Coração de loba
5 Primeiras impressões
Narrado por Renesmee
Acordei envolta por um cobertor leve e com a cabeça levemente zonza, como se tivesse dormido por dias.
O teto era de madeira escura, as paredes tinham tons suaves de verde, e havia uma prateleira com livros do outro lado do quarto. Demorei alguns segundos para entender onde eu estava.
A casa dos Clearwater.
O quarto da Leah.
O gato mais dramático do mundo...
— Salém — sussurrei, me sentando devagar.
Ele estava ao lado da cama, devorando as últimas crocantes de sua ração. Ao lado dele, uma nova caixa de areia, discretamente posicionada no canto. Suspirei, aliviada.
— Então eles cuidaram de você também… Você se safou bonito, viu?
Ele me lançou um olhar indiferente e voltou a comer.
Me levantei e fui até a janela. O céu do lado de fora já estava escuro, com nuvens espessas escondendo as estrelas. Havia luzes acesas na casa e vozes abafadas vindas da cozinha.
Abri a porta com cuidado e segui pelo corredor.
Na sala, encontrei Sue, sentada à mesa com uma xícara nas mãos. Ela sorriu quando me viu.
— Ah, que bom que acordou, querida. Dormiu bastante.
— Que horas são?
— Um pouco depois das sete. Você desmaiou no colo do Jacob antes de saírem da floresta.
Corei de leve, envergonhada.
— Me desculpa… por tudo. Pela preocupação. Pelo susto. Por sair daquele jeito. Eu só…
— Ei — ela se levantou e veio até mim. — Não precisa se desculpar. Você está vivendo algo muito difícil. Mudança, perda, uma cidade nova, pessoas estranhas… gatos fujões.
Soltei uma risadinha curta, ainda tentando manter a compostura.
— Eu devia ter sido mais responsável.
— Você é só uma garota tentando encontrar seu lugar. E hoje, você assustou todos nós, sim. Mas também nos mostrou que tem coragem. Harry está aliviado, Leah... bom, Leah demonstrou preocupação do jeito dela, e o Seth queria dormir no chão do seu quarto com uma lanterna caso você tivesse um pesadelo.
— Sério?
— Ele ficou plantado na porta até eu convencê-lo de que você precisava descansar.
Sorri, com o coração mais leve.
— Fiz sopa — Sue disse, apontando para o fogão. — Ainda tá quente. Quer um pouco?
— Quero sim. Tô morrendo de fome.
Jantamos juntas à mesa. Eu comi como se não visse comida há dias, enquanto ela falava com a calma de quem sabe escutar.
Ela não forçou nenhuma conversa profunda, nem mencionou minha mãe ou as razões pelas quais eu estava ali. Só me falou da escola, da lanchonete local e de como Leah implicava com o café forte do Harry.
Foi bom. Simples. Quente. Humano.
Depois de ajudar a colocar a tigela na pia, me despedi com um beijo na bochecha dela.
— Obrigada por tudo, Sue.
— O que precisar, Nessie... qualquer coisa, estou aqui. Essa casa é sua agora.
Assenti e voltei para o quarto, sentindo os olhos começarem a pesar novamente. Mas antes de me deitar, ajoelhei ao lado da cama e abri minha mochila.
Ali, entre roupas amassadas e o estojo de lápis de cor que eu nunca mais usei, estava ela.
Minha mãe.
A foto já estava um pouco dobrada nos cantos. Era antiga, tirada em alguma praia de Seattle. Ela sorria, os cabelos ao vento, com os braços em volta de mim. Eu devia ter uns seis anos.
Toquei o papel com delicadeza e me sentei na cama, a imagem contra o peito.
— Eu sinto tanto a sua falta, mãe — sussurrei, a voz embargada.
As lágrimas vieram silenciosas.
E pela primeira vez desde o acidente, me permiti chorar de verdade.
Sem me esconder. Sem fingir que estava bem.
Apenas eu, o silêncio e a ausência dela.
Salém subiu na cama, se enroscando ao meu lado.
E assim, abraçada à foto da minha mãe e ao gato que quase me matou de susto, eu adormeci outra vez.
Já fazia uma semana desde que eu tinha acordado naquela cama emprestada, com Salém comendo ao meu lado e o cheiro de sopa pairando no ar.
Uma semana em La Push.
Ainda não me sentia parte de nada. Andava pela casa em silêncio, tentava ser educada, não ocupar muito espaço. Sue era gentil, Leah mantinha uma curiosidade disfarçada e Seth falava como se fôssemos amigos de infância. Mas o que mais me perturbava era a ausência de uma coisa que não saía da minha cabeça.
Jacob.
Desde o dia da floresta, eu não o via.
E não sabia como reagiria quando visse.
A escola da reserva era pequena e barulhenta. Paredes bege, armários amassados e um cheiro estranho de tinta velha e batata frita pairando no ar.
— Prédio principal é pra Ensino Médio — explicou Seth, animado, enquanto caminhávamos pelo corredor. — A maioria das salas é mista, então você provavelmente vai cair com alunos do segundo e terceiro ano. E, ah... tenta ignorar o cheiro de cachorro molhado. É o Josh. Ele sempre aparece depois da educação física.
Sorri, nervosa.
Meus dedos apertavam as alças da mochila, como se isso pudesse me proteger da avalanche de olhos curiosos ao redor. Eu sabia como era ser "a nova", mas ali, no meio de uma comunidade tão fechada, era pior. Cada olhar parecia carregar um "quem é ela?", "de onde veio?", "por que agora?".
A professora me apresentou rapidamente na frente da sala de aula.
— Esta é Renesmee Clearwater. Nova aluna. Vai cursar o segundo ano com vocês.
Alguns acenaram. Outros sussurraram.
E foi quando vi ele.
Jacob Black.
Sentado na terceira fileira, largado na cadeira com os braços cruzados e o cabelo amarrado. Usava uma camiseta escura com as mangas enroladas, e uma pulseira de couro no pulso esquerdo. Os olhos estavam meio sonolentos… até me encontrar.
Ele ergueu uma sobrancelha, surpreso.
Dei um leve aceno. Ele retribuiu com um quase-sorriso.
— Pode sentar ali, Renesmee — disse a professora, apontando para a carteira vaga… logo ao lado dele.
Ótimo.
Meus passos até a cadeira pareceram mais longos do que deveriam. Sentei em silêncio, mantendo os olhos no caderno. Fingi desenhar qualquer coisa só pra não encarar os olhares ao redor — especialmente os das meninas atrás de mim, que falavam baixo e riam quando Jacob esticava os braços ou mexia no cabelo.
Ele fazia sucesso. Muito sucesso.
E aquilo me incomodava mais do que eu queria admitir.
Durante a aula, percebi que o conteúdo era básico demais.
Fácil. Raso. A matéria de biologia era algo que eu já tinha estudado no primeiro ano. Fiz todas as atividades antes dos outros terminarem de copiar a pergunta. A professora me olhou surpresa, e eu apenas dei um sorriso tímido.
O sinal tocou para o intervalo. As pessoas se levantaram, mas eu continuei sentada, guardando as coisas devagar. Jacob também não se mexeu. E por um segundo, houve silêncio entre nós.
— Ei — disse ele, quebrando o gelo. — Você está bem?
Levantei os olhos e assenti.
— Sim. Obrigada... por aquele dia na floresta.
Ele deu um sorriso breve, meio envergonhado.
— Ah, aquilo? Foi só mais uma terça-feira comum pra mim. Garotas perdidas, gatos fugitivos, gritos na mata... acontece o tempo todo.
Ri.
— Então, o que acha da escola? — ele perguntou, se levantando.
— Pequena. O conteúdo é fácil... — hesitei, depois acrescentei — …mas acho que vou me adaptar.
Ele pegou a mochila e acenou com a cabeça.
— Vem, vou te mostrar os lugares onde a galera se esconde durante as aulas chatas.
— Você não vai me jogar no meio da floresta de novo, vai?
— Não. Só se o gato fugir de novo.
Seguimos juntos pelo corredor, e percebi os olhares. As meninas cochichavam. Uma delas até revirou os olhos.
Mas Jacob não pareceu notar.
Ou talvez só não ligasse.
— E aí, Renesmee? — ele perguntou enquanto empurrava uma porta que dava para uma varanda escondida nos fundos. — Pronta pra sobreviver à selva da escola?
— Depois da floresta, acho que aguento qualquer coisa.
E, naquele instante, sob o céu cinzento de La Push, percebi que talvez… eu não estivesse tão sozinha quanto pensava.
O céu estava pintado em tons de âmbar e lilás quando o sinal da última aula tocou. Os alunos saíram em ondas pelo corredor, rindo, empurrando-se, combinando festas e encontros.
Eu estava organizando meus cadernos na mochila quando ouvi a voz grave e familiar atrás de mim.
— Ei, Clearwater. — Jacob sorriu, encostado na parede ao lado da porta. — Faz alguma coisa hoje à noite?
— Hmm... além de conversar com meu gato e revisar a aula entediante de química? — brinquei, arqueando a sobrancelha.
— Ótimo, então você tá livre.
— Livre pra quê?
— Me encontrar na praia. Umas nove? É mais tranquila à noite... e, bom, bonita também. Às vezes acendemos uma fogueira. Só um lugar legal pra pensar... e fugir das vozes altas da casa.
— Parece bom — respondi, sem hesitar. — Eu topo.
— Legal. Eu passo por lá pra te pegar. — Ele sorriu mais uma vez, e saiu pelo corredor com a calma de quem pertencia a cada canto daquele lugar.
No caminho de volta, já imaginava como seria a noite. A praia. A brisa. A areia fria. A escuridão em volta.
Jacob Black ao meu lado.
Sorri sozinha.
Foi quando vi Leah no meio da rua, com duas sacolas grandes de papel nas mãos. Ela tentava equilibrá-las enquanto a sacola da direita ameaçava rasgar a qualquer momento.
— Ei! Deixa eu te ajudar com isso.
Ela me olhou surpresa, depois soltou um resmungo disfarçado de sorriso.
— Valeu, Nessie. A Sue não entende que não sou um carro com pernas.
Peguei uma das sacolas e caminhamos lado a lado pela calçada de terra batida, o sol já mergulhando atrás das árvores.
— Tava na escola?
— Tava. Sobrevivi. Por enquanto.
Leah riu baixo.
— Isso é mais do que muita gente consegue dizer no primeiro dia por aqui.
Estávamos quase virando a esquina da rua de casa quando três silhuetas surgiram no caminho.
Três homens.
O primeiro — alto, moreno, imponente, com olhos firmes e presença marcante — deu um passo à frente e sorriu.
— Você deve ser a sobrinha do Harry.
Parei, apertando um pouco mais a sacola contra o peito.
— Sou, sim.
— Sou Sam Uley. Esse aqui é o Paul Lahote, e aquele é o Jared.
Os dois rapazes atrás dele sorriram também, mas com um brilho curioso demais no olhar. Algo desconfortável. Como se analisassem cada detalhe meu.
— Prazer — respondi, mantendo a voz neutra.
Foi então que percebi: Leah estava tensa. Muito tensa.
O maxilar dela travado. As mãos apertando a sacola com mais força. O olhar duro fixo em Sam, como se a presença dele a deixasse em alerta.
— Já deu, né? — Leah disparou, sem esconder a aspereza. — A gente tá com pressa.
Sam apenas ergueu as mãos, como quem não queria conflito.
— Só quis dar boas-vindas. A menina parece simpática.
— E você continua sendo um intrometido.
O clima pesou por um segundo.
Paul bufou com um sorriso irônico, e Jared desviou o olhar. Leah já estava me puxando pelo braço antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.
— Vamos, Nessie.
Obedeci. Nem ousei olhar pra trás.
Caminhamos o resto do caminho em silêncio.
Quando chegamos na varanda, Leah deixou a sacola na cadeira e soltou um longo suspiro.
— Obrigada pela ajuda — disse, voltando ao tom normal.
— Leah… quem eram aqueles?
Ela hesitou por meio segundo.
— Gente da comunidade. Sam é... um cara complicado. Melhor manter distância.
Assenti, sentindo um peso no ar que não sabia nomear.
Mas não perguntei mais nada.
Não naquele momento.
E talvez tivesse sido o mais certo a se fazer.
Revirei a pequena mala encostada no canto do quarto até encontrar uma calça jeans escura que ainda não tinha usado desde que cheguei. Combinei com um suéter vinho, de tricô macio, e deixei os cabelos soltos, mesmo sabendo que o vento da praia provavelmente faria um caos com eles.
Me olhei no espelho da penteadeira de Leah.
Nada demais. Simples.
Mas algo em mim estava diferente.
Talvez fosse o fato de estar saindo à noite.
Ou talvez fosse porque Jacob Black ia estar lá.
Enquanto amarrava os cadarços do tênis, Salém subiu na cama, como se já soubesse que eu estava prestes a sair.
— Ei, sem drama hoje, tá? Nada de fugir pela janela.
Nada de fingir que morreu de fome.
E, por favor, tenta não derrubar mais vasos.
Ele piscou lentamente e se acomodou, como se prometesse em silêncio que seria um bom gato por algumas horas. Duvido.
— Eu volto logo — disse, beijando o topo da cabeça dele.
Desci até a sala. Harry estava na poltrona com um jornal dobrado no colo, os óculos pendurados no nariz. Quando me viu, sorriu.
— Vai sair?
— Vou sim. Jacob me convidou pra ir à praia.
Os olhos dele brilharam por um instante.
— Que bom! O Seth e a Leah também estão indo. Podem ir juntos.
Antes que eu pudesse responder, Seth já apareceu no corredor com o moletom pendurado num ombro.
— Bora, Nessie? A fogueira já tá quase acesa, segundo o Paul.
Leah surgiu logo depois, com cara de quem só aceitava aquilo por educação.
— Espero que ao menos tenha marshmallow dessa vez.
Sorri, me sentindo... parte de alguma coisa.
— Tô pronta.
Saímos juntos, os três lado a lado, caminhando pelas ruas tranquilas de La Push. O céu já estava escuro, pontilhado de estrelas. O cheiro de mar começava a surgir no ar, misturado à brisa fresca que fazia o suéter valer a pena.
— Jake falou alguma coisa? — Seth perguntou, animado.
— Só que combinamos às nove. Ele disse que às vezes acendem uma fogueira...
— Ele adora esse lugar. Sempre diz que a praia é onde os pensamentos bagunçados dele se ajeitam.
Leah bufou, mas não comentou nada.
Seguimos em frente, os sons da vila diminuindo, dando lugar ao som das ondas ao longe.
E eu, no meio dos dois, com o coração batendo acelerado, me perguntava:
por que Jacob Black conseguia deixar meu mundo tão em paz quando tudo estava uma bagunça por dentro.
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