Coração de loba
10 Quando o Passado Bate à porta
Narrado por Renesmee
Cheguei em casa com o cabelo ainda carregando o perfume da noite anterior, e o coração leve, flutuando num céu sem nuvens.
A luz da manhã já atravessava as janelas da casa dos Clearwater, e a cozinha exalava o cheiro familiar de café fresco e pão assando.
Tio Harry estava sentado à mesa com o jornal dobrado ao lado.
— A festa na praia foi boa? — ele perguntou, com um tom desconfiado mas gentil.
Assenti, tentando manter o rosto neutro.
— Foi ótima. Emily preparou tudo com muito carinho.
Ele me lançou aquele olhar que dizia “sei mais do que você pensa”, mas não disse nada. Apenas voltou ao seu café, e eu segui para o quarto.
Ao entrar, Salém me recebeu com um miado arrastado, subindo na cama como se fosse o dono da casa. Sorri e o peguei no colo, afundando o rosto no pelo preto.
— Bom dia, fujão.
Sentei na cama, com Salém ronronando nos meus braços.
Foi então que a vi.
A caixa.
A que o tio Harry me entregou na noite passada.
O último presente da minha mãe.
Engoli seco e estendi a mão com certo receio. A madeira parecia mais pesada do que no dia anterior, como se já soubesse o que guardava.
Abri.
Dentro, um emaranhado de lembranças.
Fotos.
Mamãe ainda adolescente, com cabelos soltos na praia de La Push.
Sorrindo ao lado de uma mulher que parecia muito com a tia Sue.
Em outra, vestida com um uniforme de enfermagem, segurando um buquê de flores do campo.
Meu coração apertou.
Toquei as fotos com os dedos trêmulos, como se quisesse sentir a textura da saudade que agora queimava no peito.
Foi então que o vi.
Um envelope branco.
Com minha letra preferida.
A dela.
"Para minha doce Renesmee"
Meu coração acelerou.
Meus olhos marejaram.
E minhas mãos… obedeceram.
Abri com cuidado.
Dentro havia uma carta, escrita com caneta azul e traços firmes, mas cheios de emoção.
Minha doce Renesmee,
Se você está lendo esta carta, é porque eu já não estou mais aí para te dizer essas palavras olhando nos seus olhos.
Dói só de imaginar.
Mas eu precisava garantir que você soubesse toda a verdade.
Porque você merece isso.
Há muitos anos, quando ainda era muito jovem, me apaixonei por um homem proibido.
Alguém que não podia — ou não devia — fazer parte da minha vida.
Mas o destino, ah, o destino não se importa com regras.
Nosso amor foi breve, escondido, mas intenso o suficiente para deixar uma marca eterna.
Essa marca… é você.
A melhor, mais doce, mais linda consequência do meu erro — ou melhor, da minha ousadia.
Nunca me arrependi, Renesmee.
Nunca.
Mas tive que te proteger.
O nome dele é Charlie Swan.
Sim, aquele que você conhece como chefe de polícia.
Aquele que talvez já tenha visto por aí.
Ele é seu pai.
Eu nunca contei a ele.
Não porque ele fosse ruim… mas porque tinha outra vida. E eu… eu tinha você.
Eu não sabia como conciliar as duas coisas.
Te amei por nós dois, filha.
E espero que um dia, quando você descobrir, consiga entender.
Com todo o meu amor,
Para sempre sua,
Mamãe.
As palavras dançaram diante dos meus olhos.
Primeiro em silêncio.
Depois… em lágrimas.
O mundo parecia ter ficado sem som.
Sem chão.
Sem tempo.
Charlie Swan.
O homem que jantara comigo.
Que me olhou estranho.
Que tremeu quando ouviu o nome da minha mãe.
Ele é meu pai.
Chorei.
Chorei como uma criança que acaba de perceber que sua vida é uma página rasgada e colada de volta com fita adesiva.
Salém se enroscou em mim, tentando consolar com seus ronronares baixos.
E eu, ali no chão do quarto, com a carta tremendo entre os dedos, soube que nada nunca mais seria como antes.
A carta ainda tremia em meus dedos.
Ou talvez fossem minhas mãos.
Meu corpo.
Meu mundo.
Tudo parecia instável, frágil — como se qualquer movimento brusco pudesse fazer tudo desmoronar de vez.
Deitei a carta ao meu lado, sobre a cama, e respirei fundo.
Mas o ar parecia pesar.
Como se a simples tarefa de respirar fosse demais para uma manhã.
Minha mãe.
Minha forte, teimosa, amorosa mãe…
Havia escrito tudo aquilo com calma, com cuidado.
Pensando em mim.
No dia em que ela não estivesse mais aqui.
Me encolhi na cama, apertando o travesseiro contra o peito, tentando conter as lágrimas que ainda insistiam em cair.
Ela sabia.
De algum jeito, sabia que o tempo era limitado.
E mesmo assim, me deixou preparada.
Me sentei devagar, e meus olhos caíram de volta na caixa.
Havia mais um envelope.
Grande, branco, fechado com cuidado.
Abri com dedos cuidadosos, como se temesse que as palavras explodissem de dentro dele. E talvez explodissem mesmo… mas de outra forma.
Dentro, encontrei uma pasta com documentos.
Certidões, declarações… e entre eles, algo me fez arregalar os olhos:
Uma emancipação em meu nome.
Com firma reconhecida, data de meses atrás.
Minha mãe já havia deixado tudo pronto.
E mais.
Um extrato de conta bancária.
Em meu nome.
Meus olhos percorreram os números com lentidão.
Era muito dinheiro.
O suficiente para começar uma nova vida.
Um novo lugar.
Estudar. Trabalhar.
Ser livre.
Meus dedos tremiam ao tocar a folha.
Ela pensou em tudo.
Mesmo com medo.
Mesmo sozinha.
E, então, o vi.
O envelope azul.
De um azul claro e desbotado, quase como o céu de manhã cedo.
Com uma caligrafia suave na frente:
"Para Charlie Swan."
O nome agora parecia pesar toneladas.
Meu pai.
Minha mãe queria que eu entregasse isso a ele.
Que eu contasse.
Ela confiava em mim para fazer isso.
Para completar essa história.
Apertei o envelope entre as mãos e respirei fundo.
Enxuguei as lágrimas com as costas da mão.
— Você era mais forte do que eu imaginava, mãe… — sussurrei. — E agora é a minha vez de ser forte também.
Salém pulou no colo como se soubesse que o momento era importante.
Passei a mão por seu pelo e fechei a caixa com cuidado, deixando os documentos guardados.
Mas o envelope azul…
Esse ficou comigo.
Abracei-o contra o peito e olhei pela janela aberta.
O mundo lá fora seguia igual.
Mas dentro de mim…
Tudo tinha mudado.
Narrado por Jacob Black
Seis meses.
Era estranho pensar que tudo havia mudado nesse espaço de tempo.
Seis meses desde que os Cullen desapareceram de Forks.
Seis meses desde que Bella… se perdeu.
No começo, eu ligava, mas por orgulho ou por instinto de proteção, também deixei de tentar.
E nesse intervalo, a vida continuou.
Eu continuei.
Me mudei da casa do meu pai quando Rachel voltou com ideias de redecorar tudo e transformar meu quarto em um “espaço zen”.
Billy nem tentou impedir. Ele sabia que eu precisava de um canto só meu.
Foi aí que construí minha própria casa, com a ajuda de Quil, Embry e umas pranchas mal cortadas.
Foi bagunçado, foi mal feito em alguns pontos — mas era meu lar.
E foi lá que ela passou a estar comigo.
Renesmee.
Nos últimos meses, ela foi mais do que companhia.
Foi riso, foi calor, foi paz.
Nossos fins de tarde na praia.
Nossos domingos preguiçosos.
Nossas conversas longas sobre o nada e o tudo.
Com ela, tudo era mais leve.
Mesmo com a sombra de dor que ela ainda carregava, mesmo com a ausência da mãe pesando em seu peito, ela me fazia querer ser melhor.
Era um sentimento diferente.
Não era só atração.
Era um laço crescendo devagar.
E por isso, quando a batida na porta ecoou naquela tarde fria e úmida… eu soube que algo estava prestes a mudar de novo.
Abri.
E lá estava ela.
Bella Swan.
Encharcada pela garoa fina, os cabelos colados ao rosto, os olhos fundos, como se tivessem chorado por semanas sem parar.
Fiquei imóvel por um instante.
— Bella?
Ela assentiu, trêmula.
— Oi, Jake.
Era a primeira vez que ouvia sua voz em seis meses.
E mesmo assim… ela ainda mexia comigo. De um jeito que eu não sabia se era amor, saudade ou só uma cicatriz mal curada.
— Achei que você… — hesitei — não quisesse mais falar comigo.
— Eu precisei de um tempo. Muita coisa aconteceu.
— Ela respirou fundo. — Mas… eu senti sua falta, Jake.
Essas palavras caíram sobre mim com o peso de um passado que eu já não sabia se queria reviver.
Por um segundo, me lembrei do som da risada de Renesmee naquela manhã, da forma como ela me olhou ontem à noite, depois que a beijei e prometi que a amaria de verdade.
E ali estava Bella.
A garota que eu esperei por tanto tempo.
Agora, perdida. Frágil. Arrependida?
— Entra — falei, abrindo espaço.
Mas enquanto ela cruzava a porta, algo dentro de mim sussurrou com força:
E se o que você estava esperando esse tempo todo…
Já não for o que você quer agora?
Bella entrou devagar, como se a casa fosse um lugar sagrado que ela não tivesse certeza se podia profanar. O silêncio entre nós foi mais alto do que qualquer pergunta não feita. Ela se sentou no sofá, ainda com a blusa úmida e os olhos perdidos em algum lugar entre arrependimento e confusão.
— Então… — comecei, puxando uma cadeira e sentando de frente pra ela. — Você tá bem?
Ela soltou uma risada seca, sem humor.
— Você acha que eu estaria aqui se estivesse?
Inclinei a cabeça, tentando decifrar onde terminava o drama e começava a verdade.
— Ele e sua família — ela murmurou. — Foram embora. Sem explicações. Desapareceram. E me deixaram pra trás.
Senti um nó se formar no estômago.
Era estranho, mas eu nunca tinha confiado totalmente naquela família. Sempre teve algo… esquisito neles. Mas ver Bella naquele estado fazia com que qualquer julgamento parecesse cru.
— Me desculpa, Bella.
Ela me olhou pela primeira vez, com um brilho nos olhos que eu não via há muito tempo.
— Eu pensei em você. Todos esses meses. Mas eu me afastei… porque doía.
— E agora?
— Agora dói menos.
Fiquei quieto.
Ela ainda mexia comigo. Claro que mexia.
Bella sempre foi como fogo em dia de tempestade: imprevisível, impossível de esquecer.
— Vem — falei, me levantando. — Vamos andar um pouco. A praia tá vazia a essa hora.
Ela hesitou, mas depois assentiu.
A areia fria sob nossos pés descalços, o som do mar quebrando contra as pedras, o céu tingido de tons lilases...
Por um tempo, caminhamos sem dizer nada. Só ouvindo o vento.
— Você mudou — ela disse.
— A vida muda a gente — respondi.
— Tem alguém?
A pergunta veio do nada, como uma pedra jogada num lago calmo.
Meu coração acelerou, mas a resposta não foi automática.
— Tem… alguém que tem me feito bem.
Ela não respondeu.
Ficamos ali, lado a lado, vendo o mar engolir a luz do dia.
Quando voltamos, a silhueta de alguém parada diante da minha casa me fez parar imediatamente.
Renesmee.
Ela estava ali, de braços cruzados, cabelos soltos voando com o vento, os olhos fixos em mim… ou melhor, em nós dois.
Senti o peso da situação me cair nos ombros com brutalidade.
— Nessie… — murmurei, mas minha voz se perdeu no ar.
Ela não disse nada. Apenas nos observou, imóvel.
Bella olhou para mim, desconcertada.
— Aquela é…
— Renesmee. — completei, sentindo o coração apertar. — Minha namorada.
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