Narrado por Renesmee


Port Angeles estava cheia, como sempre aos sábados. As vitrines piscavam com promoções que tentavam parecer irresistíveis, mas meu foco estava... em outro lugar.

Mais precisamente, na tela do meu celular.

De novo.

Sem nenhuma notificação.

Leah caminhava ao meu lado, com uma sacola já no braço e uma expressão irritada — que só crescia cada vez que eu checava o celular.

— Você tá parecendo um pombo viciado em migalha digital — reclamou. — Guarda isso antes que eu jogue no mar.

— Ele não mandou nem um “parabéns”, Leah. Nem um emoji. Nem um aceno triste no mínimo.

Ela revirou os olhos com força dramática.

— Talvez ele tenha esquecido, Nessie. Os garotos esquecem esse tipo de coisa.

— Ah, que ótimo. — Respondi, cruzando os braços. — Esquecer o aniversário da garota que você está ficando e diz que gosta é uma nova categoria de desatenção.

Leah parou em frente a uma vitrine com colares artesanais.

— Escolhe alguma coisa. É meu presente pra você. E antes que diga que não quer nada, vai querer sim, porque eu insisto.

Olhei para os colares sem muito entusiasmo. Meus olhos voltaram, involuntariamente, para a tela escura do celular.

Leah bufou.

— Posso ser sincera?

— Quando é que você não é?

— Você tá se deixando levar demais, Ness.

Jacob é legal. Carinhoso. Faz você sorrir. Ok. Mas ele ainda liga pra Bella. Ainda vive nesse limbo de “ela me ignora mas eu espero ela lembrar que eu existo”.

— Obrigada por me lembrar — respondi com o melhor tom de ironia que consegui.

— Não é pra te machucar.

É pra te proteger.

— Leah respirou fundo. — Você merece ser o centro de alguém. E hoje, no mínimo, merecia ser o centro dele.

Eu não respondi.

Porque ela tinha razão.

Mas também porque uma parte de mim ainda queria acreditar que ele lembraria. Que estava preparando algo.

Ou que, pelo menos, se importava o suficiente pra dizer um "parabéns".

Leah tirou um colar de pedra marrom do suporte e o pendurou no meu pescoço, sorrindo.

— Pronto. Agora você tem algo bonito te lembrando que é especial.

Mesmo quando algumas pessoas esquecem de dizer isso.

— Você é durona demais — murmurei, tocando o pingente com os dedos.

— E você é boba demais. Por isso a gente se equilibra.

Rimos.

Mas uma parte do meu coração ainda doía.

Mesmo com o colar.

Mesmo com a cidade brilhando ao nosso redor.

Mesmo com Leah tentando me salvar de mim mesma.


A estrada de volta pra La Push parecia mais cinzenta do que de costume. Leah tentou me animar com comentários sarcásticos, imitações de turistas perdidos e até cantando desafinada uma música da rádio… Mas nada funcionava.

Meu peito ainda pesava com aquele silêncio.

A ausência de Jacob naquele dia.

Meu aniversário.

— Quando a gente chegar, promete que não vai entrar no modo “emo rainha do drama”? — Leah pediu, quase suplicando, ao estacionar a caminhonete.

Revirei os olhos com um sorriso forçado.

— Sem promessas.

A casa dos Clearwater estava silenciosa demais quando subimos os degraus da varanda. Nenhuma luz acesa na frente. Nada que indicasse vida. Leah colocou a chave na fechadura e abriu a porta com calma.

E então...

— SURPRESA!!! — ecoou em uníssono.

Um salto de susto e eu quase caí de costas — literalmente — se Leah não tivesse segurado meu braço rindo alto.

Minhas mãos foram à boca. Meus olhos… não sabiam se deviam fechar de emoção ou abrir ainda mais.

A sala estava cheia de luzinhas amarelas, penduradas pelas paredes e teto. Balões em tons de branco, dourado e lilás espalhados por todos os cantos. Sobre a mesa, um bolo enorme com cobertura de frutas vermelhas e “Feliz Aniversário, Nessie” escrito com calda de chocolate.

Todos estavam lá.

Seth, Sue, Quil, Embry, Kim, Jared, Emily… até Billy estava sentado perto da lareira, sorrindo discretamente. E então, entre todos…

Jacob.

Com um sorriso aberto, os cabelos bagunçados e segurando algo nos braços.

Salém.

O meu gato.

Vestido com um chapéu de aniversário azul torto e com cara de poucos amigos.

— Eu prometo que ele não foi maltratado durante o processo — Jacob disse, se aproximando.

Eu ri entre lágrimas.

Não consegui evitar.

Aquele nó no peito se desfez com tanta força que senti a alma leve de novo.

— Você... você lembrou?

— Esquecer o dia que você nasceu? Nem se eu batesse a cabeça umas cinco vezes.

Ele me entregou o gato resmungando, e antes que eu dissesse qualquer coisa, Jacob me puxou com delicadeza e me beijou.

Foi um beijo demorado, cheio de afeto, de verdade.

Cheio de tudo o que eu precisava para me lembrar que eu era importante pra alguém.

— Feliz aniversário, Nessie — ele sussurrou contra meus lábios.

As lágrimas vieram.

E vieram com força.

Sue se aproximou e me abraçou com carinho maternal.

— Achou mesmo que a gente ia esquecer? Logo nós?

Eu sorri com os olhos úmidos.

— Eu tava começando a achar...

— Pois nunca mais ache isso — disse meu tio Harry, surgindo logo atrás.

Ele me abraçou com força e, depois, me entregou uma caixa pequena de madeira escura, com detalhes entalhados.

— Sua mãe deixou isso comigo.

— Sua voz estava mais grave, mais pesada. — Pediu que eu entregasse a você… se um dia alguma coisa acontecesse com ela.

Fiquei paralisada.

Meus dedos tremiam ao segurar a caixa.

— Eu… eu não sabia que ela tinha deixado algo assim.

— Ela sempre pensava em tudo.

Disse que você entenderia a hora certa de abrir.

Mas faça isso sozinha, quando estiver pronta.

Eu segurei a caixa contra o peito, como se ela ainda carregasse o cheiro da minha mãe.

Meus olhos ardiam. Meu coração… estava cheio. Cheio de dor, sim.

Mas também de amor.

Aquela noite... foi a primeira desde a morte dela em que eu me senti completa de novo.

Pela primeira vez, eu não me senti sozinha no mundo.


A festa seguiu com música leve, risadas altas e abraços que me aqueciam mais do que qualquer coberta. Todos pareciam ter feito um esforço sincero para que aquele fosse meu dia, e eu sentia isso em cada detalhe — das luzes penduradas com barbante até os salgadinhos em forma de estrela que Sue disse que combinavam com “a nossa estrelinha da casa”.

Mas foi quando a música desacelerou e o bolo foi cortado que Jacob se aproximou de novo, com as mãos escondendo algo atrás das costas e aquele sorriso torto que fazia meu coração tropeçar.

— Preciso te entregar meu presente agora. Senão vou acabar explodindo de ansiedade.

— Pensei que o beijo de boas-vindas e o gato traumatizado já tinham sido presentes suficientes.

— Aquilo foi o aquecimento. Isso aqui… é de verdade.

Ele estendeu uma caixinha envolta em tecido de linho. Abri com cuidado, sentindo meus dedos formigarem.

Dentro, havia uma pulseira fina de couro trançado.

No centro, um pingente de madeira esculpido à mão com pequenos lobos dançando em círculo, com detalhes impressionantes.

Eles pareciam quase vivos.

— Jacob… — sussurrei, emocionada.

— Meu pai contou uma lenda antiga. Sobre lobos que protegiam sua aldeia, sobre espíritos ligados pela terra e pelo instinto.

Achei que… fosse bonito você ter isso.

Mesmo que sejam só histórias.

— Eu amei.

— Eu me aproximei e estendi o pulso. — Coloca em mim?

Ele prendeu a pulseira com cuidado, seus dedos roçando minha pele.

— Agora você tá oficialmente ligada a um lobo selvagem.

— Ainda bem que eu gosto de coisas selvagens.

Ele riu, e antes que qualquer resposta viesse, nossos lábios se encontraram de novo.

Dessa vez, o beijo foi mais… profundo.

Mais firme.

Mais cheio de tudo o que eu vinha guardando em silêncio.

Os braços dele me envolveram, me trazendo para perto de um jeito que não deixava dúvidas: ali era o meu lugar.

Quando nos separamos, meu coração parecia querer escapar do peito.

Mas eu não hesitei.

— Jake… eu tomei uma decisão.

Ele franziu a testa, curioso.

— Que tipo de decisão?

— Eu tô pronta — respondi. — Pra dar o próximo passo com você.

Os olhos dele se fixaram nos meus, como se buscassem confirmação.

— Tem certeza?

Assenti, segurando sua mão.

— Tenho. Nunca me senti tão certa de algo.

Jacob ficou em silêncio por um segundo que pareceu um universo inteiro.

Depois sorriu, e aquele sorriso desarmou o resto de mim.

— Eu tô apaixonado por você, Renesmee Clearwater.

E juro que nunca vou brincar com isso.

— Nem precisa jurar. Eu acredito em você.

E então, ele me beijou novamente.

Ali, no meio da festa, com o cheiro de bolo no ar, as luzes piscando e meu coração disparado.

Eu não sabia o que o futuro traria.

Mas naquele instante…

Eu sabia que estava exatamente onde deveria estar.


A noite já caía com seu véu salpicado de estrelas quando os últimos convidados começaram a se despedir. O som de risadas e música diminuía, e Sue recolhia os pratos com a ajuda de Leah e Emily.

Aproximei-me do meu tio Harry com um sorriso tímido.

— Tio… eu vou dormir na casa da Emily hoje.

Ela disse que ainda vamos comemorar na praia com o pessoal.

Harry me olhou, desconfiado como todo bom pai que não é bobo.

— Comporte-se.

Emily confirmou com um aceno firme e um sorriso cúmplice.

— Pode deixar, Harry. Ela tá em boas mãos.

Assim que viramos a esquina, entrei na caminhonete de Jacob com o coração acelerado. Emily me deu um abraço antes de desaparecer na escuridão com Leah, deixando a mentira sustentada apenas por silêncio e intenção.

Seguimos pela estrada de terra em direção à parte mais isolada da floresta, onde Jacob tinha construído sua casa. Uma que ele mesmo projetou, tijolo por tijolo, madeira por madeira.

Quando descemos do carro, ele já me esperava na frente da casa.

Lindo como sempre, mas com um ar diferente… mais vulnerável.

— Bem-vinda ao meu caos — disse, abrindo os braços.

A casa era… rústica e encantadora à sua maneira.

Uma cabana com paredes de madeira grossa, grandes janelas cobertas por cortinas simples, um alpendre com duas cadeiras de ferro e uma rede esticada de canto. Um violão descansava numa das cadeiras. Flores plantadas de qualquer jeito em latas de tinta ao lado da porta.

E do lado de dentro…

Peças de carros espalhadas por todos os lados.

— Eu juro que tentei deixar em ordem. — Jacob passou a mão pelos cabelos, envergonhado. — Mas o motor do Rabbit me chamou. E bom… ele grita mais alto que a vassoura.

Ri, balançando a cabeça enquanto entrava.

— Não se preocupe, acho que o caos combina com você.

Os móveis eram simples: sofá cinza gasto, um tapete puído, uma estante improvisada com livros, ferramentas e… uma maquete de uma caminhonete vermelha, minúscula, detalhada com precisão quase obsessiva.

— O que é isso? — perguntei, me aproximando.

Jacob se aproximou por trás de mim, os braços cruzando minha cintura com naturalidade.

— É o Rabbit. Minha primeira caminhonete.

— Ele encostou o queixo no meu ombro. — Tô restaurando ela. Ainda vai voltar pra estrada.

Pequena, vermelha… igualzinha à sua energia.

Sorri, tocando a maquete com delicadeza.

— É linda.

— Igual você.

Aquela frase, dita tão próxima, me arrepiou por inteiro.

O calor dos braços dele, o cheiro de graxa e madeira misturados ao sabonete, a forma como meu corpo se encaixava no dele…

Era como se o mundo finalmente tivesse parado num lugar certo.

Jacob virou meu rosto para ele com delicadeza.

Nossos olhos se encontraram.

— Então...essa é a hora que eu te levo pro quarto.

Assenti, sem precisar dizer nada.

Porque ali, com ele, eu não sentia medo.

Só certeza.

Ele me beijou de novo.

E com o beijo… a noite começou a ganhar outro nome.

Subimos as escadas de madeira rangente em silêncio, como se qualquer palavra pudesse quebrar a magia do que estava para acontecer.

O quarto dele era simples.

Uma cama de solteiro encostada na parede, lençóis escuros e um cobertor grosso dobrado aos pés. A janela estava entreaberta, deixando a brisa noturna entrar e fazer as cortinas balançarem devagar, como uma respiração tranquila.

O ambiente era o reflexo dele.

Bruto, mas acolhedor.

Imperfeito, mas verdadeiro.

Jacob fechou a porta atrás de nós e ficou ali, por um instante, apenas me olhando. Como se estivesse tentando guardar aquela imagem na memória pra sempre.

— Você tem certeza? — ele perguntou com a voz baixa, rouca.

Assenti, me aproximando dele e segurando sua mão.

— Tenho. Mas… só se você também tiver.

Jacob sorriu de lado e sentou na beira da cama, puxando-me com cuidado para junto dele.

— Eu também…

— Ele fez uma pausa, respirou fundo e confessou, com um leve rubor nas bochechas:

— É a minha primeira vez também Ness.

Meu coração bateu mais forte, mas não de nervoso.

Foi de ternura.

Sentei ao lado dele e levei a mão ao rosto dele, acariciando sua mandíbula.

— Você é perfeito.

Ficamos ali, por alguns segundos, apenas nos olhando. Como se estivéssemos dizendo tudo sem precisar dizer nada. Como se estivéssemos pedindo licença ao mundo pra viver algo só nosso.

Jacob tocou meu rosto com as pontas dos dedos, traçando um caminho até meu pescoço, e depois roçou os lábios nos meus com tanta leveza que minha pele inteira se arrepiou.

Deitamos na cama apertada, rindo baixinho quando ele quase caiu ao tentar tirar os sapatos.

— Essa cama vai implorar por misericórdia — ele murmurou, arrancando uma risada minha.

— A gente pode ir devagar, Jake.

— Com você... eu quero ir no tempo certo.

— Ele entrelaçou nossos dedos. — Sem pressa. Sem medo.

E assim foi.

Entre beijos tímidos, sorrisos nervosos, carícias suaves e respirações entrecortadas, fomos descobrindo juntos cada detalhe novo, cada sensação, cada verdade escondida na pele.

Eu mal percebi quando as nossas roupas foram tiradas e jogadas em qualquer canto daquele quarto. Jacob acariciou uma das minhas pernas se colocando entre elas e segundos depois eu o senti me invadir.

Não foi perfeito.

Foi real.

A boca dele se encaixou na minha abafando nossos gemidos enquanto eu sentia um misto de sensações. Nossos corpos se chocando um contra o outro descobrindo o prazer de sermos um só juntos.

E, quando os corpos finalmente se aquietaram, enroscados um no outro, Jacob passou os dedos pelos meus cabelos e sussurrou:

— Eu nunca vou esquecer essa noite.

Me aconcheguei no peito dele, sentindo seu coração ainda acelerado.

— Nem eu porque foi com você.

A brisa entrou pela janela, e a casa toda pareceu respirar com a gente.

Naquela noite, nos tornamos mais do que éramos antes.

Sem promessas.

Sem pressa.

Só a certeza de que, por alguns instantes, éramos tudo um para o outro.


Notas finais
Eu mudei de casa e estou apenas com 4 G assim que voltar meu Wi-Fi vou atualizar as histórias.