Coração de loba

3 Tudo isso por causa de um gato


Narrado por Renesmee


A casa estava em silêncio quando me deitei.

As paredes antigas faziam sons estranhos, como se conversassem entre si à meia-noite. Salém se enroscou aos meus pés, ronronando baixo. Lá fora, o vento passava pelas árvores como um sussurro longo e constante. E, mesmo exausta, demorou para o sono me alcançar.

Mas quando ele veio…

Ele trouxe algo que parecia mais real do que deveria.

Eu estava na floresta.

Descalça, com os pés sobre a terra úmida. As árvores eram altas demais, e o céu... o céu não existia. Era como se eu estivesse dentro de um segredo.

Lá na frente, entre as sombras, olhos dourados brilhavam.

Depois, surgiram lobos. Muitos lobos.

Eram enormes. Silenciosos. Majestosos.

Um deles se aproximou de mim. Os olhos castanhos e intensos. Parecia me reconhecer. E eu... também o reconhecia, mas não sabia de onde. Meu coração disparou. Não de medo. De algo mais antigo, mais profundo.

Então ele rosnou para a escuridão atrás de mim.

E, quando me virei, vi algo saindo da floresta. Uma silhueta. Branca. Fria.

Um sussurro atravessou o ar:

“Bem vinda de voltanoara casa, menina.”

Acordei com um sobressalto, ofegante.

O céu ainda estava meio pálido. Os primeiros raios da manhã atravessavam as cortinas. Meu coração batia como se ainda estivesse correndo pela floresta.

Salém miava freneticamente perto da janela, arranhando a madeira como se quisesse sair.

— Ei! Que foi agora? — murmurei, me sentando, ainda meio grogue. — Tá apertado, é isso?

Então lembrei.

A caixa de areia. Eu não tinha trazido a caixa de areia.

— Droga. Me desculpa, Salém.

Me levantei rápido e abri a janela, achando que ele apenas ia espiar o parapeito.

Mas não. O infeliz saltou.

— SALÉM!

Corri até a janela e o vi cair com elegância felina no gramado, correndo rumo à lateral da casa como se tivesse um compromisso urgente com a liberdade.

— Ah, não! Não, não, não!

Calcei qualquer chinelo que vi e saí correndo porta afora — de pijama, com o cabelo uma bagunça e o coração na garganta.

Ao passar pela sala, esbarrei em alguém.

— Aonde você vai assim, tá louca? — Leah estava com um copo de café na mão, os olhos arregalados.

— O Salém fugiu! — gritei, sem parar. — Ele pulou a janela! Eu esqueci da caixa de areia!

— Mas, Nessie, tá chovendo...

— ELE NÃO LIGA PRA ISSO!

Abri a porta da frente com força e saí correndo pela entrada de cascalho, ouvindo ao longe o som do mato sendo amassado pelas patas apressadas do meu gato.

Meus pés molhavam no chão frio, minha respiração saía em nuvens, e o coração... batia como se algo mais do que o Salém me esperasse ali fora.

Algo que já havia me visitado nos sonhos.


— Salém! Volta aqui! — minha voz ecoava entre as árvores, abafada pela neblina da manhã.

A floresta parecia crescer ao meu redor, cada passo afundava em folhas molhadas e galhos quebradiços. O ar era úmido, frio, e cheirava a terra viva. Mas eu continuei caminhando, guiada apenas pelos miados espaçados do meu gato fujão.

— Salém, por favor… se você morrer de hipotermia, eu juro que vou invocar seu espírito só pra te dar bronca — murmurei, cruzando os braços contra o frio, os pés gelados no chão úmido, o pijama colando nas pernas.

O céu já começava a clarear de verdade, mas a floresta ainda era toda sombra.

Miado.

Mais um.

Dessa vez, mais perto.

Segui o som com o coração acelerado, tropeçando em raízes, empurrando arbustos. Meu cabelo já estava desgrenhado, e eu com certeza parecia uma versão molhada de alguma fada perdida.

— Salém!

Então o vi.

Encolhido perto de uma pedra coberta de musgo, limpando as patas com indiferença, como se não tivesse acabado de me causar um ataque cardíaco.

— Você está de brincadeira comigo — sussurrei, ajoelhando e puxando-o com cuidado. — Você me fez atravessar metade da floresta! O que deu em você?

Ele ronronou como se dissesse "Missão cumprida."

Segurei o corpo quentinho dele contra o peito e levantei devagar, sentindo o alívio dar lugar a uma nova sensação.

Silêncio. Total.

E foi aí que percebi…

Eu não fazia ideia de onde estava.

Me virei. Uma trilha indistinta atrás de mim. Árvores por todos os lados. Nenhuma casa. Nenhuma estrada. Nenhuma referência.

— Droga…

Dei alguns passos, tentando reconhecer o caminho de volta. Mas tudo era igual. Verde. Molhado. Profundo.

— Ok, Nessie… você só se perdeu numa floresta desconhecida, em outra cidade, no meio da manhã, com um gato no colo. Tranquilo. Super normal.

Salém olhou pra mim com aqueles olhos amarelos julgadores.

— Isso é culpa sua. Você é o gato selvagem, por que eu tenho que saber o caminho de volta?

Respirei fundo. Pela primeira vez desde que cheguei, senti medo de verdade. Não de algo específico… mas daquela sensação de estar sendo observada. A floresta parecia viva. Atenta. Como se soubesse que eu estava ali.

Foi então que ouvi. Um estalo. Um galho. Um movimento.

Meus olhos se arregalaram.

E meu coração deu um salto.


Narrado por Jacob Black


O telefone chamava pela terceira vez, e ela não atendia.

De novo.

Suspirei, pressionando o celular contra o ouvido enquanto caminhava pela sala com passos impacientes.

— Vamos, Bells… atende. Só dessa vez — murmurei.

Nada. Só a maldita caixa postal.

— Oi, aqui é a Bella. Deixe sua mensagem e...

Desliguei antes que terminasse. Aquela gravação me deixava mais irritado do que eu gostaria de admitir.

Joguei o celular no sofá e passei a mão pelos cabelos, tentando conter o turbilhão de pensamentos. A verdade era simples: Bella estava se afastando. E eu não fazia ideia do que estava acontecendo com ela desde que os Cullen sumiram da cidade como se nunca tivessem existido.

— Ela ainda não atende? — ouvi a voz de Billy vindo da cozinha.

— Não — respondi, irritado. — Já tentei três vezes hoje. Ela está me evitando.

Meu pai manobrou a cadeira de rodas até a sala e me lançou um olhar mais calmo do que eu merecia.

— Charlie passou aqui ontem — disse. — Disse que ela não anda bem. Que se tranca no quarto, mal come.

— Eu sei. E isso só piora minha vontade de ir até lá — resmunguei, sentando no sofá.

— Você precisa ter paciência, Jake.

— Paciência? Eu só quero saber se ela tá viva. Que não vai pular de um penhasco, sei lá. Desde que aqueles... — hesitei, não querendo mencionar os Cullen — desde que eles foram embora, ela parece... vazia.

Billy não respondeu. Apenas me olhou com aquele silêncio maduro e desgastado que me irritava mais do que qualquer bronca.

O telefone da casa tocou.

Dei um pulo, esperando por um segundo que fosse ela.

Mas Billy foi mais rápido. Atendeu antes que eu pudesse me levantar.

— Alô?… Harry?… Sim… — sua voz baixou, e ele virou de costas para mim. — Agora?... Mas sozinha?… Ela conhece a área?... Entendi… Vamos sim. Eu aviso ele.

Ele desligou devagar e ficou parado por alguns segundos, a mão ainda no telefone.

— Que foi? — perguntei, desconfiado.

Billy virou-se com o cenho franzido.

— A sobrinha do Harry. Nova na cidade. Parece que se perdeu na floresta hoje cedo procurando um gato.

— Um gato? — repeti, sem esconder o desânimo.

— Ela saiu sem avisar e sumiu. Harry ligou pedindo ajuda pra procurar. Ele já tá reunindo o pessoal.

Revirei os olhos e caí no sofá.

— E o que isso tem a ver comigo?

Billy me lançou aquela cara.

— Jacob...

— Eu nem conheço essa garota. Além disso, floresta molhada, lama até o joelho... — falei, cruzando os braços. — Isso é coisa de escoteiro, não de mecânico.

Ele arqueou uma sobrancelha. E pronto. A expressão “decepcionado mas não surpreso”. A pior.

Suspirei.

Longo.

Exausto.

— Tá bom — murmurei, me levantando. — Eu tô indo.

Peguei a jaqueta pendurada na cadeira e bati a porta ao sair, resmungando baixo:

— Isso tudo por causa de um gato...


Cheguei na entrada da trilha principal já irritado com tudo: o clima, o chão encharcado, o motivo pelo qual eu tava ali. Mas principalmente, com o grupo de recepção.

Harry estava lá, claro, com a cara tensa de quem não dormiu. Ele segurava um mapa dobrado e falava com alguém que eu esperava muito que não estivesse envolvido.

Mas estava.

Sam Uley.

E junto com ele, como praga que não anda sozinha, Jared e Paul.

Suspirei fundo, engoli a raiva e fui até Harry.

— Ei — falei, enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta. — Falaram que sua sobrinha resolveu brincar de esconder com um gato?

Harry me olhou com alívio visível.

— Obrigado por vir, Jacob. De verdade. Ela sumiu logo cedo, e ninguém viu pra que lado foi. A floresta é densa nessa área.

— A gente vai achá-la. — Falei com convicção, mas por dentro queria saber por que uma garota recém-chegada já tava se metendo onde não devia.

Foi aí que Sam virou o rosto e nossos olhares se cruzaram.

Aquele olhar vazio, arrogante, como se ele soubesse de algo que o resto do mundo não sabia. Como se ele fosse melhor do que a gente. Como se fosse dono da floresta.

— Estamos dividindo os grupos — disse ele, com aquela voz grave e controlada demais. — Paul, Jared e eu vamos cobrir o lado leste. Você pode ir com…

— Eu não vou com você — cortei antes mesmo dele terminar a frase.

Harry franziu o cenho. Sam manteve a expressão impassível. Paul já ia retrucar, mas eu levantei a mão.

— Não tô aqui pra brigar, mas também não vou andar pelo mato com vocês três me encarando como se eu fosse um fardo. Eu vou com os meus.

Nesse momento, Quil e Embry chegaram, ofegantes, carregando lanternas e mochilas.

— Prontos pra perder uma bota na lama — disse Embry, ajeitando o capuz.

— Já tô arrependido só por sair da cama — completou Quil, mas sorriu ao me ver. — E aí, Jake.

— Vambora — falei, virando as costas pra Sam e pegando uma das lanternas da mochila.

Harry colocou a mão no meu ombro antes de eu me afastar.

— Obrigado, Jacob. Ela… é só uma menina. E tá sozinha.

— A gente vai achar ela. Pode apostar.

A floresta era ainda mais úmida do que eu lembrava. As folhas rangiam sob nossos pés, e o cheiro de terra molhada era tão forte que parecia grudar na pele.

Eu ia na frente, com os olhos atentos e os sentidos em alerta — o que era estranho, porque nunca fui do tipo caçador ou rastreador. Mas algo dentro de mim… sei lá. Um pressentimento estranho. Como se eu soubesse que ela estava perto.

— Então, essa sobrinha do Harry — disse Quil, quebrando o silêncio. — Ela é tipo… criança? Adolescente?

— Dezesseis, acho — respondi, chutando uma raiz no caminho. — Chegou faz pouco tempo. Veio morar com eles depois que a mãe morreu.

— Pesado. — Embry murmurou.

— E o gato? — Quil riu. — Esse gato deve ser tipo o espírito do caos, mano. Vai que ele é um demônio que atrai confusão.

— Não duvido — falei. — Se eu encontrar esse gato antes da menina, eu juro que jogo ele dentro da mochila.

Seguimos mais alguns metros floresta adentro. O som dos nossos passos era abafado pelas folhas e galhos. A bruma parecia se fechar ao redor, e eu tive a estranha sensação de que estávamos sendo observados.

De novo aquele arrepio.

De novo aquela ideia idiota de que alguma coisa maior nos rondava.

Mas balancei a cabeça e segui em frente. Lobos gigantes e vampiros brilhantes eram lendas. Histórias contadas pra assustar criança.

A única coisa real ali era uma garota perdida com um gato e três idiotas tentando salvá-la.