Coração de Vidro
7 Coração de Vidro
Notas iniciais
Reino de Youma 15 anos antes
—Você nunca sorri?
Foi o que uma garotinha de 6 anos de idade, vestido bufante e trancinhas lhe perguntou antes de ser repreendida pela mãe.
—Perdão Alteza!- A mulher se desculpou e fez uma reverência exagerada antes de arrastar a garotinha para longe.
Elísio estava sentado no pátio do palácio, sozinho. Vestia roupas pretas finas e seu cabelo negro e liso estava perfeitamente alinhado. Tinha apenas 6 anos de idade, porém suas preocupações eram como as de um adulto.
"Um príncipe sempre deve manter os rosto erguido e ser forte." Era o que seu pai James, rei de Youma sempre lhe dizia. Porém aquela frase não foi de grande ajuda quando aquele garotinho presenciou o pai devorar um rapaz humano.
Aconteceu em uma tarde quente e ensolarada. Elísio era filho único e sempre se sentiu sozinho dentro daquele castelo enorme. Seu pai estava sempre ocupado e sua mãe não lhe dava a atenção que tanto queria, e apenas se preocupava com o que lhe convinha. Lembrava-se do aniversário em que havia preferido estar em outros lugares a estar com o filho. Elísio se sentia órfão de pai e mãe vivos.
Avistou seu pai ao longe ir sozinho em direção a floresta e o seguiu, lembrava-se claramente da postura rígida e de seu rosto sombrio. O garoto olhou espantado ao longe James emboscar o humano, acertar um golpe certeiro e se alimentar dele. Elísio nunca se esqueceria, da expressão de pavor nos olhos daquele homem, o medo vivo. A garoto apenas se deixou cair na clareira e chorou como nunca havia chorado antes. Era aquele tipo de ser que ele viria a ser um dia?
Todos os dias depois de ter presenciado aquilo o pequeno príncipe se isolou, sentia olhares de medo onde quer que ia. Aos poucos toda a pouca alegria que lhe restava ia se indo. E quando seu melhor amigo fugiu de pavor a única coisa que restou ao jovem príncipe foi a vergonha, a raiva e a aceitação de quem ele era. Até...
A chegada de uma garotinha dois anos mais nova que ele. Era dia de festividade, aniversário do rei e o reino vizinho resolveu participar. Elísio lembrava de se identificar com a menina carrancuda e fria que aparentava ter a mesma idade que ele, mas a menina ao seu lado agarrada as saias da irmã lhe chamou a atenção. Ela saltitava e olhava admirada para todos os lados e sempre que via algo divertido ou novo corria para mostrar a irmã mais velha, porém era recebida com desdém e um olhar cortante.
Tinha enormes olhos azuis e cabelos castanhos sempre desalinhados, tropeçava nas próprias saias e falava alto o tempo todo, logo o palácio de Youma foi tomado por sua gargalhada e por seu riso fácil. Ela parecia se divertir com tudo e com todos não importava onde fosse todos a sua volta acabavam sorrindo ou a admirando. Mas ele sempre se mantinha longe, quieto e a observava, até o dia em que a garota desapareceu e o general pois todos a sua procura.
Elísio ralhou consigo mesmo quando se percebeu procurando-a em cada parte do castelo. Aquilo não era problema seu era? A irmã mais velha que a procurasse! Era fim de tarde e o castelo estava movimentado e barulhento, o garoto então resolveu visitar a vila e fugir de todo aquele barulho. Era um lugar bastante frequentado e bonito, todos os moradores das redondezas passavam por ali. A última coisa que esperava encontrar era uma garota de olhos esbugalhados e cabelos bagunçados conversando com um vendedor de frutas.Elísio caminhou a passos largos e a pegou com força pelo braço.
—Não sabes que estão todas a sua procura?
—Eu me perdi...-A menina disse simplesmente.-Ei você é o príncipe Elísio não é?
Alessia sorriu para ele.
—Sou.-Apenas disse.
—Você viu que grande aquela pedra? Uouuuu, vamos escala-la?-Apontou para a grande rocha na entrada da floresta.
—Devemos voltar! Estão todos a sua procura.-O garota a puxou pelo braço.
—Calma já vou... Ei com quem você brinca por aqui?
Elísio parou, e a olhou com raiva.
—Não tenho amigos, e não preciso de nenhum.
—Que bobão... Todo mundo precisa de amigo! Você não se sente sozinho?
O pequeno príncipe a largou e encarou o nada um pouco desconcertado.
—Talvez...
Alessia o encarou com seus enormes olhos azuis, Elísio sentiu como se aquela pequena fugitiva pudesse ler a sua alma.
—Ei garotinha!-Um vendedor ao lado a chamou- Você é princesa de Yousei não é mesmo?
Ela saltitou até ele com um enorme sorriso no rosto, parecia que nada podia deixa-la pra baixo.
—Sou sim!
—Leve! um presente...
O homem lhe estendeu um colar com um pingente de vidro azul em formato de coração enorme e plano. Porém o colar escorregou da mão da pequenina e caiu no chão e enquanto o homem tentava a todo custo segurar um olhar carrancudo. Alessia sorriu docemente, se abaixou para pegar o coração que se quebrou em duas partes e entregou um dos pedaços para Elísio que a olhou com desdém.
—Pra que vou querer isso?
—*Pegue um pedaço do meu coração e fique pra você... Então quando eu estiver longe, nunca se sentirá sozinho.
O sorriso que o garoto deu a seguir foi o primeiro em muito tempo. Ele sabia que sentiria sua falta, sabia que mesmo por pouco tempo aquela pequena menina fugitiva e brincalhona havia preenchido sua vida com algo que ele havia perdido. Ele sentiu que poderia ser o que quisesse, livre como o vento assim como a menina travessa do coração de vidro.
De volta para o presente em seu quarto em Yousei, Elísio acordou em um sobressalto e se sentou na cama.
Ela parecia não lembrar da primeira vez em que se viram, porém aquilo não era surpresa dado seu histórico de lerdisse e sua cabeça oca, não seria surpresa ela se esquecer até mesmo do próprio nome. Passou as mãos pelos cabelos encharcados de suor, se levantou, caminhou até a cômoda no canto do quarto e de lá tirou metade de um coração azul. Ele o encarou por algum tempo e abriu um tímido sorriso.
"Pegue um pedaço do meu coração e fique pra você... Então quando eu estiver longe, nunca se sentirá sozinho."
*Trecho da música do shawn mendes never be alone
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