Corações Feridos

55 I care about you


Notas iniciais
To muito muito muito feliz! Recebi duas recomendações! Eu ainda nem estou acreditando! *-* Eu tenho as melhores leitoras do mundo. Agradeço as lindas Vick Princess && Raysla N por recomendar minha fanfic, amei muito a recomendações de vocês! Com certeza foi o que me inspirou a fazer um capitulo com mais de cinco mil palavras. rçrç
Ficou maior do que eu esperava, então desculpem! Acontece mts coisas nesse capitulo rs '
Espero que gostem, agora vou fazer meu trabalho, depois respondo os reviews.

Julie tentava entender como Débora falava com ela, afinal, na fazenda do seu pai não tinha muito acesso à internet, raramente ela entrava, raramente mesmo. Juliana ainda estava surpresa com aquele contato, já tinha visualizado o ‘’oi’’ há dez minutos, mas até agora não respondeu.

Fazia anos que não se falavam. Desde que Julie começou a ficar com o Daniel, só foi visitar sua prima uma vez ou outra, ficava dois ou três dias por lá, louca de vontade de voltar para Campinas e se jogar nos braços de Daniel.

Na ultima vez que foi visita-la elas até discutiram por causa disso, já que Julie passou só algumas horas lá e fingiu estar passando mau para voltar e ficar com o Daniel. Ela até achou engraçado, mas Débora não gostou daquilo. Não gostou de saber que sua prima a trocou pelo namorado. — Oi, você está ai? — Julie recebeu mais uma mensagem e isso a despertou das memórias do passado.

Balançou a cabeça, voltando para a realidade, digitou. — Oi prima estou sim. — Mandou. — Tudo bem?

– Estou ótima! E você?

– Também. — Digitou e suspirou. — Mas me conta, como está ai na fazenda?

– Papai vendeu a fazenda! Ainda bem! — Julie ficou surpresa com aquela noticia. — Detesto aqueles animais, felizmente não peguei sotaque de nordestino. Odeio eles. — Julie revirou os olhos ao ler aquilo, lia com a voz irritante de Débora. Fechou os olhos com força, lembrando que a risada da prima era mais irritante ainda. — Me conta as novas jujuba!

– Não tenho novidades... — ‘’ Não... jujuba não... Apelido mais idiota ‘’

– Ah, papai sempre me deu novidades sobre você! — O pai de Débora sempre foi mais ligado à família. — Ele me disse que você se divorciou! Não acredito! Você vivia me falando do seu namorado, pra mim vocês seriam felizes para sempre.

Juliana sentiu um aperto no coração com aquilo.

Quando Débora começava à falar não parava mais e nem se tocava que estava sendo inconveniente com esse papo.

Mas Julie decidiu corta-la. — Agora mudando de assunto, o que houve com o seu namorado?

– Já to em outra prima! HAHAHAHA, meu ex já era! Encontrei um homem aqui em Campinas.

– Hm.

– Mas voltando ao assunto, quem ficou com o bebê? Você ou ele?

‘’Não acredito... ‘’ Julie pensou, passando a mão pelo seu rosto.

Resolveu responder logo. — Nenhum dos dois.

– O.M.G como assim?? o.o

– Não ficou sabendo que ele morreu?

– Hm, acho que eu ouvi alguma coisa assim, mas não achei que fosse verdade, sinto muito prima. Mas em fim, QUERO TE VER! Tenho tantas novidades! Noticias ótimas! VAMOS SAIR PRIMA! Você precisa conhecer meu amorzinho, ELE É LINDO DE MAIS!

– Não sei... Ando ocupada com o trabalho.

– Agora é o trabalho? Antes era o seu namorado, o Danilo, agora é o trabalho.

– Que Danilo?

– Seu marido, ex-marido.

– NÃO É DANILO!

– Sempre confundo. rçrçrç, é Danien. Né?

‘’ Qual é o seu problema Débora? Um nome tão comum e você não tem capacidade de gravar?‘’ — Sua vontade era de digitar isso e mandar. Já que sua prima fez o favor de lembrar do seu fracassado casamento e da morte do seu filho e a deprimir.

Ela mordeu seus dentes, estava desesperada. Não via a hora de se livrar logo de Débora. Mas sabia que sua prima grudava nela como um carrapato. Não sabia o que dizer...

Até que ouviu alguém bater na porta.

Sorriu com isso e digitou. — Tenho visita, mais tarde a gente se fala. — Mandou para sua prima.

– Espera Jujuba! Me manda seu número de celular! Vamos sair! — Ela ignorou aquilo, se levantando do sofá.

‘’Nunca mais eu entro no facebook... ‘’ — Pensou, chateada.

Caminhou até a porta, nem viu pelo olho mágico quem era, já que para Julie essa coisa de olho mágico só trazia más visitas. E de más visitas já bastava sua prima do interior. — Oi! — Sorriu alegre ao ver quem era.

Beatriz. Ela segurava a mão de Fernanda, comprimento a amiga, não muito sorridente. Na verdade, Bia estava desanimada. — O que veio fazer aqui? — Julie perguntou sem entender.

– Não posso visitar minha amiga?

– Claro que pode! — Respondeu animada e as duas se abraçaram. — Eu estava no facebook, você me livrou de uma conversa chata com a minha prima. — Julie riu. — Eu nem sei o que fazer mais... — Disse olhando em sua volta. — Tá um tédio total aqui.

– Concordo! — Bia cruzou os braços. — Vamos arrumar o seu quarto? Como nos velhos tempos? — As duas amigas sorriram juntas.

Beatriz deixou sua filha deitadinha no sofá da sala, ela assistia Rei Leão, comendo um potinho de brigadeiro que as duas fizeram para distrair a garota.

E deu certo.

Julie e Bia subiram. — Nossa, assim não tem graça arrumar o seu quarto. — Bia disse balançando negativamente a cabeça. — Está impecável! Mais arrumado que o meu!

– Você que pensa, aqueles quadros estavam doze centimetros regulado para a esquerda. Eram somente dez. Precisei ajeitar hoje. — Pausou. Agora olhando para o seu quarto. — Então vamos desarrumar? — Julie propôs, Bia a encarou confusa, sua amiga sempre foi muito rigorosa em relação à limpeza e arrumação, Beatriz estranhou aquela pergunta. Estranhou mesmo. — Assim quando eu chego do trabalho amanhã vou ter que arrumar de novo, e ai eu não fico entediada. — Foi uma boa desculpa.

Mas não para Bia.

– Hm. Tudo bem... — Ela aceitou, ainda estranhando aquilo. As duas começaram a espalhar as coisas, Bia abriu as gavetas, jogou algumas peças de roupas no chão.

Acabou encontrando a lingerie preta que deu para a Julie no dia do casamento dela. Beatriz riu. Olhou para o lado e viu que sua amiga estava distraída, bagunçando uma outra parte do quarto. A peça era bem sexy e Beatriz não resistiu. Precisou perguntar. — E ai, vocês dois aproveitaram muito isso?! — Prendeu a risada.

Mas não conseguiu segurar por muito tempo, ainda mais depois que Julie se virou para ver e seu rosto ficou vermelho como um tomate. — Bia! — Ela a repreendeu pegando a peça.

As duas se entreolharam, e acabaram caindo na risada. — Hein? Aproveitaram muito?! — Continuava rindo.

– Digamos que o Daniel aproveitou mais do que eu. — Se arrepiou ao responder e relembrar as vezes que fizeram amor.

Guardou a peça no lugar.

– Hm, safadinho.

– Bia para! — Levou a mão para o rosto, o sentiu quente. Como se estivesse a horas pegando Sol. — Fala tanta merda! — Repreendeu a amiga, mas ainda estavam rindo. — Tá bom, você não presta Beatriz. — Apontou o dedo.

– Relaxa ai amiga, vai lavar o rosto vai. Eu não pensei que você ia ficar tão vermelha.

– Você ainda me paga. — Julie resmungou. — Acho melhor eu lavar o rosto mesmo, mas a vergonha não vai passar... Sabe...

– Desculpa! — Bia gritou ao longe, mas Julie já passava pelo corredor.

Beatriz viu sua amiga entrar no banheiro e fechar a porta. Se sentou na cama. Olhando para o quarto de Julie. Tinha muitos retratos do filho dela. Tinha foto dela segurando ele. E uma outra foto no criado-mudo. Estava virada para cama e Bia pegou.

Era uma foto da frente da maternidade. Julie segurava o neném recém-nascido... Mas o que mais impressionou Beatriz foi que Daniel também estava na foto. Ela lembrou daquele momento, afinal, foi a própria quem bateu a foto.

Daniel passava seu braço por cima do ombro de Julie, a abraçando. Seus sorrisos eram grandes. Parecia ser o melhor dia de suas vidas...

Bia deixou aquele retrato no lugar, estava um pouco tocada com aquele momento. ‘’ Que demora da Julie... ‘’ — Pensou para desviar sua mente dessas lembranças. ‘’ Do jeito que ela é, deve estar escovando os dentes, penteando a sobrancelha, usando enxaguante bucal, e talvez até um creme de rosto... ‘’ — Se levantou, mexendo mais um pouco no quarto da amiga, tentava encontrar mais foto dos dois juntos. Porém, parece que aquela foto que achou no criado mudo era a única.

Algo lhe dizia para ver o que tinha de baixo da cama. E foi o que fez, Beatriz se agachou e acabou encontrando uma caixa de sapatos.

Era pesada, o que a fez estranhar. Colocou em cima da cama.

Assoprou, estava um pouco empoeirada. Tossiu um pouco mas não hesitou em abrir a caixa. Encarou aquilo boquiaberta. ‘’ Pensei que ela guardasse pedras aqui... De tão pesado que isso é... Mas... Parece que papel pesa... ‘’ — Espalhou tudo em cima da cama. Ainda não tinha a menor noção do que era até pegar um dos papeis.

– Meu Deus... — Sussurrou.

Era uma carta antiga. Escrita por ela para Daniel.

Amor,

Me desculpe se fui uma idiota. Não quero que pense que o meu sentimento por você se apagou. Jamais te trocaria por ninguém, quero você para sempre. Sem dúvidas você foi a melhor coisa que me aconteceu.

Bia não terminou de ler. Parou ao ver a quantidade de cartas que tinham ali. Algumas mais amareladas que as outras.

Ela pegou uma outra.

Reconheceu aquela letra, era do seu irmão. Não perdeu tempo em ler... A deixou ali e pegou outras e outras... A maioria das cartas eram do Daniel.

O mais impressionante eram as datas. Dezoito de setembro de 2007... E pior que as datas sempre mudavam... Nove de outubro de 2007, Um de janeiro de 2008, onze de fevereiro de 2008, doze de fevereiro de 2008.

– Nossa... — Continuava chocada. Tinha o maior cuidado em pegar as cartas, pois estavam tão velhas que qualquer coisa poderiam rasgar.

Não tinham apenas cartas. Havia flores murchas e fotos...

Muitas fotos dos dois juntos. Quase cem. E na maioria delas tinha algo escrito atrás. — Desculpe a demora Bia, passei um hidratante no meu rosto e... — Notou que Bia mexia nas suas coisas.

Se aproximou calada. Beatriz percebeu o olhar da amiga para as cartas, flores e fotos.

Havia até um livro onde a cor da capa já estava desbotando. — Desculpe. — Bia sussurrou. — Eu não sabia que eram tantas cartas e tantas coisas... Eu não ia ter espalhado se não fosse...

– Tá tudo bem. — Respondeu em um fio de voz enquanto balançava a cabeça. Se sentou na cama, com o maior cuidado para não acabar sentando em nenhuma carta ou foto. — Me ajuda a guardar? — Perguntou e Bia assentiu.

Bia pegava as fotos. — Você espalhou tudo... Estava tudo organizado. Não... Não é assim... — Pegou as fotos. — É por data. As mais recentes por último. — Beatriz aceitou, pegou as fotos novamente. Agora organizava como Julie pediu.

– E as cartas? Também organiza por datas?

– Não, as cartas eu... — Suspirou. — Junto tudo mas coloco as dele primeiro.

– Você nunca deu nenhuma dessas cartas para o Daniel?

– Dei sim. — Sorriu fracamente. — Todas elas. — Pausou. — Mas eu só dava quando... Estava perfeita. Sabe? Eu sempre refaço as cartas... Porque acho que posso mudar uma palavra e por outra para ficar mais bonita. Essas aqui são só rascunhos. — Disse pegando uma das cartas que escreveu. Riu fracamente. — O Daniel dizia que eu deveria entregar a primeira carta que eu faço, porque é algo mais natural... Ele disse que gosta dos rabiscos que eu fazia para substituir algumas palavras.

– Julie... Porque guardou isso por tanto tempo? — Bia ainda estava chocada. — Tem algumas cartas de... 2007!

– Ah, m-mas tem outras do ano passado... A gente escrevia. Bem, mais ele do que eu. — Sorriu. — Eu lembro que quando eu acordava mau humorada ele me deixava um bilhete em cima da mesa, com uma rosa. Algumas eram só frases. Mas eu sempre guardei. — Pegou um papel pequeno. — Leia.

Bia pegou.

Bom dia amor. Já estou no trabalho, não tive coragem de te acordar pois dormia tão serenamente, acho que nem sentiu o beijo na testa que te dei. Cuide bem do nosso bebê. Te amo muito.

Depois de ler aquilo e ver o brilho nos olhos de Julie. Bia perguntou. — Juh, você ainda ama o Daniel?

Com essa pergunta, Julie se lembrou do trágico acidente que estragou sua família. Abaixou a cabeça. Lembrou dos primeiros dias depois da morte do bebê. Ela estava em depressão profunda.

E Daniel tentava ajuda-lá de todo o jeito...

Juliana estava deitada na cama, era quase dez horas da manhã. Pela primeira vez naquela semana Daniel entrou no quarto. Eles já não dormiam juntos, Julie insistia que não queria que Daniel a tocasse.

– Trouxe seu café da manhã. — Daniel disse entrando no quarto, ele segurava uma bandeja de madeira, tinha pão, queijo, Nutella, suco de laranja, uma maça e uma rosa vermelha.

Ela não disse nada, apenas olhou para a bandeja com uma expressão de fome. O loiro sorriu. Colocou a bandeja em cima das coxas dela, se aproximou da cortina, abriu para que a luz do sol entrasse no quarto escuro. — Come amor. — Pediu ao se virar e ver que Julie ainda não tinha tocado na comida. — Vem, você prefere queijo ou Nutella?

– Nenhum dos dois. — Respondeu em sussurro. — Daniel, fecha essa cortina... Por favor. — Pediu, fraca.

– Julie, você precisa comer! Não vejo você se alimentando a dois dias! — Estava desesperado, já não aguentava mais aquela situação. Pegou a bandeja e colocou sobre o criado mudo, se sentou ao lado de Julie na cama e tentou beija-lá. — Você quer filhos meu amor? Eu te dou. Te dou tudo o que quiser!

Juliana tentava se soltar dos beijos e abraços do marido. — Eu só peço que melhore logo, Juh. Não aguento te ver assim, por favor, fale comigo.

– S-saí d-aqu-i. Quero ficar sozinha.

Ele parou para encara-lá. — Julie, reage! Saí disso! — Sacudiu seus ombros. — Vai, me diz. — Tocou no seu rosto, alisando sua bochecha. — O que você quer?

– Que você saia daqui...

– Julie...

– E-eu... Eu quero meu bebê de volta!

– Sch. — Ele a abraçou, tentando lhe passar carinho e consolo. — Eu também quero, mas não podemos trazer o bebê de volta... — Alisou seus cabelos. — Você não quer outro?

– E-eu n-nã-o s-sei. Eu quero ficar sozinha.

Suspirou com as lembranças, Daniel sempre foi muito bom para ela. Queria ver ela feliz de qualquer jeito... Mas ela o desprezava por conta da sua tristeza, mesmo sabendo que no fundo sentia algo forte e ardente por seu marido.

Bia tocou no seu ombro. — Juh, me responde. Ainda ama o Daniel?

Sentiu seus lábios trêmulos e uma imensa vontade de chorar.

– Depois que aconteceu aquela tragédia... — Suspirou, Bia ouvia sua amiga com atenção. — Me senti perdida. E-eu... Planejei uma vida com ele, Bia. Planejei tudo... Eu... Queria passar pra faculdade, ou conseguir um intercâmbio, tudo isso com o Daniel mas ai veio o bebê e eu não esperava. Mas a nossa família cresceu. E depois que aconteceu aquela desgraça, eu... Acho que me perdi de direção, mesmo com o Dan. Mas agora eu... Estou um pouco mais conformada com o que aconteceu com o meu filho. Só não tenho certeza se o meu sentimento pelo Daniel morreu junto com o neném.

Bia sorriu fracamente. — Então ainda ama ele.

– Acho que sim. Ou não... Porque... — Balançou a cabeça. — Se fosse amor verdadeiro nada teria dado errado. Primeiro foi no dia da formatura, uma das minhas metas que tinha se comprido... No dia choveu e minha mãe disse que isso trazia azar, e nesse mesmo dia o Daniel me pediu em casamento. — Pausou. — Eu não aceitei por causa da chuva, mas acho que mesmo assim azarou o casamento todo! O nosso filho morreu... E nos separamos!

– Julie! — Beatriz gritou. — Você acha que tudo tem que ser perfeito? Como você quer?! Acha que só porque as coisas não deram tão certo o amor não é verdadeiro? — Juliana se calou. — Então tá, o meu casamento com o Félix é perfeito! Porque o nosso amor é verdadeiro! — Encarava a amiga. — CLARO QUE NÃO! — Balançou a cabeça. — Engravidei cedo de mais, os pais dele não gostavam de mim... Não me aceitavam, eram sogros horríveis e ainda colocavam pilha no nosso relacionamento, depois que a nossa filha nasceu o pai dele faleceu, a bebê ficou anêmica, lembra? — Juliana balançou a cabeça, lembrava muito bem disso. — E a gente ainda está junto. Superamos tudo isso.

– Foi pra isso que veio aqui? Para discutir comigo? — Perguntou em um fio de voz.

– Não. — Bia suspirou. — Não estou discutindo, só estou sendo sincera... E-eu... Não sei... Vim aqui porque estava sozinha em casa.

– E onde o Félix foi?

– Daniel chamou ele pra beber. — Cruzou os braços.

– Beber? — Bia assentiu. — Pensei que o Daniel tinha parado com a bebida.

– Não muito. Acontece que depois que vocês se separaram, ele virou um cachaceiro!

– Fala sério! Ele parece a pessoa mais feliz do mundo, pelo menos é o que ele mostra quando me vê e dá aquele sorriso alegre para mim.

– Isso é porque évocê. Mas as coisas não são assim... Ele ainda está triste. É por isso que ele ainda bebe Juh, ele não superou. Não superou nada. O meu irmão ele... Gosta de mostrar que nada atinge ele. Mas só eu sei como ele está. Ele não superou nem um terço da morte do filho e da separação de vocês.

– Não mas... — Julie estava confusa. — Quando o bebê morreu ele... Ele não chorou no enterro... Nem nada disso... Acho que chorou só uma vez... E ponto. ‘’ A vida continua, isso é coisa da vida... Não podemos controlar as coisas... ‘’ Era o que ele me dizia.

– Isso é porque você estava deprimida e ele precisava ser forte.

– Bia, eu não sei. Tá... Eu admito que ele desconta algumas tristezas na bebida, isso é desde a época em que namorávamos. — Lembro que quando ele soube que tinha hemofilia descontou logo na bebida. — Mas... A nossa separação?

– Mamãe. — A filha de Bia interrompeu a conversa. — Estou com sono. — Disse coçando os olhos.

– Vem cá amor. — Bia abriu os braços, ela correu e pulou na cama.

Adormeceu quase imediatamente. — Julie, eu já vou...

– Não amiga, espera. — Pediu segurando o seu braço. — O Daniel está bebendo? Ele vai ficar bem?

– Vai, pelo menos ele está com o Félix e ele tem bom senso, não ia deixar o Daniel encher a cara. — ‘’ Mas se isso acontecer eu acabo com os dois. ‘’ — Acho... Melhor ligar para eles. A gente aproveita que o Daniel está bêbado, ele é mais sincero do que o normal quando está bêbado.

– É. — Julie concordou cruzando os braços. ‘’ Ele já até admitiu que dormiu com a Thalita...’’ — Então liga. — Pediu, um pouco insegura.

– Ok, mas schh... Ele não pode saber que você está aqui.

As duas sorriram. Bia discou o número. No sétimo toque alguém atendeu. — Alô? — Beatriz colocou no viva voz, mas não sabia se era Félix ou seu irmão. A voz estava um pouco ‘’estranha’’.

– Oi? Daniel?

– Oi!

– Tá tudo bem? — Perguntou ao ver a expressão preocupada de Julie, a voz dele estava realmente estranha.

– É... Tá t-ud-o... Muit-o bem! ÓTIMO! — Riu.

As duas se entreolharam. — Cadê o Félix?

– Tá no b-anhei-ro!

– Posso saber porque está gritando?!

– T-tem música alta aqui porra!

– Ele tá bêbado Bia... — Julie sussurrou angustiada, Bia concordou com a cabeça.

– Você bebeu quanto?!

– F-fo-i bar-ato.

– Estou perguntando sobre a quantidade! — Beatriz já estava perdendo a paciência, Julie segurou o seu ombro e ela respirou fundo, se acalmando. Reformulou a pergunta: — Você bebeu muito?

– Oi amor. — Era a voz do Félix.

Bia mordeu os dentes. — Onde você estava?! — Não acreditou muito no que Daniel disse...

– Eu fui ao banheiro, um cara aqui me jogou um copo de whisky. São uns loucos! Estão jogando copo de vidro nos outros! Até machucar alguém...

– Tá! — Ela o cortou. — Eu quero saber se o Daniel bebeu muito.

– Bebeu muito?! Ele quase acabou com as bebidas todas daqui.

– E VOCÊ DEIXOU?!

– Me deixa explicar mô. — Aquele jeito carinhoso só a deixava mais aborrecida. — Ele saiu do carro enquanto eu fui estacionar, quando eu cheguei ele já estava bebendo. — Pausou. — E eu não sou babá dele!

– Não é mas pelo menos podia ficar de olho para ele não encher a cara! PASSA O TELEFONE PRA ELE AGORA! E não deixa ele beber mais.

Félix não respondeu, apenas se ouviu a voz de Daniel. Estava um pouco rouca. — O que foi mulher?!

– Vá pra casa agora!

– Ih, vai mandar na mãe!

Beatriz cerrou o dentes e Julie riu. — Amiga. — A mesma sussurrou. — Você precisa ser calma com ele, que ele vai ser calmo com você.

– Hm, tá bom. — Tampou o celular e respondeu de volta. — Daniel, por favor, me diz, porque bebeu tanto? — Agora sua voz estava calma e carinhosa. — Eu não gosto de te ver assim...

– P-p-oxa, e-eu não sei... — Ele também parecia mais calmo. Juliana realmente sabia como agir com ele. — Voc-ê ach-a que e-eu gost-o de be-ber? N-um gos-to. M-as é tant-a coisa ac-ontecendo.

As duas se entreolharam.

– Que coisas?

– Minh-a vida está uma des-graça. Per-di meu filho, perdi tudo. E-eu só quero a m-inha vida de antes de volta. Que-ro o me-u filho d-e volta.

– Você não vai encontrar o seu filho na bebida.

– É, eu v-ou e-ncontr-ar é no caixão mesm-o, qualquer noite de-ssas eu me dou um tir-o e acabo com tudo lo-go.

– Mas como é que consegue falar tanta besteira?!

– Nu-m é! É a ve-rda-de.

– Eu não quero ouvir isso de novo! Tá entendendo?!

– …

– E a Julie? — Bia perguntou, deixando sua amiga vermelha. As duas estavam ansiosas para ouvir a resposta dele.

– A J-Juli-e? — No outro lado da linha, Daniel sorriu. — Sinto saud-ades d-ela. — Julie sorriu fracamente com isso. — M-mas cê sab-e... Já encontr-ei uma sub-stituta. Me fa-z lembr-ar a m-inha Julie e é p-or i-isso que eu to n-noivo, qu-ero casar l-ogo. P-elo menos ela me a-ma e c-com o tem-po vou aprender a amar ela, t-anto quanto eu a-mei a Juh. Q-que-m sabe até mais... Só que... Acho i-sso m-eio imp-ossíve-l.

Juliana parou de prestar a atenção na parte em que ele diz ‘’ Estou noivo ‘’.

Sentiu um peso no coração, um aperto no peito, as lágrimas estavam presas nos seus olhos e Bia logo notou. Se despediu de Daniel, não imaginava que ele seria tão sincero ao ponto de dizer que queria se casar logo com outra.

– Viu, eu disse. — Bia falou, encarando a amiga que ainda estava imóvel. — Ele não superou nada.

[...]

No dia seguinte, Juliana foi trabalhar. Chegou um pouco cedo, afinal, se sentia ansiosa, quase não dormiu essa noite por conta disso. Ela anotava um recado em uma folha. — Alô? Ainda está ai? A ligação está picotando...

Bufou e desligou o telefone ao ouvir que a ligação caiu. Apoiou sua cabeça no cotovelo, se sentia entediada... Assim como na sua casa.

‘’ Pra quê trabalhar então se continuo com os pensamentos no meu filho e no meu ex-marido? Eu preciso de um trabalho que venha realmente me distrair. Algo que eu goste... Quem gosta de ficar o dia todo sentado na frente do computador? Anotando ou imprimindo coisas? Levando café? ‘’ — Seus pensamentos se interromperam ao ouvir a porta se abrir.

Era Daniel.

Não parecia estar bem, parecia stressado. — Bom dia. — Julie sorriu fracamente.

– Huh. — Colocou uns papéis em cima da mesa da Julie.

É, ele estava mesmo mau humorado. Nem a respondeu. — Você está bem?

– Pareço bem?!

Ela apenas suspirou. Daniel não conseguia ser grosso com ela e logo mudou seu tom de voz. — Estou com dor de cabeça...

– Toma um remédio.

– Já tomei quatro.

– Quatro? Só agora de manhã?! — Se espantou. — Remédio não é assim não! Seu louco!

– Eu quero mais é morrer de overdose mesmo.

– Você está se ouvindo, Daniel?!

– …

– Porque está com dor de cabeça? Como foi sua noite ontem?

– Não lembro muito. — Fez uma careta. — Só sei que não dormi nada essa noite.

– Eu também não.

– Fiquei pensando muitas coisas. — Olhou para ela.

– Também fiquei assim. — Ela olhou para ele.

Continuaram assim por alguns segundos, hipnotizados no olhar um do outro.

Até que Daniel virou o rosto. — Huh, chega de conversa. Vai trabalhar. — Mandou. — Entregue isso para o Martim. — Lhe deu um papel. — E me traga um café sem creme, mas com muita açúcar.

Julie assentiu, se levantando.

Passava pelos corredores, andava lentamente, seu olhar estava parado enquanto viajava em pensamentos. ‘’ Que coisa divertida... Entregar papéis e levar café... Que vida perfeita! ‘’ — Realmente estava desgostosa com o trabalho hoje.

Depois de entregar o envelope para Martim, ela desceu até a copinha.

Fez o café como ele pediu e retornou.

Abriu a porta do escritório dele com apenas uma mão, e assim que entrou acabou derramando um pouco daquele café melado em cima da sua saia. Melou sua coxa e ela quase surtou. — Droga... — Virou para o lado e viu um bebedouro. — É água filtrada, vou lavar aqui tá Daniel?! — Perguntou sem se virar para ele.

Lavou cuidadosamente sua saia, precisou subir um pouco para limpar sua coxa também. Sentia seu rosto corar só de lembrar que Daniel estava ali, a observando. — Ai, a água é bem gelada... — Comentou, ainda sem o encarar. — Prefiro água mais fresca... É melhor. — Percebeu que ele não a respondia.

‘’ Agora deu para me ignorar? ‘’ — Pensou chateada.

Se virou e teve uma surpresa.

Daniel estava com a cabeça baixa. Como se estivesse chorando. Ela se aproximou devagar.

– Meu Deus... — Percebeu que ele estava de olhos fechados. — DANIEL! — Levantou o rosto do rapaz, estava com a pele mais pálida do que o normal.

E pior: Seu nariz estava sangrando.

Juliana reparou que a mesa já estava suja de sangue, manchando alguns papéis importantes. Ela deu alguns tapas fraco no rosto de Daniel, o mesmo foi acordando aos poucos. — O que aconteceu?! Me diz! — Julie não escondia seu desespero.

Daniel não conseguia falar, apenas abaixou a cabeça, fazendo seu nariz pingar e em poucos segundos se formou uma poça de sangue no chão. Juliana estava assustada, não imaginava que poderia sair tanto sangue de alguém. — Vou chamar ajuda... — Disse afobada, mas Daniel segurou seu braço. Ela logo entendeu que ele não queria que ela saísse. — Então o que eu faço?! ALGUÉM PRECISA TE SOCORRER! — Passou a mão por seus cabelos, os puxou desesperada. Sua adrenalina estava à mil. — Levanta o rosto. — Disse e Daniel levantou. Apoiando sua cabeça na parede.

O sangue ainda saia do seu nariz. Porém, eles tiveram a leve impressão que com o rosto levantado saia menos... — O que houve? — Perguntou preocupada.

– E-eu... Ad-orme-ci... N-não sei... Bati de c-ara na m-esa. — Daniel disse. Julie estava agoniada só de vê-lo ali: Tão fraco... — N-não consigo respirar direito...

– R-respira pela boca! — Tentava encontrar alguma solução.

Os dois viram que o sangue já descia pelo pescoço dele. — Ai meu Deus... — Ela puxou sua gravata. Desesperadamente, tirou seu terno e desabotoou sua blusa. O sangue já descia para o seu peito. Julie tentava não olhar para o físico perfeito dele.

Ela sentia uma onda de emoções domina-la. Era desespero, agonia e entre outras emoções... Sentia uma carga elétrica passar por todo o seu corpo.

Foi até o armário. Encontrou um pote de primeiros socorros. O abriu e espalhou os itens sobre a mesa. Só tinha remédios para dor de cabeça ou febre... A única coisa que parecia servir naquele momento era um pouco de algodão.

Julie tentou limpar o sangue que já escorria pela barriga dele. — Aqui, segura isso... Coloca no nariz. — Pediu e Daniel pegou o algodão.

Ela começou a chorar, não aguentava ver aquilo. Não sabia o que fazer... Não tinha reação.

Pegou alguns papéis em branco, limpou o sangue que escorria pelo corpo dele. Sempre atenta pois ele estava fraco. — Daniel?! — Ela o sacudiu ao ver que seus olhos estavam quase se fechando.

Ele os abriu de novo. — N-não consigo respirar. — Tirou o algodão do nariz, que agora estava completamente encharcado de sangue.

– Meu amor. — Ela segurou seu rosto. Suas mãos estavam trêmula, mas seus olhos se focaram. — Respira pela boca!

– E-eu não c-onsi-go... — Daniel abaixou a cabeça, era o único jeito de conseguir respirar melhor, porém, também perdia mais sangue assim.

Gotas grossas começavam a cair e respingar no chão. O sangue manchou o piso, e respingou um pouco nas calça dos dois.

– Isso precisa parar... — Julie beijou seus cachos.

– N-não vai...

– Eu preciso chamar ajuda Daniel, não percebe a gravidade da situação?! Isso está se tornando uma hemorragia!

– ... — Ele negou com a cabeça.

– Porque não quer ajuda?! — '' Será que ele prefere morrer mesmo? ''

– Não quero que ninguém do meu trabalho descubra. Vão achar que eu sou uma aberração...

– Ninguém vai achar isso, Dan.

– T-tem pessoas que acham. — Lembrou da Débora.

– Por favor, para com isso. — Continuou beijando seus cabelos, sentiu seus olhos se enxerem de lágrimas. Sem Daniel perceber, Julie pegou o telefone e ligou para a emergência.

[...]

Tudo estava bem depois de um dia cansativo para Daniel. Na manhã seguinte ele ficou em casa pois seu chefe tinha lhe dado folga.

Estava na mesa da cozinha quando ouviu a porta bater. Ia se levantar para atender. — Não amor, fique aí. — Disse sua mãe se levantando. Ele revirou os olhos, não gostava de ser tratado como se fosse um bebê.

Dona Marta abriu a porta. — Oi, bom dia. — Julie sorriu.

– Bom dia! — Marta deu um sorriso ainda maior. — Entre.

– Obrigada. — Pausou. — Cadê o Daniel?

– Está na cozinha.

Julie assentiu. — Posso ir até lá?

– É claro. — Pausou. — Eu estou no meu quarto, qualquer coisa é só chamar. — Disse passando por ela.

Juliana foi até a cozinha. Daniel estava sentado de costas para ela e não a viu. Ela se aproximou devagar, tocou no seus ombros e ele levantou a cabeça. Estava com um curativo no nariz, seu rosto ainda estava pálido e seus olhos um pouco caídos, mas aparentava estar bem. — Oi. — A morena sorriu.

– Oi.

Ela se sentou ao seu lado. — Está melhor?

– Acho que sim.

– O que os médicos falaram?

– Ah. Falaram que... Eu perdi um litro de sangue porque cortei uma parte do nariz. Tomei uma injeção — Esticou o braço e mostrou a marca nas suas veias. — E eu parei de sangrar. — Pausou. — E falaram para ficar de repouso e tomar alguns remédios e vitaminas porque perdi muito sangue.

– Eles não podiam te doar sangue?

– Podiam, m-mas eu não quis...

Um silêncio se formou, os dois ficaram se encarando ali, viajando em pensamentos. Com tudo o que aconteceu... Julie percebeu que aquela sensação que sentiu ao ver Daniel daquele jeito não era tão estranha e sim um... Desejo. Queria ser enfermeira. '' Assim eu cuidaria todos os dias de você... ''


Notas finais
Gostaram do capitulo? Querem logo que a Julie descubra sobre a Débora? E a Julie... ainda ama o Daniel? hmm... Comentem. ^^ '