Corações Feridos

85 No fundo da alma


Notas iniciais
ooi pessoas lindas, desculpe a demora! A falta de inspiração me pegou e agora não quer me largar mais HAHA. Vou tentar não demorar assim... Espero que gostem.

– Não gostei desse sorvete. — Daniel afirma depois de provar o sorvete de flocos com cauda de chocolate.

Ela o olhou sem entender. — Mas esse é o seu sabor favorito. — Continuou comendo o seu. — Esse é de morango, você quer trocar?

O loiro hesitou em responder. — N-não. — Disse ainda olhando para o copinho de Julie. — S-só quero um pouco. — Agora olhava para ela. — Pode… Me dar?

– Claro. — Sorriu tímida, encheu a colher com o sorvete de morango e pegou bastante cauda de chocolate. — Aqui… — Deu o sorvete na sua boca.

Ele deitou na grama da praça, não tirava os olhos de Julie e isso a fez corar. — O que foi? — Sussurrei em um fio de voz, ainda tímida.

– Está bonita hoje. — Respondeu colocando seus dois braços sobre sua barriga.

– A-ah… — Julie colocou o cabelo atrás da orelha, não esperava o elogio. — M-muito obrigada.

– Costumávamos vir muito aqui? — Ele olha em sua volta.

A praça era mesmo muito linda. Ela até parou para admirar, fazia um bom tempo que não visitava esse lugar e ele parecia estar do mesmo jeito de antes. A grama sempre verdinha e bem cortada, o som das risadas das crianças…As borboletas, as flores branquinhas que caíam de cada árvore e se encaixavam perfeitamente na grama. O som dos pássaros… — Hein? — Ele interrompeu seus pensamentos.

ela virou seu rosto para responder e percebeu que Daniel estava sentado.

Bem próximos.

Se afastaram assim que notaram isso, ela decide responder. — A gente vinha muito aqui sim. Era um dos meus lugares favoritos. — Comeu mais um pouco do sorvete. — Depois que nos casamos paramos um pouco de vir aqui, passei mais tempo em casa, com você, claro. — Ele parecia tão interessado, até a deixou um pouco sem graça — Então é isso. — Olhou para o longe, viu que o Sol estava quase se pondo. — Precisamos ir para casa.

[...]

Ela segurava a moto, andava pelas ruas junto com Daniel. Deveria devolver a moto para o Martim amanhã de manhã. — Eu ainda não entendi uma coisa. — O rapaz quebrou o silêncio. Ela o encarou esperando o mesmo continuar. Estava preparada para as perguntas, prometeu que responderia todas. — Porque disse que eu era alérgico a morangos?

– Huh, quando falei isso? — Com tanta coisa que passou, Julie já nem se lembrava.

– Ontem. Quando eu estava cortando as frutas para o churrasco. — Precisou manter a calma assim que se recordou do que ele descrevia. — Porque mentiu de novo?

– Eu só queria te proteger.

– Me proteger de quê?

– Daniel, por favor. — Ela não sabia o que dizer, tinha medo de se embolar com as próprias palavras. Todos os dias se lembrava do que o médico lhe disse. Ele não poderia receber noticias ruins, poderia piorar seu estado. E ela viu que o médico estava falando a verdade quando ele recebeu a noticia de que seu filho estava morto. Ele piorou de uma forma que ela jamais imaginou, entrou em depressão, mesmo por algumas horas, foi uma tristeza profunda. E o que Julie menos queria no mundo era que isso se repetisse. — Eu só estava com medo de você se machucar…

Ele parou na calçada. Ela precisou parar também, tinha medo da reação dele. Não queria que ele gritasse ou achasse que ela estava mentindo. Sentia que ele estava com raiva. — Juliana… — Mas ele agiu ao contrário do que ela imaginava. — Não pensei que se importava comigo.

– E-eu sou a pessoa que mais se importa com você. — Ela responde séria, encarando seus lindos olhos cor de noite. Assim como a cor dos olhos do seu filho.

Ele deu um dos seus sorrisos tortos. Foi se aproximando. Julie ficou parada. A essa altura, não sabia nem como respirava. — O que vai fazer? — Ela sussurrou sem fôlego ao ver seus rostos tão juntos.

Daniel beijou sua bochecha. Ela sorriu com aquele beijinho. Ele segurou seu rosto com as duas mãos. Beijou seu nariz. Juliana riu fracamente com isso. E por fim ele beijou sua testa. — Eu… Li em uma revista que beijo na testa significa proteção. — Julie quebrou o silêncio do momento.

– É? — O rapaz parecia um pouco surpreso. — Nossa, eu não sabia… — Ela abaixou a cabeça com as suas palavras. Ficou um tempo parada ali, ainda olhando para o chão.

Até que sentiu as mãos de Daniel segurando seu rosto novamente, e antes que falasse ou achasse algo. Ele beijou sua testa pela segunda vez.

Depois de mais quinze minutos caminhando, os dois chegaram em casa. Julie encontrou seu pai assistindo TV, ela continuava chateada com ele, mas precisava dar pelo menos ‘’boa noite’’.

Foi o que fez, o comprimentou um pouco seca. — E a minha coisinha gostosa, hein? — Mas abriu um sorriso para o bebê que brincava dentro do cercadinho, sentado no carpete vermelho da sala. Ela pegou a criança que deu um sorriso grande, mostrando seus quatro dentinhos, dois em cima e dois embaixo.

Os olhos de Julie brilharam ao ver o bebê, passou o dia com o Daniel e sentiu muitas saudades de Bryan. — Meu neném gostoso, tá com fome? — Ela deitou o bebê no seu colo.

Seu pai encarava aquela cena um pouco confuso. Ele sabia que Bryan não era seu neto. Mas Julie fingia muito bem, parecia que ela achava mesmo que ele era seu filho. Julie foi para a cozinha ver se encontrava algo para o bebê comer.

Daniel entrou assim que guardou a moto na garagem. — Boa noite senhor. — Ele comprimenta educadamente seu ‘’sogro’’.

– Boa noite. — Responde se levantando e desligando a TV. — Como foi com a Julie?

Ele suspirou se sentando no sofá. Pensou um pouco antes de responder. — Sua filha é complicada. — Coçou a nuca. — Sinto como se não a conhecesse… — Se fingiu de desentendido, mas o que Daniel queria era conseguir ‘’informações’’ com Raul.

E como o pai da Julie era esperto, ele entendeu. Sabia de muita coisa, até mais do que a própria Julie. Ele sabia que os dois estavam fingindo o tempo todo. — As mulheres são complicadas. — Pausou. — Ainda mais as mulheres que gostamos. — Olhou para o loiro. — Gosta muito da Julie?

– A-aham.

– Só isso? — Daniel não entendeu. — Me parece diferente… Hm… Antigamente você me respondia melhor. Eu lembro que quando eu perguntava se você gostava da minha filha você dizia que a amava.

– E-eu… — Hesitou. — a a-mo.

Raul sorriu. — Isso é amor verdadeiro. — Apontou para ele. — A Julie também te ama muito.

– Até parece… — Daniel pensou alto, ele acabou ouvindo. Precisou disfarçar. — Ela é… tão seca… As vezes chego a pensar que ela não me ama.

– Não te ama? — Ele riu. — Ela te ama muito, rapaz. — Raul entregou um CD. — É só você ver bem o jeito como ela te olha.

– É? — Sorriu fracamente. — E… O que é isso? — Abriu o CD.

– É só colocar para tocar quando estiverem sozinhos.

Daniel não tinha entendido o propósito daquilo, ele olhava para o CD em suas mãos enquanto em sua cabeça, passavam vários pensamentos. Ele levantou o rosto novamente.

Mas quando percebeu, Raul já não estava mais ali. Ele só estava esperando os dois chegarem pois iria visitar Aline e também… Queria dar uma forcinha para os dois, precisava deixar Daniel e Julie sozinhos por um bom tempo.

– Você é muito lindo, sabia? — Enquanto isso, Julie dava o prato de maçãs picadas para Bryan. Não aguentou e lhe deu um beijinho no rosto.

Continuou matando a saudade que sentiu do bebê. Carinhava o máximo possível, brincava com seus cabelos que já estavam maiores desde a última vez que Beatriz cortou. Formando alguns leves cachinhos nas pontas. — Vamos comer, pra crescer e ficar um homem lindo, que nem seu tio…- Sussurrou enquanto amassava a maçã com a colher.

Mas parou o que estava fazendo assim que ouviu uma música lenta. Aquela música mexeu com todo o seu corpo, ela se sentiu arrepiada. Ficou parada, só esperando a letra começar. Era uma música linda e marcante. Reconheceria de longe. Seu coração palpitava forte, por um momento se esqueceu de que estava cuidando do bebê. Ela se levantou por puro impulso, seus olhos estavam cheios de lágrimas. ‘’ Ele se lembrou de tudo. ‘’ — Pensava quando se levantou e passou pela cozinha.

Chegou na sala e encontrou Daniel parado no mesmo lugar que estava quando conversava com Raul. Ele havia colocado o CD só por curiosidade…

Porém, se surpreendeu ao se deparar com Julie parada ali. Ela correu em seus braços, não pensava direito. Apenas o abraçou, era o que ela queria. Daniel não retribuiu, não conseguia entender nada.

Ainda em seus braços, a moça começou a chorar. — Psiu… Psiu… — Daniel segurou seu rosto e limpou suas lágrimas. — Porque está chorando? — Queria uma explicação.

Em meio as lágrimas, Julie sorriu. — Essa é a música do nosso primeiro encontro. — Tocou no rosto dele, tirava conclusões preciptadas. — Eu sabia que você ia se lembrar… — Seu sorriso só crescia ainda mais. — Eu sabia. — Estava certa disso. — O nosso amor era tão forte… — O abraçou, dessa vez Daniel retribuiu levemente.

– Eu não sei do que está falando… — Ele sussurrou rente ao seu ouvido.

– O que? — Ela cerrou os olhos. Foi se soltando, mas era impossível não ficar em seus braços enquanto aquela linda música ainda tocava. — Como assim?

– Ainda não me lembrei. — Ele responde triste. — Queria entender tudo o que você diz sobre o nosso passado… — Pausou. — E o nosso amor… — Tocou no seu rosto, Julie também se mostrava triste. Decepcionada. — Mas não consigo. Eu me esforço, eu juro…. Mas… Não entendo. Acho que eu nunca vou entender ou me lembrar.

Ela suspirou, olhou em seus olhos. Ainda chorando. Admitiu. — Eu quero você de volta… — Abaixou a cabeça. — Quero que volte a ser como antes. Sabe como é triste para mim saber que passei tantos momentos lindos com você e… Você não se lembra? Logo você. — Se soltou. — A pessoa que eu mais amei na minha vida.

Ele sorriu de lado e ela percebeu que já era o refrão da música, se sentia em um túnel do tempo, talvez uns cinco anos mais jovem. — Vamos dançar? — Daniel perguntou para quebrar o gelo.

Ela se arrepiou com aquelas palavras. — E-eu t-tenho que cuidar do bebê… — Se soltou.

Foi para a cozinha. Sorriu quando viu que Bryan tinha comendo as maçãs.

– Você não me ajuda. — Daniel a seguiu. Ela levantou seu rosto para ele. — Bom, me ajudou. Mas só hoje! Estou… Cheio de dúvidas mas…Ninguém me esclarece nada! Isso também é… Muito triste para mim. Saber que eu tinha uma vida, pessoas ao meu lado e que agora eu não me lembro nem mesmo do meu sobrenome!

– Tá! — O cortou, respirou fundo. — O que você quer saber?

– Quero saber de nós dois. — Foi direto ao ponto. Julie ficou um pouco surpresa com isso, afinal, pensava que suas dúvidas eram mais por causa do filho. — Se… O nosso amor era tão forte assim, porque nos separamos? E porque agora eu… Te vejo e não sinto nada por você.

– Nós passamos por alguns problemas e… Nos separamos, foi isso. — Lavava o prato que o bebê sujou.

– Entendo. — Balançou a cabeça, as coisas pareciam mais ‘’explicadas’’ para ele. Mas Daniel ainda tinha muitas dúvidas. — Eu… Queria perguntar uma coisa, na verdade… Essa pergunta está… Presa desde ontem, quando estávamos bem aqui na cozinha e…Você disfarçou nossa briga e me abraçou.

– Aff. — Revirou os olhos. — Pergunta logo! — Secava a pia.

Ele respirou fundo, viu que Juliana não estava com a mínima vontade de tirar suas dúvidas, o rapaz balançou a cabeça. — Esquece. E-eu… Só… Queria perguntar se você gostou de passar o dia comigo?

– Hm. — Ela sabia que Daniel estava mentindo, mas o que ela menos queria naquele momento era ouvir várias perguntas e ter o trabalho de dar respostas. — Foi bom, eu gostei muito. — Pausou. — Olha, eu vou tomar um banho, queria que cuidasse do bebê para mim… — Daniel assentiu. — Obrigada.

Ela passou pelos dois e subiu as escadas, abriu a torneira da banheira. Estava estressada com tantos problemas e precisava relaxar. ‘’ Ainda bem que amanhã é domingo… ‘’ — Suspirou só de imaginar. ‘’ Vou descansar bastante...’’

[...]

– Droga, Daniel! — Ela gritou aborrecida. — Mandei segurar ele!

– Estou segurando! O que mais você quer que eu faça?! — Gritou enquanto estava com o bebê nos braços.

Ela fechou os olhos com força sentindo uma dor horrível na cabeça. — Faz ele parar de chorar, por favor! — Rosnou.

– Eu já falei que ele não quer tomar banho!

– Não é ele que manda aqui! — Esticou os braços e pegou o bebê. — Olha como está vermelho! — Reparou bem. — Nossa…

– O que foi? — O rapaz se aproximou. — O que é isso? — Também notou o que Julie já havia reparado.

– Acho que é brotoeja. — O colocou na banheira, a água estava morna e isso fez o bebê parar de chorar. — Fica aqui com ele. — Pediu soltando o bebê. — Eu… Preciso fazer uma coisa.

Julie saiu do banheiro, passou pelo corredor e desceu as escadas. Pegou o telefone, discou os números e no segundo toque uma pessoa atendeu. — Estou com problemas.

Passaram quase quinze minutos, Julie vestia o bebê que por fim havia parado de chorar. Talvez o motivo do seu choro também seria sua pele irritada. Ela não sabia o que fazer, mas estava certa de que fez a coisa certa em chamar a verdadeira mãe de Bryan para cuidar dele.

Daniel descia as escadas quando viu Julie abrir a porta e Beatriz entrar. Ele revirou os olhos, realmente detestava sua irmã. — Oi Daniel. — Bia o comprimentou apenas por educação.

– Oi. — Ele rosnou. — O que faz aqui?

– Eu chamei ela. — Julie interrompeu, não queria que Beatriz respondesse que veio para ver o bebê ou algo do tipo, seria muito estranho… — Olha amiga, veja como está o meu bebê.

Bia suspirou mas pegou seu filho nos braços. Bryan encaixou sua cabeça entre o ombro da mãe. Ele coçava seu rostinho com as mãos, estava incomodado. — É alergia…

– Não é melhor chamar um médico? — Julie propôs. Daniel cruzou os braços.

– É amiga. — Bia sorriu com a idéia. — Chama um médico particular, quem sabe ele também não cuida de você? — As duas riram juntas. Daniel entendeu o duplo sentido daquela brincadeira.

– Eu vou sair daqui… — Ele sussurrou revoltado. — Vocês duas que fiquem ai com o médico… — Fez uma careta de nojo. Passava por elas e já abria a porta quando Julie perguntou.

– Onde você vai?

– Vou dar uma saída… Não sei quando eu volto.

– Você pensa que pode ficar vagando por ai?! — Cruzou os braços.

– Claro que penso. — Pausou. — Você não é minha esposa. — Piscou e pegou o celular que estava sobre a mesinha, perto das chaves.

Por fora Julie estava calma, mas por dentro se sentiu completamente derrotada com aquelas palavras. Por um momento lembrou que tudo aquilo era apenas atuação. Ela não tinha um marido, muito menos um filho…Não tinha família.

Ficou calada por um momento, até que acordou dos pensamentos, olhou para a Bia e disse: — Deve ser brotoeja por causa do calor.

Daniel se sentou no banco da praça, estava pensativo, sentia um vazio no peito junto com uma sensação estranha. Sentia como se já estivesse aqui antes. Mal sabia ele que foi exatamente nesse banco que ele se sentou ao escutar Juliana e Beatriz conversando depois da tragédia do bebê e a revelação de Julie. '' Eu não amo mais o Daniel. ''

Ele não tinha o que fazer, mas preferia ficar entediado assim do que continuar dentro de casa ouvindo sua irmã e Julie falar de homens..

Pegou o celular, colocou o fone e ouviu um pouco de música. ''Quem sabe eu não encontro meu gosto musical?'' — Pensou ele, um pouco mais animado.

Uma garota que passava pela rua voltou sua atenção para o rapaz solitário sentado no banco da praça vazia. '' Não pode ser...'' — Pensou ela, ainda surpresa.

Desceu seu olhar para o braço dele, tentava encontrar a única coisa que acabaria com todas as suas suspeitas. A tatuagem.

Atravessou a rua, disfarçou um pouco antes de se sentar ao seu lado. Daniel estava distraído e não notou a presença da garota. Ele estava com os olhos fechados, aproveitava a música e o vento fresco que balançava seus cabelos. A garota o olhava sem disfarçar, afinal, ele estava de olhos fechados. Daniel pensava em Julie, e pensava também no motivo por estar pensando nela. Lembrou da aproximação deles… ‘’Ela não é tão ruim assim...’’ — Esses eram seus pensamentos.

– Oi. — Até que a menina interrompeu. Ela falou alto o suficiente para Daniel ouvir.

Ele retirou um dos fones do ouvido e se deu conta que já não estava mais sozinho na praça.

– Oi. — Respondeu com a mesma expressão confusa de sempre.

– Lembra de mim? — Ela perguntou sorrindo.

Daniel logo negou com a cabeça. Só estranhou ao ver que ela continuou sorrindo, dessa vez deu até uma risada. — Sou uma boba. — Pausou. — É claro que você não vai lembrar. Estava inconsciente. — Sussurrou a última frase. Ela esticou os braços. — Sou Bella.

Ele apertou sua mão. — E eu sou…

– Daniel. — Interrompe. — Nos conhecemos. — Pausou. — Na verdade, eu te conheço. — Deu um sorriso largo. — Isso é tão bom, sempre pensei em você. Todos os dias lembrava de você e me perguntava se ainda estava vivo ou não.

Sorriu torto. — Pensava em mim?

– É claro. Você… Marcou minha vida. — Ela afirma e levanta seu vestido florido. Mostrando sua coxa. — Olha. — Apontou para uma cicatriz. — Você também deve ter alguma. — Ele continuava confuso com cada palavra da garota. Ela levantou sua mão, pousando em seus cachos. Tentava encontrar alguma cicatriz com os dedos.

– O que está fazendo? — Sussurrou olhando em seus olhos.

– Sch. — Continuou sorrindo. Ainda tocando em seus cachos.

– Quantos anos você tem?

– Dezoito. — Corou. — Não me desconcentre. — Mexia em seus cabelos. — E você? Está com quantos anos?

– Devo ter vinte e três…

– Deve? — Riu.

– Me diz o que está tentando achar… — Pediu ainda confuso.

Ela suspirou, não achou o que procurava. — Uma marca de sei lá, traumatismo craniano.

– Traumatismo? — Se assustou. — Do que está falando?

Bella suspirou. Achou que era normal ele se esquecer, afinal, estava inconsciente quando tudo isso aconteceu. Ela pegou sua mão. A ruiva se levantou. — Vou contar o que eu sei. — Andavam de braços dados. — Você brigou com a sua noiva, por causa da Julie.

– A Julie era minha noiva?

– Não. — Riu. — Era uma outra moça. Que eu não sei o nome. — Fez uma careta. — Mas acho que era parente da Julie. — Pausou. — Você brigou com a sua noiva, porque ela vivia falando mal da Julie e você sempre defendia ela… Bom, só sei que… A Julie estava na Noruega e você sentia muita falta dela. — Daniel continuava confuso. — Você bebeu muito no bar. Pegou a moto e… Entrou em uma estrada perigosa. Foi quando o meu pai te atropelou com toda a força. — Sorriu. — Bom, foi uma tragédia! Eu estava no carro, corri e saí pra te socorrer e você estava ali. — Fechou os olhos. — Estirado no chão. — Balançou a cabeça. — Me lembro disso como se fosse ontem. — Você sangrava muito e acho que não podia sangrar…

– Não podia?

– Não. — Olhou para ele. — Em fim, você ficou internado, não sei por quanto tempo porque eu não te visitei mais… Fiquei muito triste apesar de não te conhecer.

– A Julie foi culpada pelo acidente?

– Essa Julie. — Bella pegou seu braço e apontou para a tatuagem.

Daniel levou o olhar para o nome marcado em seu pulso. Se arrependia toda a vez que olhava para essa tatuagem, se arrependia de ter feito. — Eu não acredito que cometi tantas loucuras por causa dela. E-eu…Não a amo.

– Sério? — Arregalou seus olhos verdes. — Não… Você está enganado. Sempre gostou muito dela.

– Não consigo me ver gostando dela. — Suspirou. — Eu perdi a memória.

– O que? — Sussurrou. — Nossa… E-eu… Não devia ter te contado.

– Não. — Ele parou na calçada e segurou seus ombros. — Você fez o certo. — Sorriu. — É tão ruim descobrir que as outras pessoas sabem mais da minha vida do que eu. — Pausou. — Eu só queria entender o que aconteceu. Minha mente está uma bagunça. — Tocou no seu rosto. Colocando seus cabelos ruivos e enrolados para trás. — Me conte mais coisas. Por favor.

– E-eu não sei de mais nada, e-eu juro. Não te conheço muito, apenas sonhei em te reencontrar pra saber se estava tudo bem. Só sei que… Sofreu esse acidente e que…Você amava muito a moça da tatuagem.

– Porque todos dizem que eu a amava muito? — Lembrou das palavras do pai da Julie, de Bella, Martim e da própria Juliana. — E eu…Que sou dono desse sentimento… Não consigo perceber, ou sentir mais nada. Não é como antes.

A garota o abraçou. Era baixinha e precisou ficar nas pontas dos pés para encaixar sua cabeça no ombro dele. Daniel retribuiu. — Obrigado. — Ele sorriu. Bella levantou seu rosto e sorriu de volta. — Você é linda de mais. — Ela deu um sorriso maior. Ele beijou seu rosto.

– E você é um anjo… — Beijou seu rosto também.

Foi quando Daniel a soltou, seus olhos estavam marejados, ele não conseguia entender como um dia conseguiu amar a Julie. ‘’ Ela vai ter que me contar como me apaixonei...’’ — Pensou enquanto caminhava.

[...]

– Não acredito Bia! — Julie ria e ao mesmo tempo escondia seu rosto, estava surpresa e envergonhada.

Enquanto Daniel passeava sem rumo pelas ruas, as duas moças chamaram um médico para ver o problema de Bryan. Porém, esse mesmo médico era um antigo vizinho de Juliana. Ela morava perto da sua casa, sempre quando ia para a escola ele acenava, ela correspondia sorrindo. Sempre. Até o dia que completou quinze anos, e ele já tinha vinte e admitiu que sentia algo por ela.

– Porque logo ele?! — Se chateou com aquela situação. — Eu te contei que tinha um médico afim de mim...

– Eu não sabia que era justo ele! Ele é muito bom, sempre cuidou da minha filha quando era menor. — As duas discutiam dentro do quarto, enquanto o médico estava com o bebê na sala. — A gente precisa descer.

– N-não... E-eu n-ão quero...

– Julie, para de palhaçada! — Puxou o seu braço, elas saíram do quarto.

Encontraram o bebê sentadinho no chão, distraído com alguns brinquedos. Bia o pegou no colo. — Quem é a mãe? — O médico perguntou se levantando, não tirava os olhos de Julie e isso a deixava mais nervosa ainda.

As duas se entreolharam rapidamente, Bia resolveu responder. — É ela. — Apontou para Julie.

Ele assentiu com a cabeça. — É apenas uma brotoeja. A pele dele ainda é muito sensível. — As duas concordaram enquanto o mesmo continuou. — Aqui está a receita de uma pomada, é muito boa. — Entregou a receita médica nas mãos de Julie.

– A-ah, obrigada doutor. — Sorriu simpática, ele continuava sério. Julie entregou a receita para Bia, que continuava com o seu filho no colo. — Eu te levo até o portão... — Caminhou até a porta.

Os dois saíram para a calçada. Ela levou a mão ao bolso, retirava uma nota de cem. — Não está me devendo nada. — Respondeu negando com a cabeça.

– O que? N-não... Mas o senhor veio aqui... — Insistia. — Não posso deixar de te pagar.

– Eu já disse Julie, eu não quero. Não foi nada. — Pausou. — Você é uma pessoa especial para mim. Eu não vou te cobrar. — Pela primeira vez sorriu.

Daniel chegava da praça. Ouviu e viu os dois na calçada. Continuou parado ali, Julie estava de costas para o rapaz. — Muito obrigada por ter vindo aqui. Eu... Ficaria ainda mais agradecida se aceitasse o dinheiro.

– Você é muito teimosa. — Os dois riram juntos.

Daniel ouviu as risadinhas, cruzou os braços. — Está cuidando do bebê sozinha?

– A-ah... Mais ou menos.

– Cadê o pai dele?

Julie não sabia o que responder. Logo pensou no Félix, que era o verdadeiro pai do bebê. — Huh... Ele não está aqui não.

– Hum. Se separaram?

– É. E-eu... Me separei dele. — Suspirou.

O médico torceu os lados, tocou no ombro de Julie. — Gostava dele?

– Antes acho que sim. Mas agora eu tenho... Certeza que não.

– Entendo. — Concordou. — Olha, estou aqui para qualquer ajuda que precisar para o bebê. Minha filha já está com três anos... E ela só pegou um resfriado, nunca teve nenhuma doença grave.

– Brotoeja é grave? — Se assustou.

O médico riu. — Claro que não, é completamente normal. — Pegou as duas mãos da moça. — Eu estou muito... Muito feliz por te ver de novo.

– E-eu também. — Ela deu um sorrisinho amarelo. Daniel revirou os olhos.

– Eu preciso ir, obrigado Juliana. — Beijou seu rosto enquanto soltava suas mãos. Ele caminhou até o seu carro.

Acenou para ela e ela retribuiu sorrindo, enquanto levava sua mão para a bochecha onde foi beijada, a alisava com os dedos.

A moça esperou o carro virar a esquina, Daniel abriu a portão do quintal e entrou, aproveitando a distração de Julie. Abriu a porta da sala. Bia ainda segurava o bebê. Brincava com ele quando Daniel chegou com uma cara de poucos amigos. — Oi. O que aconteceu? — Apesar de ter discutido várias vezes com ele, Bia ainda amava e se importava de mais com o seu irmão.

Daniel passou por ela esbarrando com força no ombro da irmã.

– Seu idiota, se machucasse o bebê eu...

– Cala a boca! — Gritou subindo as escadas.

– Como é? — Ela deixou o bebê dentro do cercadinho. Subiu as escadas correndo e conseguiu alcança-lo. — Qual é o seu problema?!

– Foi você?!

– Eu o que?

– Que chamou aquele cara que estava com a Julie?! — Seu rosto estava vermelho.

– Hum, o médico?

– Ah, então o cidadão ainda é médico?!

– Fui eu sim. A gente precisava ver o que aconteceu com o bebê e... — Ele apertou com força o seu braço. — M-me larga... — Tentava se soltar. — Daniel, está me machucando!

– Eu te odeio... — Sussurrou aproximando seus rostos, ele encravava suas unhas, furando o braço da irmã. — Te odeio bem no fundo da minha alma... — Ele foi se afastando, ainda olhava nos olhos de sua irmã. Bia conseguia ver o ódio no reflexo dos olhos dele.

Ele entrou para o quarto, e ali mesmo, as primeiras lágrimas de Bia começaram a cair.

Notas finais
Vocês viram que no inicio do capitulo os dois estavam bem mais próximos, muito mais amigos do que costumavam ser, né? rsrs. Eu ainda preciso e MUITO de inspiração, então peço para que as leitoras fantasmas comentem também, quero sugestões/opiniões, me deixaria muito feliz.

E digo mais uma coisa. JULIEL está mais próximo do que imaginam.

Mais tarde respondo todos os reviews, preciso me arrumar para o colégio. Eu ia postar mais cedo para ter tempo de responder as leitoras, só que chegou visita aqui em casa. Beijinhos e comentem!