Corações
3 Narcisa
Notas iniciais
Narcisa acordou resmungando. Sua irmã amanheceu cantarolando “Flawless”, uma música que ela decididamente odiava a partir daquele dia.
– Flora, por favor... Cala a boca... – resmungou Narcisa, pondo um travesseiro em cima da cabeça.
Ela ouviu o barulho de embalagem de batom batendo no fundo de uma caixa de metal.
– Você pensa que eu esqueci de ontem? Eu fiquei sabendo, Ciça. – disse Flora com uma malícia cruel na voz.
Rapidamente Narcisa sentou-se na cama.
– Sabendo do quê? – perguntou, um leve tremor se apoderando dela.
Havia ficado livre quando chegou em casa no dia anterior. Sua mãe havia perguntando como havia sido o primeiro dia e ela simplesmente respondeu “Como todos os outros”.
– Para uma garota de qui... dezesseis anos, você até que é bem forte, hein? Pena que perdeu. – Flora deu um sorrisinho malicioso.
– Eu não sei do que você está falando. – respondeu Narcisa, decididamente gelada.
– Ah, qual é, Narcisa. Não precisa mentir para mim. – Flora fez um biquinho cínico.
– Vá direto ao assunto, não enrole.
Flora revirou os olhos e virou-se para o espelho, penteando os cabelos.
– Não se faça de burra, Narcisa. Você sabe muito bem o que foi. Você e uma menina baixinha, uma tal de Beth ou sei lá, estavam brigando antes mesmo do professor chegar. Que garota maléfica, você.
– Adivinha de quem eu puxei? – perguntou Narcisa ironicamente, levantando-se e abrindo a porta do banheiro. Precisava manter-se calma e impedir Flora de abrir a boca.
– De mim? Qual é, eu não sou tão infantil assim. – disse Flora, rindo. – O caso é que eu preciso de alguns favores. Você sabe, eu e Garrett estávamos pensando...
– Sério? Não sabia que vocês eram capazes de tanto.
– Narcisa, Narcisa, não brinque comigo. Você está comendo redondo na minha mão agora.
Narcisa suspirou, frustrada.
– Fala logo o que você quer.
Ela podia visualizar, mesmo longe, o sorriso triunfante de Florência.
– Ah, bem. Como eu dizia, eu e Garrett estávamos pensando e decidimos ter nossa, hum, primeira vez.
Narcisa abriu a boca em choque.
– Que coisa nojenta, Florência! – falou, fechando a porta do banheiro com uma batida forte.
– Não seja tão infantil! – disse Florência. Pelo jeito de sua voz, ela estava nervosa.
– Precisava ter me dito os detalhes?!
– Não importa, já foi! Preciso que você combine comigo uma tática para a mamãe não saber, e você vai me acobertar! – disse Florência, na porta do banheiro.
Narcisa abriu a porta com força. Florência quase caiu para frente, visto que estava encostada.
– Olha aqui, Florência, não me chantageie. Se você quer transar com seu namoradinho idiota, planeje isso sozinha. – falou, o sangue fervendo.
– Ah, é? Lembre-se de que quem está no comando é a garotona aqui. Agora, se você não se vestir em 15 minutos e decidir se quer ou não ficar pelo resto de sua vida de castigo, irá se atrasar.
Narcisa estava, definitivamente, numa cilada. Uma grande cilada.
...
Narcisa sentiu um olhar pairar em si, mas não quis se virar. Alice, que estava absorta falando o quanto a escola era maravilhosa, não percebeu o nervosismo da amiga.
Narcisa sabia muito bem de quem era aquele olhar. E não quis se virar por vergonha, já que não sabia o sentimento que teria se visse aquela garota de novo.
Ela passou a mão no pescoço, fechando os olhos. Alice repentinamente parou de tagarelar.
– O que está havendo com você? – perguntou.
– Hum? – perguntou Narcisa, abrindo os olhos.
– Você está estranha hoje. Calada. O que aconteceu?
Narcisa fechou os olhos outra vez, esfregando o rosto.
– Nada demais. – respondeu.
***
Elizabeth Schultz poderia ter muitos defeitos. E um deles é sempre confiar demais nas outras pessoas.
Estava morrendo de raiva de Narcisa. Por algum motivo, a garota não queria lhe encarar e falar com ela. Viu-a de frente conversando com uma garota de altura mediana e cabelos curtos e pretos.
Narcisa era muito bonita. Tinha a pele um pouco bronzeada, e lindos olhos verde-escuros. Era alta e magra. Tinha cabelos castanhos, lisos e compridos. As bochechas eram fofinhas, e sempre que ela ria as maçãs apareciam, bem pronunciadas.
Eliza suspirou involuntariamente. Arregalou os olhos quando sentiu que Narcisa olhava diretamente para ela e vinha em sua direção. Mexeu um pouco na mochila que pendia num dos ombros, tentando endireitá-la.
– Olá. – disse Narcisa com um sorriso.
Eliza sorriu.
– O que você vai fazer depois da aula? – Narcisa franziu um pouco o cenho.
Eliza tentou lembrar-se de algo. Felizmente, não tinha absolutamente nada para fazer.
– Estou livre. – respondeu.
O sorriso de Narcisa pareceu se alargar.
– Ótimo! Eu queria te chamar para irmos até aquela cafeteria de novo, o que acha?
Eliza balançou a cabeça.
– Por mim, tudo bem. – sorriu.
– Encontro você depois, ok?
– Ok.
Narcisa sorriu um pouco mais e saiu.
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