Coração de Porcelana
10 Capítulo 9 - Luz Cruel
Notas iniciais
Capítulo 9 – Luz Cruel
Markus seguia entre a multidão de rostos escondidos sob máscaras de laca, couro, cera ou o que quer que usassem para encobrir suas identidades. O seu próprio estava coberto até um pouco acima de sua boca pela máscara de sol dourado, um rosto aparentemente cigano, como uma pintura em tecido.
O local era perfeitamente quadrado e era imenso, maior que um estádio de futebol, escavado no subsolo, utilizando-se da magia para não derrubar os imensos prédios que encontravam-se alguns metros acima. O chão se subdividia em imensos degraus como uma arquibancada, o ringue dispondo-se a pelo menos quinze metros abaixo do último degrau, separado por uma mureta com proteções mágicas, afim de evitar quedas desnecessárias. O quadrado de areia tinha em torno de 110 metros de comprimento pelo mesmo número em largura, bastante espaço para qualquer embate que ocorresse ali.
A mão de Lilith estava bem segura contra a sua, e seguiram até uma das extremidades da Arena, para um portal sendo guardado por seguranças mascarados que os deixaram passar imediatamente ao verem as máscaras de seus rostos.
Uma música agitada, falando de bruxarias devido à um amor negado berrava pelo corredor e escadaria que os levaria até o camarote. Passaram ao som das guitarras e bateria, chegando ao novo local relativamente aberto, no qual havia espaço para no máximo dez pessoas.
– Senhoras e senhores, desafiantes e expectadores, bruxos e bruxas! – os olhos vermelhos de Markus doeram quando a luz intensa se acendeu em seu rosto. – Chegaram duas estrelas conhecidas, o casal de ouro de nosso salão! O Sol e a Viúva!
A gritaria foi ensurdecedora e animalesca, dando a parecer que a qualquer momento o local iria desabar. Essa era uma das consequências por ser um dos melhores do lugar juntamente com sua namorada.
– Olá Sunshine. – James o cumprimentou sobre a música assim que se aproximaram. Sua máscara era como se fosse o rosto de um robô que gradualmente se desfazia, liberando a região de seu queixo e lábios.
– Você sabe que é estranho que ínsita em me chamar assim, certo?
– Olá irmãozinho. – Lilith se pronunciou, soltando da mão de Markus e dando um abraço de lado no irmão mais novo. Olhou envolta antes de questionar: — Onde está Vincent? Normalmente ele chega um pouco antes ou depois de você.
– Parece que ele se envolveu em algo relacionado ao Prateado e irá sumir por um tempo. – Deu de ombros. – Uma viagem ou algo parecido, cheira à confusão, como tudo mais o Vincent se mete.
– Prateado? – Markus questionou.
– Marc L’Argent. – James continuou com seu tom permanentemente sarcástico. – Ou o “seu querido papai”, ou ainda o cara sentado no camarote ao lado.
Havia aberto a boca para retrucar que sabia quem era o Prateado, porém a fechou assim que escutou o que seu cunhado lhe dissera, fazendo com que olhasse discretamente para o camarote indicado. Só não empalideceu porque para si era tecnicamente impossível, já que era albino. O homem estava sentado de pernas cruzadas numa das cadeiras dispostas à direção do ringue, o rosto coberto por uma máscara prateada completamente inexpressiva.
Bem, sabia porque se importava, porém tentava ao máximo não fazê-lo. Não havia motivos para aquilo. Marc não sabia de sua existência, provavelmente nem sonhava com ela. Ou melhor, sabia, porém não sonhava com o fato de ter conseguido sobreviver, ao contrário de sua mãe. Sabia o que acontecera com ela, com Marc, e o que deveria ter acontecido consigo se não fosse quando escutara o que não devia naquele fatídico dia há cinco anos.
Agora estava sobrevivendo como um dos lutadores da Arena, e nem ousava sonhar com a possibilidade de ir atrás de seu pai biológico. Com o que já ouvira falar sobre ele, tinha noventa por cento de certeza de que ele explodiria sua cabeça primeiro e perguntaria depois.
– Está surtando internamente... – ouviu o rapaz continuar. – Óbvio que está, afinal....
– Cale a boca, sério.
– Ok, ok. – Viu o loiro dando de ombros. – Continuando, Vincent disse que quer que mantenhamos um olho nos irmãos dele.
– Nisso você quer dizer nós dois, não é?
– Claro, eu lá tenho cara de babá? De dois adolescentes ainda por cima? Já tenho problemas o suficiente sozinho!
– Ninguém mandou você ser hacker. — Markus murmurou.
– Tenha um pouco de empatia, James. – Lilith o repreendeu. – Vincent é nosso primo, assim como Jim e Michael!
– Sim, mas para mim a confusão não compensa. Já me basta os problemas que arranjei quando ajudei ele e os pivetes à fugir da Inglaterra, além do nosso problema natural com sangue! Não estou afim de terminar com uma coleira no pescoço ou morto como os pais dele. Os três!
– Quanto ao retensor, Vincent que pediu por ele. – novamente o albino murmurou, sentando-se, e mais uma vez foi ignorado pelos dois irmãos.
Markus entendia em parte os motivos do mais novo. Os pais biológicos de Vincent haviam sido assassinados, assim como sua mãe adotiva. Porém levava em conta o esforço do mais novo dentre os quatro para manter seus irmãos fora de toda aquela loucura política que se iniciara no mundo bruxo, chegando ao ponto de voluntariamente reduzir sua magia dramaticamente.
Às vezes se questionava o quão monstruoso seriam os poderes de Vincent normalmente. Markus, Lilith e James eram os considerados mais fortes daquela arena, mas ele era o único imbatível, apesar do dito retensor.
– O Leão de novo? – Lilith questionou. Os olhos de Markus foram para o ringue. Havia um rapaz alto e ligeiramente musculoso, sua máscara era uma cabeça de leão de um prata envelhecido, com diversos pontos verdes na juba estática, como se fosse musgo subindo por uma velha estátua. No caso, ele pendurara um desafiante com diversos cipós utilizando-se de magia da natureza. O outro fora enterrado até o pescoço por uma mão de areia, fruto de magia da terra. Enquanto isso, a plateia ia à loucura.
– Se ele continuar assim, logo logo o Leão chegará à nossa “sacada real”. – James comentou enquanto bebia de uma taça de Martini.
– Eeeee... O Corvo?! – a voz do locutor soou sobre a zorra. – Onde está o Corvo, o lutador que nunca perdeu?!
Uma moça toda vestida de negro, com uma máscara simples entrou no camarote. Ela era algo como a garçonete/servente do lugar, e todos se vestiam do mesmo modo. Pediu vinho, enquanto Lilith pediu uma Sangria Espanhola. A moça saiu e retornou quase imediatamente com as bebidas além de uma travessa de frios, provavelmente pedida por James.
Começou a beber quando outro desafiante entrou afim de ir contra o Leão, porém os seus olhos acabaram descendo para um homem sumindo entre a multidão. Ele usava uma máscara de cachorro. Logo após viu Marc o seguindo.
Teve uma ligeira sensação ruim com aquilo, mas relegou-se a beber seu vinho e comer queijo enquanto o Leão continuava a destruir outro oponente, porém o chamado da sensação que aprendera à sempre escutar continuava. Seus ombros tremeram, o que chamou a atenção de sua namorada.
– Você está bem? – ela questionou, tocando seu ombro esquerdo. Assentiu, pegando a mão enluvada em renda negra de Lilith e olhando em seus olhos. Eles eram um mar profundo e violeta, densos de uma cor ao mesmo tempo viva e escura com pontos prateados flutuando neles. – Markus, você está gelado. – constatou.
– Estou bem. – sussurrou, embora sentisse como se seus olhos pulsassem. Era a escuridão o chamando, algo mal estava ocorrendo, e aquele mal o chamava. Aquilo sempre ocorria, séculos e séculos daquele jeito. Respirou fundo, tentando se concentrar no teor do álcool, no sabor da bebida, nas mãos de Lilith em seu braço e seus olhos de galáxia.
– O próximo desafiante é.... A Viúva! – a voz do locutor soou ensurdecedora, fazendo Markus ranger os dentes. Lilith olhou para cima, incrédula por estarem a chamando naquele momento – O quê? O Leão não deseja? Assim, sorteiem um oponente à dama de negro, a Viú...
– Vá. – Sussurrou à Lilith quando percebeu que ela ia recusar a proposta. — Você disse que queria se divertir, então vá, pise em quem for te desafiar. É esse o propósito deste lugar, não é?
Viu o olhar preocupado da mulher, porém com um suspiro ela se levantou, beijando-o antes de descer pela escada. O ato causou outra zorra absurda por parte da plateia.
– Aonde você vai? – James questionou quando se levantou e já ia saindo pela porta.
– Já volto. – respondeu, descendo as escadas.
Passou rapidamente pela multidão, ignorando os olhares, as vozes que o chamavam e idolatravam e as mãos que tentavam tocá-lo, enquanto o primeiro infeliz era sorteado para lutar contra Lilith.
Saiu da Arena, o vento batendo em seu rosto assim que retirou a máscara, sua mente lhe agindo como um GPS. Seguiu pelas ruas da madrugada, costurando entre os becos escuros enquanto o calor sangrento de sua mente abrasava ao ponto de seu cérebro encontrar-se diante uma combustão iminente.
Entretanto, quando o derretimento parecia iminente, o calor cessou, terminou. O mal havia acabado, para seu desapontamento, porém ainda sabia onde deveria ir. Estava próximo demais para conseguir perder o local.
Sentiu o cheiro de queimando antes finalmente sair à última viela.
Marc não estava lá, mas era óbvio que ele fizera uma companhia não muito agradável ao homem com a máscara de cachorro.
Parou por um segundo ao conseguir ver o estado do pobre coitado. Markus já vira muitas pessoas mutiladas, ensanguentadas, espancadas, torturadas, carbonizadas e afins, porém foi acometido por um chocante fascínio ao perceber o estado do moribundo, encostado contra a parede e dispondo-se como uma macabra obra de arte para quem o encontrasse.
Suas roupas estavam queimadas em vários pontos, mal cobrindo o corpo ferido, mas o mesmo não se repetia com sua pele. Ela estava seca e em carne viva, um vermelho enjoado e escurecido, o couro de sua máscara estava seco e chegara ao ponto de ter grudado em seu rosto, aparentemente fundindo-se à epiderme, fazendo com que a face retorcida do cão se tornasse a sua. Os cabelos cor de areia e encaracolados caíam em tufos desprendidos com partes do couro cabeludo se soltando. Os lábios secos estavam arreganhados, expondo os dentes tortos e amarelados. Os olhos através da máscara estavam arregalados, as pupilas haviam desaparecido e as íris havia se tornado de um perolado luminoso.
Não estava nem um pouco surpreso em ver que seu pai fosse capaz de torturar alguém àquele ponto, visto que a respiração saía seca e barulhenta. O próprio Markus fizera coisas piores em sua ingenuidade na juventude de oitocentos anos. Talvez fosse de família. Talvez fosse pelos motivos que tinha certeza que eram. Mas não o importavam.
Agachou-se em frente ao homem. Moveu suas roupas ligeiramente, vendo a marca tatuada por magia em seu peito: Uma imensa fênix de asas abertas, em uma de suas garras jazia a cabeça de um dragão morto, e com seu bico ela arrancava a cabeça de um segundo.
Suspirou, antes de invadir sua mente. O homem tremeu, antes de começar a balbuciar coisas sem sentido: “a madame”, “o príncipe”, “o criador” e coisas do tipo.
– Philippe, você teve um pouco de sorte ao encontrar Alastair antes. Só um pouco. Agora chegar ao ponto de atrair o Prateado... Eu não gostaria de estar na sua pele.
Pressionou sua mão espalmada contra o rosto do bruxo, a energia fluindo por seu braço. O grito agudo soou por um segundo, antes de ele explodir entre seus dedos. Sequer piscou quando o sangue e um pouco de massa encefálica voaram direto contra seu rosto.
– Sabia.
Não se assustou ao ouvir a voz de Lilith.
– Você não consegue se controlar, não é Markus? – a voz dela não trazia raiva, choque ou ressentimento. Apenas um tom pesaroso. Ela o conhecia bem.
– Ele iria contar sobre Alastair. – respondeu simplesmente. E você que para o seu próprio bem, temos que impedir que descubram onde os últimos Rockstone estão. Os príncipes dependem disso.
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