Coração de Porcelana
38 Capítulo 37 - Sinfonia
Notas iniciais
Capítulo 37 — Sinfonia
O tempo de reação de Victoria foi o mesmo em que a árvore prendeu Anastasiya à mesma maneira que Ameen.
Caillech investiu com sua lança, o que fez a ruiva rolar para o lado. O tecido de sua saia, entretanto, ficou preso e com o movimento, literalmente rasgou todo seu vestido, as pedras e pérolas saltando e se espalhando pela neve. Felizmente para a garota, ela usava outras roupas por baixo, mas sem o tecido pesado, o frio a atingiu a ainda mais.
A loira arrancou a lança do chão e virou-se para ela enquanto as Filhas da Floresta gritavam como se estivessem simplesmente estivessem assistindo a algo como um jogo de futebol, vaiando, gritando incentivos à rainha e insultando a garota.
Como havia se metido naquilo?! Ela sequer queria arriscar a cabeça e virar parte da decoração de onde aquela louca iria descansar a bunda! E sem contar que estava em uma situação de tremenda desvantagem.
Victoria possuía melhor controle a natureza, isso é, plantas. A tão dita magia se resumia às plantas, porém ela não conseguia controlar absolutamente nada. Estavam rodeadas de árvores e mesmo assim nada. Suas outras duas melhores áreas eram magia mental e de água, e considerando-se que estavam rodeados de neve poderia lhe dar uma vantagem.
Mas novamente, nada estava lhe respondendo.
E além do mais, ela era mole. Andava a cavalo e praticava arquearia, mas o seu fôlego não era dos melhores. Como estavam no dito banquete, nem pensara em pegar sua sacola dada pelos anões, porém, teria de se afastar de Caillech a fim de poder ao menos lhe atirar, e aquela mulher mal lhe dera tempo de levantar!
As opções eram... Aterrorizantes.
Não tinha para onde correr, pois as Filhas haviam fechado todos os caminhos numa roda envolta delas. Anastasiya e Ameen gritavam alguma coisa para ela de suas gaiolas, mas a cabeça da ruiva estava a mil, assim literalmente, ouvia e não os ouvia.
Conseguiu se por de pé enquanto Caillech ria, o tecido azul ainda dependurado à lança. Estava tão frio que sentia sua pele doer enquanto a adrenalina parecia ser injetada em suas veias.
Ela mencionara Enguerrand. Mesmo que não houvessem dito exatamente o que havia acontecido com ela para estar – de certa forma – contra eles, Victoria já estava morrendo de raiva da anja. Era a segunda vez que algo dava muito errado e era algo a ver com a ex-rainha.
Estranho como todos a adoravam e agora na prática, o que Victoria praticamente via era uma vaca vingativa/psicopata.
A raposa de Caillech saltou em Victoria, pegando-a de surpresa, só que ao contrário da rainha, ela conseguiu chutá-la, coisa que não faria em sã consciência. Infelizmente para a ruiva, a loira não ficou muito feliz com aquilo. Caillech apontou sua lança, e Victoria quase foi ao chão quando uma explosão de raízes surgiu do chão, quase agarrando seu pé esquerdo.
Manteve-se concentrada em não cair. Já sabia que se fosse ao chão de novo estaria muito bem perdida, pois aquela mulher não lhe daria a oportunidade de levantar novamente.
O que poderia fazer?!
Aqueles sussurros vieram mais uma vez. Victoria já os odiava desde antes de acertar a cabeça de Jim, só que daquela vez, eles eram mais fortes do que nunca. E conseguia identificar de onde eles vinham.
Do trono de Caillech.
Era óbvio.
Ficara furiosa quando Jim lhe dissera que possuía uma propensão à necromancia. Como era magia negra, significava que estava ferrada em todos os sentidos, mas se fosse verdade... Para fazer aquele trono, a mulher matara muitas pessoas. Não a surpreenderia se elas dessem um jeito de levantar e gritarem contra ela.
Punição.
Eram muitas vozes.
Vozes demais.
Desafio.
— Então é isso?! Pra provar que você é a rainha, você vai matar alguém totalmente desarmado e sem qualquer chance de defesa?! – as palavras acabaram saindo de sua boca sem qualquer controle. – Isso parece o feitio de uma covarde tentando se agarrar ao trono!
— Victoria, o que você está fazendo?! – Anastasiya gritou de sua gaiola. Claro, era suicídio além de sua morte certa diante a um bando de mulheres armadas. O que estava fazendo? Adiantando o momento ou ganhando uma chance?
Os olhos loucos de Caillech ganharam mais um brilho: Raiva. Sabia que era porque estava sendo desafiada em frente às... Súditas? Servas? Irmãs? Ou porque era Victoria que estava a desafiando?
— Como ousa se dirigir assim a mim?! Você é a caça aqui, e as presas sempre são indefesas diante os caçadores!
Porém as Irmãs ficaram perceptivelmente mais silenciosas. Ou isso, ou a cabeça da garota havia parado de processar os sons apropriadamente.
Covarde.
As presas sempre são indefesas se o caçador for um covarde.
Victoria via isso. Ela mantinha a garota cercada e sem chance de defesa, literalmente atacando até que o cansaço a fizesse cometer um erro que lhe seria fatal. Ela queria se mostrar como a mais poderosa, a no comando, daquele jeito. O que com certeza não era a melhor das maneiras.
Nenhuma das outras Filhas questionava aquilo? Elas eram um grupo de mulheres guerreiras e nenhuma delas questionava o método da líder? Não desafiava? Ou ela era realmente tão louca quanto ela parecia ser?
Caillech correu contra ela como um touro furioso; havia até mesmo um laivo vermelho em seus olhos e teve que admitir que ela era mais rápida do que desejava em sua situação. Conseguiu se esquivar raspando, mas ela conseguiu prender a lança no fecho de seu kirtle.
Sentiu o gosto amargo desespero diante a ponta de metal, e mais ainda quando o toque áspero das raízes se pressionarem sobre o tecido contra sua pele, prontos para lhe perfurarem, além do som do tecido rasgando a fazerem checar milhares de vezes em um único segundo se o que estava rasgando era realmente apenas suas roupas, não sua pele.
Acabou por agarrar a lança com ambas as mãos e a rainha quase a jogou para trás. A força dela era absurda, como se estivesse tentando empurrar uma parede, o que se tornara um problema – como se já não estivesse tendo nenhum.
Estava tremendo, e sentia mais frio do que nunca agora, mas ficar seminua estava sendo o menor de seus problemas – mesmo que morrer de hipotermia também não parecesse muito agradável, mas ser estripada como um porco estava no topo das coisas que Victoria não queria no presente momento. Mesmo percebendo que sua força não seria o suficiente, a empurrou de volta. Caillech estava gritando alguma coisa para ela, seus olhos estavam tão saltados que a qualquer momento parecia que saltariam de suas órbitas.
O que poderia fazer diretamente contra aquela mulher?
Se aquele trono começasse a lhe gritar dicas, seria muito útil.
Como havia parado ali? Urgh!
Victoria não era uma lutadora. Mas ela também não queria morrer.
Acabou gritando quando as raízes saltaram do cabo da lança, perfurando sua mão. Não a atravessaram, mas de qualquer jeito a dor a desnorteou. Cambaleou para trás, e por reflexo, ao perceber que a outra já se preparava para ataca-la, lançou-se para frente. Suas mãos ensanguentadas foram certeiras nos olhos de Caillech.
Não sabia se sangue diretamente aos olhos ardiam, mas Caillech guinchou quase como se fosse ácido.
Tropeçou para longe da loira, amaldiçoando o que restara de suas roupas longas por limitarem seus movimentos. Avistou uma pedra, pegando-a como se sua vida dependesse dela, lembrando-se de não dar as costas para alguém que quisesse mata-la. Para a sua sorte, a rainha ainda estava distraída com o sangue, então, tentou novamente.
Tentou chamar qualquer coisa sob a neve, as árvores ao seu redor. Nada. Nada. Nada. Era desesperador. Por que nada lhe respondia quando mais precisava? Quando não eram para lhe responder, eles os faziam, quando havia quase matado Jim.
Não são a saída...
O trono iria lhe soltar dicas? Embora fosse loucura, esperava que sim. Quando Caillech deu sinal de que iria persegui-la mais uma vez, atirou a pedra, atingindo-lhe a testa, deixando-a mais uma vez desnorteada. Algumas das amazonas começaram a soltar incentivos para Victoria.
Bom, era um começo. Aparentemente ela havia conseguido ir mais longe do que os outros crânios.
Vamos chama-la...
O trono começou a vibrar. Não era possível que apenas a garota visse aquilo, pois ele literalmente estava tremendo, mas o pior do que vê-lo vibrar, era que os crânios emitiam uma sinfonia. Era fúnebre – como não ser? – e absolutamente perturbadora.
Eles contavam histórias. Mas nada parecia ter sentido para ela ali.
O rosnado da raposa lhe alertou. Caillech estava com uma expressão quase demoníaca. Ninguém precisava lhe avisar que ela estava culpando Victoria por a fazer parecer vulnerável em fronte suas súditas.
Olhou para o demoniozinho vulpino, que também parecia pronto para pular em seu tornozelo, e torceu para o ganso não aparecer guinchando em sua cara.
Sua mente estava pronta para continuar a mil quando sentiu algo. Não no sentido de algo a tocar fisicamente ou mentalmente, mas era como se a magia que estava tentando usar há tanto tempo finalmente houvesse encontrado algum local em que conseguisse funcionar...
Mas não era exatamente alguma coisa que conseguisse mover com sua magia da natureza. Não tinha nem certeza se conseguia mexe-la no geral, mas quando Caillech a pegou com a guarda baixa, derrubando-a no chão, Victoria teve quase certeza que fora seu fim ao ter desperdiçado preciosos segundos de reação.
E a explosão veio. As raízes saltaram da neve e se fecharam totalmente sobre ela, atingindo-a em vários pontos. Suas pernas, seus braços, suas costas, seu rosto. Sentiu cada local arder insuportavelmente e a pulsarem quando o sangue começou a fluir.
Nunca acreditara em milagres, mas apenas um para que uma daquelas raízes não houvesse a matado, atravessando qualquer um de seus membros vitais, pois estava mais que claro que a rainha tinha a intenção de mata-la, e não deixa-la engaiolada como Anastasiya e Ameen.
Só que a situação não era melhor. Além de estar presa numa posição desconfortável, seus joelhos praticamente prensados contra seu peito, impedindo-a de respirar normalmente, sem contar as raízes. Elas estavam tão fechadas que tinha certeza que aquela era a sensação de... Estar presa dentro de um tronco. O ar já parecia terrivelmente escasso, não tinha sequer espaço para se debater.
Não queria morrer.
Covarde, covarde.
Então percebeu que com aquele ataque, o que quer que houvesse encontrado antes havia acordado.
Acordado?
A música dos mortos se elevou, e finalmente conseguiu entende-los.
Os mortos eram inacreditáveis. Alguns eram Filhas que haviam discordado de Caillech, amantes que ela havia se cansado, filhos homens – ela matava bebês?! -, garotas que sua paranoia a fizera as ver como possíveis ameaças para sua autoridade como agora ela via Victoria e Anastasiya, pessoas aleatórias que ela vira como ameaça, e ainda... Pessoas que haviam sido mostradas como ameaças por Enguerrand. Ou pelo menos era o que fora clamado antes de serem assassinadas.
Eles estavam furiosos. Sempre estavam. Só que era a primeira vez que alguém conseguia ouvi-los.
Aquela raiva era combustível, inundando a garota. Ela não queria morrer, ela não queria se tornar mais um dos crânios. Ela não queria. Mas antes teria que encontrar um modo de sair daquela prisão de raízes.
E ela sentiu aquela raiva passando para a outra coisa que havia acordado e que ainda não sabia o que era exatamente. Sabia que não era uma pessoa pois não possuía nenhum tipo de pensamento que fizesse sentido para si, só soube que começara a correr.
Levante-nos.
Só escutou então um rugido e vários gritos, tanto das caçadoras quanto de animais. Com um “creck!”, as raízes foram quebradas e Victoria rolou para fora, tentando respirar.
Levante-nos!
Dessa vez, Victoria decidiu que talvez fosse melhor escutar e fazer o que as vozes mandavam.
O mundo ficou vermelho mais uma vez, as vozes se unindo de tal forma, que estranhamente, tudo pareceu ficar silencioso.
Não silencioso. Talvez fosse algo como uma câmera lenta.
Viu um imenso urso marrom correndo como uma bola de demolição não meio da arena em que as Filhas haviam formado. Sua pelagem estava com alguns pontos congelados devido a neve, mas envolta de sua cabeça havia um ramo de folhas, que lhe causou a realização de que ele fora a coisa que ela acordara.
E então olhou para o trono. Havia várias silhuetas vermelhas, oscilantes em um rubro que lhe lembrava ao mesmo tempo sangue e uma sensação em suas entranhas que não conseguia descrever, além de dizer que era uma sensação vermelha. Eles sussurravam, olhando-a.
Levante-nos.
E ela o fez.
Não soube como, mas as caveiras ganharam vida, seus ossos pregando-se uns aos outros e transformando-as em uma única aberração feitos dos restos das vítimas de Caillech, e todos eles, com suas mãos deformadas e membros aparentemente impossíveis de existirem num ser humano, saltaram sobre a mulher, enrolando-se firmemente a ela.
Foi quando o tempo voltou ao normal, com os rugidos do urso, os gritos de todos, no geral. Victoria sabia o que deveria fazer. Pelo menos, era o que as vozes dos mortos e seus nervos já seriamente danificados a mandavam fazer.
Caillech berrava, completamente vermelha, enquanto os ossos agarravam sua cabeça, prendendo-a ao chão, puxando sua boca e pálpebras, além de xingar Victoria a plenos pulmões.
A ruiva se abaixou e pegou a lança que havia caído ao chão.
— EU SOU A RAINHA! EU CONTROLO O INVERNO, UMA NOBREZINHA MIMADA JAMAIS IRÁ ME DESTRONAR! NINGUÉM JAMAIS ME...
Normalmente não teria coragem de fazer aquilo. Mas não estava em um estado normal. Aproveitou os ossos que a mantinham de boca aberta, e sem nenhum remorso, cravou a lança com todas as suas forças.
E nisso, a raiva dos mortos foi se modificando, sua sinfonia furiosa adquirindo um outro tom enquanto o silencio corria entre as Filhas.
A ponta da lança tocou o chão sob a cabeça de Caillech, e onde ela tocou, a grama começou a surgir, anunciando a primavera.
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