Corações Feridos

72 Cartas para você


Notas iniciais
Oiii, ^.^

Ontem recebi uma recomendação da minha querida leitora Gabi Marchioni. Não esperava mais uma recomendação e é claro, fiquei super inspirada para escrever novas ideias. Obrigada Gabi, amei muito mesmo! *-*

- Vai doar? — Essa era a questão.

Julie queria muito, mas sentia um aperto no coração junto com um arrepio na espinha: Era o medo. Enquanto o médico esperava sua resposta, Julie pensava. Pensava direitinho. Ela queria gritar para todos os cantos que ia ajudar o Daniel para o que precisar, mas ela simplesmente não conseguia. Algo lhe prendia e isso era o medo misturado com as suas paranóias. ‘’ E se a agulha estiver infectada? E se ele descobrir que eu tenho alguma doença? E se eu estiver com anemia? Se o meu sangue não for o suficiente? E se eu pegar alguma infecção? ‘’ — Tinha muitos medos.

- Juliana? — O médico chamou.

Ela virou o rosto para Daniel ainda inconsciente, pegou sua mão fria. Se sentia em conflito.

‘’ Mas eu faria de tudo para você acordar. ‘’ — Eu aceito. Vou doar quanto sangue for necessário para ele ficar bem. — Pausou. — Ele vai ficar bem? — Sua pergunta era: Ele vai sair do coma?

Porém, o médico entendeu como ela perguntou.

- Sim, ele vai ficar bem. Bem melhor. — Sorriu. — Ele precisa de sangue, veja só como ele está pálido. — Julie concordou com a cabeça. O médico percebeu que o soro ligado na veia de Daniel estava acabando. — Vou pedir para a Lucy colocar mais soro. — Julie assentiu e o doutor saiu.

A deixando sozinha com ele.

Era o que Julie queria a muito tempo. Até mesmo quando Beatriz estava aqui. Juliana sentia uma vontade enorme de passar mais tempo com ele, sozinha. Agora estava mais feliz, doaria sangue para o Daniel, e na sua mente, pensara que isso ia resolver tudo.

Não era bem assim.

- Eu vou te doar sangue. — Ela sorriu se sentando, acariciava a mão do rapaz. — Eu estou com um pouco de medo, mas por você eu faço qualquer coisa. — Levou a mão dele ao seu rosto, fechou os olhos e por poucos segundos imaginou Daniel acordado, a acariciando. — Quando estávamos juntos, eu adorava isso. — Disse ainda alisando seu rosto com a mão dele. — Me passava proteção. — Pausou. — É incrível como… Mesmo você assim, adormecido… Eu me sinto protegida do seu lado. — Beijou sua mão e logo depois olhou para o seu rosto. Seus olhos fechados, os cabelos agora meio lisos balançando, seu rosto estava um pouco magro, Daniel já não tinha tanta bochecha, mas ainda era lindo. Uma beleza diferente, angelical e… Hipnotizante. Ela se aproximou, beijou seu rosto. Diferente das mãos, o rosto dele era mais quente, Julie tentava entender o por quê disso.

Até que fitou seus lábios. — A última pessoa que você beijou com certeza foi a Débora. — Julie comenta em sussurro, sem esconder seus ciúmes. Ela passou o polegar pelos lábios finos e extremamente frios de Daniel. Ficou brincando com eles. Apertou seus lábios, o sangue mal circulava pois quando Julie apertou, seus lábios continuaram pálidos. — Hm. — Ela levantou os lábios dele. Viu seus dentes. Riu com isso. — Uma pergunta que eu sempre quis te fazer. Porque você sempre sorri de lado? — Um silêncio pairou. — É lógico que… Você não vai me responder. — Se sentiu triste. — Sinto saudades da sua voz… — Sussurrou, mas não queria se entristecer com aquele assunto. — Eu quase nunca vi seus dentes, sério! — Ela conversava com muita naturalidade, como se Daniel estivesse acordado. — Você nunca sorri com os dentes. Sempre sorri de lado, mas... Eu adoro mesmo assim. — Continuou brincando com os lábios de Daniel, usando as pontas dos dedos. Reparou nos seus dentes de novo, na fileira de baixo, havia um dente um pouco torto. Julie riu com isso. — Você… Sente eu te tocando? — Pergunta tentando encontrar respostas.

Ela parou de brincar com seus lábios. Parou pois agora os fitava sentindo um certo desejo incontrolavel, Julie não conseguia controlar seus próprios pensamentos. — E isso? — Julie sussurra se aproximando. — Você sente?

Ela beijou seus lábios fracamente. Daniel nem se mexia, mas Julie continuou. Aprofundou um pouco aquele selinho, puxando os lábios dele com os seus. Ela o beijava de olhos bem abertos, alerta a qualquer reação de seu corpo. Sentia que estava beijando uma parede, uma parede gelada.

Era a primeira vez que Daniel não retribuia um beijo seu.

E o que mais doía em Julie era saber que ele não retribuia pois não conseguia.

Sentiu seus olhos se enxerem de lágrimas, não demorou muito para as mesmas escorrerem, marcando suas bochechas. Ela parou o beijo antes das lágrimas descerem para os lábios de ambos. As secou sentindo seu rosto corar.

O virou e viu os batimentos cardíacos.

Estavam mais altos do que a última vez. Cento e vinte por minuto

Julie se assustou um pouco, mas achou normal.

Passou a mão por seu rosto. Ficou assim por alguns segundos, seus batimentos diminuíam pouco a pouco. Estavam à cento e dezoito quando alguém abriu a porta. Julie virou seu rosto.

As duas se encararam. — O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI? — Sua ex-sogra gritou.

- V-vim… V-ver o Daniel…- Ela responde um pouco assustada com a reação da mãe dele, Julie sabia que Marta ficaria com raiva, mas não pensou que ela gritaria assim. — Fiquei sabendo ontem que ele se acidentou.

- Quero você fora daqui! — Apontou para a porta. — FORA!

- Por favor…

- Já disse, vá embora Juliana! Só fez mal à ele!

- Para! — Ela gritou pegando a mão de Daniel. O que fez o sangue de sua mãe ferver. — Nós já passamos muitos bons momentos juntos. A senhora só enxerga a fase ruim do nosso relacionamento! — Enquanto Julie falava, a mãe de Daniel foi se aproximando. Ela encarava o aparelho ligado ao filho, não acreditava no que via. — Eu sei que ele gosta quando eu estou aqui! Ele até sorri!

- O QUE É ISSO?! — Ela gritou assustada. — Cento e trinta e cinco por MINUTO?

Julie parou para olhar o aparelho. — Nossa! Precisa chamar o médico!

- Ele vai ter um ataque! — A mãe de Daniel puxou seus cabelos castanhos com força, Julie percebeu de quem ele puxou essa mania. — Não percebe?! Você está matando o meu filho! SUA ASSASSINA!

- Por favor! Se ele está assim é porque está ouvindo a gente discutir! — Julie começou a chorar. Ela soluçava, o que fazia os batimentos de Daniel acelerarem ainda mais. — Para de gritar comigo!

- Então SUMA DAQUI! — Apertou seu braço. Julie se soltou, ainda assustada com a reação dele.

Correu para a porta apenas porque não queria que Daniel se agitasse ainda mais. Julie também estava nervosa. Algumas pessoas que passavam pelo corredor a encararam, afinal, ela chorava lágrimas grossas e não conseguia parar de soluçar. Ela correu pelos corredores, queria chegar em casa o mais rápido possível.

No quarto de Daniel. Sua mãe alisava seu rosto, depois que Julie se foi ela ficou mais calma. — Sch… — Os batimentos de Daniel continuavam os mesmos, apesar de altos, Marta não se preocupava muito pois não aumentaram. — Eu estou aqui meu filho…

- … — Os lábios de Daniel se moveram. Mas nenhum som saiu. Sua mãe continuou alisando seu rosto. — Ju… Fica. — Ela parou. Jurava que ouviu Daniel resmungar algo bem baixinho, quase inaudível.

- Disse alguma coisa, meu amor? — Perguntou carinhosa. — Fala com a mamãe.

Ele demorou um pouco para responder, na verdade, um silêncio longo se espalhou pelo quarto. Durou quase dez minutos. — Ju… Fica.

- O que? — Ainda não era alto o suficiente para sua mãe ouvir. Ela precisou aproximar bem os seus ouvidos nos lábios dele para conseguir escutar pelo menos alguma palavra.

- Ju…

Marta se afastou assustada, não esperava aquilo. Ficou encarando seu filho por um bom tempo. — Será que devo chamar essa mulherzinha de novo? É isso que ele quer? — Ela passou a mão pelo rosto dele. — Você não percebe Daniel, com ela aqui você só piora… — Sussurrou. — Eu ainda não acredito que você conseguiu falar… Fico tão feliz. Quero que melhore logo, diga mais alguma coisa, por favor, está me ouvindo?

- … — Mas Daniel nem se mexeu.

Ela virou seu rosto para o aparelho, seus batimentos caridiacos estavam mais calmos. Sua mãe passou um tempinho ali, calada, apenas acariciando os cabelos e rosto de Daniel, que continuava imóvel, sua respiração estava fraca, bem fraca. Ela precisou o encarar com muita atenção para ver se ele respirava ou não. Marta se desanimou com isso, achou que Daniel estava finalmente reagindo, mas ele apenas disse muito mal uma palavrinha e depois voltou a ficar do jeito como estava antes. Em vegetação.

A porta do quarto se abriu, uma enfermeira chegou com um pouco de soro. Marta se afastou para a enfermeira trabalhar, ficou pensativa, será que deveria contar para a enfermeira que seu filho conseguiu dizer uma ou duas palavras?

‘’ É melhor não. ‘’ — Ela pensou e desistiu.

[...]

Juliana chegou em casa batendo a porta com força, sua visão estava embaçada por conta das lágrimas presas nos seus olhos, ela não conseguia tirar as palavras daquela mulher que um dia foi sua sogra. As palavras rodeavam sua mente. ‘’Assassina… Assassina!’’ — Se sentiu atordoada, precisou se apoiar na parede, perto da cozinha. Uma grande culpa ocupou todo o seu coração.

- Filha! — Heloísa exclamou ao ver Julie ali. — O que houve? — Segurou as mãos da morena ao ver as lágrimas ensopando seu rosto.

- Eu sou a culpada por tudo! — Marta conseguiu colocar isso na sua cabeça. Agora ninguém mais tirava.

As duas se abraçaram, sua mãe deixou Julie sujar todo o seu ombro, o molhando com lágrimas grossas e salgadas. — Sch… Não diz isso…- Ela queria fazer de tudo para conforta-la, mas não deu. Era muito difícil.

- O Daniel não está bem, e-eu… Sou uma assassina, se ele morrer… E-eu… — Não conseguia mais falar, abraçou sua mãe com mais força, ela estava muito emotiva com tudo isso.

- Chega, tá? — Sua mãe soltou-se do abraço, limpou as lágrimas de Julie. — Vai para o seu quarto, eu estou fazendo almoço, seu prato favorito.

- Não estou com fome…

- Ah, mas você vai comer. — Ela sorriu fracamente. — Vamos Julie, se anime filha, por favor.

Ela torceu seus lábios. Acabou aceitando. Subiu para o seu quarto que antes era o quarto dos dois, ela sabia que ficar presa dentro de casa lhe trazia mais lembranças dele. Isso a doía ainda mais. Julie se deitou na cama, observando o teto e a tinta da parede que começava a descascar. Suspirou e fechou os olhos.

Lembrou das vezes que o Daniel cuidou dela, quando estava doente, grávida, ou até mesmo depois da tragédia que destruiu a familia deles. Ele tinha toda a paciência com ela, era carinhoso, a abraçava e dizia que ficaria com ela.

– Quer que eu te leve até o quarto? — Daniel perguntou a abraçando por trás, ela apenas se soltou delicadamente dele e negou com a cabeça.

Tirou seu salto e descalça foi subindo os degraus da escada. Ela estava calada desde o acidente. Não falava muito com quase ninguém, principalmente com Daniel. Ele a seguiu, viu Juliana sentada na cama, encarando o berço desmontado. Ele se aproximou, tentando lhe passar força, para isso ele precisava agir como se nada tivesse acontecido.

Ela virou o rosto, o viu ali, mas continuou na mesma, não disse nada. Apenas soltou um suspiro demorado e deprimido. Ele se aproximou, se sentou no colchão, ao seu lado, entrelaçou seus dedos.

– Eu ainda não acredito. — Ela disse. — A ficha ainda não caiu...

Daniel beijou seus cabelos, a puxou e a fez se deitar no seu peito. — Eu ainda sinto ele... No meu colo... — Dizia.

Ele não sabia como consola-lá. Pensou no jeito mais fácil, resolveu pensar como ela. — Talvez tenha sido um sinal. Quem sabe, a gente não estava preparado para sermos pais. — Disse a abraçando, também suspirou. — E no futuro? Sabe se lá as coisas que poderiam acontecer com ele. Era uma vida, Julie. Ele ia crescer, virar adolescente... E... Já pensou se ele... Entrasse no mundo das drogas, seria pior... Não saberíamos lidar com isso.

– Porque está falando que ele poderia se drogar?

– Não sei, foi só um exemplo. Você não acredita nessas coisas de sinal?

– Acredito, mas você não. — Estranhava.

– Pode ser que eu acredite também, mas nunca te contei. — Ele piscou o olho, queria enrola-lá.

Julie ficou calada por alguns segundos. — Me deixa sozinha? Por favor. — Pediu.

Ele se levantou. — Não acha que anda... Sozinha de mais?

– É como eu me sinto.

– Não se sinta assim. — Tocou no seu rosto, levantando o mesmo e lhe dando um selinho. — Eu estou aqui, Julie. Estou aqui com você. Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, lembra?

Ela apenas sorriu fracamente, assentiu com a cabeça. — Eu te amo. — Ele disse e saiu.

Julie se deitou, retirando o vestido preto que apertava sua barriga. Ficou apenas com as peças de baixo, se cobriu com um lençol fino. Ficou deitada ali por horas, até que Daniel a chamou para jantar.

E foi assim a rotina deles, Julie se sentia cada vez mais sozinha, passava quase todo o dia calada, sentadinha no sofá, só ela e seus pensamentos. Daniel sabia que ela estava mal.

- Porque essas lembranças? — Ela acordou abrindo seus olhos e sentiu que as lágrimas já escorriam. — Ele sempre cuidou de mim… — Se sentiu ainda mais culpada. Sentia como se não cuidasse dele o suficiente.

Depois de discutir com sua sogra, Julie pensava até em desistir de doar sangue para ele. Não queria mais confusões com a mãe dele. Mas esse era o certo, ela queria ajuda-lo de todas as maneiras. — Eu deveria estar lá no hospital, não queria sair de lá enquanto você não acordasse… — Sussurrou.

Fechou os olhos, acabou lembrando de mais uma cena.

– Minha linda, minha rainha. Bom dia! — Ele puxou o rosto da morena e lhe deu um beijo demorado.

Julie sorriu recordando isso. — Porque não aproveitei seus beijos? — Lembrou do beijo que deu nele no hospital, era tão diferente… Tão vazio…

Ela se levantou, decidida. Não ia deixar que aquela mulher atrapalhasse nada. Julie pegou sua bolsa, abriu, era grande e conseguia colocar muitas coisas.

A primeira coisa que fez foi se agachar e procurar a caixa que ela sempre guardava em baixo da cama. Abriu e jogou as coisas da caixa dentro da bolsa, fechou e ajeitou tudo.

Já estava pronta.

Desceu as escadas com pressa, quase tropeçando nos próprios pés. — Mãe! — Julie a chamou, Heloísa ainda estava na cozinha quando se virou e balançou a cabeça para que ela continuasse. — Vou ao hospital!

- Mas, querida… E o almoço? — Heloísa só ouviu o barulho da porta batendo, ela acabou rindo disso.

[...]

Depois de meia hora, lá estava Julie de volta no hospital, ela passava pelos corredores apressada, torcia para chegar e encontrar o quarto de Daniel vazio, afinal, ela queria passar o tempo todo com ele, cada minuto daquele dia…

Acabou encontrando com a única pessoa que não queria encontrar.

Marta.

Ela cruzou os braços, as duas pararam no corredor. — O que ainda faz aqui?! — Perguntou ríspida.

- O hospital é público! Eu venho aqui quando eu quiser…

- Já disse que não quero você perto do meu filho e…

- Cala a boca! — Julie gritou. — Eu quero ficar com ele. E a senhora não vai me impedir, eu vou ajudar o Daniel, vou doar sangue para ele. — Pausou. — Já viu o que eu tenho aqui? — Julie abriu sua bolsa, mostrou para a mãe dele a quantidade de papéis, ela olhou sem entender o que significava aquilo. — São cartas. — Explicou. — E… A Bia me disse que a senhora rasgou as cartas que eu fiz para ele. Não acha que… Foi isso que causou a raiva do Daniel e fez ele beber e dirigir?! — A mulher estava calada. — A senhora foi a culpada. Eu sei que também tenho culpa em muitas coisas, mas… O acidente não. — Olhou para ela de cima até embaixo. — Não sou uma assassina… — E passou.

Subiu o elevador, mesmo com medo, faria de tudo para chegar mais rápido no seu quarto.

Ela abraçou sua bolsa, a colocando contra seu peito, seu coração estava acelerado. Julie fechou os olhos sentindo o elevador subir. Essa certa pressão lhe dava medo. Mas não demorou muito para passar, logo ela ouviu um ‘’bip’’ e a porta do elevador se abriu. Um casal de namorados saiu primeiro, Julie deu uma rápida olhada, tentou disfarçar e virou seu rosto.

Entrou no quarto de Daniel, respirou fundo, mesmo já acostumada com o hospital, ainda não acreditava naquele acidente, sua ficha ainda não caiu.

Se aproximou dele, deixando a bolsa em cima do banquinho onde costumava se sentar.

A primeira coisa que fez foi alisar seu rosto. — Estou de volta. — Ela disse com uma voz doce e calma. Continuou carinhando seu rosto. — Fiquei preocupada, achei que você não estava bem. — Balançou a cabeça.

O médico tinha razão. Daniel conseguia ouvir e reconhecia a voz das pessoas, mesmo inconsciente. Aquela simples conversa lhe fazia muito bem.

Seus lábios se moveram. Ele sorriu fracamente, Julie sorriu junto. Mas suspirou. — Fiquei sabendo que a sua mãe rasgou as nossas cartas, as cartas que eu fiz para você. Eu não sabia que você guardava elas. Eu também guardo as minhas. — Admitiu segurando sua mão. — Lembra que você me disse que não gostava quando eu refazia as cartas? Não gostava quando eu queria deixar elas perfeitinhas, sem nenhum erro de português… E essas coisas? — Daniel continuou na mesma, mas Julie conversava com ele como se ele a respondesse. — Então… Eu ainda tenho as primeiras cartas que fiz para você aqui. Eu guardava. E agora… — Ela soltou sua mão para abrir, era tantas cartas, flores, livros, que chegou a pesar. — Eu estou te dando as cartas. Eram para você mesmo, não faz sentido ficar comigo. — No meio de várias cartas dele, ela encontrou por fim uma sua. — Toque. — Pegou sua mão e passou a carta pelos seus dedos. Daniel sentiu o papel áspero na sua pele. Ameaçou sorrir fracamente, mas não conseguiu. — Eu vou ler para você. — Ela colocou cuidadosamente a bolsa no chão. Se sentou no banquinho e começou. — 12 de maio de 2012. — Não escondeu seu tom de voz surpreso com a data. Ela lembrava muito bem dessa data. Julie suspirou, olhou para Daniel, ainda deitado na cama, os olhos fechados e a sua respiração calma lhe deu mais forças para continuar lendo. — Quatro horas da manhã. Estou na Califórnia, escrevendo sentada dentro de uma banheira, apoiando o papel na parede, tentando não molhar. Faz tempo que não escrevo uma carta para você, esses meses andamos ocupados com várias coisas, a formatura, seu novo emprego, o nosso noivado… E agora estamos aqui, em lua-de-mel. Você nem sabe que estou escrevendo uma carta. Mas me vi na obrigação de fazer isso, sempre escrevo cartas quando me sinto feliz e especial, e é exatamente assim que estou me sentindo. É nosso primeiro dia de casados. E essa foi a nossa primeira noite juntos, foi perfeita. Eu nunca pensei que me sentiria tão amada. Eu sei que você me ama muito, mas hoje você me mostrou que me ama mais do que eu imaginava. Eu te amo muito também, e é com você que quero passar toda a minha vida… — Ela parou de ler, não conseguia mais. Secou suas lágrimas, dobrou a carta e guardou cuidadosamente dentro do envelope cor de creme. — Quando eu escrevi isso, não fazia ideia de que… Tudo isso ia acontecer. Daniel. — Ela balançou a cabeça acordando para a realidade e o vendo imóvel ali. — Eu nem fazia ideia que íamos ter um bebê. — Acabou sorrindo. — Eu tenho a leve suspeita de que engravidei na nossa primeira noite de casados, que, aliais, foi… Uma das melhores noites da minha vida. Eu tenho uma lista das minhas melhores noites. E todas elas eu passei com você. — Abaixou a cabeça, sua felicidade durava pouco, muito pouco. — Jamais pensei que passaria a tarde em um hospital, te vendo dormir mas… Torcendo para você acordar. — Pegou sua mão. — Reage logo, por favor.

E só se escutava o barulho dos aparelhos ligados à ele.

Notas finais
O que acharam? A Julie está agindo certo cuidando e conversando com ele? E a mãe do Dan, deveria ter contado para a enfermeira que ele reagiu, pelo menos um pouco?

A Julie está achando que ele vai melhorar de um dia pro outro se ela doar sangue... hmmm....