Corações Feridos
83 Realidade
Notas iniciais
Um sorriso foi se formando no rosto de Juliana ao ver sua mãe e seu pai conversando civilizadamente pela primeira vez. Ela ficou parada no terraço segurando o pote com frutas atrás da porta. Fariam um churrasco logo depois do filme e como o filme já estava no fim os três resolveram começar a preparar tudo.
Ela estava escondida, ainda ouvindo a risada dos dois. Estavam se dando bem e Julie ficava feliz e surpresa com isso, quando eles estavam juntos sempre brigavam.
Isso até a fez lembrar do seu relacionamento com Daniel, estava se tornando assim, igual ao de seus pais. — Não mesmo Raul. — Heloísa riu. — Não me venha com essa, você é a visita, eu preparo a salada de frutas.
- Você sempre cozinhou muito bem, Heloísa.
Julie não queria ser inconveniente e atrapalhar a conversa. Mesmo sabendo que sua mãe esperava as frutas para fazer a sobremesa. Não queria interromper nada.
Deu meia volta e desceu as escadas lentamente, tentando ter a maior delicadeza possível para eles não a notar. Vinha pelo corredor, o pessoal ainda assistia o final do filme, mas Julie se sentia incomodada ali na sala. Afinal, Bia segurava o bebê o tempo inteiro e isso a entristecia… Não gostava de receber uma ‘’injeção de realidade’’ e saber que ela não era a verdadeira mãe de Bryan, só fingia ser… E não fingiria por muito tempo.
- Oi. — Encontrou com Daniel passando pelo corredor. — Não vai assistir o filme?
- Não. — Bufou e a olhou com uma expressão feia, tentou passar mas Julie o barrou. — Quer dar licença?
- Eu não acredito. — Revirou os olhos. — Ainda está chateado comigo por causa daquela mulherzinha?!
- Claro que estou! — Pegou uma uva verde dentro do pote que Julie segurava. — Eu gosto dela, queria passar o dia com ela, mas você não pensa nos outros, só pensa em si mesma. — Respondeu indiferente.
- Tá bom! — Gritou não tão alto. — Se está mesmo interessado por ela, vai! Liga pra ela! Chama ela aqui! M-mas depois não venha perguntar porque estou de cara feia! — Foi passando.
Mas Daniel segurou seu braço, o mesmo respirou fundo. — Eu também não estou assistindo o filme porque já perdeu a graça e o Martim não cala a boca, fica me perguntando sobre você o tempo todo. Me disse que você estava linda com essa calça jeans justinha. — Amarrou a cara.
- Ele é assim mesmo, dá em cima de todo mundo. Não ligue para isso.
- M-mas… Eu não ligo! Já falei que não estou mais assistindo o filme porque está sem graça. — Pausou. — Eu vou lá pro terraço… — Foi andando.
- Não! — Mas dessa vez Julie quase deixou o pote cair, tentou segurar o braço de Daniel e o impedi-lo de todos os jeitos. Ele parou novamente e se virou para ela. — Meus pais estão lá. — Sorriu se explicando. — Estão conversando e… Se dando bem! Não podemos atrapalhar!
- Eles são separados?
- É claro! — Se sentiu triste ao responder. — Sempre torci para eles voltarem, desde pequena. — Abaixou a cabeça. — Mas todos os dias que o meu pai vinha me visitar os dois acabavam brigando e eu perdia minhas esperanças. Até que, conheci você e eu esqueci um pouco essa ideia, porque… Eu sempre saia magoada. — Pausou. — Ter uma família. — Suspirou. — Sempre achei que fosse fácil, quando na verdade é a coisa mais difícil.
- Mesmo depois de adulta você ainda sonha em ver os dois juntos?
Ela riu fracamente. — Quando me casei com você e construí minha própria família eu esqueci, mas ai nós nos separamos e eu voltei a pensar nisso. E continuo torcendo por eles. — Sorriu. — Sempre gostei muito do meu pai. Mas a gente quase não se via. Eu sempre fico muito feliz quando ele vem me visitar.
- Entendo. — Balançou a cabeça. — Então posso ligar para a Aline? — Ele sorriu enquanto o sorriso de Julie se desfazia.
- Claro, se quiser arruinar meu dia tão especial… — Passou por ele e desceu as escadas.
Daniel ficou parado no corredor. Resolveu não ligar.
Julie chegou na sala. Via que todos riam do filme, ela parou um pouco para olhar pra TV, acabou rindo um pouco também. O filme era engraçado, Daniel que não queria ficar ali, ouvindo Martim elogiar Juliana o tempo inteiro. Ela foi para a cozinha depois de ‘acordar’ para vida e ver Beatriz e Félix com o bebê. Não gostava de ver aquela cena, queria fugir da realidade.
Daniel chegou na cozinha também. Viu que Julie picava algumas frutas. Ela virou o rosto e o viu ali. Estava mau humorada por causa da cena que acabara de ver. Resolveu descontar seu mau humor nele. — Está me seguindo?
- Não. — Respondeu sem entender.
Ela viu que Daniel estava perto do telefone. Logo tirou conclusões precipitadas. — Vai mesmo ligar para ela?!
- O que?
- Eu não acredito! Eu não quero ela aqui! Não entende?!
- Enlouqueceu?! Não sei do que está falando sua idiota?!
- Abaixa esse tom de voz comigo!
- Ah, cala a boca! Você não significa nada para mim!
- Aham! Eu que te dou a minha casa e cuido de você não ganho o devido valor! Já aquela puta sim!
- Olha bem como você fala com ela, ouviu?!
- Você ainda defende essa interesseira?! Ela não dá a mínima para você!
- Ela é melhor do que você! Ela é mais carinhosa comigo!
- Então está dizendo que eu não me importo com você?!
- É o que parece!
- Você também não se importa comigo! — Cruzou os braços.
- Isso é mentira! E pode retirar tudo o que disse sobre a Aline!
- NUNCA!
- Pare de gritar, mulher! Vão acabar nos ouvindo!
- Ah, vai pra merda Daniel! Esse pessoal está ocupado de mais paparicando o bebê! — Rosnou. — E tem mais, eu vou ter o maior PRAZER em esfregar na sua cara que ela é uma interesseira quando ela te chutar!
- Ela não é! — Revidou. — Ela me ajudou a descobrir coisas que eu não sabia!
- Te ajudou?! Ela te prejudicou isso sim! Passou o dia todo triste por culpa dela!
- Cala a sua boca! Ela não mentiu para mim como você! E… Se eu descobrir mais uma mentira sua, Juliana! Eu nunca mais vou te perdoar!
- Pelo menos eu menti por uma boa causa!
- Você fala dela mas é a mais interesseira de todas! Só me deu a casa para eu te ajudar a cuidar do bebê!
- Vai pro inferno, seu animal! E… — Viu que seu pai já estava quase entrando na cozinha.
Daniel estava de costas para Raul. Não o viu e ia continuar gritando mas Julie agarrou sua nuca. — Ah, meu amor! — Disse com a voz tão doce que Daniel até se assustou. — Eu te amo tanto, meu anjo. — Beijou seu rosto, fechando os olhos. Sabia que seu pai ainda estava parado na cozinha.
Ela sentiu que Daniel tentava se soltar. Não podia deixar isso acontecer. Aproximou seus lábios no ouvido dele. Ele se arrepiou com aquele toque e o hálito refrescante de Julie sussurrando. — Meu pai tá ai atrás seu idiota, simula.
- Será que está ai atrás mesmo ou está mentindo só para me abraçar? — Ele sussurrou no pé do seu ouvido também.
- Ah, você é tão engraçado, pena que eu esqueci de rir.
- Nem pra atuar você presta, tá na cara que ele não vai acreditar nesse seu teatrinho. — Beijou os cabelos de Julie só para disfarçar.
- Não, é? — Abriu os olhos. Seu pai ainda estava ali, ele estava sério, de braços cruzados, certamente ouviu um pouco da gritaria e estranhou aquilo. Ela começou a beijar o pescoço de Daniel, agarrou a nuca dele, amassando seus cachos. Daniel ficou imóvel. Tentava disfarçar o arrepio que sentia por todo o seu corpo por causa dos beijinhos. Ele a abraçou mais e ela continuou com os beijos, descendo uma mão para o tórax dele.
Ela levantou seu rosto e os dois se olharam.
Sentiram um certo desejo. Julie subiu os beijos para o rosto dele. Beijava o canto de seus lábios delicadamente, enquanto Daniel alisava sua cintura. — Julie. — Seu pai chamou.
- Ah, oi pai. Não te vi ai. — Sorriu e parou com os beijos, mas continuou abraçada com Daniel para ele não suspeitar. — Tudo bem?
- Tudo e… Vocês? — Olhou desconfiado.
Daniel se virou para Raul, ainda envolvendo Juliana em seus braços. — Eu sempre fico bem quando estou do lado dela. — O loiro sorriu torto.
- Own, amor. Eu também. — Julie deitou sua cabeça no peito dele.
- Eu não quero interromper. — Os dois sorriram ao ver que Raul caiu na conversa deles. — Só vim aqui porque sua mãe está esperando as frutas.
- É mesmo! — Se fingiu de esquecida, mas na verdade não queria interromper a boa conversa deles. — Eu ia cortar para ela, pai. Mas… Tive outra ideia! — Sorriu. — Porque vocês dois não cortam as frutas juntos?! Assim eu continuo curtindo o meu lindo marido. — Continuou abraçada com Daniel.
- Só lindo, amor? — Daniel interrompeu segurando seu rosto. — Lembra que me chamava de gostoso também?
- Ah. — Forçou um sorriso. — Lembro sim. — Fez uma expressão de ‘’ eu vou te matar ‘’
- Então está certo. — Seu pai interrompeu enquanto pegava o pote com as frutas. — Eu ajudo a sua mãe nisso. — Passou pela cozinha. — Tchau… — Se virou para eles.
- Tchau! — Os dois acenaram sorrindo. — Você é um idiota. — Julie rosnou assim que seu pai saiu. — Cadê a modéstia?!
- Qual é o problema de inventar uma mentira boba dessas? Pensei que gostasse de mentiras. — Passou a mão pelo seu rosto. — Você marcou meu rosto todo com batom, minha boca… — Limpava.
- Vai me dizer que não gostou? Eu vi sua carinha. — Passou pela cozinha.
- Eu estava atuando, atuando! Isso é diferente!
- Aham… Sei.
Raul subia as escadas, chegou no terraço e encontrou apenas Heloísa. Suspirou. Queria mesmo passar um tempo à sós com ela.
Precisava conversar sobre uma coisa importante, na verdade, a coisa mais importante para os dois: A filha deles.
- Ela me disse que não sabia que você estava esperando as frutas. — Ele começa, colocando o pote com as diversas frutas sobre o balcão. Heloísa levanta o olhar para eles, ficaram calados por um tempo. Conheciam Juliana. — No fundo ela ainda é aquela garotinha que sonhava em ver nós dois juntos e a família unida. — Ele diz e ela concorda com a cabeça, os dois sabiam que Julie mentia sobre as frutas, afinal, sua mãe deixou bem claro que prepararia uma sobremesa.
Começaram a cortar as frutas juntos. Ficaram calados, mas o silêncio não durou muito tempo. Raul riu alto o suficiente para chamar a atenção da mulher ao seu lado. — Que foi? — Heloísa riu um pouco também.
- Eles são ótimos. — Raul balançou a cabeça. — Eu conseguia ouvir os gritos da Julie e do Daniel lá na sala, mas assim que cheguei na cozinha os dois disfarçaram e olha, eu quase acreditei.
- Nossa… Sabem fingir muito bem, se é que estão fingindo.
- Pois é, as vezes penso que não. — Pausou. — Está difícil continuar bancando o bobo. Está na cara que os dois só estão atuando bem, e só eu que… acabo acreditando na peça.
- Ah Raul, precisamos dar um empurrão nos dois.
- Ele perdeu mesmo a memória? — Olhou sério para Heloísa.
Ela também ficou. — Sim, perdeu. A Bia meio que doou o bebê dela para Julie, querem que Daniel pense que ele tem um filho, vivo.
- Tantos problemas… — Pausou, ainda continuava sem entender. — E porque estou metido nisso?
Heloísa parou de cortar as maçãs. — Raul! Por favor, ainda pergunta? A Julie não está ajudando para que a memória dele volte, você precisa fazer alguma coisa, os dois precisam conversar.
- E por que justo eu? Me diga!
- A-a-h, vocês são homens! Devem se entender melhor.
- Eu e o Daniel? A gente nunca se entende.
- Essa é a sua chance de conseguir se desculpar do erro que cometeu com ele.
- Ainda lembra disso?
- Lógico! Você ligou para a policia! Ele foi parar no hospital!
- Eu peguei os dois no flagra. Duas vezes! — Não gostava de tocar nesse assunto.
- Na segunda vez eles só estavam deitados juntos, qual é o problema nisso? — Heloísa os defendia de todas as formas.
- Mas na primeira não! Minha filha tinha apenas dezessete anos!
- Raul. Por favor. — Revirou os olhos irritada. — Isso também não era motivo para você ligar pra policia e… Bater nele! Você já não ia com a cara dele, só virou mais amigo dele por que ele se casou com a nossa filha.
- Eu sei que errei. — Admitiu, Heloísa sorriu. — No final das contas, ele não era esses moleques. Ele não magoou o coração da minha filha, sempre me preocupei com isso. — Dizia. — Em todo o relacionamento deles, a minha única preocupação era achar que Julie sairia magoada. Mas… — Suspirou. — O que me chateia é saber que foi a Julie quem feriu o coração do Daniel. Foi a Julie. Eu jamais pensei que seria ela. Sempre achei o contrário. — Abaixou a cabeça. — Pobre rapaz. — E em seguida suspirou.
Heloísa tocou no seu ombro. — Pelo menos a falta de memória fez ele parar de sofrer, um pouco. Ele não pensa mais na Julie como antes, só que… Ainda sinto que ele gosta dela. Por isso precisamos dar essa forcinha. — Eles se olharam e sorriram. — Mas e então, quando vai contar para a Julie? — Mudou de assunto.
- Não queria pensar nisso. — Respirou fundo. — Ela vai ficar arrasada, com certeza.
- Você precisa contar.
- Eu sei, eu sei! — Rosnou.
- Passe algumas semanas aqui.
- Eu estava pensando nisso, para compensar… Devo ficar uma semana.
- Só uma? Não vai ser o suficiente para a nossa filha.
- Mas eu não vou ficar aqui por muito tempo. A viagem já está marcada e o pior é que, é uma viagem sem prazo de volta.
Enquanto isso, Juliana e Daniel conversavam no quarto. — Eu não sei se o seu pai acreditou. — Daniel dizia enquanto dava voltas e voltas pelo colchão.
- É. — Ela precisou concordar. — Ele fez uma cara estranha. — Estava preocupada. Se seu pai descobrisse, com certeza iria se decepcionar com ela por continuar ‘’esmagando’’ o coração do Daniel. — Precisamos ser mesmo um casal! — Se levantou do colchão onde se sentava, estava decidida. — Segue a minha deixa.
Daniel não entendeu direito, mas balançou a cabeça e concordou.
Passaram se quase uma hora. O filme tinha terminado a trinta minutos, todos foram para o terraço, inclusive Martim que não entendia os olhares amedrontadores que ganhava de Daniel. Cada um fazia uma coisa, Bia segurava o bebê. Félix reclamava do som alto e de Martim que arrotava o alfabeto. Heloísa, Julie e Raul preparavam o churrasco.
Julie fazia um suco quando viu sua mãe cutucar seu pai e cochichar ‘’Não vai falar com ela?’’ Ele respondia negando com a cabeça. Julie disfarçou e voltou a adoçar o suco. Mas dessa vez sorria, seus pensamentos começavam a surgir, ela achava tudo aquilo muito estranho: Porque ele veio visita-la? Porque os dois andam conversando tanto? Porque não brigam mais como antes? Pareciam esconder alguma coisa, algum segredo… ‘’ Será que eles estão juntos e estão esperando o momento certo para contar pra mim? ‘’ — Se animou com os pensamentos.
- Posso segurar um pouco o bebê? — Daniel se aproximou da irmã que estava com Bryan no colo.
Bia olhava para as nuvens, mostrando as mesmas para seu filho. Que aparentava estar feliz e calmo nos seus braços. — Estou falando com você. — Ele tocou no ombro da morena.
Ela se virou. — O que você quer?
- Eu já disse, quero ficar com ele. Já passou a tarde toda paparicando o seu sobrinho, agora ele fica comigo. — Disse seco. Bia o olhou de cima até em baixo. Mas não moveu nem um músculo para entregar o neném. Isso o irritou. — Vem cá, onde está a sua filha hein? — Disse olhando para os lados, tentando encontrar a garotinha.
- Está na casa da amiga dela.
- Hm. — Ele tentou pegar o bebê.
Mas Bia o afastou de seus braços. — Vai procurar o que fazer Daniel, me deixe em paz!
- Porque você não procura o que fazer? — Cruzou os braços. — Sabe o que eu acho?! Que você devia ter mais um bebê! — Ela arregalou os olhos. — É isso mesmo, acho que você sente falta de ser mãe. — Era exatamente como Julie se sentia. Já Beatriz era diferente, não queria ter mais filhos, mas os amava mais do que tudo. — Porque não vai conversar sobre isso com o Félix?! Para de tomar pilula, talvez dê certo assim. Agora devolve o bebê.
Ela riu alto, chamando a atenção de Juliana que olhou diretamente para os dois, deixou os copos que enxia ali e caminhou lentamente. — Eu não devolvo mesmo, ainda mais depois de ouvir isso!
- Ah, mas você vai devolver. — Daniel apertou o pulso de Bia com força, Félix se levantou assim que viu. Não gostava de se meter nesses problemas, mas achava que aquela briguinha estava indo longe de mais.
Ele se aproximava por trás de Daniel, o mesmo não viu, diferente de Bia, que conseguia ver seu marido fechar o punho com força e apesar de inseguro, iria tirar satisfações.
Foi quando Julie puxou o braço de Daniel e ele acabou soltando o pulso de Bia, que estava vermelho e marcado com seus dedos. — Amor, vem… Vamos pra lá… — Felizmente Julie terminou com a briguinha boba dos dois irmãos. Precisava disfarçar, não queria que Daniel achasse que ela estava do lado da amiga, mesmo sendo a verdade. — Eu preciso de uma ajudinha com as saladas de frutas. — Os dois atravessavam o terraço de mãos dadas, entrelaçaram seus dedos ao mesmo tempo, Julie corou. — Pode levar esse copo para o Martim. — Terminou de colocar a cauda de cereja.
- Martim?! — Ele bufou e fez uma cara feia.
Julie suspirou. — Será que você quer arrumar encrenca com todo mundo?
- Eu só não gosto do jeito como ele fala de você! — Gritou um pouco, mas nenhum dos dois perceberam. — Ele fala de você, te elogia como se você fosse uma deusa, eu admito que isso me incomoda!
- Nossa. — Raul sussurrou para Heloísa. — Daniel está fingindo ciúmes muito bem. — Heloísa concordou balançando a cabeça. — Parece muito real…
- Vamos trocar. — Ele disse já mais calmo. — Você leva esse copo pro Martim e eu termino de ajeitar as sobremesas. — Deu a volta pelo balcão. Se aproximou por trás de Julie.
- Hm. — Ela o olhou torto e se afastou. — Tá bom.
Caminhava carregando o copo, Martim jogava totó com Félix. — Aqui. — Sorriu.
- Obrigado, Juh. — Ele sorriu de volta. — Acha que eu devo provocar mais ele? — Apontou com a cabeça para Daniel que estava de costas para os dois no balcão.
Julie riu. — É divertido ver ele irritado, mas não. Por enquanto. — Martim assentiu, Julie perguntou se Félix queria alguma coisa e ele negou com a cabeça.
Juliana preferiu não se aproximar da amiga que ainda olhava as nuvens, seu dia estava perfeito de mais para ficar chateada por um bebê que nunca será seu. Ela voltou para o balcão, via seus pais conversando normalmente, era a segunda vez naquele dia. Um sorriso grande se formou no rosto da morena, seus olhos brilhavam de tanta felicidade.
Mas se virou e viu que Daniel cortava algumas frutas, com um facão. Arregalou os olhos com isso, seus pais estavam tão distraídos que não notaram. Ela correu e deu a volta no balcão de mármore. — Eu corto as frutas! — Ela disse um pouco tensa.
Daniel levantou o rosto, certamente estranhando seu comportamento. — Qual é o problema?
- N-na-da. — Sorriu forçado. — Vamos, me dá a faca. — Esticou o braço.
Ele continuou sério. Julie ainda estava com aquele sorriso falso no rosto, um sorriso de que ‘’está tudo bem’’ mas ele não acreditou. — Entendi. — Ele sorriu de volta. — Meu amor, não precisa se preocupar comigo, eu não vou me cortar. Eu não sou uma criança.
- Não é, mas… Pode se cortar como qualquer pessoa.
- Nossa, até parece que é o fim do mundo um corte pequeno no dedo! — Revirou os olhos. Ele abaixou a cabeça e continuou cortando as frutas. Julie aproveitou sua distração para chamar Heloísa em sussurro.
Finalmente sua mãe virou o rosto e viu Daniel cortando as frutas, Julie fazia umas caras e bocas, pedindo para que ela interrompesse. — Daniel. Querido. — Ela tocou no ombro do rapaz. — Pode deixar ai que eu corto as frutas, ou a Julie. — Sorriu.
- Não tem problema, Heloísa. Vocês estão ocupadas, eu ajudo. — Disse simpático.
Todos olhavam em direção dele. Ele até notou, agora estranhava tudo aquilo. Porque chamou tanta atenção? — Sou alérgico a uma dessas frutas?
Julie sorriu. — É sim! Aos morangos!
Ele estava sério, ainda achava tudo muito estranho. Como assim alérgico a morangos? E porque tanto drama por causa disso?
Ele pegou um dos morangos, um pedaço grande e comeu sem hesitar, não estava acreditando naquela história. Depois de mastigar e engolir, ele olhou torto para Juliana que ficou com a cara no chão. Assim que terminou de comer pediu uma explicação. — Daniel. — Mas Bia interrompeu depois de assistir a confusão de longe, sabia que Julie não era boa em mentir e poderia complicar mais as coisas. — Fica com o bebê.
- Ah. — Ele sorriu torto. — Finalmente tomou consciência de que o filho é meu e não seu.
Ela suspirou triste. — É. Foi isso.
Daniel pegou o bebê. As duas esperaram ele se afastar. — Desculpa, Bia. — Julie pediu.
- Não. — Sorriu fracamente, mesmo não querendo. — Eu entendo. — Pausou. — Eu te ajudo com a sobremesa.
[...]
Todos ocupavam as cadeiras, assistiam o jogo de totó que os pais de Juliana jogavam. A mesma sorria, nunca viu seus pais se dando tão bem. — E eu me sento onde? — Ela perguntou tentando encontrar um lugar para sentar.
- Aí, o chão não está ocupado. — Daniel deu um sorriso torto.
- Engraçadinho. — Discretamente deu o dedo para o rapaz.
- Eu estou brincando. — Ele riu. — Vem. — Bateu nas próprias coxas. — Pode sentar no colo do seu marido.
Ela corou.
- Não. Prefiro o chão.
- Eu não vou deixar você sentar nesse chão frio. Vem logo. — Continuou batendo nas coxas.
Julie levou o olhar para Bia. — Vai… — Ela sussurrou. — Ele é seu marido, lembra?
A morena ainda em pé revirou os olhos, suspirou e se aproximou de Daniel. Ficou parada na sua frente. Ele esticou os braços e segurou sua cintura. Ela acabou cedendo e se sentou no seu colo. Estava cansada e não escondia isso. Passou seu braço por volta do pescoço dele, aproveitando para puxar algumas madeixas douradas e enrolar com os dedos. Eles sorriram um para o outro, estavam com os rostos levemente próximos. Ficaram assim por um tempinho até que Daniel levantou sua mão para retirar um fio negro que estava arranhando os lábios de Julie. — Estou cansada. — Ela sussurrou.
- Eu sei. — Pela primeira vez ele concordou com ela. Segurou seu rosto. — Deita. — E a fez deitar no seu ombro. Continuaram próximos. Os dois começaram a rir baixinho.
Ele se aproximou e beijou o nariz de Julie. Mas aquela rara demonstração de carinho durou pouco. Todos ouviram um som alto, longo e agudo de buzina. Heloísa e Raul pararam com o totó e Julie pode ouvir sua mãe afirmar. — É ela.
Daniel segurou a cintura de Julie e se levantou junto com ela, mas a deixou ali para se aproximar do murinho de mármore e conseguir ver quem buzinava na rua.
Ele arregalou os olhos. Um sorriso no seu rosto surgiu em questão de poucos segundos. Ele se virou e olhou diretamente para Julie e percebeu que ela já o olhava. Ele desfez o sorriso, agora concentrado apenas no lindo par de olhos da morena. Voltaram a sorrir juntos. Mas o sorriso de Daniel era mais feliz. — É a Aline. — Julie leu seus lábios. Ela desfez o sorriso e olhou sem graça para o chão. Não percebeu quando Daniel passou por todos no terraço e desceu as escadas.
Ela apenas sentiu um braço a segurando, levantou o rosto e lembrou que sua felicidade naquele dia era a presença do seu tão amado pai. — Precisamos conversar. — Raul afirmou sorrindo.
Ela o abraçou e assentiu com a cabeça.
Daniel abriu a porta da varanda. Lá estava a loira, usava um óculos escuro, cabelo preso com um coque, um vestido florido e uma rasteirinha. Ela tirou os óculos para ver, estava surpresa.
- Daniel?
- Disse que não viria. — Ele se aproximou sorrindo.
- Pois é, eu tinha um compromisso. — ‘’ Esse era o compromisso.’’ — Mas o que faz aqui?
- Essa é a casa da Julie.
- É? — Estranhou. — Eu não sabia…
Daniel também achou estranho sua afirmação. Como assim não sabia? O que veio fazer aqui então?
- Poxa, eu não parei de pensar em você hoje. — Pausou e segurou o seu braço. — Vem, entra…
- Não Daniel. — Ela se soltou sorrindo amarelo. — Eu estou bem assim. — Suspirou pensando no que ele acabara de dizer. — Não parou de pensar em mim?
- Não. Eu queria ligar para você e ouvir a sua voz. — Tocou no seu rosto.
Aline se afastou. — É… — Estava sem graça.
E ele percebeu. Pensou em mudar de assunto. — Onde está o seu filho?
- Ele vai morar com o pai por alguns anos.
- Anos? Nossa.
- É. O pai dele tem… Mais dinheiro. E conversamos esses dias, resolvemos deixar ele morar com o pai.
- Hm. Entendo. — Ficou calado por um tempo, não conseguia parar de pensar nas palavras que estavam engasgadas na sua garganta. — Aline. Eu… G-gosto muito de você. — Balançou a cabeça.
A loira sorriu. — Que gentil da sua parte. Também gosto de você, Daniel.
- Não. — Pausou. — Não é esse tipo de gostar. Não é um simples gostar. — Ela ficou calada, começava a entender. — Desde que te vi e conversamos, eu me sinto diferente. Você é tão distinta da Julie.
- Porque sempre envolve a Julie na nossas conversas?
- Esqueça a Julie. — Ele segurou o seu ombro. — Eu estou apaixonado por você. — A loira arregalou os olhos com a declaração. Tentou se soltar mas não conseguia. Daniel a segurava firme, sem nem mesmo perceber. — Eu gosto de você. Eu quero ficar com você. Pelo resto da minha vida.
- Você pode ter outra pessoa, já parou para pensar? Não pode tomar essas decisões. Perdeu a memória.
- Não significa que eu esteja privado de tudo! — Alisava seu rosto. — Mesmo com amnésia, eu posso te amar de todas as maneiras possíveis!
- Está louco? Me conheceu a tão pouco tempo e já está apaixonado por mim?
- Nunca ouviu falar em amor a primeira vista?
Respirou fundo. — Sua mente está te enganando… Você está jogando o amor que sente por outra pessoa em cima de mim, é isso que está acontecendo.
- Eu não estou. Não estou… Eu gosto mesmo de você, eu gosto muito… Muito…
- Daniel… — Tentou se soltar. — Me desculpe, eu só queria te ajudar, eu nunca senti nada por você.
Ele a soltou, olhava para o chão. — Repete. — Pediu com a voz fraca.
- Eu não vou repetir.
- Então você gosta de mim. — Levantou o rosto. — Se não quer repetir é porque está mentindo!
- Não é! — Respirou fundo. — Só não quero repetir porque isso seria humilhação de mais.
- Me humilhe então. — Pediu.
Ela fechou os olhos. — Eu não sinto e nunca vou sentir nada por você. Tá bem?
Daniel chutou uma pedrinha que encontrou na calçada. Não conseguia olhar nos olhos dela nem se tentasse. — Entendi. Me desculpe por ser tão inconveniente esse tempo todo…
- Daniel… — Ela segurou seu braço, um pouco arrependida pelas palavras tão frias.
Mas ele se soltou e cabisbaixo, entrou.
Estranhou o silêncio, já não ouvia mais a música alta, apenas uma falação vindo do quarto de Julie. Ele subiu as escadas devagar, duas vozes falavam, um era Raul e a outra era Julie. Daniel ficou espreitando pela porta que estava entre aberta. Ele conseguia ver Juliana sentada no colchão e seu pai conversando enquanto mexia em um retrato dela em cima do criado mudo. — Você precisa entender, filha.
- Não. Eu nunca vou entender.
- A empresa se mudou para os Estados Unidos.
Ela riu pelo nariz. — Esse era o motivo especial que te fez vir aqui? Só para dizer pra sua filha que… Vai se mudar para outro país!
- Julie, não torne isso mais difícil. Eu vou ficar mais uma semana aqui.
- O que é uma semana para mim?! Não é nada. Isso não muda nada. — Pausou. — Entendi porque você e a mamãe estavam se dando tão bem. Não queriam brigar na despedida, não é? Porque ainda está trabalhando?! Tem dinheiro.
- A minha herança é só pra você.
- Eu não quero dinheiro. Estou bem assim. Você está perto de ser rico, podia parar de trabalhar e ficar aqui mesmo!
- As coisas não são fáceis assim, Julie.
- Então eu arrumo as minhas malas e vou com o senhor. — Daniel franziu a sobrancelha, não gostava daquela ideia. — Não tem nada que me prenda aqui mesmo.
- A viagem é só para duas pessoas.
- Está ótimo!
- Filha, eu conheci uma mulher. Vamos morar juntos nos Estados Unidos e nos casar em Las Vegas.
- O que? — Estava incrédula. — Casar?! Com outra?!
- Ela se chama Aline.
- Aline! — Julie repetiu o nome rindo. Já Daniel conseguia juntar as peças. — Esse nome me persegue! — Se levantou. — Lindo como prefere construir uma família com ela do que com a minha mãe! Se quer saber pai, acho essa Aline uma interesseira. — Julie não pensava direito e se pensasse, saberia muito bem de que Aline ele estava falando. — Ela só deve gostar de dinheiro. — ‘’ Parece que Julie estava certa… ‘’ Daniel pensava, lembrando que o próprio pai do filho dela tinha dinheiro.
- Sei que está chateada, vou deixar você xingar ela por alguns minutos. Mas está enganada sobre a Aline, ela é uma pessoa legal.
- Ela já te fisgou, ela vai mudar rapidinho. — Chorava.
- Por favor Julie, eu já estou decidido. — Ela abaixou a cabeça ouvindo as palavras de seu pai. — Eu vou ficar mais uma semana aqui. — ‘’ Ótimo, e ainda tenho que fingir ser o marido dela por uma semana inteira. ‘’ Daniel pensou aborrecido. — Fique feliz por isso, vai passar mais tempo comigo.
- Mas eu vou saber que o senhor vai embora e nunca mais vou te ver.
Ele suspirou. — Também não é assim, eu venho te visitar.
- Vem nada! — Levantou o rosto. — Eu sei que não vai vir. — Limpou as lágrimas. — Saí daqui, por favor. — Daniel se escondeu dentro do banheiro. Viu quando Raul saiu e deixou a porta do quarto entre aberta. Ele saiu do banheiro assim que o pai da Julie desceu as escadas e foi até a varanda.
Ele olhou para trás, viu ele e Aline abraçados. Seu coração se partiu.
Abriu a porta do quarto de Julie fazendo um certo ruído, ela estava deitada, de costas para ele. Mas assim que ouviu o barulho alertou. — Vá embora. — Daniel ignorou aquilo.
Se sentou no colchão e ela sentiu que havia alguém ali. Levantou o rosto se virando para ele. — Droga… — Era orgulhosa e não gostava de chorar perto de ninguém, principalmente de Daniel. Ela tentou secar suas lágrimas, mas suas mãos estavam trêmulas de mais para isso.
Daniel as secou. — Não precisa ter pena de mim. E… Nem bancar o marido consolador. Meu pai não está por perto. — Sim, Raul não disse para Julie que sabia que os dois estavam fingindo.
- Eu sinto muito. — Disse com sinceridade.
- Estava vigiando atrás da porta. — Ela logo entendeu. — Você sempre gostou de ouvir minha conversa com o meu pai. — Daniel ainda limpava suas lágrimas, calado. — Eu já disse, não precisa ficar me consolando como se você se importasse comi-- Ele a abraçou. Julie ficou calada. Deitou a cabeça no ombro dele e começou a retribuir.
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