Coração de Porcelana
42 Capítulo 41 - Abraço
Notas iniciais
Capítulo 41 – Abraço
Near acordou com o balanço sutil de um avião.
Apertou os olhos, sem ainda abri-los. Seu cérebro parecia ter sido espremido como uma laranja, sua boca estava seca e sentia como se houvesse sido pisoteado por uma manada de cavalos furiosos.
Quando finalmente decidiu abri-los, viu-se realmente dentro de um avião, a cabine com as luzes reduzidas, porém havia apenas quatro assentos, e se percebeu deitado num sofá.
...Quando havia parado ali?
— Acordou?
Se assustou sinceramente ao ouvir a voz de Haydée.
— Haydée? Onde...
— Você se lembra de alguma coisa?
Ela aparentemente queria que ele lembrasse de algo em específico. O quê, exatamente, era difícil dizer.
— Dos anjos aparecendo?
— Depois disso.
Aí era pedir demais.
— Não... – sacudiu a cabeça e fez uma careta diante o gosto de sua boca, se sentando. – O que aconteceu com os outros? Para onde estamos indo?
— Eles devem estar em Atlanta a essa altura. – ela respondeu. – Você veio comigo.
—... Eles simplesmente deixaram você me trazer? – questionou. Tinha certeza que estava inconsciente naquele momento, não recordava de absolutamente nada.
Haydée soltou um suspiro pesado ao seu lado. Ela estava com uma expressão tão séria que sabia que tinha problema a caminho. E pelo visto, muito problema.
— Tinha certeza que você não estava consciente naquela hora, mas precisava que você viesse o mais rápido possível comigo.
Pressionou suas próprias têmporas. Que bagunça. Lembrava-se dos anjos aparecendo por todos os cantos, então esperava que Haydée estivesse falando a verdade, e que Claire, seu irmão e os outros estivessem em Atlante, e não... Bom, sendo mordidos por aquelas coisas.
E também o que aquele anjo havia o mostrado.
— Você disse algo sobre o meu pai...
— Morrendo. – ela afirmou. – Ele tem cem anos, e o tempo está acabando. Precisamos chegar lá antes de ele morrer.
— Para onde estamos indo?
— Nidus. – Near franziu o cenho diante a resposta, que era basicamente nada. Onde ficava isso? – Estamos na Itália agora.
— Itália?!
— Estamos indo para a nova capital do Império Almishak. – ela respirou fundo mais uma vez.
Almishak?
Havia escutado esse nome antes, não?
— É uma cidade escondida pelo Véu. É difícil explicar tudo agora, mas tente não surtar.
— Oh, ótimo. Você vai me deixando tenso para que eu não surte no futuro.
— Não é algo fácil de se contar, e preciso que você chegue em Nidus sabendo alguma coisa, pelo menos. Pois bem, como é a capital do império Almishak, ela é comandada pela família Almishak.
— Óbvio.
— Sua família.
Maravilha. Não soube nem o que responder.
— Isso faz milênios. Literalmente, o império estava lá quando o reino de Roma surgiu, e continuou ali quando o império romano caiu. O Império caiu durante um tempo com a guerra contra os Rockstones, mas ele retornou... Às escondidas. E tem sobrevivido desde então. Quem detém o maior título é o príncipe Almishak.
Príncipe Almishak.
Alguma coisa o chamara daquilo num passado próximo.
Oh, não... Merda. Merda elevada à milésima potência.
— Seu pai é... O príncipe atual.
— Não por muito tempo.
Escutou ela engolindo o seco.
— É.
— Foi por isso que você foi atrás de mim? Precisam de alguém pra preencher o buraco do herdeiro, apesar de eu ter, ou ter tido, não sei, cinco irmãos? Ou foi por isso que passei uns sessenta anos dentro de uma caixa?
— Você é o único dos seus irmãos que demonstrou ter alguma habilidade mágica. – Haydée disse num tom cansado.
— Eu? Com habilidades mágicas? De onde você tirou isso, Haydée?
— Do fato de quando eu lhe transformei num boneco, foi porque o meu pai e o meu avô já estarem criando planos para te eliminar, e o seu pai ter percebido isso também.
— Seu pai e seu avô estavam fazendo o quê?!
— A história da família Nièvre e a da Almishak é mais do que complicada. Mas digamos que eles preferem ter certeza de que estão se mantendo seguros sem o passado podre vir à tona. Você se lembra quando meu pai atropelou Blue, o cachorro da Far?
— Claro, ele desmaiou e a Far ficou desesperada pensando que ele tinha morrido. – a resposta veio automática. – Aí ele acordou, mas precisamos leva-lo no veterinário de qualquer jeito.
— Ele morreu, Near. — Haydée respondeu. – O que aconteceu foi que você o ressuscitou.
— Eu... – quase escutou uma engrenagem em seu cérebro parando. — O quê?
— O príncipe Almishak é o príncipe dos Condenados. Amaldiçoados, lobisomens, vampiros, necromantes... Você usou necromancia e trouxe Blue de volta dos mortos, e como era uma morte recente, passou despercebido para quase todo mundo. Mas não para quem já é um bruxo. Meu pai e eu percebemos a magia. E, bem...
Near sentiu a cabeça girando. Estava com sede, com fome e ainda parecia que havia levado uma surra.
— Eu sei que tem muita acontecendo, mas precisamos fazer muita coisa.
— Porque tanta pressa?
— Seu pai quer falar com você antes de morrer. Na verdade, desde que o estado dele começou a declinar, é de tudo que ele consegue falar.
— Então por que mandou minha caixa para Claire, em vez de pegá-la diretamente?
— Eu não mandei.
Near piscou.
— Você tem ideia do que eu passei quando fui atrás de você, e encontrei o lugar vazio? Passei os últimos dias pagando informantes do submundo para encontrar alguma coisa.
— Então... Quem mandou?
— Não faço a mínima ideia. Essa vai ser minha prioridade depois, porque a atual era encontra-lo.
— E o meu pai quer falar comigo? – perguntou com um fio de voz. A visão que Dragan havia lhe mostrado voltou para sua mente, mas ainda assim parecia difícil de aceitar quando entrava em conflito com as centenas de brigas que o levaram a fugir de casa durante algum tempo, se escondendo na casa de um amigo durante o tempo.
... Por que estava lembrando daquilo naquele momento? Tudo terminara mal, de qualquer jeito. Balançou a cabeça para tirar a memória breve de Wilhelm da cabeça e se voltar para seu pai.
— Sim. Ele só consegue dizer que precisa “lhe explicar”. – ela suspirou. – Olhe, Near, eu sei que vocês tinham uma péssima relação, mas... Dê a ele uma chance. É o último pedido de um homem velho.
— Você está fazendo chantagem emocional comigo, não é?
— Não, estou lhe explicando a situação. Não é fácil. Você vai se tornar o próximo príncipe numa situação muito... Desesperadora, para dizer o mínimo.
— O quão desesperadora?
— Ninguém sabe o que vai acontecer se os Almishaks desaparecerem. E... Como nenhum de seus irmãos são bruxos, para todos os efeitos... Você é o último Almishak.
Engoliu o seco.
— Esse já é um aviso. Não há nenhuma dúvida que seu pai está falecendo, então é muito provável que assim que o período de luto passar, as casas nobres irão iniciar propostas de casamento imediatamente.
Casamento?
Havia acabado de acordar e era recebido com a notícia de sua família comandando um império, que era o herdeiro e agora entravam em casamento?!
A parte da mente que Near tentava sempre manter quieta tentou dar um grito. “Você prefere homens e sabe disso!”.
A fez calar a boca, mais uma vez. Mesmo que talvez aquele fosse o momento de se desesperar, assim como o desespero havia o feito começar o namoro com Lucy. Não gostava nem de lembrar daquilo.
— Near?
— O que eu preciso fazer? Tipo, agora?
Ela pareceu surpresa por ele ter pulado aquela parte, mas sinceramente sentia que aquele era um dos momentos em que gostaria de encher sua cabeça com outra coisa. Haydée percebeu aquilo.
— Bom, basicamente precisamos arrumá-lo. Estamos num jatinho, há uma cabine, que é basicamente um quarto, com um banheiro.
Em boa hora.
— Vai precisar de roupas novas, e... Provavelmente um corte de cabelo novo. E veremos algo para você comer e beber.
Mesmo que não gostasse muito da parte de cortar o cabelo, se levantou. Uma mulher totalmente vestida de preto apareceu. Ela parecia uma boneca, com olhos vermelhos iridescentes, sem qualquer pupila aparente, e uma pele que não parecia lá muito orgânica. Ela lhe fez uma pequena mesura antes de guia-lo.
Havia viajado de avião antes, mas óbvio, as coisas mudaram nas décadas em que passara na caixa. Mas aquele avião era gigantesco, e foi muito desconfortável para si quando passaram por um grupo de comissários de bordo que eram como a mulher de preto, todos se curvando quando passava. Ela parou ao lado de um elevador, indicando que era ali e que poderia seguir sozinho. Curvou-se mais uma vez quando as portas iam se fechando.
Foi sair na cabine em si. Era consideravelmente grande, levando-se em conta que estavam dentro de um avião. Havia uma cama de casal com uma mesinha de cabeceira e uma porta que era o banheiro, e à frente da cama havia uma poltrona branca.
Sobre a cama já havia uma caixa que sabia que eram roupas, mas na realidade, sentou na poltrona e observou as janelas abertas.
Império. Príncipe. Último. Casamento.
Respirou fundo. Sabia que queria surtar, e como o sabia. Tudo literalmente fora jogado acima de si.
Como deveria reagir?
Os olhos castanhos foram até a caixa. Como deveria reagir? Como?
Sua cabeça estava pesada. Ao invés de ficar procrastinando, decidiu que era melhor ir tomar banho e acabar logo com aquilo.
Tirando o fato que não iria ser o fim, iria ser o começo de algo que ele definitivamente não estava preparado. Ele nunca havia sequer sonhado com a possibilidade de ser um príncipe, governante ou algo do tipo.
E pensar que algum tempo antes, não pensava lá muita coisa sobre Vincent esconder sua identidade real. Agora, estava se sentindo bem mais empático.
Quando entrou no banheiro e se viu no espelho, tomou um susto. Suas roupas estavam sujas de terra, o cabelo loiro estava uma bagunça com algumas áreas meio marrons – onde havia caído para estar daquele jeito? – mas os seus olhos...
O que havia acontecido com seus olhos?
As íris estavam como as pessoas do andar de baixo, mas as escleras estavam de um azul bruxuleante que lhe dava arrepios. Havia veias finas, vermelho sangue envolta de seus olhos, descendo em direção à sua face.
Near tinha pele clara, mas nunca fora exatamente pálido. Mas a sua pele estava sinceramente quase da cor de Vincent, que não era um bom parâmetro de “saudável” para ninguém.
Quanto tempo ficara inconsciente mesmo?
Tirou as roupas e foi tomar o banho que estava precisando. Parecia que a realidade estava o apanhando de todos os lados, e para completar, sua pele estava tão sensível que a água parecia doer. Mas como era teimoso, fez questão de se limpar completamente. Há quanto tempo não tomava banho?
Quando foi se vestir, levou um tempo para absorver as roupas que teria que usar. Eram totalmente negras, com botas que se misturavam com o tecido e detalhes de prata, além de ter um tecido roxo que sinceramente não sabia como deveria usar aquilo... Além de várias outras peças de prata. Mesmo que seu orgulho lhe dissesse para não fazer aquilo, como já estava decentemente vestido, resolveu pegar o que estava dentro da caixa e ir pedir ajuda para Haydée.
Estava morrendo de sede.
Parou naquele quarto, olhando pela janela. Estava escuro, mas era possível se perceber que estavam sobre o mar.
— Certo, só preciso respirar fundo e ter calma... – murmurou.
Era difícil ter calma.
Voltou para o elevador, descendo, e dispensou educadamente a mulher que o guiara pela primeira vez, afinal, poderia voltar sozinho. Sentia-se um tanto idiota, andando pelo lugar com aquela caixa, mas de qualquer jeito retornou à cabine principal. Haydée já estava lá, falando com um dos comissários que estava pondo o que parecia ser uma taça de vinho sobre uma mesa que havia sido posta entre duas das poltronas, além de haver uma cadeira que serviria claramente para cortar o cabelo.
Ela havia trocado de roupa. Estava com um vestido longo e plissado, verde escuro de gola alta, aberta na fronte do pescoço, possuindo um decote relativamente profundo. Ela usava um casaco de veludo sobre que lhe funcionava como capa, preso à cintura por um corpete de prata, as mangas compridas e coladas aos seus braços terminando em triangulações nas costas de suas mãos. Ele possuía um capuz relativamente grande e largo, erguido sobre sua cabeça com uma fina corrente de prata passando por sua testa, os cabelos presos sob o tecido.
— Haydée?
— Você está pronto? Quase pronto... Melhor assim. Aqui, beba isso.
Ela lhe ergueu o cálice. Parecia de cristal, com a base de prata, e estava cheio até um pouco após da metade com um líquido vermelho que pela textura não parecia ser vinho. Pegou-o, e estava quente.
Como se as coisas já não estivessem pavorosas o suficiente.
— O que é isso?
— Beba.
Quase soltou um “muito obrigado, Haydée”, mas acatou o pedido. Quando deu o primeiro gole, quase cuspiu.
— Isso é sangue!
— E você precisa disso.
Ia protestar mais, mas a queimação da sede reclamou consigo. Piscou, e o aroma de sangue pareceu tão... Convidativo.
Estava ficando louco, certo?
— Sua avó era vampira. Uma puro sangue. No caso, o sangue deles é forte é o suficiente para remanescer mesmo depois de algumas gerações. No seu caso... Ele é um pouco mais forte que o normal. Mesmo que não seja o suficiente para que você deixe de ser exatamente humano.
“Exatamente humano”.
— Espera... Como assim a minha avó era vampira?
— Digamos que o casamento dos príncipes é possui uma base. Um se casa com uma lobisomem, o filho deles se casa com uma vampira e o filho deles com uma necromante. É uma maneira de manter laços com as casas nobres. Eu usei, literalmente, o exemplo do seu bisavô, avô e pai.
—... Minha mãe era uma necromante?
— Era. Mas... Isso é para ser explicado depois. Já que acabou seu sangue, é melhor cortarmos logo o seu cabelo para que coma alguma coisa, pois estamos quase para chegar.
Com um suspiro cansado, sentou na cadeira designada e preferiu não dar muita atenção ao que estava acontecendo. A última vez que haviam cortado seu cabelo, foi quando haviam o raspado para tratar da fratura causada pelo fato de seu pai bater com sua cabeça na bancada. Ele odiava isso, e preferia também manter o cabelo mais comprido para manter a cicatriz feia longe de vista. Não era uma boa lembrança.
Mas fingiu não se importar tanto quando viu as mechas loiras começarem a cair. Só não queria que ficasse curto demais. Quando terminou, passou instintivamente a mão na têmpora esquerda para ver o quão próximo de aparecer estava a cicatriz. Mesmo quando lhe mostraram o resultado num espelho, acabou continuando com a mania de ficar tocando a cicatriz.
Haydée o ajudou a entender o que eram os restos das roupas depois que tomara um café da manhã que fora claramente reforçado – embora não fizesse a mínima ideia de que horas eram -, que eram algumas poucas joias de prata e no fim descobriu que o tecido roxo era uma espécie de capa.
— E... Isso.
— Isso é uma coroa?
— Se abaixa. – acabou acatando e flexionou um pouco os joelhos para que ela pusesse o diadema em sua cabeça. Já estava cansado demais para reclamar, de qualquer jeito. – É, você parece um príncipe agora.
— Hm... – pressionou suas têmporas. Não tinha certeza se queria se olhar no espelho. – É parte da moda se vestir lá assim ou algo parecido?
— Nidus é um mundo a parte até para os padrões bruxos, acredite em mim.
O avião tremeu, assustando a Near. Os pratos sobre a mesa tintilaram, porém não caíram.
— O que foi isso?
— Passamos a barreira. Melhor por o cinto, já vamos pousar.
A mulher que o guiara antes veio e tirou a mesa logo antes de pousarem. Tão logo o avião parou, Haydée levantou.
Ela estava realmente com muita pressa.
Desceram na noite, e viu duas filas de soldados, cada uma com cinco pessoas, indo para o que com certeza não era uma carruagem de contos de fadas. Ela era totalmente preta, um tanto comprida, suas janelas estavam cobertas com cortinas, e não possuía rodas, flutuando ao ar. Os dois cavalos presos a ela pareciam... Bem, mortos.
Não quis realmente pensar no caso. Quando passou pelos soldados, eles fecharam a mão em punho, batendo no peito e se curvando. O cocheiro da carruagem fez uma reverência muito mais profunda que o necessário antes de abrir a porta.
Subiu antes de Haydée, a porta foi fechada e logo sentiu um tranco quando começaram a se mover.
Respirou fundo. Mais uma vez. Tinha certeza que precisaria respirar fundo mais muitas vezes naquele dia.
— Vamos... Para um castelo?
— Palácio. – ela corrigiu. – Seu pai começou a passar muito mais tempo aqui desde que ele e a sua mãe se divorciaram.
— Ele e a mamãe se divorciaram?
— Depois que você sumiu e a Far foi embora... Não demorou muito.
— Espera, a Far foi embora?!
— É uma longa história, lhe explicarei com mais detalhes depois, mas... Sim, ela foi embora. Com o Jake.
Piscou. Sua irmã e... Jake? Seu melhor amigo que havia sido acusado de assassinar sua família?
—... Ele era louco pela Far.
— Jake... E Far?
— Não surte agora.
— Não, você está dizendo que Jake, o Jake que...
— Saía a cada semana com uma garota, era meio apático, mas tinha um talento para se meter em confusão, tinha propensão a começar guerras com peças de xadrez, ficou de castigo por dois anos proibido de dirigir, 1,86 de altura, cabelo vermelho escuro escandalosamente comprido para os padrões de 1952 até sua tia Ariel obriga-lo a cortar, olhos azuis, adotado e totalmente protetor com as duas irmãs mais novas, Celine e Pearl. Esse mesmo.
Definitivamente Jake Silverman. A última pessoa que conseguia ver em um relacionamento romântico com a sua irmã gêmea.
— Você vem me jogar isso... Agora.
— Não era a intenção, de qualquer jeito. Se serve de consolo, ele morria de medo de você.
Ergueu uma sobrancelha.
— Como assim?
— Eu descobri que ele tinha essa... Paixão pela Far fazia anos. Ele não fazia nada porque tinha medo de você.
Recordou-se do amigo. Ele era mais alto que Near, e definitivamente mais forte, além de ter um olhar frívolo capaz de intimidar a maioria das pessoas.
... Definitivamente não conseguia vê-lo tendo medo de si.
Mas definitivamente não conseguia vê-lo com sua irmã gêmea.
— Eles foram para onde?
— Nidhi.
— Ajudou muito. Mesmo.
— Já tem coisa demais acontecendo com você, essa informação é... Demais. Falando por altos. – ela suspirou. – Você sabe que o Jake era adotado, não é?
— Todo mundo sabia.
— Bom, então... Ele não era humano.
— Ele sempre pareceu meio... Vampiro, se for parar para pensar.
— Nem isso. Ele é de... Uma dimensão diferente. Um mundo chamado Aurtrai. Estava havendo uma guerra, e muitos habitantes estavam enviando seus filhos para a Terra por causa dela. Jake foi uma dessas crianças.
—... Como você sabe disso?
Ela desviou o olhar.
— Você sabe que eu e ele tínhamos uma “amizade com benefícios”. Um pouco depois de explodir o caso da família dele, e antes de... Bem, eu te amaldiçoar, eu descobri que estava grávida. Dele.
Near comprimiu os lábios. Já sentia o tamanho da confusão.
— A minha família... Ela liga muito para aparências. Você deve ter ouvido falar deles com certeza, com os bruxos no Santuário.
— Os compararam com os Borgia.
— Pois então. Eles iam se livrar de mim de algum jeito. Um dia o Jake simplesmente apareceu do nada. Literalmente, ele saiu de dentro da lareira, já sabia que eu estava grávida, da minha situação e disse que tinha um jeito de me tirar de lá. – os dedos dela tamborilaram nas costas de seu antebraço. – Ele me levou para essa cidade, Nidhi, e eu fiquei lá por um bom tempo. Como se não bastasse que ele fosse de outro mundo, ele é parte de uma raça em extinção, então, como tenho uma sorte absurda, eu poderia ser eliminada pela minha família, e se fugisse por conta própria, eu poderia ser caçada por estar carregando uma criança com sangue dessa raça.
—... Que situação. Ele explicou como ele sabia?
— Aquele lugar era uma loucura. Tinha um esqueleto falante, dragões falantes, pessoas pegando fogo, se congelando... Sinceramente, não quis saber. O que eu sei é que ele era um exemplar raro da raça, que se chama dragonesa, e que o tipo dele é normalmente designado para comando. Então ele literalmente ficava correndo de um lado para o outro, viajava para a Terra rastreando crianças dessa raça, e coisas do tipo.
— Você ficava sozinha?
— Eu ficava com a mãe dele. – Near abriu a boca. – Não Carolina, a mãe biológica. Ela se chamava Nasi. Ele a encontrou em uma prisão. – Haydée estalou os dedos. Estava tão escuro que não via seu rosto direito. – Eu fiquei por lá até depois da minha gravidez terminar, e mais algum tempo depois dele nascer. Decidi que era melhor ir embora depois que ele levou Far para lá... Ficou um clima estranho. Far estava com ele, e os dragoneses só escolhem um parceiro a vida toda, mas eu estava lá.
—... Você voltou, e ela ficou?
— Sim.
— E o bebê?
— Ele ficou com o Jake. Achei melhor assim.
Near abaixou o olhar.
— Ele me deu meios de manter contato com ele, caso precisasse de alguma coisa, ou quisesse ver o nosso filho. Voltei para a Terra e encontrei o seu pai logo depois do divórcio. Sua mãe e seus irmãos se mudaram para Atlanta, e ele estava se preparando para se mudar para cá. Quando eu soube que ele era um bruxo antes, eu acabei contando sobre o que tinha feito com você... Ele disse que considerando em como a sua família estava sendo... Caçada, eu estava o protegendo. Seu pai me ofereceu trabalhar com ele e estou nisso desde então.
— Você passou os últimos sessenta e tantos anos trabalhando com o meu pai?
— Sim. Minha família me baniu. Eu não tinha nada, e sinceramente, depois que o seu pai perdeu os poderes dele, havia muitas coisas que ele não poderia fazer. Passei a agir no lugar dele.
—... Que tipo de coisas?
No momento em que perguntou, sentiu claramente a velocidade da carruagem diminuindo. Haydée se ajeitou, e novamente, no timing perfeito, assim que o veículo parou, a porta foi aberta. O lado de fora não havia se tornado muito mais claro, e quando desceu atrás da mulher, precisou de algum tempo para absorver a visão do palácio.
Saíra num pátio, que era rodeado por luzes que flutuavam, imóveis, iluminando o local, revelando que se sustentava sobre um imenso lago. O palácio em si, era subdividido em vários prédios, e de onde estava, só conseguia ver três. O principal erguia-se, alto e imponente, branco como marfim e com suas janelas e caminhos externos parecendo meramente escavados na pedra principal. Os outros dois eram como imitações em menor escala do prédio principal, interligadas a ele por largas pontes cobertas.
— Vamos. O príncipe Caius está no último andar.
Percebeu que ela agora se usava de um tom muito mais formal. Percebeu que estavam rodeados de soldados, que realizaram a mesma saudação dos que os receberam quando saíram do avião, e deveria ser por aquilo. Seguiu Haydée para o interior do prédio principal, e também notou que ela parecia evitar o caminho principal.
Foram parar em um elevador ricamente decorado, enquanto Near agradecia mentalmente por não terem que subir tudo pelas escadas.
Apoiou-se na parede. “Respire fundo mais uma vez”. Literalmente, estava prestes a encontrar com o seu pai. Com quem tivera tantas brigas que pareciam encobrir qualquer momento bom que poderiam ter tido. Que agora tinha cem anos de idade, estava no leito de morte...
A vida de Near estava uma bagunça.
O elevador foi parar numa antessala. Ela era... Escura, para todos os sentidos. As esferas de luz que vira antes claramente funcionavam ali no lugar de lâmpadas, as paredes mal pareciam roxas, de tão escuras que eram. Os detalhes do teto e rodapés eram prateados, assim como das cadeiras, sofás e poltronas dispostas ali. Havia diversos espelhos pelo recinto também.
As portas para o quarto eram guardadas por dois soldados que usavam uniformes pretos. Percebeu que ambos tinham olhos tão prateados quanto duas luas.
—... Isso não é bom.
— O que houve?
— Essa antessala, ela... Muda. Se está desta cor, significa que seu pai está quase... E as luzes... Se elas se apagarem, é quando ele...
Entendeu o que ela quis dizer. Mal se aproximaram, os guardas os saudaram e abriram as portas.
O quarto era enorme. Deveria ter, sem brincadeira, aproximadamente o tamanho da sala da antiga mansão em que morara. Estava escuro, as luzes reduzidas, mas sua atenção preferiu ir para o centro.
A cama larga e de dossel estava coberta por tecidos do mesmo roxo escuro do lado de fora, e era suspensa do chão por uma espécie de plataforma no qual ainda se deveria subir uns três degraus para se chegar na mobília em si. E ela estava rodeada por pelo menos uma dúzia de figuras vestidas de preto, algumas apenas com roupas semelhantes às de Haydée, outros pareciam usar peças de armaduras.
Todos se viraram quando as portas foram abertas, os olhos se fixando no rapaz. Não conseguiu ler muito bem suas expressões. Havia dois homens com os olhos prateados como os dos soldados, seis com os olhos vermelhos como seus estavam e quatro com as escleras azuis. Eles se viraram mais uma vez para quem estava na cama, se curvando lentamente antes de saírem. Fizeram mais uma mesura quando passaram por Near, e no fim o deixaram sozinho, até mesmo Haydée.
Olhou mais uma vez para a cama. “Um passo de cada vez”. Foi devagar, subindo vagarosamente os degraus enquanto se aproximava.
Quando viu seu pai, seu coração quase parou.
Sabia que o tempo havia passado, mas ainda assim, sua mente ainda formava a imagem de sempre, da última vez que o vira. Ele era um homem alto e robusto, de cabelo arrumado e bigode bem aparado, com olhos negros que quando não estavam brigando, ficavam se encarando no clima mais desagradável o possível, entrando em seus quarenta anos.
Não estava preparado para o que estava à sua frente.
Ele parecia tão pequeno e fraco, um idoso claramente que os anos haviam levado suas forças. Seu rosto estava completamente enrugado, a pele parecia tão fina que parecia quase translucida, como papel manteiga, o cabelo curto e ralo, a falta de barba deixando totalmente a mostra como sua boca parecia se curvar para dentro. A respiração soava barulhenta e forçada, e o pouco do pijama que conseguia, escondido sob o lençol, lhe parecia grande demais, como um saco. Os braços estavam para forma, apoiando-se sobre seu tronco, deixando a mostra os dedos finos e ossudos.
— Pai?
Os olhos do idoso voltaram-se para si. Eles ainda eram negros, mas pareciam escondidos sob uma camada cinzenta, mas ele definitivamente olhava para si. Uma de suas mãos ergueu-se em sua direção, cada movimento parecendo gastar uma quantidade absurda de energia.
Com um nó na garganta, sentou-se na ponta da cama, pegando a mão erguida. Ela parecia já fria e rígida. Se inclinou para a frente, sabendo que ele não teria muitas forças para erguer sua voz.
—... Filho? – a voz extremamente falha começou, como se acreditasse que estava delirando ou algo do tipo.
Sentiu o nó descendo para seu peito. Recordou-se mais uma vez de toda a situação em que viviam. Brigas, silêncios desagradáveis, pancadas, a sua mãe gritando para os dois pararem. Parte de si queria continuar tendo raiva, mas como poderia ter raiva daquela coisa pequena e fraca à sua frente, se esvaindo rapidamente?
— Sim, sou eu. – Não conseguiu completar com o “pai”. Ficou entalado no fundo de sua garganta.
— Deixe... Deixe-me vê-lo... – A outra mão se ergueu, como se tentasse alcançar o topo de sua cabeça e não conseguisse. Com um suspiro, Near se inclinou um pouco mais. Ele deveria estar praticamente cego, se não conseguia ainda enxerga-lo muito bem.
Um dos dedos frios tocou exatamente onde estava mexendo alguns momentos atrás. Na cicatriz.
— Eu não consigo... Eu não vou ter como falar tudo, mas Near... Filho... – Os olhos negros moveram-se quase que cegamente. – Creio que Haydée tenha lhe explicado o necessário durante sua vinda aqui.
— Sim, que o senhor é o Príncipe Almishak, e que... Este é o império.
— Há três príncipes... – Ele tossiu. – Há setenta e seis anos, um deles me procurou, Amabosar. Não diretamente, um de seus Avatares. Ele... Ele estava cuidando de se organizar, junto aos outros príncipes, para destruir os Rockstones, a família que hoje comanda abertamente os bruxos.
A cena da biblioteca voltou diante os olhos de Near.
— Eu não concordei. Três vezes eles haviam se provado capazes de abalar a tudo. Eles destronaram os príncipes, conseguiram vencer todas as vezes em que tentaram tomar o trono novamente. Ele ficou furioso. – a respiração do velho pareceu sair especialmente pesada. – Eu fui pego desprevenido.
Queria manda-lo parar, que já sabia o que havia acontecido. Mas do jeito que ele falava, como se estivesses liberando um peso absurdo de seus ombros, deu a certeza a Near que ele estava falando algo que o fizera gritar internamente por muito tempo. Não era como se conseguisse interrompe-lo, não agora.
— Ele pôs um espirito em mim. Um mania, talvez, e tirou a minha habilidade mágica, assim como a de sua mãe... E a de todos os de minha família. Os fez esquecerem de tudo, sobre o império, sobre a importância de nossa casa. Eu não conseguia falar com ninguém, nem fazer nada, nem mesmo indiretamente.
Near abaixou o olhar. O que deveria dizer?
— Esse espirito... Ele controlava meu corpo em dados momentos, e eu não podia fazer nada. Todas as coisas que eu falei, todas as coisas que eu fiz... Eu juro. Eu nunca quis fazer nada contra você, contra sua mãe ou qualquer um dos seus irmãos. – O nó em seu peito se apertou ainda mais quando viu as lágrimas grossas começando se formando nos olhos quase cegos. – Com você, principalmente. Eu quase... Eu quase o matei. Se Silverman não houvesse chegado na hora, talvez eu...
— Não aconteceu, você não precisa pensar nisso.
— Por uma probabilidade muito pequena não aconteceu. Depois que você sumiu, antes mesmo de eu saber por quê... Eu já sabia que a sua mãe estava no limite. Ela me culpou por seu sumiço, e era compreensível. Quando ela fez o pedido de divórcio, eu soube que... Eu não poderia negar a ela. Margaret passou demais comigo, e então... Ela foi embora com os seus irmãos.
— Para onde?
— Outro estado. Ela queria distância. – um suspiro quase morto escapou de seus lábios. Seu queixo estava tremendo. – Quando eu comecei a... Morrer, o espírito me abandonou. Eu tentei entrar em contato com os seus irmãos, queria lhes explicar tudo, pedir perdão, qualquer coisa... Nenhum deles quis vir.
Mesmo que fosse compreensível para Near, ele sentiu uma pontada de dor com aquilo. Novamente, a imagem da violência voltou à sua mente, mas vendo a imagem decadente do idoso à sua frente... Parecia quase dolorosamente cruel. Ele estava tremendo, sua mão gelada demais com lágrimas pesadas demais escorrendo pelas rugas fincadas em seu rosto.
Aquilo doía. De novo, sentia o conflito dentro de si. Querendo ou não, parte de si conseguia ser extremamente rancorosa, e ela gritava que não queria aceitar aquilo. Que passara tempo demais vivendo num inferno familiar. Mas havia uma parte que sinceramente não sabia se era a sua parte lógica ou sua parte emocional que dizia que entendia em parte o que ele havia passado. Near passara sessenta e quatro anos gritando sozinho numa caixa, sem ter noção de tempo e espaço, repassando cenas, palavras, erros, e tentando dar algum sentido à sua realidade sem poder fazer nada.
E com o seu pai? Ele passara setenta e seis anos se afundando no remorso de algo que não poderia controlar? De não poder controlar seu corpo quando atacava seus filhos, quando quebrava o braço de seu filho de seis anos ou acabava partindo para cima de Near? Ele vira o tempo passando, sua família não aguentando mais e lhe deixando para trás, ultimamente lhe abandonando quando tentara consertar as coisas?
Por que a mente de Near insistia em criar dois lados? Porque simplesmente não aceitava ou dava as costas?
— Os seus olhos... Você tem muito trabalho pela frente, filho. Talvez trabalho demais. Amabosar não vai aceitar que algum membro de nossa família escapou de sua eliminação. Eu fiz o meu melhor para manter o controle sobre Nidus, mas estamos numa época sombria.
A respiração de Charles soava forçada e acelerada, como se estivesse usando todas as suas forças para falar.
— Pai – a palavra quase não saiu. – você está se esforçando demais...
— Não, eu só... – ele parou no meio da frase para respirar. – Eu sei que é difícil, que durante toda a sua vida, você me viu apenas como o monstro que aquela coisa me fazia ser. Eu...
Ele parou de novo. Ele não estava mais segurando a mão de Near, era Near que estava segurando a mão de seu pai. Era como se ele não conseguisse mais segurá-lo. Os olhos vagaram, e Near temeu que ele não estivesse mais enxergando. Charles estava claramente em seu limite, e o rapaz sabia que o último sentido a desaparecer enquanto uma pessoa morria era sua audição.
Sentiu sua visão começando a ficar embaçada.
— Eu só quero pedir que você me perdoasse. – as palavras começaram a sair arrastadas e emboladas. Sentiu como se levasse um soco no estômago. – Por tudo, mas...
O ar claramente lhe faltou novamente. O idoso estava usando todas as suas forças.
Enquanto isso, Near sentia que estava tremendo, a mão com que o segurava, o nó em sua garganta queimava.
Perdoar era difícil. Quando doía lembrar, quando se deixava afundar na raiva, quando recordava de cada momento, perdoar poderia ser como se estivesse no gume da espada. Porém, vendo aquele homem que estava usando suas últimas forças para fazer um pedido tão difícil. Doía. E doía demais. Fazia-o desejar que as coisas houvessem sido diferentes. Para que aquele momento fosse mais fácil e muito menos sufocante.
— Eu...
Near sentia como se não houvesse ar o suficiente para que proferisse aquelas palavras. Elas pareciam pesar em sua língua e fazer sua boca dormente. Ele via Charles que parecia estar se esforçando para tentar formar algumas últimas palavras, e percebeu que não poderia deixar aquilo continuar. Talvez não fosse o que o seu interior quisesse, mas sua consciência não lhe permitiria descansar em paz.
— Eu o perdoo.
Seu pai soltou um suspiro. Não soube dizer se era cansado ou aliviado. Talvez os dois. Os olhos leitosos pareciam exaustos, mas a mão que o rapaz segurava ainda fez um último esforço, como um ínfimo puxão o qual entendeu o recardo.
Inclinou-se para frente, até sua cabeça tocar o peito magro, pousando-a ali. Sentiu os dedos ossudos passando fracamente por seu cabelo. Ficaram assim por um tempo, naquele último abraço, até Near escutar o a respiração fraca se esvair e a mão em seu cabelo cair.
As luzes se extinguiram, deixando o rapaz sozinho na completa escuridão. Foi quando permitiu que suas lágrimas se derramassem.
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