus olhos se enxeram de lágrimas. Julie não esperava esse tipo de reação. Ele deitou a cabeça no ombro da moça e começou a chorar. — Me conta. — Pediu fracamente.

Ela alisou suas costas. — Sch… — Subiu a mão para seus cabelos. — É uma longa história.

Daniel levantou seu rosto. A encarou com os olhos cheios de lágrimas. — Eu não me importo.

Notas finais
Agora a Julie não tem mais por onde escapar. Como eu disse, esse capitulo foi meio curioso, o que vocês acharam daquelas cartas? Será que o Daniel escondia algum segredo sobre o pai dele para a Julie? E quem pegou aquele baú? O que será que vai acontecer?! :O
Vou avisar aqui que talvez o próximo capitulo tenha flash back...
JULIEL tá chegando, esse beijo foi só uma pequena amostra...